Descobrindo novos cronistas...
sobre o blog
Acredito que todos nós um dia na vida já escrevemos um texto que gostaríamos de compartilhar com outras pessoas, mas cadê espaço?

Foi pensando assim que criei o Vamos Cronicar que tem uma meta muito simples: colocar na internet crônicas e contos de escritores envergonhados, anônimos, de primeira viagem e até mesmo daqueles que já sabem bem o ofício...

Para tanto gostaria de pedir a vocês que mandem suas crônicas, contos, poesias que estão aí, guardadinhas na sua mente ou esquecidas numa gaveta, para cá.

Participe e obrigada por visitar esse espaço!
Volte sempre!

Maria Carolina,criadora do blog
crônicas arquivadas
particpe você também
Um oferecimento
Layout desenvolvido por Inverno

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Segunda-feira, Janeiro 31
DO ALTO
Ricardo Frugoli

Do alto do prédio
Pessoas que vejo,
Marchando solenes
Em desassossego.

Fingindo constância,
Batendo com as testas,
Nas próprias fronteiras,
De suas cabeças.

E os automóveis
Caminham serenos
Em sua cirandas
De trilhas urbanas.

Na grande cidade
A vida fluindo
Por suas artérias
De asfalto e concreto.

Imensa alcatéia
de prédios cinzentos
Aço, Vidro,
Também sentimentos.

E os automóveis
Caminham serenos
Em sua cirandas
De trilhas urbanas.


Lá fora as pessoas,
Aqui pensamento
acima das nuvens.

Me sinto apartado
da veia nervosa,
da vida lá fora.

E os automóveis
Caminham serenos
Em sua cirandas
De trilhas urbanas.
Quinta-feira, Janeiro 27
De luto

Gente por um tempo que eu espero seja curto esse blog ficará desatualizado. Perdi meu pai dia 25 de janeiro e estou no meio de um turbilhão de coisas para fazer.
Peço a compreensão de todos, ok?
Abraços
Carol a dona do blog
Segunda-feira, Janeiro 24
Sem título
Ana Carolina Marques

Engraçado. Existem perguntas que surgiram para não serem respondidas. Tornam-se incógnitas nas nossas vidas e mentes. Na mesa do bar parcas teorias surgem e esvaem-se pelo ar poluído e carregado. Palavras esquecidas, textos incompreendidos, amigos separados, tudo graças à nossa falha memória. Por quê?
Por que o amor é tão bonito e corrosivo, ao mesmo tempo? Por que o silêncio é tão difícil? Por que ainda és minha amiga? Mesmo com todos os erros cometidos e doravante esquecidos. Oh, memória cruel! Fez me apagar todos os momentos dispensáveis da minha existência. Oh, memória maligna! Tirou me os pesares, as lamentações e as feridas.
Meus dias alegres, festivos e regados à bebida tornaram-se o vapor dos dias cinzentos e tempestuosos. O tempo levou consigo minha disposição e saúde. Deixou me, ao menos, com minhas razões. Minha pele enrugada e meus cabelos brancos já não despertam a atenção.
Na mesa do bar porcas teorias surgem e esvaem-se pelo ar poluído e carregado. Palavras esquecidas, textos incompreendidos, amigos apagados. Existem perguntas para as quais não existem respostas. Nem minha morte no leito infectado e tua visita preocupada podem explicar. Nem todas as razões que o tempo deixou. Nem uma nova existência será capaz de entender. Por quê?

Sobre a autora: a Carolina acabou não mandando nenhuma informação sobre ela... pena. Mas o texto está aqui.
Sexta-feira, Janeiro 21
O Big Brother e o limite de ser sociável!
Thaís Morrison

