Descobrindo novos cronistas...
sobre o blog
Acredito que todos nós um dia na vida já escrevemos um texto que gostaríamos de compartilhar com outras pessoas, mas cadê espaço?

Foi pensando assim que criei o Vamos Cronicar que tem uma meta muito simples: colocar na internet crônicas e contos de escritores envergonhados, anônimos, de primeira viagem e até mesmo daqueles que já sabem bem o ofício...

Para tanto gostaria de pedir a vocês que mandem suas crônicas, contos, poesias que estão aí, guardadinhas na sua mente ou esquecidas numa gaveta, para cá.

Participe e obrigada por visitar esse espaço!
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Maria Carolina,criadora do blog
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Quinta-feira, Junho 29
LÍBANO DE MINHA VIDA
Por Murilo Alves

Irei me exilar no país dos cedros sagrados. Ao contrário do que ocorreu cá em terras tupiniquins nas ditaduras militares das décadas de 60 e 70, não deixarei a minha pátria natal em decorrência de eu ser ¿a menina dos olhos¿ de uma metralhadora alemã ou de Israel. As armas que me impuseram o exílio são outras. As ditaduras também são outras.
Desconheço o tempo que perdurará minha estada na pátria amada que deu a vida aos meus antepassados, transformando-os em homens honrados para o Oriente Próximo e para todo o mundo.
Cursarei o terceiro semestre de Comunicação Social com Jornalismo ainda no Brasil. Darei continuidade ao curso na ¿Madrasat Al-Hikmat¿, A Escola da Sabedoria, na capital Beirute.
Neste ocidente hipócrita e barulhento não existe riso que não seja um lamento, e eu sou sincero demais e tranqüilo ao extremo para conviver com os hipócritas e barulhentos durante minha vida toda, e sem me rebelar.
Vivemos em uma sociedade que nos enxerga conforme a posição sócio-econômica que ocupamos, então, passamos a representar uma infinidade de papéis sociais (caramba: somos atores) para sermos aceitos por ela, que, nos determina, aceita ou rejeita por meio de rótulos.
Valores como a humildade, a simplicidade e a honra passam a ser substituídos pela sede desenfreada do capital, pela aparência, pela necessidade do exibicionismo e da necessidade de se parecer interessante: ¿Eu não sou, nem por isso as pessoas precisam ficar sabendo...¿.
Durante algum tempo, perguntei a minha alma quem era, de fato, realmente estranho: eles ou eu? E quem está definitivamente incomodado: eles ou eu? Mas a minha alma não respondia por que, ao contrário do meu coração oriental ela é ocidental, ou seja, sente o que é verdadeiro, mas não fala, absorve tudo o que é falso para só assim se expressar.
Mas eis que o meu lado oriental desperta me chama e eu resolvo atendê-lo. O estranho aqui sou eu, o incomodado também.
Anseio pela paisagem sem igual da cerração que coroa o monte Sham El-Mizab, onde os espíritos dos meus antepassados vagueiam e refletem sobre as gerações conseguintes.
Necessito de uns olhares sinceros do camponês de sandálias gastas e face exaurida após a colheita no mês do Eilul.
Desejo decifrar os enigmas e os mistérios mil que somente podem ser encontrados nas retinas da perdição das mulheres libanesas.
Preciso ouvir Amin tocando o alaúde com alma ao dirigir a fronte para a praça do mercado onde o ouro, as pérolas, o café iemenita, o azeite de oliva, as pedras de Jade, o leite e o mel são legião. Reflexo da prosperidade secular da ¿Pérola do Oriente¿.
Quero distância dos carros, do orkut, do tocar dos telefones e do veneno das serpentes, antes de me refugiar na sombra das árvores milagrosas de Besharri, nos vinhedos suculentos da pacata Trípoli e nas serras subtropicais de Ez Zahrâni.
Nos túmulos de Gibran e Rafic Hariri meditarei em silêncio, antes de perguntar a Deus ou aos deuses por que os visionários e os dotados de genialidade permanecem pouco tempo entre nós.
Posso sentir o cheiro do naguilé tragado pelo meu avô, apoiado em seu cajado imponente ao som de um melancólico e sublime Nahauand.
Sinto a minha própria presença entre a juventude inquieta e inflamada de Beirute, jovens que saem às ruas quando estão inconformados e que não mais voltam antes de atendidas as reivindicações.


