Descobrindo novos cronistas...
sobre o blog
Acredito que todos nós um dia na vida já escrevemos um texto que gostaríamos de compartilhar com outras pessoas, mas cadê espaço?

Foi pensando assim que criei o Vamos Cronicar que tem uma meta muito simples: colocar na internet crônicas e contos de escritores envergonhados, anônimos, de primeira viagem e até mesmo daqueles que já sabem bem o ofício...

Para tanto gostaria de pedir a vocês que mandem suas crônicas, contos, poesias que estão aí, guardadinhas na sua mente ou esquecidas numa gaveta, para cá.

Participe e obrigada por visitar esse espaço!
Volte sempre!

Maria Carolina,criadora do blog
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Quinta-feira, Abril 21
COMO SERIA...
Bluewoman

Quando resolvemos realmente ficar juntos tivemos que perder algumas vergonhas
ainda existentes, pois muitas vezes as nossas palavras ficavam apenas no olhar,
mas que com um toque, um sorriso sempre conseguíamos esclarecer os sentimentos
escondidos na vergonha das palavras.
Eu realmente gostava muito disso, dessa compreensão sem palavras, dos ossos que
forçam para movimentar-se, mas que mantém no silêncio dos movimentos as
vontades reprimidas. Sabe aquela paixão que parece grudar na pele e que de
qualquer forma quer sair, mas não sabe por onde? Era esse tipo de amor que
tinha por ele. Era como uma respiração ofegante, mas um pouco pausada como um
ator em cena de um grande drama. Sim, sim! Era um amor contido no drama do não
gostar e gostar, do esconder e parecer, do olhar lateral, da timidez.
Quando sentávamos para conversar esquecíamos quase que simultaneamente que
éramos um casal e eram nesses momentos aparentemente simples que depois,
quando eu estava em meu quarto sozinha, eu pensava que queria ter sempre por
perto pessoas como ele para que eu pudesse me sentir livre e despida de
qualquer vergonha. Mas quando nos encontrávamos a sós a vergonha nos ossos
ainda me dominava e eu me sentia frágil e ao mesmo tempo bem, afinal, eu
pensava, não será à toa meu corpo dizer tantas coisas com tão poucos
movimentos. O melhor de tudo é que ele compreendia tudo isso.
Numa noite eu olhei nos olhos dele e disse com todas as letras a culpa que ele
tinha por eu me sentir assim tão presa perto de sua grandeza. Sim, ele era
grandioso, forte e de um sorriso dominador incrível. Daqueles que as pessoas
amam ou odeiam e eu sempre via em seus olhos a sua própria autoconfiança e
sentia aquela transmissão de nossas energias. Ele ganhando um pouco da minha
timidez e eu me sentindo confiante. Sempre tivemos momentos intensos,
grandiosos. Hoje eu não sei mais dizer se amo os momentos, ele ou apenas minha
timidez contida diante de tanta beleza.
Terça-feira, Abril 19
Recado para o Matheus:
Matheus desculpe! Estava tão sonada que não percebi e coloquei a letra do versos toscos, meu outro blog, no vamos cronicar.
Agora já corrigi...
Beijão
Carol
Segunda-feira, Abril 18
Escolha
Andrea Justino

A chuva escorria lentamente pelo vidro embaçado daquele lugar conhecido, a bebida era a mesma dos últimos anos, a música de fundo também não mudará muito. Olhava entre uma coisa e outra o relógio que insistia no atraso rotineiro.
A chuva continuava lá fora e a confundia nas emoções, num piscar de olhos se remetia a um passado não tão distante, de uma sexta-feira como esta, de um inverno qualquer, que foi quando eles se cruzaram pela primeira vez, entre aquelas pessoas desconhecidas dentro do elevador no fórum, e coincidentemente iam para o mesmo andar, e depois daquele dia, começaram a caminhar enganosamente na mesma direção.
As noites de amor, os dias de sol correndo pela areia da praia, as brincadeiras pelas raras madrugadas, a espera do reencontro depois de cada partida, os planos provisórios, tudo isso a fazia viver, sentada naquele bar conhecido, cada emoção novamente, e através do vidro embaçado viu seu próprio sorriso, e em seguida viu o mesmo sorriso se despedaçar em lembranças tumultuadas, dos natais sozinha, dos aniversários ausentes, dos passeios no bosque nunca acontecido, do sorvete na pracinha nunca tomado, das mãos desatadas no encontro de um possível conhecido.
Seus olhos mergulharam-se em águas instantaneamente com as lembranças, e quando, por um instante começou a se questionar se essa era a vida que queria, sentiu seu braço ser tocado e seu nome ser chamado.
-Feliz aniversário querida!
E virando-se encontrou os olhos que a protegiam e a martirizavam tanto. Abraçou-o forte, querendo eternizar aquele momento.
- Vamos querida, que tenho menos de duas horas.
E eles saíram rumo ao próximo motel, para comemorar os 9 anos do clandestino namoro.
Terça-feira, Abril 5
Sobre trotes e porões
Rodrigo Brasil
Dedicado a Gustavo e Beto (companheiros de infortúnio)

