Descobrindo novos cronistas...
sobre o blog
Acredito que todos nós um dia na vida já escrevemos um texto que gostaríamos de compartilhar com outras pessoas, mas cadê espaço?

Foi pensando assim que criei o Vamos Cronicar que tem uma meta muito simples: colocar na internet crônicas e contos de escritores envergonhados, anônimos, de primeira viagem e até mesmo daqueles que já sabem bem o ofício...

Para tanto gostaria de pedir a vocês que mandem suas crônicas, contos, poesias que estão aí, guardadinhas na sua mente ou esquecidas numa gaveta, para cá.

Participe e obrigada por visitar esse espaço!
Volte sempre!

Maria Carolina,criadora do blog
crônicas arquivadas
particpe você também
Um oferecimento
Layout desenvolvido por Inverno

Powered by Blogger


Sexta-feira, Julho 15
Hapiness Is A Warm Gun
Rodrigo Brasil

Isso aconteceu há quase 15 anos, quando ainda morava na (até então pacata) cidade de Montes Claros. Ainda hoje meu lar sentimental. Estudava no Colégio Padrão e vivia a tranqüilidade monótona de uma cidade interiorana. (Aos meus olhos Montes Claros era ainda uma Macondo, aquela cidade fim de mundo do clássico Cem Anos de Solidão, para mim ela ainda não havia dado aquele ligeiro salto para muitos milhares de habitantes - volto a dizer, aos meus olhos). Minha preocupação era com o dia e com a noite. Bons tempos aqueles. Pulava o muro do Sesc pra nadar escondido ou falsificava carteirinha depois de ter sido pego por algum segurança. A glória máxima foi quando ganhei o direito de ir pra escola de bicicleta. Na minha lembrança, algo que só se emparelha quando me lembro da primeira vez que dirigi um carro.
Luís Guilherme morava no mesmo bairro que eu. Nos conhecíamos de vista, freqüentávamos o mesmo colégio, o mesmo clube (o pequeno Sesc), a mesma praça. Como se freqüentam praças no interior... Pouco demorou a nos tornamos grandes amigos. O que mais me agradava nele era sua fala mansa para conversar, mesmo quando a situação exigia mais rispidez; geralmente quando estávamos perdendo no futebol para o time da Vila Ipê, bairro vizinho ao nosso, o Todos os Santos. As partidas eram sempre disputadas no areião da pracinha, hoje asfaltada e dominada por skatistas, que se bobear, nem eram nascidos quando disputávamos aquelas peladas. Quem visse, julgaria que o cara era chegado num fuminho, devida a sua forma arrastada para conversar. Bobagem. Naquele tempo nem sabíamos que existia marijuana. Nosso dinheiro era único e exclusivo para "enriquecer" Edi, o baleiro da porta do Colégio Padrão. Achávamos que Edi que era rico, tamanho o volume de balas que o sujeito vendia num único dia, e ficávamos horas debatendo, tentando imaginar em que mansão o cara vivia. Outra coisa que me ligava a meu amigo de forma profunda, ainda que silenciosa, era nosso jeito de enfrentar as agruras que a idade pedia. Se na escola nos olhassem atravessados, enfiaríamos nosso rabinho entre as pernas, pedíamos licença e batíamos em retirada. Na lanchonete, se alguém pedisse nossos lugares, seríamos capazes de nos oferecer para pagar a conta do camarada. Não raro, éramos avacalhados pelos brutamontes. Aquela fauna que existe em toda escola ginasial, desde que escola é escola. Éramos covardes. Vivíamos à parte, no nosso ciclo fechado, encalacrado, quase protegido dos bárbaros. Vivíamos ali, tranqüilos, jogando bafo, batendo uma bolinha com amigos de nossa turma, colecionando figurinhas Stamp Color e de Campeonato Brasileiro. Apostando quem seria o primeiro a completar o álbum. Vez ou outra roubávamos chocolate no supermercado. Estive em minha cidade outro dia. E um dia à noite saí pra dar uma volta pelo bairro, a pé. Com exceção de alguns comércios, uma locadora de vídeo, uns poucos bares, nada ali mudou muito. É claro, fizeram mão e contra-mão em algumas ruas, e na minha, por exemplo, é impossível jogar uma pelada, seja qual for a hora do dia - tamanho o volume de automóveis em trânsito. Cadeiras de bar estão hoje em cima do que antes era nosso antigo gol: um poste e uma amendoeira. Pobres crianças, essas de hoje em dia. Não podem e nunca vão saber o que é jogar uma pelada na porta de sua própria casa, entrando no jardim vez ou outra para refrescar a garganta com um jato d'água de torneira. Andei bastante pelo bairro, e fui até à porta da antiga casa do meu amigo. Talvez faça uns 16 anos o ocorrido. Talvez... Não me recordo o mês e, pra ser sincero, sou impreciso até em relação ao ano. Prefiro dizer que tenha sido em meados de 1989. Em um dia desse ano - nesse fatídico dia, eu saí mais cedo do colégio. Por volta das 9h30 da manhã, fiz o caminho que ainda hoje sei de cor, rua por rua, do bairro Melo ao Todos os Santos, em direção à minha casa. No início da tarde, então me chega a notícia. Luiz Guilherme saía do colégio, tranqüilamente, quando foi abordado por um aluno mais forte que ele, a fauna à que me referi acima - o motivo ainda hoje ninguém nunca soube, a não ser o motivo simples da humilhação gratuita. Do forte contra o fraco, do Davi contra o Golias... Tomou um empurrão e nada fez. Caminhou sem olhar pra trás. Uma pequena e histérica multidão os acompanhava. Ainda hoje eu consigo enxergar nos seus olhos seu pedido para que o deixassem em paz. Para que não fizessem aquilo. Para simplesmente esquecerem que ele existia. Então tomou um chute e caiu. Cego de ódio partiu pra cima do seu agressor, que era muito mais forte que ele. Tomou um chute na barriga, e talvez um soco no rosto. Levantou-se e foi embora para casa, sozinho, enquanto seu carrasco era quase festejado pela pequena multidão. Chegando em casa, entrou no quarto do seu pai e pegou a arma. Já tentei inúmeras vezes pensar no que passou pela cabeça do meu amigo antes de puxar o gatilho. Humilhação. Um único tiro na têmpora. Não morreu. Agonizou, ainda que inconsciente, durante alguns dias - cinco talvez, ligado a aparelhos. Na porta da sua casa fiquei imaginando como seria se ele não tivesse disparado a arma. Provavelmente riríamos horrores desta história, e é bem provável que eu o sacanearia, lembrando o quanto ele havia apanhado, e estou certo que ele faria o mesmo, caso estivesse eu no seu lugar naquele episódio. Enquanto isso beberíamos nossa cerveja. Nem chegamos a descobrir juntos o prazer de sentar à mesa com um amigo e pedir uma cerveja. A cumplicidade da mesa de bar. Tínhamos apenas 11 anos. Agora me recordo de uma frase do Fábio Hernandez, um cronista de minha predileção, ao relatar um episódio parecido a esse. Um amigo seu havia cometido suicídio, e então, ao se lembrar do título de uma música dos Beatles, ele se questionou se a "felicidade é mesmo uma arma quente?". E concluiu: "Não sei se a arma quente foi a felicidade. A retirada, com certeza."
E agora faço das suas as minhas palavras.