O 5° Big Brother Brasil começou segunda-feira, e me fez pensar em muita coisa, principalmente no q eu faria com R$1.000.000,00, mas não é sobre isso que quero escrever. Me considero uma pessoa simpática, mas não sei se me considero sociável. Conheço muitas pessoas, entre amigos e familiares, que podem ganhar o prêmio de como viver em sociedade. Como conversar com alguém que você acha um pé no saco e tratá-lo como seu melhor amigo. Como ouvir coisas desagradáveis e dar risadinhas cínicas pelo bem da boa educação e convívio social. Como assim? Então se o naipe de uma pessoa não bate com o meu eu tenho que fazer de tudo pra ela me amar, e vice versa? Sei lá, não entendo muito essa lei. Não estou tentando ser radical, nem achando que o certo é sair por aí dando patadas em tudo e em todos. Não é por ai. Mas mostrar o seu ponto de vista, e não levar tudo na brincadeira só para fazer parte de um grupo ou ouvir elogios das pessoas não é um caminho errado. Do contrário, só ouviremos comentários falsos, de pessoas que só gostam de você por nunca terem batido de frente, pelas opiniões não terem sido diferentes nunca. Pensei em tudo isso porque deve ser complicado viver na casa do BBB, sabendo que a convivência com pessoas diferentes será saudável, mas também muito complicada, e que milhares de pessoas estarão te julgando, sem nem te conhecerem direito. Mesmo com tudo isso, eu tenho vontade de participar de um negócio desses, mas sou a favor da liberdade de expressão e de gostar ou não de uma situação. Não sou obrigada sorrir quando por dentro estou chorando.

Sobre a autora: A Thaís é universitária no curso de Comunicação Social - Jornalismo e dona do blog Babyjohns.
Quinta-feira, Janeiro 20
Carta à minha alma
Vitor Balan

São Paulo, Sexta- feira, 10 de dezembro de 2004.

Minha alma,
Hoje resolvi escrever para você, pois, mais um ano está acabando e mais um ano passamos juntos.
Nós, como grandes amigos, crescemos juntos, brincamos juntos, choramos juntos e aprendemos muitas coisas juntos. Vimos pessoas queridas indo ,vimos outras vindo e aprendemos que pessoas vão e vem, deixando um pouco de si e levando um pouco de nós. Começamos a dar valor às pequenas coisas da vida e aprendemos que são elas que realmente fazem a diferença. Descobrimos que tudo nessa vida passa, por isso temos que viver a vida intensamente, pois é melhor se arrepender pelo que foi feito e não pelo que se deixou de fazer (mas lógico que sempre pensando nas conseqüências). Juntos conhecemos Deus e aprendemos que ele sempre está com agente, em todos os lugares.
Acabamos também descobrindo coisas que nunca gostaria de descobrir, descobrimos que existe amizade por interesse e que nos dias de hoje o Ter está ficando cada vez mais importante que o ser. Só que graças à nossa família e nossos verdadeiros amigos aprendemos que ainda existem pessoas boas e de coração puro.
Nós já nos molhamos na chuva, já nos escondemos atrás das cortinas para ninguém nos ver (só que sempre esqueciamos os pés para fora), já passamos muitos momentos felizes com a nossa família, já fizemos muitas burradas também, mas tudo valeu como aprendizado.
E nesse ano que vai chegar, eu gostaria de continuar fazendo tudo que sempre fizemos juntos, porém com algumas mudanças.
Você lembra daquela gavetinha onde costumávamos guardar nossas coisas e que só nós temos a chave? Então, no ano que vem gostaria de usar ela mais vezes, mas nunca faltando com a verdade para com as outras pessoas, pois ser verdadeiro é uma virtude e como já dizia Gandhi:
" O caminho da paz é o caminho da verdade. Ser verdadeiro é ainda mais importante do que ser pacífico."
Gostaria também de poder aprender a ouvir mais, pois ouvir é uma arte e mesmo tendo dois ouvidos e apenas uma boca, usamos a nossa boca duas vezes mais que os ouvidos (risos).
No ano que vem poderíamos parar de prestar atenção nos erros das pessoas à nossa volta e começarmos a escutar mais nossos verdadeiros amigos, por mais que a verdade possa doer na gente, pois ao apontarmos para uma pessoa, três dedos apontam para a gente e a gente pode estar vendo nos erros dos outros os nossos próprios erros.
Além de tudo isso, no ano que vem gostaria de poder Ter cinco minutos para todas as pessoas do mundo me ouvirem. Eu iria falar mais ou menos assim:
" Oi mundo, meu nome é Vitor, tenho 15 anos e moro no Brasil. Tenho apenas cinco minutos, mesmo porque não tenho muito para falar.
Apenas gostaria de falar para vocês, que independentemente de cor, cerdo ou classe social, somos todos iguais. Chega de guerras, disputas por terras, preconceitos idiotas, desmatamentos de nossas florestas e tráfico de animais, só estamos destruindo o nosso planeta. Vamos fazer nesse ano um ano de paz, amor e respeito pelo próximo."
Bom, acho que vou encerrando essa carta por aqui, estou esperando notícias suas, por favor me responda.

