Descobrindo novos cronistas...
sobre o blog
Acredito que todos nós um dia na vida já escrevemos um texto que gostaríamos de compartilhar com outras pessoas, mas cadê espaço?

Foi pensando assim que criei o Vamos Cronicar que tem uma meta muito simples: colocar na internet crônicas e contos de escritores envergonhados, anônimos, de primeira viagem e até mesmo daqueles que já sabem bem o ofício...

Para tanto gostaria de pedir a vocês que mandem suas crônicas, contos, poesias que estão aí, guardadinhas na sua mente ou esquecidas numa gaveta, para cá.

Participe e obrigada por visitar esse espaço!
Volte sempre!

Maria Carolina,criadora do blog
crônicas arquivadas
particpe você também
Um oferecimento
Layout desenvolvido por Inverno

Powered by Blogger


Sexta-feira, Maio 26
A MOÇA
Marcelino Rodriguez

Um telefonema inquietante pela manhã: uma moça. Havia finalmente lido um livro
que lhe dei há quase um ano atrás. Dei-lhe o livro por achá-la bela, na
esperança de que o livro a impressionasse e fizesse com que ela retornasse o
contato. Autografei-o, entre-guei-o mas quando fui abraçá-la, verdade que um
tanto afoito, ela afastou o bumbum para trás um tanto jocosamente, deixando-me
constrangido. Pro-meteu que me mandaria um dos livros no qual havia sua
participação, mas não mandou nem escreveu nem ligou. Pensei: perdi o livro e a
leitora. Aliás, coisa comum no escritor é o falso prestígio. Depois do
lan-çamento, o retorno financeiro é quase nenhum e ven-der o livro as pessoas
não é reconfortante. E o escri-tor, se não tiver bons amigos, outro modo de
ganhar a vida ou o apoio dos parentes, fica, literalmente, na sarjeta.
E a moça começa a falar entusiasticamente so-bre poesia. Penso que até hoje a
poesia só me trouxe dissabores, constrangimentos e a ilha em que vivo, pelo
simples fato de que poesia deve ser assunto de parcela ínfima da humanidade. E
eu já a teria aban-donado há muito tempo, se eu pudesse. E de certa maneira,
devo. O que não posso abandonar (nem po-eta algum), é uma maneira de ser
peculiar que agrava o isolamento psicológico e a mágoa de não poder ser gente
como a gente é. Se não podemos falar, se nossa expressão não interessa a fúria
humana e mercadoló-gica, preferimos o nosso mais nobre silencio e a nossa
essencialidade. Que nos roubem a expressão, mas não a alma, porque a poesia é a
mais alta expressão de humanidade que existe, embora a própria huma-nidade
parece estar se esquecendo do seu sentido.
E a moça vai falando e sou todo ouvidos. Quer que eu venda meus livros, que eu
apareça. Só que não tenho muito jeito para aparecer nem para propagan-dear a
importância da minha obra, que não é pouca coisa posto que de certa maneira o
reconhecimento passa pela nossa sobrevivência. Mas a generosidade humana não é
notável, e quando as pessoas percebem a aflição do escritor ele se encontra em
maus lençóis. Sabe aquele teu vizinho que te conhece a mais de dé-cada?, ele não
quer saber do teu livro. A dona da pa-daria? Também não. O teu próprio colega
está ¿duro¿ e você está perdido, José.
A moça percebe meu desânimo e diz que é porque estou sem musa. Dá vontade mandar
ela ocu-par o posto, desocupado a mais tempo do que eu gostaria. Mas sou muito
sensível às moças e tomo muito cuidado com elas. Por causa das moças é que sou
melancólico e magoado. Vejo nas moças o tanto que posso dar de carinho e
delicadeza, mas elas pas-sam como que pisando no meu coração e vão embora, nem
sequer adivinhando o céu que há em mim. E fico em dúvida se as moças são do céu
ou é apenas a ima-gem delas que inspiram a ilusão do transporte.
O concreto é que o telefonema da moça me dei-xou mexido. O que pode querer a
moça comigo? Que graça tenho eu para ela? Que pode ela trazer-me de permanente?
Olha, moça, vou te contar um segredo profundo sobre os poetas solitários, desses
que vivem à margem, calados, nas ilhas, longe dos sórdidos jor-nais e barulhos
do mundo. É que esses seres não são mais tanto do momento quanto são da
eternidade, e só saem da sua toca quando muito cativados ou leva-dos pelo
destino, seja pelas mãos de um anjo, de um traidor ou de uma moça.
Portanto, moça, veja lá o que você traz pra mim, se doce ou travessuras. É que
minha ilha é bela e sossegada, minhas paisagens sagradas e meu cora-ção já
esqueceram. Conquistei o silêncio, não me venha com diabruras.
Domingo, Maio 14
À MINHA MÃE
POR MURILO ALVES


