Descobrindo novos cronistas...
sobre o blog
Acredito que todos nós um dia na vida já escrevemos um texto que gostaríamos de compartilhar com outras pessoas, mas cadê espaço?

Foi pensando assim que criei o Vamos Cronicar que tem uma meta muito simples: colocar na internet crônicas e contos de escritores envergonhados, anônimos, de primeira viagem e até mesmo daqueles que já sabem bem o ofício...

Para tanto gostaria de pedir a vocês que mandem suas crônicas, contos, poesias que estão aí, guardadinhas na sua mente ou esquecidas numa gaveta, para cá.

Participe e obrigada por visitar esse espaço!
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Maria Carolina,criadora do blog
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Segunda-feira, Janeiro 23
A corda sempre arrebenta do lado mais fraco
Rafael Fonseca Lemos

O cara ia sentadão lá no fundo do ônibus. Em certa altura, entram no veículo mãe e filha. A mãe deveria ter uns 42 anos, mas tinha uma cara de bruaca que faça-me o favor; a filha devia ter uns 16 aninhos e uma saúde dessas de tirar o chapéu, um corpinho escultural e um rostinho de anjo, ai, ai.

Pra quê? O cafajestão lá do fundo ó, grudou os olhos na mina, e a mãe, que de boba só tinha o molejo, censurou o folgado, ali mesmo, na bucha:

- Tá admirando ela, né? Bonita ela, né?

O rapaz, de bate-pronto, sapecou:

- De fato, muito bonita a sua neta! - e o cara falou isso na mais pura maldade afinal de contas a mulher era feia, mas não parecia avó da garota.

Ah, senhores, a mulher se queimou, com justa razão, onde já se viu?! E daí engrossou com o "cafa":

- Mas essa é muito boa! Não bastasse devorar minha filha com os olhos agora me xinga de velha! Me xinga de velha! De velha!

Só que a mãe ofendida mal acabou de dizer aí o seu travessão e foi logo censurada por uma velhinha que estava no banco para idosos, logo depois da catraca.

- Te xingou de velha? Mas desde quando velha é xingamento! Velha não é xingamento, não!

E a velha apresentou, aos berros, seus argumentos e logo ganhou a solidariedade de um rapaz que se encontrava também na cena. Disse o moço, mais solidário que Natal de pobre:

- A senhora está coberta de razão, vovó. E eu, como estudante de Direito, ofereço-me para processar essazinha aí por danos morais e patrimoniais! Eu processo, processo! - vociferava o causídico como se estivesse diante do homicida de sua própria mãe.

Só que, de repente, houve nova manifestação. Outro rapaz, um pouco mais velho, pediu a palavra e se meteu:

- Você é estudante de Direito?
- Sim, declarou-se o moço-solidário.
- Estudante ainda?
- É!
- E vai processar como, se você nem é inscrito na OAB?
- Bem, eu...
- Você é um charlatão, rapaz! E sendo eu advogado, formado pela PUC, devidamente inscrito na OAB, com anuidade paga até dezembro de 2006, dou-te, agora, voz de prisão, por exercício ilegal da profissão!

E tudo isso acontecendo dentro do ônibus que seguia, a duras penas, o seu itinerário.

Enquanto o pau comia lá pelo fundo do veículo, um bom velhinho aproximou-se do cobrador e perguntou:

- Meu filho, onde é que fica o ponto do campo do Atlético? Eu preciso descer no campo do Atlético, ouviu? Do Atlético, ali na Arena, que antes era Joaquim Américo, mas isso já faz tempo. É ali que eu vou ficar, entendeu?

Respondeu o cobrador:

- Ah, vovô, fica a uns cinco ou seis pontos daqui, quando chegar lá eu te dou um toque! Fique frio!

- Ah, então tá bom, filhinho, tá bom, eu te agradeço!

E o pau tomando proporções inomináveis, dantescas e o motorista, nem aí com aquela guerra, continuava a cumprir o roteiro definido para aquela linha de transporte coletivo.

