Memória Retrospectiva (Crônica de um aniversário).
Murilo Alves
Ainda não completei vinte anos de idade. Essa insignificante constatação não interessa a ninguém, eu sei, até porque tantos outros rapazes de minha faixa etária também não romperam à ávida e aventureira barreira das duas décadas de vida. Você estará perguntando: o que isso importa? Enquanto este medíocre escritor tentará explicar a você ¿ impaciente leitor ¿ se a porção de precocidade existente em ti me permitir.
Estou sempre ouvindo das pessoas: ¿És ainda jovem, muito jovem, tens a vida toda pela frente, então, por que a pressa?¿ Sendo que a minha resposta sempre é: não sei. O que sei ao certo é que sempre me vejo perplexo diante daquilo que chamo de ¿mania de certezas¿ que as pessoas acham que possuem. Quem é que me garante que ainda tenho a vida toda pela frente? São certezas incertas (perdoem o meu baixo oxímoro)... Contudo, saudosista que sou, confesso que sou assaltado de quando em quando por algumas sombras e imagens de minha memória retrospectiva. Sim, são tamanhas sombras e imagens que me trazem à tona os dias marcantes que já vivi, dias inesgotáveis, inesquecíveis, inexoráveis...
O dia de minha infância saudável brincando com os pescadores humildes nos barcos de Florianópolis.
O dia dos olhares invejosos das outras crianças diante do meu terceiro título consecutivo de ¿Sinhozinho¿ nas festas juninas da escola.
O dia da discussão inflamada dos meus pais no momento da notícia da partida de minha tia Karina, enquanto que eu, aos cinco anos, sabia que ela acabara de se transformar na estrela mais reluzente do céu.
O dia do retorno para Porto Alegre na viagem em que estava o meu pai, o cachorro Yago e eu, no carona do Dodge Polara de teto solar improvisado.
O dia de o meu coração bater diferente por aquela menina linda de cabelos sedosos, tão rica, tão chata, nunca olhou pra mim.
O dia que a professora do Jardim de Infância perguntou para a classe ¿quem veio primeiro: o ovo ou a galinha?¿ E eu respondi: foi o galo! Disseram a minha mãe que eu era um gênio...
O dia que ¿O Pequeno Príncipe¿ lido por minha mãe despertou no meu interior o amor pelos livros.
O dia de descobrir que a minha amiga invisível realmente existia.
O dia de descobrir que eu era diferente das outras crianças, fingindo ser igual a elas com medo de que me achassem esquisito.
O dia da primeira bola de futebol de couro que veio acompanhada do uniforme completo do meu Internacional.
O dia andrajoso das balas perdidas que encontraram os corpos inocentes dos meus colegas revolucionários.
O dia de me olhar no espelho e sentir-me abominável diante dos primeiros pêlos da puberdade.
O dia mágico do meu primeiro beijo, quando provei o primeiro gole do néctar da vida, entre os lábios afinados da menina Isabel ¿ a mais bela lá da vila ¿ o que foi que ela viu em mim?
O dia do tiroteio sem fim no Jardim Aparecida e eu clamando a Deus ou aos deuses por dias melhores.
O dia de se orgulhar por não ter enveredado pelo mundo do crime, sequer experimentando droga alguma, vizinho durante anos do maior traficante do bairro.
O dia do Gigante da Beira-Rio lotado naquela noite fria de quarta-feira, quando o meu padrinho me levou à final do Campeonato Gaúcho para ver o meu Inter campeão pela primeira vez, o gol no gre-nal decisivo foi do Fabiano.
O dia do meu primeiro amor, ela mais apaixonada por mim do que eu por ela, eu até que gostava da menina, mas nem tanto de minha sogra mal-amada.
O dia de minha liderança na turma da sétima série: tive um voto a mais do que Pâmela ¿ ¿a guria dos seios gigantescos.¿
O dia de ¿ficar¿ com as gurias do Jardim Aparecida e as do colégio, simultaneamente, geração horrorosa essa nossa.
O dia das dificuldades financeiras, foram tantas, tamanhas, minha mãe incansável e batalhadora, consoladora, o meu pai ausente, e eu consciente de tudo.
