Descobrindo novos cronistas...
sobre o blog
Acredito que todos nós um dia na vida já escrevemos um texto que gostaríamos de compartilhar com outras pessoas, mas cadê espaço?

Foi pensando assim que criei o Vamos Cronicar que tem uma meta muito simples: colocar na internet crônicas e contos de escritores envergonhados, anônimos, de primeira viagem e até mesmo daqueles que já sabem bem o ofício...

Para tanto gostaria de pedir a vocês que mandem suas crônicas, contos, poesias que estão aí, guardadinhas na sua mente ou esquecidas numa gaveta, para cá.

Participe e obrigada por visitar esse espaço!
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Maria Carolina,criadora do blog
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Segunda-feira, Junho 25
Linha 141
Murilo Alves

Imersos em um cenário tipicamente urbano, lá estão, no ônibus 141 a funcionária pública Camila Shezab, 35 anos e o estudante universitário Alexandre Santiago, 18 anos.

- Posso segurar a sua mochila?

- Obrigado, senhora.

- Senhora nada, rapaz! Senhora está no céu (risos).

- Me desculpe. É só por uma questão de respeito. Você é bem nova, até...

- ¿Bem nova¿ já soa como gentileza. Digamos que eu tenha idade para ser sua... Vamos ver... Ah, sim, irmã mais velha! Idade para ser sua irmã mais velha, concorda? Qual é o seu nome?

- Alexandre. E o da senhora?

- Você é muito engraçadinho seu Alexandre. Mais uma dessas e eu te devolvo a mochila e te deixo no sufoco aí em pé, nesse ônibus lotado.

- Foi mal. Apenas para descontrair o ambiente. Não faça essa covardia comigo. Não fosse a sua boa educação e eu estaria sendo atropelado aqui pelas pessoas até agora. Odeio ônibus lotado. Todo dia é isso! Ele vem assim, parecendo uma lata de sardinha porque antes de passar na faculdade onde estudo há ainda o ponto de ônibus da Universidade Federal, onde dezenas de estudantes tão fudidos quanto eu dependem deste transporte, pois não tem carro. Desculpe, mais uma vez. Esqueci de perguntar o teu nome...

- Camila. Muito prazer. Se é que pode haver prazer numa viagem de ônibus oceânica como essa. Você estuda o quê, Alexandre?

- Rádio e TV.

- Ah, sim, jornalismo. Belo curso.

- Não, não, Camila. Não é jornalismo não. É Rádio e TV mesmo. Há uma graduação específica para essa área, assim como para o jornalismo também. Ambos têm aspectos semelhantes, mas são cursos diferentes. Entende? E você, estuda?

- Infelizmente não. A maior besteira de minha vida é justamente o fato de eu ter parado com os estudos. Eu apenas trabalho. Quer dizer, graças a Deus que trabalho... Tanta gente que nem isso tem, não é mesmo?

- É verdade. Caramba! Já estamos no bairro Bela Vista. Passa rápido quando se tem alguém para conversar. Mas me diga: por que parou com os estudos?

- Eu me casei. Sabe como é né?

- Sei não. Eu nunca casei (risos)! Também não entendo o que o casamento tem a ver com os estudos.

- Nada. Nada quando você não tem um marido ou uma esposa ciumenta... Ele se morde de ciúmes, diz que não passa de pretexto para conhecer outros homens, que não tenho mais idade, enfim.

- Mas esse é um pensamento arcaico, do século passado. Você casou com o Matusalém?

- Quase isso... Mas vamos mudar de assunto. Você deve ser rodeado de gatinhas. Certamente. Jovem, bonitão, jeitinho de intelectual...

- Que nada. Quem me dera. Eu trabalho muito, quase não tenho tempo para sair, me divertir. Ademais, as meninas de minha faixa etária costumam pensar e agir muito diferente de mim. São de uma vulgaridade só. Muita bunda (não que eu não goste...) e pouco cérebro. Eu acredito que é preciso muito mais. Não quero me envolver apenas com uma bunda gigante como as do Big Brother. Quando acontecer, eu espero que seja com uma mulher de verdade.

- Hum... Vejo que você tem pensamentos bem maduros para alguém de sua idade, Alexandre.

- Obrigado. Mas essa questão de idade é muito relativa.

- Como assim?