E lá atrás:

- Tá preso!
- Velha é a tua mãe, cafajeste!
- Pára de olhar pra minha bunda, gostoso, quer dizer, horroroso!
- Sou estudante da UFPR, melhor que estudar Direito na PUC!
- Processo, sim, tá pensando o quê?
- Charlatão!
- Olha o campo do Atlético, vovô! Olha o ponto do campo do Atlético!
- Vem cá que eu te furo os olhos, debochado!
- Tá no código penal, exercício ilegal da profissão, seu safado!
- Todo mundo um dia fica velha, meu bem, você também vai ficar!
- Olha o campo do Atlético. Olha o ponto do campo do Atlético!
- Pára de olhar pro meu decote, meu amado, quer dizer, tarado!
- Sou estudante da UFPR, melhor que estudar Direito na PUC!
- Processo, sim, tá pensando o quê? Olha a "Persecutio crimini"!
- Lana caprina, Lana caprina!!!
- Charlatão!
- O campo do Atlético passou, vovô! O campo do Atlético passou, vovô! - exaltou-se o cobrador tentando chamar a atenção do velhinho que lhe pedira a preciosa informação!

De repente, fez-se o silêncio - e não foi qualquer silêncio, não; fez-se o silêncio!

E o cobrador, atônito, repetiu:

- O campo do Atlético, passou, vovô! Agora o próximo ponto só lá na praça, só lá no ponto final.

E eis que diante da informação do cobrador, todos esqueceram suas desavenças particulares e se voltaram contra o coitado, usando as piores palavras já inventadas nessa tal Língua Portuguesa.

Resultado da história: o cafajestão se casou com a menina gostosa. A mãe nervosa está aprendendo tricô, com a velha injuriada, para fazer o enxoval do bebê que já está a caminho. O advogado contratou o estudante e hoje ambos trabalham num belo escritório que vende meias Vivarina, facas Ginsu-2000, canetas Penalli, toda a linha branca da Suggar, todos os produtos da Avon, além, é claro, de prestar serviços esotéricos tendo como base o Tarô de Marselha. O velho continua pegando o ônibus, diariamente, para ir visitar uma moreninha linda que mora ali perto do campo do Atlético e que tem 50 anos menos que ele. O cobrador continua procurando emprego, pois, como se sabe: a corda sempre arrebenta do lado mais fraco. E com ele não foi nada diferente!
Sexta-feira, Janeiro 20
Ela me traiu com Chico Buarque
Rafael Fonseca Lemos

Senhores, o que eu tenho feito com os poetas brasileiros e com suas poesias é digno de ação penal pública incondicionada. Sim, eu confesso: tenho usurpado versos inteiros, venho modificando odes e sorvendo sonetos, mas faço isso tudo por amor e, se isso não descaracteriza o crime há de, pelo menos, atenuá-lo.

Este meu reprovável comportamento se deve ao amor e também à premente necessidade de tocar o coração feminino com palavras para depois poder tocar todo o resto do corpo das amadas. É como eu sempre digo: os fins justificam os meios!

Sim, eu sou um homem que ama. Desculpem-me se essa revelação desaponta aqueles que acreditam que eu só consigo amar meu time de futebol mas, acreditem, eu sou capaz de amar algo diferente do Clube Atlético Paranaense e já amei, e tanto, que mesmo em face do maior encanto meus amores foram eternos enquanto duraram.

Um desses amores (que tive) ocorreu em 1995, ano, aliás, que marcou a recuperação futebolística do meu querido Atlético Paranaense. Lembro-me muito bem dela (refiro-me a minha namorada da época e não à recuperação do Atlético). Pois eu ia falando dela e logo fiquei pálido de espanto. Era linda a minha namorada: alta, loira, grandes olhos verdes e uma boca carnuda acolhendo dentes (todos os 32!) capazes de morder minha carne, às vezes por paixão, freqüentemente por raiva. Ah, aquela mulher tão doce e tão selvagem, quem diria, gostava de poesia. E eu haveria de ser seu poeta, não exatamente por vocação, mas por medo de que ela viesse a me morder aquela carne menos tenra, o que me faria, certamente, ver e ouvir estrelas, direi.

