O Suspirar do Peão
Murilo Alves
Não, não senhor, tuas ordens hoje não irei tolerar
Acabo de descobrir que sou gente, embora simples,
Gente servente, modesto peão
Se avexe com a baita ironia: dependes de mim, quem diria?
Pois tenho o meu voto nas mãos
Mãos de calos, mãos de sangue, mãos suadas, mãos de mãos
Mãos que cultivam a cana, mãos que digitam então
Mãos que não matam outros homens, mãos que labutam o pão
Mãos que não espalham o terror, mãos das enxadas de irmãos
Mãos que a ninguém manipula, salvo a colheita dos grãos
Não, não senhor, tuas ordens hoje não irei tolerar
Plantei o café lá na roça, comida não há de faltar
Facão, punhal, carabina é pouco pra me intimidar
Fubá e feijão de suborno, minha fome não irá saciar
Justiça, igualdade e direito teu ouro não pode comprar
Trema opressor desumano, coronel vil, tirano
Do clero, da gente nevassa
Caia sob o despertar de um povo, alimentado por um horizonte novo
De luz, que guiará essa massa
Teu império cede enfim, tudo é bruma, veja a fumaça
Onde andará tua arrogância? Morres de inoperância, veja como tudo passa
Hoje não te reconheço, benção muito menos te peço
Se subires rumo à igreja, desço
Cai o primeiro pilar do império, veja a poeira e ruínas
Soltam-se os primeiros grilhões impostos por teu fascismo
De um porco coronelismo, entenda: não mais dominas.