- Repare. Uma pessoa pode ter 50 anos, mas pouca vivência. O cara pode ser um imbecil, um panacão, um verdadeiro idiota. Assim como alguém com 17 ou 20 anos, sei lá, já pode ter vivido situações que outra pessoa de mais idade não viverá em toda a vida. É nesse ponto que eu quero chegar.

- Sabe que você pode estar com a razão? Confesso que eu ainda não havia pensado nisso.

- Bem, Camila, a conversa tá boa, mas eu moro em Stela Maris e ainda temos 25 minutos de viagem. Estou morto de sono. Você se importa se eu tentar dormir um pouquinho.


- Claro que não. Pode se encostar aí, rapazinho maduro...

Muita conversa jogada fora e três pontos de ônibus depois, Alexandre consegue um lugar para sentar, ao lado de Camila. Ele aproveita para cochilar, conseqüência de mais um dia árduo da rotina de estágio/faculdade. Camila, por sua vez, reflete sobre alguns trechos da conversa que acabara de ter, além de observar o jovem em seu forçado ressonar, tudo muito discretamente, porque ela é casada, a aliança dourada ainda brilha no dedo e algumas pessoas do coletivo a conhecem. Ela mora no Jardim Intersul e o ponto de ônibus do seu destino já está à vista. Ela desce.

Ao chegar a casa, caindo de cansaço e com mais sono ainda do que antes do cochilo no coletivo, Alexandre vai trocar de roupa antes de jantar e tomar banho, a fim de se preparar para a luta do dia seguinte. Ao colocar a mão quase que involuntariamente no bolso da camisa pólo encontra um pequeno papel branco, amassado, desconhecido. Após de aberto, o rapaz é tomado de adrenalina e o coração bate acelerado após ler as surpreendentes inscrições:
¿Adorei te conhecer, me liga!¿
8842-3667
coracaosolitario@hotmail.com

Os véus caem.
Terça-feira, Junho 12
Contemplação
José Carlos Brandão

Estou em Ubatuba, na praia do Tenório, dentro d¿água, contemplando o céu, o mar e as montanhas. Não se vê o alto-mar, estou cercado de montanhas por todos os lados; por isso as águas são verdes: as montanhas cobertas de árvores verdes refletem-se nelas. Há uma tal paz, o céu muito azul, as nuvens esparsas muitos brancas, e o vai-e-vem das ondas me levando, me embalando; tudo é um apelo à paz.

Não vejo o mar se encontrando com o céu, mas sei que um e outro são infinitos. Lembro, involuntariamente, juro que foi involuntariamente, lembro Pascal e o silêncio eterno dos espaços infinitos que o aterrorizavam. Estou fascinado por essa grandeza imensurável que chamamos de infinito. Estou maravilhado por esse tempo fora do tempo, esse não-tempo, que chamamos de eterno.

Caio de joelhos, no fundo da água clara, límpida, diante da solidão cósmica ¿ que cai sobre mim. A ciência não encontrou notícia de vida em nenhum planeta, dentre todos os planetas que giram em torno das estrelas. Tenho todo o cosmo sobre os ombros. Não pesa mais que a mão de uma criança ou a mão de Deus, que não têm peso, mas eu sucumbo.

Onde o fim do universo? Seria infinito? Existe um tempo que não pode ser medido, a que chamamos eternidade? Esse seria o tempo de Deus. O tempo dos homens, nós o medimos. Arbitrariamente, mas o medimos. Somente Deus, que não se submete à matéria, está livre da escravidão do tempo. Nós, homens limitados, não podendo conhecer o eterno, pensamos no infinito: parece mais fácil de ser concebido.

Cheguei a falar, acima, do mar como infinito. É a sensação que temos. Faz parte do globo terrestre em que vivemos, é limitado como nós somos limitados. Mas o universo, onde os seus limites? Mais longe vai a imaginação, em busca da última estrela, infinitamente distante, mais perto chega da eternidade. A maior distância que podemos conceber, a ilimitados anos-luz de tudo que podemos medir, só pode se chamar eternidade.

A beleza do mar e do sol, da areia, das águas claras, verdes à distância, com as montanhas verdes dentro, sem que eu o perceba, traz-me à mente a idéia de Deus. A prova de que Deus existe. Se eu posso conceber uma noção de eternidade, tenho que conceber a noção de Deus, senhor dessa eternidade.