Então, para agradá-la, comecei a fazer versos de minha própria lavra, o que me rendeu quase dois sonetos, ou seja: apenas dois bilhetinhos para ela. Mas ela queria mais e, para me inspirar, começou a me mandar bilhetes cheios de versos que, para a minha surpresa, eram realmente muito bons.

Num desses bilhetinhos dela, estava escrito: "Quero ficar no teu corpo feito tatuagem que é pra te dar coragem de seguir viagem quando a noite vem...". Li o bilhete e estremeci de paixão: ela queria ficar no meu corpo feito tatuagem! Vocês imaginam lá o que é isso? Tatuagem é para a vida toda, não é coisa passageira, não! Agora, mais do que nunca, eu estava apaixonado por ela, afinal ela era linda e era poetisa. Guardei aquele bilhete como quem guarda algo muito precioso, debaixo de sete chaves, dentro do coração.

E foram meses e meses de troca de cartinhas, nas quais promovi parcerias literárias insólitas e impensáveis. Houve bilhetes de Drummond e Rafael, de Olavo Bilac e Rafael, de Vinicius de Moraes e Rafael e, numa fase mais tensa, João Cabral de Melo Neto e Rafael escreveram: "Nosso amor é como um rio, onde correm cicatrizes, mas o amor, na água do rio, lentamente, vai se perdendo em lama, numa lama que pouco a pouco também não pode falar e, assim, nós calamos e nosso amor emudece".

Ela leu essa carta e replicou, emocionada: "Meu amor, você não sabe como eu estou sofrendo, como é difícil acordar calada, se na calada da noite eu me dano, quero lançar um grito desumano que é uma maneira de ser escutada, esse silêncio todo me atordoa"!

Trepliquei à altura e, associando-me ao Drummond, mandei a ela um bilhete que dizia: "Não quero esse teu silêncio, por isso eu preparo uma canção em que você se reconheça, em que você enfim se reconheça e que, afastando o silêncio, fale como dois olhos".

E após tanta troca de cartinhas ela me deu um fora tão grande que poesia nenhuma foi capaz de dar jeito! Acabei me conformando e me restava o consolo de, pelo menos, não ter sido descoberto nos meus plágios, por ela. Outro consolo que me restava eram aqueles bilhetes lindos que ela me escrevia durante o namoro. Num desses bilhetes, ela disse: "Vem meu menino vadio, vem sem mentir pra você, vem, mas vem sem fantasia que da noite pro dia você não vai crescer... não evite meu amor, meus convites... vem perder-te em meus braços, pelo amor de Deus...vem que eu te quero todo meu"! E desse bilhete eu gostava, em especial. "Vem perder-te em meus braços", eu repetia me lembrando das tantas vezes em que tinha me perdido nos braços dela, pelo amor de Deus!

Mas, como eu disse no início desta crônica, tudo isso aconteceu em 1995. Muito tempo se passou até que, em 1999, eu entrei numa loja de cd´s e comprei uma coletânea do Chico Buarque que até então, para mim, só cantava "A Banda" e "Brejo da Cruz".

Cheguei em casa, coloquei o cd para tocar e o Chico, logo de cara, atacou um "Samba de Orly". Fiquei admirado. Mas admiração mesmo viria na faixa seguinte quando a Maria Bethânia sapecou um "Sem Fantasia" que, coincidentemente, tinha a mesma letra de um dos bilhetes da minha ex-namorada. Dali por diante as coincidências literárias se arrastaram até a última faixa que, sugestivamente, chamava-se "Cálice".

Quatro anos depois eu soube - fui o último a saber, mas soube - que ela, quando me escrevia, me traía com o Chico Buarque!

É verdade que eu bem que merecia, afinal minhas cartinhas para ela misturavam versos meus com versos de outros tantos poetas (sentiram a minha modéstia?), mas eu tinha feito aquilo tudo por amor e por ela. E ela? Teria feito por amor, por mim ou por falta de idéias e inspiração?