O dia das minhas duas avós reunidas: a materna vivaz, hiperativa, com a sua gargalhada uníssona em cascata, ante a reservada, contida, com a fisionomia satisfeita, ao menos naquele momento.
O dia de aprender com o meu avô materno como uma mulher deve ser tratada, ele que sequer se alimenta se a amada não estiver ao seu lado.
O dia do meu padrinho querido, embriagado, naquele churrasco de domingo em família em que ele dedilhou ¿Refrão de Bolero¿ dos Engenheiros do Hawaí.
O dia do meu namoro escondido, proibido, o melhor dos namoros, atrás da igrejinha evangélica daquela rua deserta: eu suando, ela sorrindo.
O dia que a águia de minha escola de samba do coração ¿ Bambas da Orgia ¿ quase não pôde entrar na avenida por medir dezoito metros.
O dia do meu primeiro e único porre, regado à Coca-cola com cachaça vagabunda,
naquele bar vagabundo, onde podia-se ouvir o som de um pagode não-menos vagabundo. E o banho gelado que a minha mãe me deu em seguida, apavorada com o meu estado, pensei que ia morrer.
O dia de trocar de calçada ao avistar o meu pai, para que ele sentisse que a minha revolta nada mais era do que o meu próprio amor por ele.
O dia que minha tia levou-me a Sociedade Espírita Simão Pedro e eu pude compreender o incompreensível.
O dia da viagem pelo interior do Rio Grande até Buenos Aires jogando futebol, e o gol de falta no ângulo que fiz naquele goleiro gordinho e mal-encarado (está procurando a bola até hoje).
O dia de conhecer Gibran Kahlil Gibran e a literatura fascinante do Oriente Médio.
O dia de festejar minhas dezenas de avós: vó Shirley, vó Dileta, vó Neuza, vó Vera, vó Nymia, vó Ligya, todas maravilhosas.
O dia daquela mulher alta de olhos turvos e sonsos, que passou por mim na rua vazia e me olhou como se já nos conhecêssemos, nunca foi minha amada, mas podia ter sido.
O dia de reinventar a Revolução Farroupilha na peça teatral da escola que escrevi em uma semana: os farrapos venceram o império, também teve hip-hop no desfecho, além do meu discurso inflamado e improvisado feito para revolucionar, mas que apenas comoveu.
O dia das guias de Oxum e Oxalá, na linha de umbanda, presentes que guardo com respeito e devoção.
O dia das pedras atiradas pela torcida organizada do Grêmio: todos os vidros do ônibus caíram sobre os nossos corpos deitados no corredor, nenhuma morte, todos feridos, e a vitória do meu colorado no gre-nal do Olímpico que vingou-nos o susto.
O dia de sol que veio com a fada, e que nunca me deixou, nem me deixará jamais.
O dia da quinta-feira em azul e branco na Voluntários da Pátria, com samba e cerveja gelada para comemorar o título de minha águia adorada.
O dia do café da tarde com os meus pais separados, perguntas de um lado, ironias de outro, e eu sorrindo de forma desenfreada, ouvindo tudo, enquanto tomava banho.
O dia da maestria didática do professor Jorge Andrade, e o dia que o professor de história Eduardo Freire me ensinou a duvidar de tudo, depois de Marx ter ensinado a ele.
O dia da primeira conversa com ela, foi na parada 48, esperávamos o ¿L1¿, e o dia do primeiro beijo: Jardim Alvorada, rua pouco iluminada, esquina clássica de minissérie da Globo, a pergunta, a surpresa, e, enfim, o beijo que está na minha boca até hoje.
O dia de compor ¿Inverno¿ ¿ minha primeira poesia ¿ em uma madrugada quente da primavera gaúcha, no meu ser havia frio e gelo, era a minha despedida do Rio Grande do Sul.
O dia de entender Caetano ao me deparar com a dificuldade de entender gregos e baianos.
O dia mágico da Lavagem dos ex-votos do Bonfim, o banho de água de cheiro que os Filhos de Ghandi me deram e o contraste dos cheiros da urina, do dendê, do suor, e do sexo.
