A MOÇA
Marcelino Rodriguez
Um telefonema inquietante pela manhã: uma moça. Havia finalmente lido um livro
que lhe dei há quase um ano atrás. Dei-lhe o livro por achá-la bela, na
esperança de que o livro a impressionasse e fizesse com que ela retornasse o
contato. Autografei-o, entre-guei-o mas quando fui abraçá-la, verdade que um
tanto afoito, ela afastou o bumbum para trás um tanto jocosamente, deixando-me
constrangido. Pro-meteu que me mandaria um dos livros no qual havia sua
participação, mas não mandou nem escreveu nem ligou. Pensei: perdi o livro e a
leitora. Aliás, coisa comum no escritor é o falso prestígio. Depois do
lan-çamento, o retorno financeiro é quase nenhum e ven-der o livro as pessoas
não é reconfortante. E o escri-tor, se não tiver bons amigos, outro modo de
ganhar a vida ou o apoio dos parentes, fica, literalmente, na sarjeta.
E a moça começa a falar entusiasticamente so-bre poesia. Penso que até hoje a
poesia só me trouxe dissabores, constrangimentos e a ilha em que vivo, pelo
simples fato de que poesia deve ser assunto de parcela ínfima da humanidade. E
eu já a teria aban-donado há muito tempo, se eu pudesse. E de certa maneira,
devo. O que não posso abandonar (nem po-eta algum), é uma maneira de ser
peculiar que agrava o isolamento psicológico e a mágoa de não poder ser gente
como a gente é. Se não podemos falar, se nossa expressão não interessa a fúria
humana e mercadoló-gica, preferimos o nosso mais nobre silencio e a nossa
essencialidade. Que nos roubem a expressão, mas não a alma, porque a poesia é a
mais alta expressão de humanidade que existe, embora a própria huma-nidade
parece estar se esquecendo do seu sentido.
E a moça vai falando e sou todo ouvidos. Quer que eu venda meus livros, que eu
apareça. Só que não tenho muito jeito para aparecer nem para propagan-dear a
importância da minha obra, que não é pouca coisa posto que de certa maneira o
reconhecimento passa pela nossa sobrevivência. Mas a generosidade humana não é
notável, e quando as pessoas percebem a aflição do escritor ele se encontra em
maus lençóis. Sabe aquele teu vizinho que te conhece a mais de dé-cada?, ele não
quer saber do teu livro. A dona da pa-daria? Também não. O teu próprio colega
está ¿duro¿ e você está perdido, José.
A moça percebe meu desânimo e diz que é porque estou sem musa. Dá vontade mandar
ela ocu-par o posto, desocupado a mais tempo do que eu gostaria. Mas sou muito
sensível às moças e tomo muito cuidado com elas. Por causa das moças é que sou
melancólico e magoado. Vejo nas moças o tanto que posso dar de carinho e
delicadeza, mas elas pas-sam como que pisando no meu coração e vão embora, nem
sequer adivinhando o céu que há em mim. E fico em dúvida se as moças são do céu
ou é apenas a ima-gem delas que inspiram a ilusão do transporte.
O concreto é que o telefonema da moça me dei-xou mexido. O que pode querer a
moça comigo? Que graça tenho eu para ela? Que pode ela trazer-me de permanente?
Olha, moça, vou te contar um segredo profundo sobre os poetas solitários, desses
que vivem à margem, calados, nas ilhas, longe dos sórdidos jor-nais e barulhos
do mundo. É que esses seres não são mais tanto do momento quanto são da
eternidade, e só saem da sua toca quando muito cativados ou leva-dos pelo
destino, seja pelas mãos de um anjo, de um traidor ou de uma moça.
Portanto, moça, veja lá o que você traz pra mim, se doce ou travessuras. É que
minha ilha é bela e sossegada, minhas paisagens sagradas e meu cora-ção já
esqueceram. Conquistei o silêncio, não me venha com diabruras.