Desde a minha infância, à minha mãe se preocupou em minar com todas as ilusões que circundam os primeiros anos da maioria das crianças.

Eu nunca tive um pintinho, eu sempre tive pênis, a cegonha jamais realizou o trabalho de transportar os meus irmãos e eu do outro mundo para este, o papai-noel dos meus natais chamavam-se Sérgio Carlos e dona Sheila, que, por sinal, também eram os responsáveis pela missão que o coelhinho da páscoa cumpria para com todas as demais crianças.

A minha infância diferente assemelhava-se a letra de Humberto Gessinger,líder dos Engenheiros do Havaí, Somos Quem Podemos Ser mais precisamente, ao seguinte trecho: Um dia me disseram que as nuvens não eram de algodão. O que parece óbvio à primeira vista, mas nem tanto.

É impressionante, mas está cada vez mais difícil escrever algo original hoje em dia. Assim, qualquer idéia que ninguém ainda teve parece-me inalcançável. Eis o meu drama.

A minha mãe desde cedo me ensinou a amar o que os homens odeiam e a odiar o que eles amam. Dissipou as minhas fantasias utópicas acerca das coisas como o vento Minuano do Sul dissipa os casebres construídos por meio da madeira carcomida pelos cupins.

Devo a ela o fato de hoje, não ser um escravo dos ídolos esculpidos pelo barro e moldado pela ignorância daqueles que amo por ser dotados de tanta ingenuidade, cegos que possuem boas vistas, mas que não vêem nem as medidas, tampouco as quantidades.

Recordo-me dos vendavais que assolavam a minha casa, enquanto que a minha mãe me conclamava para sair às ruas desertas a fim de me fazer observar a fúria da natureza e a importância de caminhar com as tempestades.

Foi com ela que eu também pude compreender que pode haver doçura nos seres de aparência rude, e que os lábios dos poetas que cantam o amor são os mais sagrados de todos os lábios, porque na maioria das vezes, falam de amor quando bebem o fel.

A adolescência já atingira o cume, mas minha mãe permanecera com o filho caçula sobre os joelhos, tratando-o com afagos mais ternos que as lágrimas de uma despedida forçada e mais sinceros do que o sorriso de uma criança.

E ela me repreendeu quando me avistou em cima dos muros, desnudo de ideais concretos e opiniões coerentes, e sem poder de indignação.

Sob o seu manto e proteção constantes encarei o mundo e enfrentei-o de peito aberto, mesmo avisado de tanta sujeira, tanta inveja e tanta maldade que o povoava. E foi ao utilizar o meu coração como escudo que pude entender as aspirações dos poderosos, as submissões do povo oprimido e o poder histórico que minha mãe exerce sobre todas as instituições e todos os homens de todos os tempos.

Ora, chamam-lhe de baderneira, ora de subversiva, mas ela, inerente ao medo que é capaz de perceber transpirado pelos poros dos que a teme permanece firme, intacta, imortal.

Os demais filhos de minha mãe estão espalhados por todos os cantos do mundo e pertencem a todos os credos, todas as etnias e conhecem as motivações do meu espírito sem nunca ter me visto, e eu conheço as suas inclinações sem sequer os conhecer.

Bendita seja matriarca das revoltas! Envolta por tua ira sagrada que sintetiza o amor que depositas nos homens, que não te compreendem.

Bendita seja mãe dos poucos que se encontram despertos, neste mundo estranho onde a maior parte dos seres dorme num sono profundo.

Bendita és tu,Revolução,mãe de todas as mães, pois a tua força faz deste mundo um mundo menos cruel que este mundo, e porque a chama de toda a tua luta nada mais é do que o fogo do amor.