Em 1998, há quase oito anos (tinha eu 18), arrumei minha malas pra sair de casa.
Havia passado no vestibular, o que me obrigava a me mudar para Ribeirão Preto, distante quase 1000 km de minha cidade. Me obrigava também a abrir mão das facilidades do leito familiar e partir pro até então desconhecido.
Não conhecia bulhufas sobre a cidade que ia habitar, tinha ido apenas uma vez. Justamente pra fazer as provas de vestibular.
Minha mãe chorou, e disse que agora, naquele momento, eu estava entregue às mãos de Deus. Entrei no ônibus sozinho, às 10 da noite, com previsão de chegada a Ribeirão por volta das 13h do dia seguinte. The long and winding road. Como companheiro de viagem um walkman, onde eu ia tranquilo, escutando uma banda recém-lançada no país: Oasis e The Doors (oh, mencionei que escutava Jim Morrison, sorry). Não consegui dormir um mísero segundo durante a viagem. Na verdade, me excitava a idéia do "novo". Ainda de casa, consegui atrávés de amigos, uma dica de uma pensão "boa e barata". A única referência que eu tinha da pensão, era que ficava numa rua onde eu jamais havia pisado ou sequer ouvido falar. Me arrepiei quando o ônibus entrou na rodoviária (medonha, que se diga). Desci, pequei a única mochila que havia levado e, tímidamente, chamei um táxi. Peguei um papel e repeti a rua, o bairro e o número pro taxista. Uma das minha manias é justamente a de não dispensar um papo de taxista, embora durante esse trajeto eu não tenha aberto a boca pra nada, tentando buscar na paisagem de minha nova cidade algo que me agradasse, o que era díficil em se tratando do Centro de uma cidade como Ribeirão Preto - com exceção da famosa Chopperia Pinguim, nada ali era atrativo aos olhos de um turista, embora também eu não fosse um. Paramos na frente de uma casa antiga e o taxista apontou: é ali ó. Desci, bati à porta e me apareceu uma senhora branca e baixinha: Dona Rosa, a proprietária. Uma carinha amável, de sonsa até. Me recebeu calorosamente (diferente de quando deixei sua pensão, 6 meses depois, quase escurraçado).
Insistiu para carregar minha bolsa até o quarto, e eu deixei, afinal nem era tão pesada assim. Ela enfiou a mão no bolso e tirou um molho de chaves, ficou passando uma por uma até me entregar a que estava escrito, num chaveiro improvisado de fita crepe: Porão 2. Não sem antes me fazer assinar um contrato sem sentido, onde me obrigava a morar ali durantes os póximos seis meses, um contrato que nada valia, já que eu não era emancipado, e não tinha sequer firma reconhecida.
Minutos depois entendi o recado da fita crepe. Eu habitaria dali pra frente um porão de verdade, que ficava quase abaixo do nível da rua. Da janela de um dos quartos dava pra ver os pés das pessoas que passavam pela calçada. Sentei-me em minha nova cama e analisei os fatos. Minhas opções não eram muitas, eu estava em clara desvantagem à Dona Rosa, pois nada conhecia da chamada Califórnia Brasileira. Desfiz a bolsa e começei a organizar meu quarto. O calor era insuportável. Prometi a mim mesmo comprar um ventilador no dia seguinte. Não havia ninguém na pensão àquela hora, e eu me senti meio solitário. Dona Rosa me avisa: os "meninos" só chegam amanhã mesmo, ou depois, quando começarem as aulas. Nessa pensão - masculina, só morava estudantes universitários, como eu. Havia uma do lado que morava apenas mulheres, e outra na frente para estudantes de cursinho. Todas de Dona Rosa, que não morava em nenhuma, o que já era uma grande coisa. Aquela senhora simplesmente monopolizava o mercado de pensões em Ribeirão Preto. De sonsa a velha não tinha era nada, concluí. Dei uma cochilada e quando acordei, demorei alguns segundos para me situar onde estava. Pelo barulho, notei que já havia chegado alguns estudantes. Depois das apresentações formais, onde estuda, passou em quê, de que cidade é, alguns veteranos me advertiram: tome cuidado, o trote na sua universidade é pesado, hein... Pronto. Era o que me faltava para um boa noite sono. Depois de uma noite mal-dormida, resolvi que não ia à aula. Queria me livrar dos trogloditas que resolvessem