O dia de presenciar o carnaval privatizado para as elites, na Salvador segregadora em sua própria pátria afro-brasileira, onde os brancos e ricos fazem à festa no conforto dos camarotes e na segurança das cordas que contornam os trios: cordas da desigualdade, puxadas por aqueles seres vitimados pela miséria da disparidade da renda, aprendendo que por aqui, a maioria populacional é a minoria política.
O dia de passar uma noite e uma madrugada inteira bebendo com aquele colega do CPM de que não me recordo o nome, filosofando sobre religião, amor, sexo, vida e morte.
O dia de chorar deitado, antes de dormir, ouvindo Vapor Barato e Amor de Índio, meu lado emocional.
O dia de me sentir pequeno e insignificante, diante do menino sujo e franzino que me pediu um pão na saída da padaria antipática do português antipático.
O dia de sentir saudades do Xis tudo da Avenida Borges que eu sequer comi, mas que me parecia delicioso na boca dos que com ele se deleitavam.
O dia de minha tristeza em decorrência da derrota do Tarso, e o dia que as minhas ilusões políticas caíram por terra, tive que criar outras.
O dia do tesão estonteado das mulheres ricas lá da faculdade pelos dois únicos suburbanos da sala: Alex e eu.
O dia do sucesso de crítica dos meus textos medíocres e dos meus seminários superficiais,
compreendi Paulo Coelho.
O dia do meu exílio sem ditadura em Feira de Santana, a ditadura era outra.
O dia da minha viagem na máquina do tempo que me fez viver na década de 60, lutando contra o militarismo pela liberdade de expressão, ofertando o meu sangue pelo Brasil para não me sentir tão inútil e submisso como agora.
O dia da oportunidade para melhorar de vida oferecida por um grande amigo, pelo qual me faço eternamente grato, ele sabe disso.
O dia que os meus parentes e amigos do sul fizeram-me me sentir como um criminoso por ter a coragem de buscar dias melhores.
O dia da bolsa de estudos que conquistei sem dinheiro algum, apenas com o meu esforço, fazendo com que eu fique embasbacado até hoje quando entro pelo portão da faculdade.
O dia de aprender a dizer não aos que não possuem a gratidão como atributo, tornando-me mais humano e mais amigo comigo mesmo.
O dia da insônia que me obrigou a fitar o porto iluminado de Salvador através do vidro da janela lá do apartamento, observando à majestade da lua e criando filosofias sobre a inexistência dos fins, a veracidade dos sonhos e a necessidade constante de recomeços.
O dia que acaba de nascer anunciado pelo raiar resplandecente do sol, enquanto interrompo minha escrita por um minuto e dirijo-me até o espelho do banheiro, dizendo para mim mesmo: hoje, estou completando vinte anos. Quisera eu duzentos!
O Perigo da Sensualidade.
Daiane Sales
Noite quente. Um pingo de suor contornava o seu corpo impecável. Era a mais desejada de toda a ilha. Nicole, com seus cabelos longos e ondulados, sua pele morena e suave, mas... pecaminosa e ardente. Andando, com os pés descalços, parecia flutuar e dançar. Não havia um que não sentisse vontade de possuí-la. Todas as demais mulheres que habitavam a ilha pareciam derreter com o ácido da inveja.
O lugar era coberto de maravilhas. A mais maravilhosa de todas tinha todos os homens rastejando-se aos seus pés. Todas as noites, Nicole seduzia um indivíduo; mas todos que já passaram por sua vida nunca foram capazes de satisfazê-la à altura... por completo. Por isso, usá-los, abusá-los e sugá-los era o seu maior triunfo; até que a morte levava-os embora. Este era o preço do prazer. Bastava Nicole lançar o seu olhar penetrante, o seu lindo sorriso e... era mais um que, ao amanhecer, seria descartado num corpo frio e seco.
A cada luar ela vivia sufocada, inquieta. Ela ardia em pêlo, desejo. Seu corpo conduzia-a, inconscientemente, em uma posse infinita. Prometera a si mesma que nunca haveria de se envolver a míseras criaturas insignificantes... tudo o que fazia era apenas satisfazer a sede de sua pele. Sede do bel prazer. Porém, em uma noite misteriosa de lua cheia, irradiante de segredos, Nicole foi surpreendida por um homem nunca visto antes por ela.