Beijos e abraços do seu amigo:
Vitor Balan

Sobre o autor: primeira aparição do Victor. Tomara que seja uma de muitas...
Terça-feira, Janeiro 18
Nomes
Cecília Donateli

Ainda não achei um amigo.
Ainda não achei companhia.
Quem quer um corpo confuso?
Repleto de idéias. Choroso.

Nunca me lerão com verdade,
mas terão piedade
de uma menina sem nome.

Já me sinto miserável.
Faminta de humanidade com fome.
Procurando de olhos vazios
aquilo que não tem nome.

De nada me adiantou ver a lua.
O que sinto não tem nome.
A muito perdi meu encanto
por noites sem nome.

E quanto as cores da vida?
Sou covarde,
de uma incerteza que corta e arde.

Vou e volto como que nada.
Sorrio e choro como que nada.
De tanto viver, sou nada?

E essa tristeza sem nome,
por saber que nada importa,
me surta, me sustenta,
me comporta.

Preciso de um amigo.
Com nome.

Sobre a autora: A Cecíla Donateli tem 15 anos e esta é sua primeira aparição no nosso cantinho. Obrigada Cecília!
Segunda-feira, Janeiro 17
Faça isso!
Vinícius Giacomini

Experimente algum dia comer num restaurante ou em qualquer praça de alimentação..sozinho!
Com o passar do tempo você vai começar a observar as pessoas e o lugar onde está. Isso, claro, devido a ausência de uma pessoa a quem
direcionar o olhar.
Lembrando que você está sozinho porque quer, e não por falta de companhia...
Vamos lá, você vai observando as bocas se mexendo, os casais de namorados, a família inteira comemorando algo ou coisa nenhuma..
E quando você percebe, não é você que está os olhando...são as pessoas que não cansam de olhar pra você e em seguida à sua companhia
na mesa... e geralmente falam algo..e com o passar do tempo também, perceberá que é de você que eles comentam...
Você começa então a observar os olhares de piedade que lhe são lançados..
E não entende por quê..e pensa que realmente comer sozinho não é algo muito comum de se ver..
E por mais que você se sinta de bem com a vida - ué, é só uma refeição qualquer - aos poucos vai ficando irritado e começa mesmo a sentir falta
de alguém na frente, ou do seu lado pra falar com você.
E as pessoas que estão ao seu redor - e estão se "achando" por estarem acompanhadas - é que causam isso.
Mas ao mesmo tempo são solidárias, estão se perguntando o por quê de você estar sozinho...pensam se você está triste, deprimido....ou
à beira da loucura..normal! O anormal é você, ali.
Se um grupo de cantores líricos reunidos a violinistas começar a cantar..melhor ainda!!
Aí que as pessoas terão que se aguentar pra não convidar-te à fazer a refeição com elas..
Experimente!! Experimente!!
Eu devo aplaudir a solidariedade brasileira!!
Claro que não levando em conta a necessidade das pessoas de sentirem melhores perante às outras - Vovó diz pro neto: " Pára de reclamar, você podia estar sozinho
como aquele ali, ou como aquela..."..

Sobre o autor: O Vinicius é o idealizador do blog Insonstancia. Visitem!
Domingo, Janeiro 16
Lágrimas mortas
Andrea Justino

Chutava pedrinhas do chão enquanto suas botas batiam a cada novo passo, a noite já caia, não havia vento, nem som que pudesse atravessar o abismo em que ela se encontrava naquele instante. A cada passo a certeza da dor que feria sua alma, passos lentos e continuava a caminhar, havia chovido e o chão molhado refletia seu interior, as folhas caídas no chão traduziam tão bem os seus sonhos desfeitos, despedaçados. Mais alguns lentos passos e deparou-se com algo que piscava, já não sabiam direito onde estava, as lágrimas ofuscavam sua visão e passando as mãos frias no seu rosto também frio limpou as lágrimas quentes que insistiam em cair e pode ler:

MOULIN - Bar para solteiros.

