Descobrindo novos cronistas...
sobre o blog
Acredito que todos nós um dia na vida já escrevemos um texto que gostaríamos de compartilhar com outras pessoas, mas cadê espaço?

Foi pensando assim que criei o Vamos Cronicar que tem uma meta muito simples: colocar na internet crônicas e contos de escritores envergonhados, anônimos, de primeira viagem e até mesmo daqueles que já sabem bem o ofício...

Para tanto gostaria de pedir a vocês que mandem suas crônicas, contos, poesias que estão aí, guardadinhas na sua mente ou esquecidas numa gaveta, para cá.

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Maria Carolina,criadora do blog
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Sábado, Abril 8
EU TOMEI CAFÉ COM KARL MARX E ÉMILE DURKHEIN
Murilo Alves


¿Não esconda sua loucura¿. Eis um ensinamento do escritor inglês Willian Borroughs que jamais se esvaeceu de minha memória, após tê-lo encontrado no prefácio dos ¿Sanduíches de Realidade¿ de Arnaldo Jabor.

Como se vê, passo, desde já, a justificar o meu tresloucado título baseando-me na velha alternativa que atende pelo nome de intertextualidade.

Ocorre que as aulas de Sociologia Geral e da Comunicação lá da faculdade estavam tirando o sono de alguns colegas do curso de Jornalismo, dentre os quais, este pedante intelectual que vos escreve.

Em primeiro lugar, a relação da turma com o professor Hudson Marambaia passou a ficar tumultuada após o competente orientador (não aprecio o termo ¿educador¿ quando destinado a aqueles que possuem, ou não, o dom de nos orientar) ter se dirigido da seguinte forma a um dos colegas na sala-de-aula: ¿Caso não mudes de pensamento, tornar-se-á um jornalista medíocre no futuro¿.

Pronto. O circo estava armado e propenso a um inevitável incêndio a partir do momento infeliz escolhido pelo professor para sentenciar sua profecia: ¿jornalista medíocre... medíocre... medíocre... no futuro...¿. Podiam-se ouvir os ecos da frase proferida pelo mestre por todos os cantos da sala e pelos demais corredores do prédio também. Exagero meu? Sim, exagero de forma quanto ao relato, mas não de sentido. Mentiras sinceras interessavam ao poeta Cazuza, podem nos interessar também, quem sabe?

Pois bem, de volta ao caso, fato é que a repercussão da opinião do professor foi uma espécie de estopim para que a maior parte dos colegas manifestasse suas antipatias e repúdios quanto ao método didático utilizado por Hudson em sala-de-aula.

O líder de turma propôs uma reunião com os colegas para que todos pudessem expor as suas concepções em relação ao trabalho do professor, a prova semestral se aproximara, os nervos de todos estavam à flor-da-pele: ¿será que ele irá bombardear a turma com uma prova recheada de questões sacanas?¿ Pensavam alguns. Entre todo esse mar de incertezas, somavam-se aí, os textos intermináveis e complexos dos não-menos complexos Karl Marx, Max Weber e Émile Durkhein.

Eu, por minha vez, cansado de um dia de trabalho, após a humilhação do ônibus lotado e de passar o dia todo ouvindo a palavra não das pessoas (seja da gerente do banco até a funcionária da cantina da faculdade), raciocinava em silêncio ao término de mais uma leitura dos pensadores sociólogos: ¿será que esses caras sofriam de depressão no século XIX? Será que,de vez em quando, eles se reuniam com algum punhado de amigos para beber cerveja em Berlim? Será que eles faziam sexo? Percebe-se que minha loucura já estava bem adiantada. De fato, a concomitância de um punhado de pressões psicológicas que recaíam sobre a minha cabeça começavam a originar uma série de delírios intermináveis em todos os âmbitos de minha estranha vida.

A insônia me atormentava de forma impiedosa, perdi dez quilos em um pouco mais de um mês e ganhei olheiras profundas como as de um defunto, o que fez com que eu me sentisse um legítimo morto - vivo. Ademais, justamente quando eu conseguia pegar no sono (lá por umas 5h de mais uma extensa madrugada) as alucinações de todos os tipos e formas visitavam-me nos sonhos para assim, contribuírem para com o meu estado deplorável.

Em um dos meus sonhos (ou pesadelos ou delírios alucinógenos?), o professor havia convidado a turma para um singelo passeio a um parque de diversões da cidade (imaginem uma turma de faculdade passeando num parque de diversões com o professor de Sociologia), sendo que nos encontraríamos ¿ a turma e o professor ¿ somente na hora e no local previamente marcado. Chegando no parque, eis a surpresa: o professor se multiplicara por todos os cantos, assim como os peixes, os coelhos e os pães da Bíblia. Numa hora, ele era o vendedor de churros (vestia aquele uniforme branquinho e tudo mais), mas para comprarmos os churros precisávamos responder as perguntas feitas pelo professor-vendedor, indagações do tipo: ¿diga-me rapaz: o que é fato social, segundo Durkhein¿? Ou, ainda:¿ descreva o conceito de alienação segundo Karl Marx¿. Hudson também era o vendedor de pipocas, de algodão-doce, e também era o responsável geral por todos os brinquedos no parque. Tornou-se um fantasma, um diabo, uma assombração.

Lembro-me também de um sonho onde Karl Marx (sim, o próprio velhinho), Durkhein e eu, eu? Sim, nós mesmos, tomávamos café em uma refinada doceria de Berlim, ao som de Wagner e trocando idéias sobre a sociedade burguesa, capital e trabalho... É válido salientar que o alemão e o francês (de forma muito cordial) fizeram questão de que a conversa se desse em língua portuguesa, levando-se em consideração que sou um bilíngüe esquisito que não falo nem inglês tampouco espanhol (percebam que na minha loucura Marx e Durkhein falavam em português). Já o inglês Weber não compareceu ao ¿encontro de amigos¿ porque teria uma palestra para apresentar em Manchester, menos mal que eu já manjava o seu conceito de ação social...

Leitores de São Paulo, Curitiba, Rio Grande do Sul e Bahia: creiam em mim quando eu afirmo que Marx e Durkhein adicionaram-me conselhos fundamentais para que, na realidade, eu viesse a ter o melhor desempenho da turma na prova de Sociologia, que, aliás, nem estava tão difícil assim. Ah! E antes que eu me esqueça, recordo-me que Émile e eu tivemos que rachar a conta lá na doceria germânica, pois, como de costume, Marx passava por complicações financeiras...

Até hoje, ninguém na faculdade acredita que o meu desempenho na prova se deve a contribuição destes sociólogos.

De qualquer forma, caros leitores, afirmo e ratifico que em minha alucinação fiz os comunistas e os pequeno-burgueses de todo o mundo tremerem de inveja, porque eu tomei café com Karl Marx e Émile Durkhein.