Descobrindo novos cronistas...
sobre o blog
Acredito que todos nós um dia na vida já escrevemos um texto que gostaríamos de compartilhar com outras pessoas, mas cadê espaço?

Foi pensando assim que criei o Vamos Cronicar que tem uma meta muito simples: colocar na internet crônicas e contos de escritores envergonhados, anônimos, de primeira viagem e até mesmo daqueles que já sabem bem o ofício...

Para tanto gostaria de pedir a vocês que mandem suas crônicas, contos, poesias que estão aí, guardadinhas na sua mente ou esquecidas numa gaveta, para cá.

Participe e obrigada por visitar esse espaço!
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Maria Carolina,criadora do blog
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Quinta-feira, Agosto 3
O GATO BORIS
Murilo Alves

Eu me desentendi com minha irmã. Esta é a semana do aniversário dela. Portanto, mesmo que apoiado por alguma porção de razão, no que diz respeito às causas de nossa discussão, eu não desejo romper o dia que ela veio ao mundo, há 24 anos, sem falar com ela.
Um presente simbolizaria a minha intenção em dar um basta em toda esta situação. Não poderia ser uma lembrançinha qualquer, dessas que qualquer amigo menos apegado às questões materiais aceitam sem maiores restrições, uma caneca, por exemplo.
Teria que ser um presente inesquecível. Algo que fizesse com que a reação dela ao recebê-lo fosse indescritível, com brilho nos olhos e lágrimas rolando e tudo. Cena de Almodóvar, cores por todo o ambiente, aquela música do Milton, perfeita reconciliação.
Valeska sempre fôra uma adoradora da espécie dos felinos. Acumula dezenas de gatos de pelúcia, assistia freneticamente os desenhos animados do Garfield, Eak The Cats, Frajola e Piu-piu, e o clássico Tom e Jerry, além de ter depositado uma infinidade de mimos ao já falecido gato Samuka, sua antiga distração lá em casa.
Apesar de minha ojeriza aos bichanos, verdade é que não seria nada má a idéia de devolver o sorriso ao rosto de minha irmã por intermédio de um novo animalzinho de estimação. É preciso algum sacrifício. Não pode ser tão difícil assim.
Por tal razão, acabo de chegar a casa com o Boris embaixo do braço. Trata-se de um gato Persa, alvinegro, extremamente gordo e vistoso, caracterizado, sobretudo, pelo nariz rosa e o rabo peludo. Escolhi-o a dedo entre sete concorrentes. Será o presente de minha irmã.
Eu havia me esquecido de um pequeno problema antes de chegar ao lar: não tenho carro, tampouco tinha dinheiro para tomar um táxi ou comprar uma casinha para o novo gatinho, sobrara apenas o suficiente para comprar o Boris. E agora? Como faria para transportá-lo?
Sorte minha (e do Boris), que eu também havia esquecido de que em Salvador os animais irracionais podem entrar nos ônibus acompanhado dos seus donos (não-menos irracionais). Já vi galinhas no Estação Mussurunga, cachorros no Terminal da França e pasmem: já dividi um acento com dois gambás engaiolados no Pituba via ACM(qualquer ambigüidade é mera coincidência)... Logo, o gato Boris e eu não poderíamos ser barrados no Ribeira/Bonfim.
Antes disso, a atendente da loja fez questão de providenciar um belo laço vermelho para enfeitar o pescoço do gato, ao mesmo tempo em que eu utilizara a intra-comunicação para dizer ao Boris que não contasse com a minha simpatia dali em diante, que tenho aversões à espécie dele assim como ele deveria ter da minha.
Já no ônibus lotado, procuro uma sustentação para o braço direito, enquanto que no esquerdo seguro o gato. Ele é pesado e eu estou mal-humorado. Em menos de dez segundos uma mulher sentada derrete-se pelo bichano e clama para que eu permita a ela segurá-lo durante a viagem. Começo a detestar o gato ainda mais.
Já estamos na Avenida Barros Reis, Boris dorme no colo da loira de mini-saia jeans que o segura, acaricia, faz cafuné. Nas minhas costas, há um negão de no mínimo 1,90 m, que deve se chamar ¿Paulão¿ ou coisa assim. A cada buraco no asfalto o ônibus se inclina para frente e ele dá uma fungada no meu cangote. Boris está próximo do paraíso enquanto eu temo ter a minha virgindade vilipendiada...
Depois de muita oração a todos os santos possíveis e impossíveis chegamos ao nosso destino. A loira queria o Boris para ela, embora ele já estivesse encomendado, após arruinar com a minha paciência. Espero, sinceramente, que vocês não queiram saber o destino do Paulão, do contrário, vão vocês e o Paulão para a...
No caminho de casa ouço algumas piadinhas femininas que me deixam envaidecido. Boris não é tão ruim assim. Poderemos até nos entender com o tempo.
Chegamos a casa e ele começa a se familiarizar com a nova morada. Compro leite e ração, sirvo tudo nos potinhos que também acabo de comprar para o gato. Ele se delicia e agradece com uma sonora ronronada e uma passada de rabo na minha perna.
Minha irmã ainda não chegou do trabalho, logo, ainda não se deparou com a surpresa. Ouço na TV uma notícia que me interessa, mas estou na cozinha. Saio em disparada em direção ao quarto e acabo pisando, sem querer, no rabo de Boris. Ele, por sua vez, não perdoa minha atitude e me aplica um arranhão no pé. Ameaço revidar a dor que ele me causou, mas, em uma fração de segundo me vêm uma reflexão:
Boris me arranhou porque sentiu a dor do pisão que eu lhe conferi, mesmo que não tenha sido intencional. Ele pode até não ter a virtude do perdão em si. Mas ele é sincero. Teve raiva de mim naquele momento. Demonstra e expressa o que sente. Boris tem muito a nos ensinar.