Ele a envolvera em seus braços divididos; segurou-a com firmeza, apertando-a diante do seu peitoral vasto. Era finzinho de tarde. Em frente àquele homem, Nicole sentia-se frágil, pequena... perto daqueles músculos imensos. Seus lábios permaneceram entreabertos. Nenhuma reação fazia. Nenhuma palavra a revivia. Apenas a respiração mostrava-se ofegante. Ela era incapaz de acreditar, muito menos de reconhecer, mas havia se apaixonado naquele minuto. O homem carregou-a como uma noiva. Nicole sentia-se fraca, mole... deixava que ele tomasse as decisões, já que não mais raciocinava.
Nicole, tão esperta e corajosa, agora seguia sem pensar, carregada. Para aonde? Não sabia. Chegaram numa barraca abandonada, simples, porém aconchegante. Era um lugar envolvente, distante de tudo aquilo que ela estava acostumada a ver em sua ilha, diferente de tudo o que conhecia. Ele a colocou sobre a cama. Os olhos esverdeados de Nicole brilhavam. Por cima dela, o homem deitou-se... rasgando as roupas que a cobriam. Em meio a suspiros e delírios, a fez sua escrava. Entregou-se, trêmula, mas sem deixar de ser sensual. Pela primeira vez sabia o que era amar.
No dia seguinte ele acordou cedinho, despertando com o cantar dos pássaros. Passou a mão sobre a cama molhada de suor e assustou-se... virou e não viu Nicole ao seu lado. Do jeito que estava, pôs-se a correr, correr e correr. Não podia deixá-la escapar. Não podia perdê-la assim, tão facilmente. Parou. Um pouco cansado, ficou a procurá-la com os olhos. Diante do penhasco, observou por entre as pedras. Lá estava ela... radiante, porém, morta.
A síndrome de Mazzaropi
Rafael Fonseca Lemos
O caso é inusitado e tem como protagonista o Dr. Amílcar d¿Alencastro Porto Maranhão que dormiu bonzinho da silva e acordou como se fosse o Mazzaropi reencarnado. Vamos a história.
Dia 16 de janeiro de 1989, noite quente do verão brasileiro. O Dr. Amílcar d¿Alencastro Porto Maranhão sai de sua clínica, a maior clínica de cirurgia plástica da cidade de São Paulo, louco para tomar um uísque dezoito anos em companhia dos amigos que o aguardavam num famoso piano bar da região de Higienópolis, área nobre, da não menos nobre, paulicéia desvairada.
Chegou lá por volta das sete horas, tomou três doses generosas do velho e bom scotch, despediu-se de todos e disse que ia para casa dormir, pois no outro dia, além da jornada habitual na clínica, iria receber, à noite, o prêmio de melhor cirurgião-plástico da cidade de São Paulo, em concorrida cerimônia a ter lugar no Palácio dos Bandeirantes. Teria de estar inteiro, era o que ele pensava e apregoava e até nisso era apoiado pelos amigos que jamais ousaram esboçar qualquer censura contra o todo-poderoso Dr. Amílcar d¿Alencastro Porto Maranhão. Partiu.
Chegando em sua casa, Dr. Amílcar houve por bem tomar um banho demorado, após isso acendeu um derradeiro charuto, leu os jornais que se espalhavam sobre a mesinha de centro da ante-sala da enorme biblioteca, sentiu um tédio danado, resolveu dormir e dormiu. Já era quase 17 de janeiro de 1989.
¿Dormiu bom e dormiu bem¿, era o que garantia Dona Sophia Helena Dubois d¿Alencastro Porto Maranhão, hoje ex-mulher do Dr. Amílcar d¿Alencastro Porto Maranhão. Mas o que houve naquela noite? Para responder a essa pergunta, que por dezesseis anos vem assombrando a alta sociedade paulistana, é que estamos aqui narrando a verdade dos fatos, doa a quem doer, atinja a quem atingir, sem receios de magoar quem quer que seja.
