ÁGUAS SUBTERRÂNEAS.
Mary Farias
E se eu te dissesse que esqueci desse mar aberto de dentro de mim? Que só olho pra fora, pras coisas? Que desaprendi irreversivelmente a gostar da solidão? Que eu não me basto? Que nadei pra terra, não quis mais me afogar? Que eu me viciei no auto-boicote, que eu não sei parar, nunca? Que eu só preciso de uma, veja bem, só uma grande idéia? E que talvez ela nem precise ser grande, mas que seja dessas que ninguém ainda teve, sabe? Eu quero uma idéia que ainda não é idéia, ainda não é nada.
E se eu te perguntasse por que meu mar fica cada vez maior toda vez que vejo essa gente? E por que quase todo mundo não passa de lago pequeno e cheio de lodo por dentro? Às vezes até por fora, olhando bem, consigo ver um pouco de lama em seus olhos. Eu vejo tanta lama no mundo.
E o que preenche um mar, sabe me dizer? O que vence a pressão e chega bem lá no fundo? Quem tem fôlego pra mergulhar assim? Pra onde é que foram os submarinos? Cadê as coisas à prova d’água? E as pessoas? Cadê a água? Só vejo o lodo saindo dos olhos e das garras.
E se eu te contasse que nada sei de rios, mares e lagos? Que o lodo é exterior, mas é o que mais compreendo? Que de compreender tanto tenho medo que se torne algo de mim? Que eu não sei o que fazer, vezenquando, com tanta água? Que às vezes quase mato afogado quem não pediu uma gota sequer? Que essa água me escapa, em muitas e muitas horas, e escorrega pelos olhos sem parar? Já transbordei tanto...
E se te confessasse que tenho este mar em mim desde sempre e ainda não aprendi a navegar?
Narciso e As Chamas
Mary Farias
Veja só que belo fim: ele matou todas as letras que havia dentro e fora de si. Não era um poeta maldito, um beat ou um advogado. Era bibliotecário. O ritmo das letras e de quem as escrevia era seu trabalho, e, com o passar do tempo –e o desespero que este lhe trouxe – tornou-se sua vida, alma ou coisa que o valha. No desenrolar dos anos foi esquecendo pedacinhos de si mesmo pelas estantes, livros e revistas do velho sebo em que trabalhava. O lugar? Mais um desses que permeia no imaginário coletivo – antiguíssimo, num nível de poeira considerável, todo de madeira. Só que um pouco mais frio, e sem o cheirinho de casa-da-avó.
Não era pontual, não usava óculos e educação demonstrava apenas com os clientes – sua fonte de renda. Este era Narciso, que de amor-próprio só tinha o nome. Certa vez, em uma de suas cartas a si mesmo – teimava em não chamá-las de diário -, confessou que se um gênio da lâmpada, Deus ou qualquer entidade lhe concedesse um único desejo, pediria: “quero que seja extinta a raça humana”. Um niilista de marca maior. Mas tinha sonhos, esse Narciso. O tempo todo. E neles perambulavam personagens e seres cinematográficos. Era melhor amigo de Mrs Dalloway, duende de Jareth, seguidor de Zaratustra. Não queria gente comum, conversas sobre o tempo, diálogos mornos. Queria a efervescência das revoltas na Capital francesa, a paixão Shakesperiana e as mulheres de Balzac. Queria fazer e desfazer seu caminho com lápis e borracha, apenas. Queria a facilidade e o dom de poder apagar as coisas. Viver em linhas.
Leu todas as obras das quais teve conhecimento, infatigavelmente, procurando por um sentido ou ordem de qualquer coisa que lhe fizesse respirar. A rotina era um afronto à realidade em que ia penetrando mais e mais, a cada dia, a cada frase degustada. E a falta do não-saber trouxe consigo o fantasmagórico clichê do vazio, que se antes era motivo de fuga, agora lhe era essência, prazer. Há muito tinha transpassado a ponte de oscilação entre a felicidade da ignorância e o mórbido prazer do conhecimento. O poço esqueceu-se de seu fundo. Narciso estava em queda contínua.
Então, no dia em que até o carteiro esqueceu de seu endereço, Narciso cansou-se de procurar e cair. Só seria síntese se fosse um mártir... ou um burro. Mas havia tantas palavras dentro dele que nem os deuses o fariam “emburrecer”. E foi aí que teve de matá-las. Ou dar a nova vida que só o fogo traz. Um ou dois galões eram o suficiente para queimar o vazio.
Foi até o único lugar do mundo que era realmente seu – mais seu que suas próprias entranhas - e fez um círculo mágico, bem como nos filmes. Mas não era um círculo de bruxas e não colocou nenhuma pomba ou galinha morta. Ao invés disso, jogou ali seus santos e demônios, que o guiaram pela sua anônima existência: os livros. Mais perto dele estavam apenas os mais sagrados, que lhe causaram maior dor e prazer. O resto estava devidamente arrumado na estante, na atmosfera de ordem que nunca foi presente em sua vida – mas agora, no quase-fim, era. Espalhar a gasolina não foi exatamente um ritual, não trouxe medo nem angústia nem euforia. Era como escovar os dentes ou deitar na maca de cirurgia. Depois, com gestos mais formais, foi chegando ao centro do círculo, o centro do fim, onde tudo ia queimar com vida e sangue, onde todas as grandes palavras e os grandes gênios iriam fluir junto a ele. Milhares de vidas emergiriam em chamas.
Não houve corpos, houve idéias. E este era o fim: a essência.
Luz dos holofotes.
Daiane Sales
O céu alaranjado demonstrava que mais um dia estava indo embora. Hora de ir pra casa. Há quem pense dessa forma quando o cenário é a praia do Porto da Barra? Impossível. O vento gelado parecia não fazer diferença para o casal que se beijava abraçados naquelas águas cristalinas.
Na areia, o sangue dos atletas parecia borbulhar. O vôlei da noite movimentava cortadas empolgantes. Eram homens de todas as idades. Os gritos de vitória a cada bola no chão adversário faziam olhares curiosos permanecerem alheios ao que acontecia ao redor.
O casal das águas também não perdia alguns lances. Apenas alguns. Por que nem os gritos foram capazes de atrapalhar aquele encanto, aquele feitiço que os unia. Num deslize dele, ela escapa; como se o quisesse manipular. Nesta brincadeira de “pega-pega” das nadadeiras, os braços são mais ágeis. Ele a agarra, já na areia. Em meio a sorrisos ofegantes.
As ondas só os alcançam da cintura para baixo, como se quisessem fazer parte daquele momento único. Olhares se cruzam, agora sérios, e o beijo mais ardente de todos surge, à luz dos holofotes.