Tentou respirar e buscar o ar lá no fundo, olhando pela segunda vez pode confirmar do que se tratava., e navegou em seus próprios pensamentos. O destino talvez estivesse tirando uma na sua tristeza, rindo dos seus planos desfeitos, dando gargalhadas das suas lágrimas mortas, queria responder com gritos, mas tudo que conseguiu foi empurrar a porta e adentrar no Moulin.

Algumas mesas, fumaça de cigarro, pouca luz, música tranqüila, ambiente que refletia e repelia seu interior, estava dentro. Sentou-se em uma banqueta no bar como nunca antes tiveras feito e pediu um campari, amargo como seu coração, vermelho como seus verdes olhos. O copo vazio, o corpo quente no bar quase deserto, passeou os olhos e avistou algumas poucas pessoas sozinhas, pediu outra dose, que descia rasgando sua garganta seca e caia quase explosiva no seu estômago, queria sentir-se viva, estava dispensando as lágrimas, a dor, a punhalada, a vida não escolhida . Pagou a conta e saiu, tão igual quanto entrou, além da dose que esquentou por segundos seu corpo, nada mudará.

Voltou a caminhar lentamente, já não chutava pedrinhas nem olhava para o chão, avistava o dia nascendo, quase um espetáculo se o seu interior não estivesse tão negro, tão tempestuoso, continuava a passos lentos enquanto o sol despontava invadindo a sua noite escura, agora já sabia em que caminho estava e dobrando a esquina do seu destino avistou alguém vindo ao seu encontro e reconheceu sua irmã quando chegou perto, dizendo:

- O enterro vai sair.

Imóvel, as lagrimas gritavam suas palavras mudas, tirando da sua mão direita o anel que nada mais significava o deixou rolar pelo chão.

Tudo estava enterrado.


Sobre a autora: passo a vocês o recado que acompanhou o conto que me foi mandado pela Andrea. "Olá! eu leio a bastante tempo o vamos cronicar, gosto muito do espaço por lá, nunca comentei e nunca também arrisquei mandar um dos meus rabiscos, mas como esse ano novo tem que começar para mim (pois até agora ele teimou em não começar) cá estou eu enviando um dos meus insanos rabiscos, tomara que tu goste!" Se todos os seus textos forem como esses "rabiscos" sinta-se a vontade pra mandar todos os rabiscos possíveis e imagináveis! Bem vinda, minha cara rabisqueira... Essa moça é dona do blog
Fadinha
Sexta-feira, Janeiro 14
A Ética do Humilhante
Tatiana Vieira

Acordou bem cedo, ainda com gosto de ontem na boca. Cochilou no chuveiro quente e comeu o mesmo pão queimado de todas as sonolentas manhãs. Caminhou desatenta ao ponto de ônibus, que na sua terra era chamado humilhante, não o ponto, o ônibus. Se bem que o ponto não era o lugar mais agradável da cidade.

Um homem magro com cara de mau hálito fumava seu café da manhã filtro vermelho e soltava fumaça na cara de quem fosse. Uma mulher mal amada, mal comida e mal acalentada resmungava a demora do ônibus, como se esperar engolindo fumaça já não fosse o bastante. Um velhinho com deficiência na perna esquerda tenta sem sucesso pegar seu terceiro ônibus, que passa direto. Seis homens de meia idade, um deles com a camisa do flamengo, ocupam metade da calçada se amontoando no mostruário da banca, tentando ver no jornal popular, ou um presunto fresco ou a Kelly Key de biquini na capa. Um menino malcriado briga com a avó e chora com o nariz escorrendo um catarro verde da infância. Um homem cujo rosto é familiar pede 50 centavos para inteirar na passagem do Praça XV e ela percebe que o sujeito já acumulou dinheiro para o almoço e não entrou no ônibus em duas oportunidades.