Mas levarei no peito os ¿ocidentais orientalizados¿ mais fascinantes que já conheci: Alex e Lívia ¿ frutos da esperança de que nem tudo está perdido e que o equilíbrio distante pode ser encontrado, um dia.
Penso em levar também o DVD ao vivo do João Bosco e o CD do Flávio Venturini, além do desenho indecifrável de minha afilhada Marília ¿ a pérola negra que a Bahia me deu.
Retorno sozinho no plano físico à pátria que jamais deixou os meus sonhos, embora a minha memória permaneça carregada de boas e más recordações, em um paradoxo sem fim.
Beirute já me espera ansiosa como para um encontro de grandes amantes. Ela destila os seus olhares insinuosos de quando em quando, inspira minhas ações e clama por minha presença.
Enquanto que a minha pátria-mãe dirige-me os braços abertos de maneira antecipada, receptiva e hospitaleira como sempre será.
Líbano de minha vida: quero-te tanto!
Sexta-feira, Junho 23
O CAPITAL E A CULTURA
Marcelino Rodriguez

Parece que há uma tendência à doença coletiva que chamarei de "Capitalismo
Delirante", por ora, pois sem tempo de pensar com mais profundidade, deixarei à
consciência de cada um a percepção do óbvio. Esse termo seria, enfim, a
"falência dos Estados". A prevalência definitiva do Capital sobre a humanidade.
Essa, ou seja, nós todos, passaríamos a ser apenas coadjuvantes de um mundo
programado para a "ausência de pensamento". Seria o fim da cultura humana: amor,
literatura, artes, etc...

Teríamos um mercado mundial coletivo, aonde a iniciativa privada seria a única
lei.

Valores como humanismo, poesia, solidariedade seriam substituídos por programas
compensatórios como o "Bolsa Escola" do atual governo.

As relações humanas seriam previsíveis: "ricos com ricos, pobres com pobres",
"bonitos com bonitos, feios com feios".

Os únicos valores da vida seriam "Capital e Trabalho". A arte seria apenas um
adorno de fim de semana e acompanhante dos gozos rápidos e superficiais. Seria o
fim da profundidade.

Por que é possível pensar num mundo assim, que parece ser a tendência desse
neo-liberalismo?

Andando por aí, tenho reparado que pelo fato de a maioria das pessoas serem sem
graça, pensam que os outros também são. É um erro.

A atual história do Brasil e do mundo tem segredos em curso que nem o
excelentíssimo sabe. Um homem apenas mudou todo o curso de certos acontecimentos
em nosso país.

É que "a necessidade de controle" que tem os "homens da lei" de subordinarem o
mistério à mediocridade nunca conseguirá entender que o fato deles quererem
acabar com o mistério não significa que irão acabar com os homens misteriosos.

Mas são esses que fazem a história real da humanidade, aquela que passa longe
dos olhos vistos das academias, porém a única que realmente conta. História essa
escrita com as ações sutis dos valentes que entre si formam o mais imbatível e
divino elo de verdadeira amizade.
Quarta-feira, Junho 21
O COELHO MÁGICO
Murilo Alves