pegar no meu pé no meu primeiro dia. Minha cabeça recém-raspada não deixava dúvidas: bicho! É assim que o calouro é conhecido nas faculdades de São Paulo e em boa parte do Brasil. Sempre achei uma babaquice esse negócio de trote. Acordei na segunda de manhã e fui tranquilamente assistir Pica-Pau no SBT. Ledo engano quanto ao primeiro dia. No segundo dia, o que dia em que eu fui, foi pior, soube posteriormente. Acordei na terça e tomei o café da manhã preparado por Dona Rosa. Suco de laranja incolor e pão. Como não sinto fome pela manhã, dei um gole no café e encarei meu destino. Meu coração cozinhava com a advertência do meu colega de pensão.Não sabia sequer onde ficava a faculdade, já que quando fui prestar vestibular as provas eram num colégio no centro da cidade. Depois de alguns erros (muitos aliás) achei o ônibus que me levaria. Com um papel na mão fui à procura da minha sala.
Não havia trocado sequer um oi com alguém da sala, fora dela muito menos. Foi quando aconteceu.
Estava sentado numa escadaria do prédio quando me aparece três estudantes, que julguei serem veteranos. Os malditos veteranos. Dois homens e uma mulher. Já me armei. De frente pra mim, depois de alguns segundos de silêncio, um dos sujeitos pergunta, sarcástico :
Que tal uma voltinha pelo campus?
Que tal ir encher o saco de outro?, respondi.
Eles se entreolharam antes de me pegarem à força e me levarem até a praça de alimentação onde outros calouros já estavam. O incrível é que tinha alguns calouros rindo, gostando da situação. Que mundo é esse, Meu Deus?! Amarraram o cadarço do meu tênis nos sapatos de outros e nos levaram para dar um "passeio". Ok, pensei, vou ficar na minha, satisfaço o ego desses idiotas e daqui a pouco essa palhaçada acaba. Eu podia aguentar tudo, menos tapas na nuca, a brincadeira preferida dos veteranos. Um sujeito veio com vontade pra me dar um peteleco na cabeça, e na hora eu disparei, ameaçador: Se eu fosse você não faria isso, falo sério! Funcionou, por alguns minutos. Então, os veteranos julgaram insossa aquela voltinha pela faculdade, e resolveram nos levar pro meio de uma grande avenida, na verdade o cruzamento entre duas (Presidente Vargas com Nove de Julho, se não engano), onde seríamos obrigados a pedir dinheiro, para financiar-lhes uma noitada. Nos colocaram na traseira de uma caminhonete, e eu já estava à meu modo, me sentido a Anne Frank.
Tive meus documentos confiscados. Isso era a prova de que eu não iria correr, quando chegasse no cruzamento. Meu boné também, ambos pelo cara que queria me dar um tapa na cabeça. Filho duma... O calor era demais. Temi uma ensolação. Fiquei ali por quase duas horas pedindo dinheiro para quem parasse no semáforo, morrendo de sede. Pedi ao cara que estava com meus documentos um pouco de água. Água? ele respondeu. Tá aqui ó! E jogou um copo aberto na minha cara, me molhando inteiro. Sabia que ele não ia deixar barato minha ameaça. Tive o ímpeto de pular no pescoço do desgraçado e socar-lhe a cara até a deformação. Mas quem sairia deformado era eu, já que os veteranos eram em maior número, e eu duvidava que algum calouro pudesse tomar minhas dores. Ajudariam a me espancar, isso sim. Bando de puxa-sacos! Só abaixei a cabeça e voltei aos meus "afazeres". Eu estava sujo, borrado de tinta (ah, não mencionei as tintas, né? Pois é...), cansado, sem grana - pois até isso me tomaram. Aquilo durou horas, que pra mim pareciam dias, até me liberarem.
Tchau, crianças felizes! Que Deus lhes dê em dobro, seus cretinos!!
A pensão não era tão longe do local onde estávamos, mas pra mim não fazia a menor diferença, pois eu não saberia me situar nem se estivesse com um GPS. Depois de quase uma hora perdido, sujo, perambulando como um mendigo pelo centro da cidade, sendo olhado com curiosidade por outros, achei a pensão. Minha cabeça ameaçava explodir de dor. Um porão quente e úmido me esperava.
E desejei uma comida quente, lençóis limpos, casa arejada... O lar de alguns dias atrás.

Sobre o autor: O Rodrigo é publicitário, tem 26 anos e é o criador do blog www.casosporacaso.blogger.com.br.