Como se sabe, o Dr. Amílcar d¿Alencastro Porto Maranhão sempre foi o mais respeitado cirurgião-plástico brasileiro, mais respeitado até que seu concorrente mais próximo o carioca Ivo Pitanguy. Formado pela faculdade de medicina da USP, o Dr. Amílcar d¿Alencastro Porto Maranhão se especializou em cirurgia-plástica em Houston, Texas, EUA, em residência de quase quatro anos, entre os anos de 1965-1968.
Fã ardoroso da Lingüística, Dr. Amílcar dominava sete idiomas. Até o famigerado dia 17 de janeiro de 1989. Porém, naquela manhã, o Dr. Amílcar levantou da cama com um andar esquisito e quando Dona Sophia Helena perguntou o que ele ia fazer fora da cama às cinco horas da madrugada, ele se limitou a responder:
- Dorme, muié, não posso nem cagar em paz que você já se mete na minha vida!
E aquilo saiu da boca do Dr. Amílcar com a maior naturalidade do mundo, como se fosse normal responder assim à sua esposa, como se fosse normal usar um Português tão primitivo para se comunicar.
Com justificada estranheza, Dona Sophia esperou o Dr. Amílcar sair do banheiro, e lhe repetiu a pergunta:
- Meu bem, posso saber o que você está fazendo fora da cama numa hora dessas?
Obteve como resposta algo muito parecido com a resposta que já lhe dera o marido:
- Ara, fui cagar, peste! Será que nem cagar nessa casa é permitido, eu heim!
Nervosa, mas acreditando que aquilo era de fato uma grande brincadeira do marido, Sophia pediu a ele que parasse de pilhérias até porque aquele seria o dia da grande homenagem a ele e não ficaria bem um homenageado se comportar como um caipira, ao melhor (ou seria pior?) estilo do Mazzaropi.
Ele ouviu as ponderações da mulher, olhou para cima, suspirou e disse quase num lamento:
- Vou tomar banho e sair. Tenho que trabalhar no consurtório que hoje tem uma penca de madame pra atender e o que não farta é pelanca pra costurar. É um tar de tira daqui, coloca ali que chega a dar um nó nos dedo da mão. E de noite eu ainda vou naquela festa pegar o prêmio que eles resorveram me dar pra puxar o meu saco. Qualquer dia desse eu inda prego fogo nesse bando de desocupado que adora fingir que são meus amigo.
Definitivamente, algo grave acontecera durante o sono do Dr. Amílcar a ponto de transformar um homem cultíssimo num matuto da mesma linhagem do afamado Jeca Tatu. E o mais curioso, e paradoxal, era perceber que os conhecimentos médicos continuavam intocados, e até mais aguçados se é que isso era possível dado o nível de excelência dos conhecimentos do Dr. Amílcar.
Mas se os conhecimentos médicos haviam sido preservados, não se pode dizer o mesmo do novo linguajar e dos novos hábitos, uma verdadeira lástima.
O Dr. Amílcar, que em tudo era requinte e sofisticação, passara a ser, sem tirar nem pôr, um novo Mazzaropi, com todos os hábitos, tiques, falas e gestos do antigo astro dos cinemas e é claro que isso trouxe as mais impensáveis conseqüências.
Como narramos, a primeira vítima foi a esposa, Dona Sophia Helena que acostumada a dormir com o antigo Amílcar, sentiu-se pouco à vontade ao acordar nos braços do Dr. Mazzaropi e, por isso mesmo, dois meses depois da primeira crise do marido, pediu a separação em caráter irrevogável.
Aos que pensam que o Amílcar, ou Mazzaropi, se incomodou com a separação, transcrevo aqui a reação do nosso herói, na íntegra: ¿Que vá pro inferno aquela vaca que o touro aqui tá vivendo no paraíso¿. E nunca mais quis saber mesmo da vaca.