Como suporto a solidão cósmica sobre os ombros? A mão de uma criança ou a mão de Deus. O silêncio eterno dos abismos do universo? O espírito de Deus paira sobre os espaços infinitos. A ciência me prova que a última estrela repousa na mão de Deus. Antes da explosão inicial, havia o sopro de Deus.

O meu corpo vai e vem sobre as águas calmas, tão perto da terra e tão perto do céu, leve como uma pluma, leve como o espírito que sopra sobre ele.

Segunda-feira, Junho 4
História de Pescador - Criatividade
Cristiano da Silva


Dois caras, felizes da vida um dia a trabalho fazem uma viagem. Na volta vêem um rio lindo e dizem que um dia pescarão naquele rio. A vontade era tanta que um breve tiveram que voltar na região daquelas águas chamativas (também a trabalho), e quando voltavam pararam lá no rio novamente com o objetivo de pegar nem que fosse o rabo de um peixe, porém da tralha de pescaria os dois "pescadores" só tinham dois anzóis.
Eles poderiam desanimar, desistir, mas nunca... decidiram encontrar soluções e pescarem.
João disse:
- Vamos procurar linha aqui na beira do rio.
Por incrível que pareça, haviam metros e metros de linhas jogadas às margens do rio... agora só faltavam iscas... mas desistir? Nunca!
Enquanto Cazé amarrava a linha no anzol, João pegou um pedaço de pau e vou "cavucar" na beirada do rio almejando encontrar algumas minhocas, mas em vão.
Desistir, nunca... viva pescaria...
Diante do problema exposto, João encontrou uma garrafa pet cortada ao meio, e vendo alguns peixinhos pequenos que ficavam mais às margens do rio, decidiu colocar a metade da garrafa na água, quando um peixinho entrasse, ele o tirava e o fazia de isca.
Isso é criatividade, que funcionou, João conseguiu pegar três peixinhos, mas com estes peixinhos não conseguiu pegar nenhum maior para cortar e fazer de isca.
Enquanto João pescava, ele ria de Cazé que até então não conseguira pegar nenhum pequenino peixe para se deliciar nos prazeres da pescaria.
Até que um milagre aconteceu, Cazé conseguiu pegar a isca tão almejada, mas este quase escapoliu, pulando na meia garrafa e caindo novamente dentro dela... era um sinal divino.
Cazé, com sua falta de habilidades com pescaria iscou o peixinho e jogou o anzol e esperou, até que um peixe de cerca um palmo de tamanho mordeu a isca e vualá, "pego o bichim atrivido".
Agora faltava algo pra cortar o peixe para fazer dele iscas, só que não haviam facas ou coisa parecida.
João procurou algo que pudesse cortar o peixe e nada, então Cazé viu uma garrafa de cerveja jogada às margens do Rio, Cazé então pegou esta garrafa e quebrou-a, fazendo assim dela um objeto cortante, passando a ao João que conseguiu cortar o peixe, porém algo curioso aconteceu antes desse fato. Da boca do peixe saiu um peixinho que também serviria de isca.
Enquanto João cortava o peixe, Cazé pegou o peixinho que estava anteriormente na barriga do "peixão", o iscou e vualá, um piau...
- Cagada... duas cagadas! Gritou João.
A farra ia por aí, mas peixes não eram mais pegos. Até que o anzol de Cazé engarranchou num pau e ele perdeu sua tralha de pesca.
Ao procurar algum anzol que poderia estar jogado em algum lugar, Cazé já desistia quando João disse:
- Tem um espetado naquele saco dentro do rio.
Realmente havia o bendito anzol lá, só que pra pegar sem se sujar era impossível, mas com muita insistência Cazé conseguiu pegar aquele saco com um pau, e dali tirou dois anzóis, uma chumbada e muita linha.
Novamente em atividade de pescaria, sem sucesso a polícia florestal chegou. Em época de piracema se não tiver licença pra pescar, é multa ou cadeia, eles não tinham.
Mas os policiais vendo que eles eram muito amadores até orientaram como pegar uns peixes "talvez para toma-los depois", mas sem sucesso.
Então João e Cazé decidiram ir embora, dar prosseguimento à viagem, já que com a presença da lei ficaria difícil uma pescaria em paz.
Foram rindo durante a viagem toda, afinal, haviam realizado o grande sonho de pescar naquele belo rio.