Eu sou atualmente o segundo melhor escritor do mundo. Não, eu não estou brincando e como se vê, assumo que não possuo a modéstia como virtude. Anos e anos analisando os escritos de nomes como Nietsche, Gibran Kahlil Gibran, Charles Baudelaire, Fernando Pessoa, Érico Veríssimo, entre outros tantos de inúmeras escolas e estilos fizeram com que eu chegasse a esta sólida conclusão. Fazer o quê? Reconheço que sou o segundo melhor e ponto.
Os leitores atônitos e curiosos devem não acreditar no que acabam de ler, ou ao menos, aspiram descobrir quem eu considero ser o melhor escritor do mundo em tempos atuais. Pois bem, mais do que esta minha opinião adiantarei o terceiro nome da ¿tríade iluminada¿, ou seja, o escritor número três do mundo, o que cá entre nós já não é pouca coisa.
Havia afirmado e agora ratifico que sou o segundo melhor escritor do mundo. Todos os outros escritores do planeta dividem o primeiro lugar. E Paulo Coelho está em terceiro.
Desde já, advirto aos coelhistas de plantão espalhados por todo o mundo: não adianta amaldiçoarem o meu nome. Muitos já tem o feito, em decorrência de minhas concepções acerca das obras do ¿mago¿ ¿ como Paulo Coelho é mundialmente conhecido.
As próprias comunidades do fenômeno orkut relacionadas ao escritor pop tornaram-se espaços democráticos onde são veiculadas breves opiniões referentes à maior representatividade literária do Brasil no exterior, com os seus milhões de exemplares vendidos e traduzidos em dezenas de países.
Paulo Coelho incomoda, de fato. Perturba aqueles que o acusam de ter bebido na fonte do Médio Oriente, reproduzindo, em seguida os ensinamentos filosóficos de nomes como Gibran e Michail Naymi, com outras palavras. E também perturba a porção inquantificável de fãs espalhados por todas as partes do globo, ofendidos contra os que, aos seus olhos, não o compreendem.
Confesso que há a possibilidade de eu não entender a possível genialidade de Paulo Coelho. Até hoje procuro entender como ele conseguiu vender aos milhões, livros cobertos de frases (consideras pensamentos?) como esta: ¿Não existe nada de completamente errado no mundo, mesmo um relógio parado consegue estar certo duas vezes por dia¿.
Pode ser que haja em tais linhas algo que simbolize um raciocínio maturo, fantástico e sublime de tal forma que eu, em minha insignificância e inexperiência não tenha assimilado.
Por sinal, esta é a indagação que costumo fazer aos admiradores de Paulo Coelho, quando estes me cobram argumentos para expressar a minha ojeriza aos escritos do literato. Ocorre que eles não respondem. Você poderia, por algum acaso, me ajudar a esclarecer estas questões?
¿Existe uma maneira de saber se você já cumpriu sua missão na Terra. Se você continua vivo, é porque ainda não cumpriu¿. Esta pérola, ao contrário do que muitos podem imaginar não pode ser encontrada no Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, nem nos discursos do Dalai Lama, muito menos nos artigos de minha conterrânea Lya Luft. Adivinhe quem a compôs? Certo é que rendeu milhões.
Percebo que, por outro lado, o escritor eleva o nome do Brasil no exterior, porque agora os estrangeiros, ao encontrarem um brasileiro em outra nação não mais reduzem as personalidades do país a Pelé, Ronaldos e ao cantor Roberto Carlos: ¿Brazil? Paulo Coelho!¿.
Li e reli todas as suas obras publicadas até aqui. Assisti a algumas entrevistas na televisão e acompanhei outras por meio de revistas. Tenho procurado entender quais seriam as possíveis motivações das pessoas quando estas cogitam adquirir qualquer trabalho de Coelho. Não desisto fácil.
Provavelmente o fato de eu detestar obras de auto-ajuda tenha influência nesta minha concepção. Talvez, os escritos de Paulo Coelho ajudem muitas pessoas, tenham alterado para melhor o curso transviado de suas vidas, sei lá.
Pensando melhor, o Coelho Mágico deve mesmo possuir em si fragmentos de bruxaria, alguma coisa de sobrenatural que nem mesmo o transcendentalismo explique. Fluídos de uma magia poderosa que enfeitiça a maior parte dos meros mortais que venham a se deparar com o que escreve.
Deve ser isso. Pode ser que o Coelho seja mágico mesmo. Alguém mais não foi enfeitiçado ainda?
Sexta-feira, Junho 9
A FADA MUDA
POR MURILO ALVES

No vale do silêncio perturbador e entre as colinas do abismo que separa o mundo real da terra da ilusão, encontra-se a fada muda. Exilada no isolamento dos pensamentos sombrios e magoada em decorrência da distância entre o que pode ser visto em detrimento daquilo que está oculto, ela pára e analisa os fatos do passado e do presente, não enxergando sequer um feixe de luz para o futuro.

Verdade é que a Fada Muda não acredita mais no que considera ¿promessas platônicas¿ da parte do mero mortal enfeitiçado, demonstra cansaço ante ao tempo que outrora sequer parecia passar, naqueles encontros apaixonados protagonizados por ela, um ser irreal, inanimado, que talvez eu mesmo tenha criado e recriado para corresponder as minhas necessidades, aos meus sentidos egoístas e mesquinhos.

Tanto que, por vezes, eu ainda me pergunto, perplexo: será que a nossa relação nada mais foi ou nada mais é do que um dos variados momentos de alucinação em que, por diversas vezes eu confundira o real com a ilusão, assim como fez o Lázaro Bíblico sob a visão do filósofo libanês Gibran Kahlil Gibran na peça teatral Lázaro e Sua Amada?

Atualmente, os feitiços benéficos do encantamento não são aqueles destilados pela fada, que, evidentemente entristecida utiliza de sua poderosa vara de condão para ferir o mero mortal eternamente enfeitiçado da maneira que mais profundamente machuca e maltrata qualquer ser de quaisquer dimensões: por meio da indiferença e do silêncio ruim.