Todo o dia o mesmo cenário e ela só pensava em conseguir fazer a sua uma hora de viagem ao trabalho, com direito a engarrafamento, sentada. Se os deuses ouviram suas preces ela não sabe, mas o importante é que, de maneira impressionante, o ônibus veio vazio. Pensou, que beleza, vou me esparramar na poltrona, tirar um cochilo, ler sem companhia e viajar sem encostar em alguém desconhecido!

Sentou na janela, colocou a mochila no assento ao lado para seu maior conforto e para que ali não sentasse algum desavisado. Ela só queria um pouco que paz! E contou 18 lugares vazios com apenas dois pontos antes da Ponte Rio-Niterói. Tem lugar pra todo mundo! No próximo ponto cresce a aflição e ela conta em silêncioo som da roleta e o preenchimento das poltronas. Ai! Mas as pessoas respeitavam o momento de privacidade alheia e ocupavam apenas as poltronas que ainda não havia ninguém.

Até que na boca da ponte aparece um fulano de 112kg comendo um churros e senta ao seu lado. Mas ainda havia um lugar! Uma poltrona vazia! O tio do churros poderia viajar na janela! Por quê esta necessidade de contato humano às sete da manhã? Por quê meu deus? Ela fechou as pernas para não encostar nele e ele parece que se sentiu grato e se arreganhou todo como se estivesse na poltrona de sua sala. Ela soltou um olhar fulminante, mas ele continuou lendo o livro que ela lia. Deu até risada, que invasão! Depois fez um comentário imbecil e mesmo percebendo que ela não estava disposta a conversar, aliás não estava disposta a nenhum contato humano naquela manhã, ainda sentiu-se no direito de comentar sobre sua vida, reclamar do governo e da sua conta telefônica. Ela então levanta de supetão e p. da vida pede licença e anda até a poltrona vazia.

Ahhhhhh, maravilha! Abriu o livro no sossego da sua tão estimada solidão matinal e sentiu um cheiro azedo. Abriu a janela e nada. Cheiro de vômito! Havia sentado numa poça de ontem, que continha um molho vermelho de anteontem.

Respirou fundo e prometeu a si mesma que hoje não comeria macarrão. Nem churros.

Sobre a autora: A Tatiana, também conhecida como Tatica, é uma virginiana (olha a gafe sendo corrigida! desculpa...) talentosa. É cineasta, escritora e criadora dos blogs Tatiana Vieira e Fulerus Filmes. Bem vinda, moça. É sempre uma honra ter você por aqui.
Quinta-feira, Janeiro 13
"Será que é tão difícil acreditar no amor?"
Rômulo Arbo

Noite adentrando, calada, céu pingando, lento, lágrimas escorrendo, doces, mas pesando como amargas. A pergunta invade todas as janelas das proximidades da Lima e Silva e ainda dá um passada nos nossos corações abraçados.
Aquele rosto, dos sorrisos que envolvem uma cidade inteira, porto alegre, agora pede um porto seguro, onde esteja longe de meias verdades, onde encontre força pra cantar de novo.

"como despertando de un profundo y hermoso sueño...
y acaso te siento todavía...
el aroma, el sabor y la textura,
la magia, la sonrisa y la ternura.
Sí, como un sueño, pero aún mejor,
es la hermosa realidad."

E, precisando ou não, meu corpo inteiro e mais minha alma serão esse refúgio, essa fonte, essa busca. Estou confundido: meu peito aperta e dói a mesma dor; mas não confuso: tenho a calma pra ver esse claro e verdadeiro amor.
Olha bem e vê se já não é gigante perto de tudo que é bom na vida, imagine só dessas coisas pequenas, dessas rasteiras mentirosas.
Só pode ser difícil de acreditar em algo tão maior, quando se é tão menor ou quando se está tão abaixo. Gente que inventa a cegueira porque teme as cores, acha que o preto e branco estão mais do que bom. Esqueceram? Vermelho, verde, azul... com que freqüência dizes que ama? E com que freqüência mostra?
Medo... quem conseguiu se esconder dele até hoje não voltou pra salvar ninguém. Morreu de quê, então? Do maior medo de todos (ainda mais os que louvam o orgulho), o medo de admitir o erro, a dificuldade que é aceitar, a mentira maior que é mentir pra si mesmo*. Amar também é deixar viver (o amor, na prática) e acreditar que tudo aquilo que foi dito e ensinado (o amor, na teoria) não será assim apagado, por desencontros, distância ou tempo.
A realidade é um filme passando por minhas veias. Meu longa-metragem de vinte e um anos toma um caminho lindo no dia dos namorados, e, em cinco meses, um céu de baunilha ganha nuvens. Passageiras, nuvens não são da matéria do amor, que é a matéria da vida, terna e eterna.
Quarta-feira, Janeiro 12
O Menino de 18 anos
Francine Ramos

