Recomeço do fim
Dea Justino
Limpava suas gavetas esvaziando sua alma, encontrava papéis de épocas diferentes, rabiscos de uma vida, alguns não se reconhecia, infelicidades somadas a caminhos incertos e sempre errados, busca que eram brecadas pela metade. Mil papeizinhos de telefones jamais ligados, bocas nunca tocadas, corações nunca amados, encontro de corpos sedentos por sexo, esvaindo os sentimentos. Um lixo enorme estava se formando, sua alma dava ares de mais leve, mais áurea, rosto sério de quem se vê lentamente revivendo cada cena. Algumas rugas tornam vistas quando franzi a testas por diversos papéis por ela interpretado. 27 anos. Bastava. Decidirá mudar e em sua mente vinha quantas outras vezes decidirá mudar e nada tinha feito, mas dessa vez faria diferente, colocaria o que resta de sua vida em uma mochila, jogaria o diploma no próximo rio que encontrasse, estava se desfazendo de telefones de pessoas mortas-viva em sua vida, de sexo sem amor, de amigos não amigos, da vida não escolhida, rasgava a cada novo papel a brigas insanas como seu mais longe namoro de dois meses, lembrava-se que decidirá ficar com ele por carência absoluta, que em nada ele a agradava, sorriu sarcasticamente quando lembrou disso, em seguido morreu o sorriso, e seus olhos mergulhavam-se em águas, fez gesto para limpar e não deixar a lagrima correr, chorar demonstrava fraqueza, e cansou de ser fraca. Continuava a tirar coisas da mesma gaveta, era uma das únicas que ainda tinhas coisas, lembrou-se do poema criado-mudo de Mario Prata, e ainda sorriu meigamente em confirmar que tudo que ele dissera lá era verdade, que essa peça muda em minutos gritara anos da sua vida e mais uma vez franziu a testa por lembrar-se das últimas palavras de Mario Prata naquele conto, onde ele dizia que nunca começamos dinovo, sempre continuamos. Amassou fortemente outro papel. Ela iria começar dinovo, contrariando todas a regras. A partir de agora, seria outra mulher, uma nova mulher, outra vida, sorrisos prendidos a outros sorrisos, estava pedindo a conta da sua vidinha medíocre.
Com esses últimos pensamentos, pegou sua mochila, e a pequena mala com rodinhas, deixando a chave na porta, desceu as escadas e chegou até a rua. Respirou forte e fundo querendo sugar todo o ar possível que seus pulmões comportava, rosto sereno, mas a certeza de ter dado uma vez na vida o passo certo, olhou o semáforo verde e caminhou pela faixa de pedreste, enquanto que quase em câmera lenta entre em seu caminho um opala com vidros negros, que cessa seus olhos em um começo incerto.
Obs. O que, irremediavelmente, se perde com o tempo, é a oportunidade de mudar, que muitas vezes gritam na nossa porta e insistimos em não vê-las, por acomodação, medos, paradigmas, sociedade, e muitas vezes deixamos-no perde pelo tempo e quando tentamos tirar o pé disso tudo algo nos suga para dentro de novo.