Sim, pois há o silêncio bom e o ruim independentemente dos mundos e dos planos astrais, e ela sabe disso. O silêncio bom era aquele que os nossos espíritos compartilhavam ao traçar juntos o mesmo caminho. Exatamente quando os gritos e as lamentações produzidos pelas pessoas não nos alcançavam, e podíamos descobrir os mistérios de nossas próprias existências, os segredos de nossas almas, pelas ruas e avenidas da Cidade do Nascer do Sol, onde não me recordo ao certo o endereço que me faria voltar, de modo com que eu fizesse cumprir as minhas próprias promessas que um dia formulei, mas que eu jamais cumpri e esqueci.

Até mesmo por estar muda, utilizando-se dos dons do silêncio ruim e da indiferença, a fada desconhece que apesar de o enfeitiçado ter confeccionado os grilhões da gaiola que acabaram o aprisionando, ele estuda as formas de se libertar e renascer das cinzas como Fênix, a fim de se precipitar por onde já caiu, como se uma máquina do tempo pudesse fazer com que revivêssemos aquela ilusão, a mesma sombra do real.

No reino da fantasia confusa, alimentada pelo descrédito e por todos os oceanos da desilusão física está a fada. Enquanto que no universo dos seres barulhentos e que tentam parecer interessantes a qualquer custo, encontra-se o enfeitiçado, e o sentimento que rege estes dois seres é o mesmo, assim como o orgulho infantil que os separa.

De qualquer forma, penso e sinto que a Fada Muda está em algum lugar, mesmo que distante, e que ela tornará a cantar as suas melodias doces e harmoniosas com aqueles mesmos lábios perfeitos, emprestados pelo rouxinol.

E os beijos nos aproximarão novamente a exemplo dos lírios dos campos. Só assim ela compreenderá o Lázaro de Gibran, quando este disse que você, você mesmo que está lendo este texto, este computador, essas pessoas ao nosso redor nada mais são do que uma ilusão, uma sombra do real.

Aqui não há despertar. O despertar é lá, naquele mundo, naquele reino, onde eu estava com a minha Fada Amada e com a realidade.
Quarta-feira, Junho 7
Puro sangue puxando carroça
Cristiano da Silva

Em mais um dia de trabalho (não árduo, até prazeroso) tive um momento de reflexão, não quando eu estava trabalhando, mas quando eu estava indo almoçar...
Reflexão esta que não se originou de minha mente acomodada, mas de mentes alheias que contribuem tanto pra que minha mente funcione, reflita e se culpe e desculpe pelos erros e anseios do ¿não pensar¿ e do ¿não fazer direito¿.
Mas voltando ao fato gerador da reflexão, este foi apenas um fato ¿corriqueiro¿ de nossas abastadas cidades, onde o belo se contradiz ao trágico. O fato é que um homem puxava uma carroça.
Tá bom, sei que vocês já viram isso antes e veremos ainda por muito tempo.
Pra dar continuidade no meu raciocínio vai um trecho da música ¿Dom Quixote¿ dos Engenheiros do Hawaii:
"Muito prazer, meu nome é otário
Vindo de outros tempos mas sempre no horário
peixe fora d'água, borboletas no aquário
Muito prazer, meu nome é otário
na ponta dos cascos e fora do páreo
puro sangue, puxando carroça"
Como pode um homem, o ser dominador do mundo puxar carroça?
Como pode um bípede se tornar em um equino para poder comer, não as favas pra onde devo mandar muita gente, mas comer o pão, mesmo que esse seja o que o Diabo amassou, se é pra sobreviver vale até farofa de macumba, ou vale ser esculhambado, olhado com rejeição, ser olhado como lixo, lixo este que estava dentro da carroça.
No momento pode até dar dó, doer por dentro, então (aí sim vem a reflexão) eu viro meu rosto e imagino belas paisagens, ou eu olho, deixo-me torturar como um masoquista pra depois dizer que fiquei com dó, ou faço pior, pego alí alguns centavos e entrego pra ele e digo: - Compre algo pra você comer!
Agora sim, quem tem que ir as favas sou eu.
O preço da minha consciência?
Apenas algumas moedas.
Sim, ao dar algumas moedas ao puxador de carroça, puro sangue por sinal, eu estou abdicando me da culpa, me sentino um santo que ajuda nas causas alheias e que amo segundo Jesus mandou.
É, na verdade aquela vergonhosa esmola é pra comprar minha consciência, sarar meu orgulho ferido e matar a vontade de agir de uma forma realmente justa e inteligente pra que a situação mude, ou, ao menos melhore.
E o pior ainda está por vir.
Quando vejo um deputado que se vende por alguns mil reais ou doláres fico indignado. Que vergonha! Ainda reclamo! Mas eu me vendi por moedas, algumas moedas.
É, minha honestidade é herege...
Sexta-feira, Junho 2
NÃO ACREDITO
Luciano Pires