Ele tinha 18 anos, aparentava 16 e ele odiava isto. Desceu do ônibus e viu uma ladeira. É, o caminho estava certo, pensou um pouco aliviado. Mas olhou para seu tênis novo que ganhou da sua mãe de presente de Natal e quando viu todo aquele barro na ladeira sentiu um aperto no coração. Bye, bye, tênis novo, pensou e sorriu, esses sorrisos meio contidos, só com um canto da boca. E prossegui ladeira abaixo.

Sua guitarra pendurada nas costas incomodava um pouco, sua pasta com as letras da Legião Urbana e Engenheiros do Hawai também, mas ele tinha que chegar até o final. Ele merecia, era o que pensava.

No meio do caminho ele percebeu que algo de estranho poderia acontecer no meio daquela ladeira esquisita. Pegou seu elástico e resolveu prender o cabelo encaracolado, sofrendo para não deixar sua pasta com as letras cifradas da Legião Urbana e Engenheiros do Hawai cair no chão. Ás vezes ele se pegava a pensar no motivo de ter aqueles cabelos compridos. Ele não lembrava mais qual foi o argumento que utilizou com sua mãe para ela deixar o seu cabelo crescer em paz. Mas isso não importava mais. Mas deve ser alguma coisa ligada ao rock¿n¿n¿roll ¿ rebeldia sem causa.

A ladeira chegou ao fim, ele saiu inteiro dela, apenas seu tênis que, de branco, ficou marrou de tanto barro. Mas o mais importante é que eram apenas mais duas caminhadas rápidas de dez minutos que ele chegaria ao local desejado. O local onde ele poderia se livrar do peso da guitarra nas costas e daquela grossa pasta com capa preta com as músicas da Legião e dos Engenheiros. Ele adorava dizer para as meninas do colégio que ele tocava Legião e Engenheiros, principalmente para Rita, seu amor contido.
Ela era branquinha como o pó branco que ele vira sua avó usando, mas Rita não usava nada, ele sabia. Porque suas poucas sardas ficavam a mostra em sua bochecha branquinha e quando ele se encontrava ali, babando pela Rita, ele saiba que tudo nela era perfeitamente natural. Seus cabelos lisos como fios de seda, escorriam pelos ombros num movimento perfeito quando ela caminhava no pátio do colégio. Ele tentou fazer uma música para ela, mas ele percebeu que só sabia cantar as músicas da Legião e dos Engenheiros.

Por todo o caminho ele pensava nela. Na calçada, ele brincava de não pisar na grama - o que o deixava com um andar esquisito - mas ele não se importava com sua falta de ritmo nos passos para pular a grama.

Ele chegou e reparou no céu escuro apesar do relógio marcar duas horas da tarde. Tocou a campainha e um senhor barbudo e cabeludo atendeu a porta. E ele se viu como aquele senhor quando envelhecer.
O senhor falou:
- Entre e sinta-se a vontade. Hoje você terá sua primeira aula de guitarra. E isto merece uma comemoração.
E eles beberam juntos. O primeiro porre de André. Aquele menino de 18 anos que aparentava 16.

