O CORONEL E O CARNAVAL
Murilo Alves
O outrora grande senhor de engenho da região acordara, na manhã daquele sábado de carnaval, um tanto conformado:
- Todo o mês de fevereiro é a mesma zorra! Ocupar o camarote destinado às autoridades do governo, receber bajulações "gratuitas" da mídia local, abraçar e beijar baianas de acarajé, ser homenageado pelos Filhos de Ghandy e ter o saco puxado por Caetano Veloso, enfim, "não muda nada na terra de todos os santos e absurdos", o Senhor do Bonfim me ajude!
Assim, o coronel urbano que veste paletó e gravata em vez de chapéu e botas (sim, pois os tempos são modernos) se prepara para mais um evento fundamental para os intentos de seu objetivo maior: angarinhar apoios diversos do campo artístico a fim de ter os interesses do grupo partidário que representa atendido, no período eleitoral, afinal, a sabedoria popular já nos diz que "é dando que se recebe" e no Brasil, o famoso "toma lá da cá" é questão de prudência e não de vergonha.
O motorista do coronel é acionado pontualmente, assim como ocorre em todos os anos nesse período com o intuito de estar a postos no momento certo de levá-lo ao lugar onde ocupa, com os correligionários, durante décadas. Mas há algo de muito diferente acontecendo no ar. O carro saiu da cobertura luxuosa do bairro da Graça em direção do Campo Grande se alarde algum. Os demais automóveis não abriram espaços vazios na pista quando o perceberam, em sinal de respeito.
Sim, senhores, pois os problemas do coração do coronel parecem ter afetado outra região fundamental para a boa saúde de qualquer ser humano, após anos de truculência e autoritarismo político cá por estas bandas: a memória. Imaginem que ele acaba de chegar defronte ao tal camarote reservado para as autoridades que representam o poder do Estado onde comandou por tanto tempo. O motorista estranha, perplexo:
- Senador!
- É o quê, meu filho?
- Não há nenhum afilhado do senhor naquela cadeira!
- Ôxe! Você está brincando com a minha cara? Esqueceu quem eu sou e com quem está falando, seu motorista de merda?
- Desculpe, painho, não quis ofendê-lo de forma alguma. Mas é que aquele carioca que era sindicalista, aquele amigo do sapo barbudo que o senhor apelidou de "pouco voto", está no local que o senhor ocupava, lá em cima, no camarote das autoridades.
O senador-coronel rebate, (in) conformado:
- Faça meia-volta e retorne a minha casa imediatamente! Nunca gostei da chatice do carnaval mesmo...