Era 1988. Meu filho tinha uns três ou quatro anos de idade e estávamos na
piscina da chácara de meus pais em Bauru. Eu dentro d´água e ele do lado de
fora, ensaiando saltar em meus braços, com todo o medo de quem experimenta
uma situação de risco. Eu o incentivava e ele hesitava.
- Pula! Papai está aqui! Pode pular!
E então ele saltou. Voou pelo ar até cair na piscina, com o torso fora
d´água graças às minhas mãos que o ¿salvaram¿. E, passado o medo, o bichinho
gostou da brincadeira.
- Di novo!
E lá ia ele correndo e saltando, cada vez com maior desenvoltura. Até que,
num dos saltos, propositadamente deixei que ele caísse na água e afundasse
uns centímetros. Puxei-o para fora e ele estava apavorado. Olhos
arregalados, cabelo na testa, as mãozinhas na boca e agitando as
perninhas...
- Calma, ta tudo bem, o papai está aqui!
Depois de choramingar ele voltou para os saltos. Mas não eram mais os mesmos
saltos. A cada vez que ia saltar, parava e me perguntava:
- Você vai deixar eu cair?
Naquela piscina aprendi uma lição. Como é fácil destruir laços de confiança.
Como é fácil incutir o medo na cabeça dos outros. Como é fácil alimentar o
descrédito. Como fui um idiota...
Pois bem.
Agora repare como você está sendo treinado a não acreditar mais em coisa
alguma. Como os elos de confiança que você tinha quando jovem, estão sendo
quebrados, um a um. E sabe como? Com anos de decepções. Com a enxurrada de
escândalos. A cara de pau com que as celebridades de todas as áreas aparecem
na mídia contando mentiras. O desnudamento das técnicas de ¿dudificação¿
(neologismo que criei com o nome de Duda Mendonça), quando usam o marketing
para nos convencer a comprar o que não queremos nem precisamos. Com os
valores morais e éticos discutíveis da grande mídia e seus interesses
econômicos. Com a exposição diária do lado torto da sociedade. Com a
eliminação das referências... A cada fato ou momento desses, sinto-me como
meu filho, traído, caindo na piscina. Sinto que estou me tornando descrente.
O jogador foi dispensado da copa por problema físico? Não acredito. Foi pela
briga com um colega de time. O Major Pontes foi ao espaço para experimentos
científicos? Não acredito. Foi jogada eleitoral. O PCC atacou para medir
forças com a polícia? Não acredito. Também foi jogada eleitoral. O Brasil
tem indicadores positivos? Não acredito. Nunca estivemos tão mal. A Globo é
uma das redes de televisão mais profissionais do mundo? Não acredito.
Manipula conforme seus interesses. Ladrão vai pra cadeia? Não acredito. Só
ladrão pobre. Não acredito no Lula. Não acredito em FHC. Não acredito em
Pelé. Não acredito no Willian Bonner. Não acredito na Heloisa Helena. Não
acredito no Garotinho. Não acredito no Ronaldo. Não acredito na Hebe. Não
acredito no padre. Não acredito no pastor. Não acredito no polícia. Não
acredito no juiz. Não acredito no zelador. Não acredito...
Putz... no quê me transformei? Num ser que não acredita em mais nada? Que
desconfia de tudo? Incapaz de entregar-se a uma causa em sociedade? A um
objetivo em grupo? Afinal, alguém vai se aproveitar de minha confiança?
Você, por acaso, também se sente assim?
Que triste...
Pois quer saber de uma coisa? Tem coisa na qual eu acredito sim. Acredito
em mim. Acredito em minha família. Acredito nos valores que meus pais me
passaram. Acredito que dá para contribuir para este país dar certo. E
acredito que outros milhões de brasileiros acreditam nisso também.
Brasileiros que não são trouxas. Que pensam e buscam o melhor. Que unidos
podem mudar o futuro.
Mas eles andam tão calados...