Sobre a autora: Francine Ramos é a idealizadora do blog Blue Woman. Bem vinda!
Domingo, Janeiro 9
A NOITE É UMA CRIANÇA
Ricardo Frugoli

Esta expressão muito usada para justificar uma esticadinha noitada adentro,
adquire um novo contexto quando temos um bebê em casa.
Passamos a entender que a noite é uma criança chorando de cólica, com febre
alta, e outras surpresas mais.
A razão disto? É que as doenças apresentam seus sintomas à noite,
com preferência nos fins-de-semana, após a meia-noite.
Geralmente isso costuma acontecer um dia após a consulta com o pediatra,
quando ele diz que está tudo bem com seu filho.
Pode demorar dois ou três dias, dependendo de quanto falta até sexta-feira.
Como não existem pediatras que atendem neste horário, acostume-se com a
idéia de conhecer pronto-socorros de hospitais infantis.
Depois de esperar numa fila de outros pais de cara amassada.
Numa atitude ultra otimista, você está conhecendo novos lugares e pessoas
com atividade noturna.
Ao entrar na sala de consultas do pediatra plantonista, é comum seu filho
imediatamente melhorar.
Então pela primeira vez você vai escutar a expressão "virose", que é quando
o médico não consegue identificar os sintomas com alguma doença conhecida.
Para em seguida recomendar que leve seu filho ao pediatra de costume.
Aceitam-se ainda acumulações, como viagem do pediatra para uma área não
coberta pelo celular, uma praia dessas que o nome de origem indígena tem
dezessete sílabas.
Dois dias e duas noites muito mal-dormidas depois, seu filho melhora, o
pediatra chega de viagem e começa uma nova semana.
Pela segunda-feira, claro.
INTUIÇÃO X RAZÃO
Ricardo Frugoli

A Intuição encontrou com a Razão para uma conversa, ou mais uma tentativa de
algo parecido.
Sempre que tentavam se comunicar um com o outro, a Razão dizia que a
Intuição era muito emocional e repentina. A Intuição replicava que por sua
vez a Razão era muito fria e lógica, não fazia nada sem medir, sem pensar.
Que a vida nem sempre é para ser entendida como uma equação.
- Eu também penso, sabia? Mas tem uma diferença entre a maneira como eu
penso sobre as coisas.
Sempre deixo espaço para o inesperado, o inusitado, o alternativo se
manifestarem.
Eles também têm e querem dar sua opinião.
E da combinação da opinião deles com a minha, grandes idéias podem surgir.
Só você Razão, não dá conta do recado.
- Não preciso trabalhar em conjunto, tenho regras e técnicas para seguir.
- A vida é um conjunto de incertezas e aproximações, e hoje até os físicos
sabem e admitem disso.
Não dá mais para ficar achando que tudo pode ser medido, pesado, reduzido a
um mecanismo.
- Mas comigo a humanidade obteve grandes descobertas que ajudaram em seu
desenvolvimento.
- As idéias não vêm de uma só fonte, você tem de reconhecer.
- "A necessidade é a mãe da invenção."
- Mas e aquelas idéias que a gente tem mesmo sem um propósito a seguir, um
problema que pede uma solução.
- "Penso, logo existo."
- Além de pensar, temos nossos outros sentidos, ou você se tornou
insensível?
- Também não precisa radicalizar. Até eu tenho meus momentos de divagação.
Claro, nada que eu vá levar a sério
a ponto de substituir meu raciocínio lógico.
- Muito bem, amigo Razão. Em muitas coisas você é mesmo insubstituível.
Mas vamos fazer o seguinte, assim que chegar nosso pedido, proponho que
façamos uma experiência.
- Que tipo de experiência?
- Na verdade é mais uma brincadeira, para vermos até onde podemos ir com
nossos estilos de pensamento.
- Lógico, o que mais poderia ser que não uma brincadeira? Você não leva nada
a sério mesmo.
- Calma amigo, não pode trabalhar com um pouco mais de possibilidades?
Para você que não sabe, brincadeiras são formas livres de trabalharmos com
coisas sérias, mas sem os bloqueios
da racionalidade.
-Não existe trabalho produtivo sem um método científico.
-Eu vou te mostrar quanto podemos usar de nossos sentidos para formar uma
impressão mais definida sobre
o que existe à nossa volta.
-E quando começamos esta "brincadeira"?
- Agora mesmo, o material necessário está chegando. Veja, o garçom já está
vindo com o nosso pedido.
- Como? Vamos usar comida para esta experiência?
- Não pense nisso como comida, mas objetos para interação.
- Agora você está sendo analítico, Intuição.
- Fiz de propósito, para preparar o clima. Vamos começar, preparado?
- Sim, com certeza.
- Observe tudo o que o garçom deixou na mesa . Detenha seu olhar em cada uma
das coisas por alguns segundos.
- Tudo observado com memória fotográfica.
- Ótimo, então vamos lá. Esta xícara. O que você pode me dizer sobre ela.
- Branca, de cerâmica, lisa sem desenhos decorativos, com circunferência
aproximada de 5 centímetros.
- Uma boa descrição Razão. Permita agora que eu acrescente algo na xícara e
vamos ver como fica sua descrição.
- Estou esperando.
A Intuição pegou um bule e despejou café na xícara.
- Agora continue sua descrição.
- Como assim?
- Até agora para descrever o que observava você usou sua capacidade
analítica, sua racionalidade.
Para tornar mais completa sua descrição experimente usar também sua
sensibilidade.
Me diga o que pode sentir em relação a esta xícara usando sua capacidade
sensorial.
- É contra meus princípios me envolver além do raciocínio. Mas como
demonstração da minha boa vontade, tudo bem.
- Pegue a xícara. Agora você está usando o tato, pode sentir o peso e a
temperatura. Sinta o aroma do café.
Agora prove um pouco. Então, o que achou?
- O café está muito bom mesmo.
- Engraçadinho. O que eu quis te mostrar com isso foi que podemos ter
impressões mais completas se buscamos além do pensamos, o que sentimos. Da
primeira descrição para a segunda, você acrescentou as informações de mais 3
sentidos. Antes, havia observado à distância. Depois tocou, cheirou,
degustou.
Sua referência ficou mais completa somando sua parte sensível com a
racional, não concorda?
- Tenho que admitir que sim, tem toda a razão. Nunca pensei que estas duas
partes podiam conviver e se completar desta forma.
- Era isso o que eu pretendia te mostrar com esta "experiência".
- Sabe o que mais Intuição? Vou continuar com a "experiência".
Este café está uma delícia.
Terça-feira, Janeiro 4
CARTA PARA MEU VIZINHO
Ricardo Frugoli