A clientela também foi diminuindo, por razões óbvias. Houve uma vez que o Amílcar-Mazzaropi atendeu a mãe do Governador de São Paulo. Uma hora inteira de exames e ao final ele sentenciou: ¿Óia, minha senhora, não tem jeito não. Esse teu nariz parece um cabo de garrucha, a oreia parece um naco de bacon esticado na fritura e esses fiapo de barba que saem da verruga nem Jesus Cristo dá jeito. A senhora é só jogando fora ou se conformando em viver com a cara que a mãe natureza te deu¿.
Noutra oportunidade, atendendo uma socialite porto-alegrense, ele foi mais categórico ainda: ¿ Silicone nos peito eu até coloco, mas mudá a cor dos bico de marrão pra cor de rosa só se eu fosse milagreiro¿. E a mulher saiu dali tão ofendida que por pouco não reacendeu a velha guerra entre paulistas e gaúchos naquele exato instante.
E vendo toda aquela situação, os amigos mais próximos tentaram recobrar a consciência do Amílcar, ao que ele respondia: ¿Consciência eu tenho, o que me farta é paciência¿. E logo que dizia isso se acocorava, acendia um palheiro, dava uma boa tragada e cuspia um jato de canto de boca, para o horror dos amigos presentes.
Os que viram dizem que a última consulta do Dr. Amílcar d¿Alencastro Porto Maranhão, já amplamente dominado pelo espírito do Mazzaropi, foi com um conhecido deputado federal do estado da Bahia, em dezembro de 1989. O homem se consultara para remodelar o rosto, refazer o corpo e se possível ganhar vastas madeixas que lhe devolvessem a eterna juventude.
O Dr. Amílcar d¿Alencastro Porto Maranhão recebeu o político em seu consultório, apalpou-lhe as faces, afundou a ponta dos dedos nos tufos de cabelos que bravamente resistiam na região da nuca, apertou a gordura espessa da barriga, mediu toda sorte de diâmetros corporais e sentenciou: ¿A medicina tem muito pouco pra fazer com você, mas essa banha toda transformada em torresmo rende umas três arroba bem servida. Se quiser fazê negócio comigo eu te tiro o toucinho aqui mesmo e nem cobro nada. É o meu serviço em troca da banharia toda, e nós dois ficamo no lucro¿. E dito isso se acocorou na sala, acendeu mais um palheiro e cumpriu seu novo ritual de pitador.
Depois dessa os amigos se afastaram, o consultório fechou, a história ganhou inúmeras versões (há quem jure que ele foi internado como louco no sul de Minas Gerais a pedido do tal deputado), e foi tão contada quanto esquecida, e hoje o Dr. Amílcar d¿Alencastro Porto Maranhão é lembrado como o personagem de uma lenda que transformou o médico mais famoso de São Paulo numa cópia fidelíssima do Mazzaropi.
Quanto à lenda que se criou, muitos crêem, muitos desacreditam totalmente e na faculdade de medicina da USP lançaram até mesmo uma monografia com o tema: Síndrome de Mazzaropi ¿ Como um cérebro brilhante deu lugar à mente de um caipira.
Alheio a tudo isso, Dr. Amílcar d¿Alencastro Porto Maranhão voltou a residir em Houston, no Texas, em janeiro de 1990, pois lá deixara seu verdadeiro amor, Mary Kate Lifeson d¿Alencastro Porto Maranhão, sua deliciosa, loira e peituda esposa norte-americana, e suas verdadeiras razões de viver, os três filhos: John, Paul e Ringo, todos nascidos entre 1965 e 1968.
Desde janeiro de 1990, o Dr. Amílcar é o Diretor-Geral do East Houston Regional Medical Center, onde, só no ano de 2004, operou cento e quinze pacientes.
Quando perguntado se tem saudade do Brasil, o Dr. Amílcar d¿Alencastro Porto Maranhão diz que sim, mas somente tem saudade dos filmes do Mazzaropi, pois foram filmes que mudaram a sua vida.
P.S.: 1- Em novembro de 1990, Mary Kate Lifeson d¿Alencastro Porto Maranhão deu à luz a George, quarto filho do casal e todos foram felizes para sempre. 2- Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com fatos e pessoas reais será mera coincidência. 3-Caipira é esperto pra cacete e o amor, como vimos, justifica tudo nessa vida.