Eu nunca soube a verdade. O fato é que eu estava a morrer do meu próprio veneno (não era assim que o tal Chico Buarque dizia? Pois é...).

Naquela noite, eu fiquei sentado, no meio da sala, ouvindo todo aquele cd e rasgando todos os bilhetes dela e do Chico Buarque, até o fim!

Hoje, felizmente, eu conheço todas as músicas do Chico. Hoje eu já não produzo aquelas parcerias literárias insólitas do passado e só escrevo coisas da minha própria autoria. Enfim aprendi que o plágio é uma pedra no meio do caminho, e como eu plagiava muito, sempre tinha uma pedra no meio do meu caminho, no meio do caminho sempre tinha uma pedra. Posso dizer que aprendi a lição! Traí e fui traído, mas dela não tenho raiva. Foi um tempo bom, ela foi um pedaço de mim e a saudade dói como um barco que aos poucos descreve um arco e evita atracar no cais. Mas, meu caro amigo, vai passar!
Terça-feira, Janeiro 17
LEIA AGORA
Ricardo Frugoli

Agora é todo o tempo que temos, se pensarmos que não tem como voltar aos momentos passados nem visitar os momentos futuros. Estamos confinados portanto, em um momento
Presente contínuo. Só existe de fato o agora. Tudo o que já nos aconteceu pertence ao campo da memória, sob a forma de recordações muitas vezes imprecisas. Assim como os outros sentidos nossa memória é seletiva. Prestamos atenção em algum detalhe e é isso
o que vai ficar registrado. Então temos esta ¿caixa preta¿ de acontecimentos passados, sendo que boa parte se perde ou permanece sob a forma de pequenas lembranças.
Com sorte acumularemos em média 60 anos de recordações fragmentadas, porque as lembranças da primeira infância são poucas, e a vida adulta acaba nos brindando com coisas que preferimos esquecer.
Viver agora, sentir tudo o que está a nossa volta, estar consciente de que o futuro é daqui a
Algumas palavras e o passado algumas palavras atrás. O que pensamos e como realizamos
Determina o nosso destino. O tempo é mesmo o senhor de todas as coisas, sem apelações jurídicas, místicas, religiosas. Lembro da minha filha, na época com 5 anos, me chamando para compartilhar uma grande descoberta.
¿-Pai, sabia que hoje é o amanhã de ontem?¿
Aquela pequena passageira do tempo havia penetrado com seus olhos de criança em uma
grande verdade, ocultada pela visão parcial de muitos.
É hora de se perguntar ¿O que eu fiz do meu agora?¿. As respostas podem ser muito relativas, de acordo com a Física e o nosso interesse pessoal. Para escrever este texto, bastante temporal, estou levando 1 hora e alguns minutos. Para ler, você acaba de completar 1 minuto e 30 segundos.
Segunda-feira, Janeiro 2
Tempestade
Claudio Terovydes

Parece que o tempo fechou
E se faz chuvas sobre mim
Esfria, venta nos meus pensamentos
E agora escuto relâmpagos que eu mesmo criei

Sem mistérios, tudo lógico
Meu mundo entra em desastre momentaneamente
É você meu sol que está faltando
Separada de mim por nuvens de solidão

Minha paixão, meu amor, meu equilíbrio
Entram em desastre emocional
Fico aguardando tudo passar
O momento de te reencontrar

Distante, separado por necessidade
Me sinto num mundo em tempestades
Sem contato, separado por barreiras
Me entristeço, falta a sua verdade viva em mim

Como homem sem rumo no temporal
Aguardando o momento de seguir novamente
A verdade é que às vezes me sinto isolado, sentado num canto qualquer
Esperando a chuva passar, para poder te encontrar

Sem poder me comunicar
Sem poder falar naquele momento
Que te gosto e saber que me ouviu nesse instante
Receber a resposta na hora

São momentos de angustia
Não basta afirmar a mim
Quero sentir minhas palavras ecoar em você
E voltarem repetidas, repetidas, num eco sem fim