Caro Vizinho de Cima,

A razão desta carta é comentar como tem sido os últimos meses desde a sua
chegada no prédio. Como você sabe, moro no andar e apartamento exatamente
abaixo do seu. Desde sua chegada tudo mudou por aqui. Em pouco tempo, por
conta do barulho, deu pra perceber que você é casado (a mulher que grita
tanto com você provavelmente é sua esposa), tem um cachorro (de um porte
exagerado, pelo estrondo dos latidos), e uma aparelhagem de som completa.
Inclusive eu tenho achado muito bom não precisar mais ligar o meu som, uma
vez que quando você liga o seu, dá para ouvir daqui numa boa. Tá certo que
nossos gostos musicais nem sempre combinam, mas aí também era eu querer
demais, né? Você liga seu som pensando em mim, coloca suas músicas
preferidas e eu ainda tenho de reclamar? Lógico que não. Aí nesse caso eu
seria um mau vizinho. Me desculpe a intromissão, mas outro dia acabei
escutando uma conversa entre você e sua esposa, e preciso concordar com ela
não ter sido um bom negócio comprar um alarme usado para o seu carro. Meu
apartamento tem as janelas voltadas para o estacionamento, então venho
reparando já há alguns dias que o alarme dispara no primeiro vento mais
forte. Outro hábito que não preciso mais ter desde sua chegada é usar o
rádio-relógio para me acordar de manhã. Tá certo que antes eu acordava com
música, e agora com o som do seu liquidificador às seis da manhã. Tenho que
concordar que uma alimentação saudável é muito importante, principalmente
depois de você ter chegado da bebedeira (como eu sei? Sempre que você chega
assim, toca meu interfone ao invés do seu e me chama de querida, e isso não
combina com sua orientação sexual) ajuda a diminuir os efeitos da ressaca.
Bom, mas apesar dessa atividade toda, tenho pensado em me mudar, e fiquei
sabendo de um apartamento aqui mesmo no prédio. Sabe onde? Exatamente acima
do seu.
Prometo que serei tão bom vizinho como você tem sido.

Atenciosamente,
Do seu Vizinho de Baixo (Futuro Vizinho de Cima)

Sobre o autor: Esse Ricardo... e viva a boa vizinhança!