PRIMEIRA VEZ
Ricardo Frugoli
Esta é uma história verdadeira, aconteceu com um amigo da nossa turma do interior, quando ele foi pela primeira vez na casa de sua nova namorada. A versão que vocês vão conhecer agora levou anos para ser completada, porque eles de namorados acabaram se casando e Rogério levou muito tempo para criar coragem e contar a verdade sobre o que realmente aconteceu quando foi pela primeira vez no apartamento dela. Rogério era estudante de comunicação, e morava numa república com outros amigos que vieram do interior de Minas estudar em São Paulo. Ela também era estudante, também do interior, mas vinha de uma família de posses, morava sozinha em um confortável apartamento com sua cachorrinha. Branquinha, bem tratada, trazida da casa de sua família. Rogério tinha combinado de buscá-la para saírem. E tinha o detalhe da primeira vez. Estava indo buscar e ao mesmo tempo conhecer onde sua namorada morava. Queria agradar a moça, e também combater sua fama de atrapalhado, conhecida pelos amigos. Passou pela portaria, subiu, tocou a campainha, e ouviu a namorada pedindo para ele entrar e esperar na sala. Estava terminando de se aprontar.
- Tudo bem, sento naquele sofá, espero um pouco e a gente sai.
Aqui precisamos voltar na história um pouco antes dele tocar a campainha. Dentro do apartamento, ela estava sentada no sofá acariciando sua amada cachorrinha, que dormia placidamente entre as almofadas. Era um sofá branco, com almofadas igualmente brancas. A campainha toca, ela se levanta e deixa sua filhinha dormindo no sofá. Pede ao namorado que entre e aguarde um pouco. Ele vê aquele móvel caro e pensa em agir naturalmente. Quando termina de se recostar e estica os braços, ouve um barulho abafado (um latido?) abaixo de onde sentou. Para sua surpresa e desespero, ao retirar a almofada, encontra um minúsculo cadáver canino. E agora? Uma hora(e mais tarde ele iria descobrir que seria logo) a moça ia aparecer toda linda, produzida, e ele com aquele bibelô nas mãos. Como explicar? Como se desculpar com ela? Com seus amigos já estava até vendo a cena: eles caindo na gargalhada e ele sendo a piada mais uma vez. Tinha de fazer alguma coisa, ela já devia estar voltando, precisava de uma solução para aquele verdadeiro pesadelo acordado em que se transformara sua vida. Então ela veio. A solução. Um plano de um homem desesperado e que só um homem desesperado poderia realizar. ''-Já estou no inferno mesmo, então o negócio é abraçar o capeta". Foi até a janela e jogou o bichinho. Respirou fundo, procurou relaxar e em seguida ela chegou.
Linda, toda produzida e como havia previsto, pergunta:
- Você não viu uma cachorrinha que estava deitada no sofá?
- Olha, aconteceu uma coisa super estranha, amor. Quando eu entrei, ela estava realmente ali no sofá deitadinha. De repente, levantou, pulou do sofá para o chão e ficou rodando em círculos. Aí ela saltou pelo sofá e pulou a janela. Foi tudo muito rápido, não pude fazer nada.
Claro, a noite acabou ali mesmo.
Mas de criminoso passou a consolador da moça. Seu plano havia dado certo.
Anos depois, já casado, tomou coragem suficiente e contou toda a verdade.
Para sua surpresa, ela riu bastante daquele segredo de anos.
Só não conseguiu escapar dos amigos. Hoje, toda vez que alguém fala seu nome, a turma toda cai na gargalhada.
Sobre o autor: Ricardo Frugoli, mora em Belo Horizonte, tem 37 anos.É publicitário, ilustrador e ultimamente, de uns anos para cá começou a escrever, além de textos para propaganda e ensaios sobre esta área, textos literários diversos. Bem vindo!
Poema de primavera
Rômulo Arbo
ou tô no tempo errado...
outono certo
e uma flor veio me acertar
eu, de peito aberto,
fui cravado (ou cravo?) pela paixão
neste coração que nem sentiu
o tal inverno
(que fui ver no dicionário
e dizia que era frio!)
não sei se foi poção
daqueles druídas malucos
ou mesmo o fogo
que nos enamorou, aos poucos
entre calafrios e cores quentes
entre estrelas calososas e cadentes
me veio uma amnésia, de repente
verão, vai ver, estamos
sei lá do tempo que já voamos
esses números mudam toda hora
vem, vam`bora
temos mais o que contar
vê aquela ali, quase a beijar
a lua minguante?
não tem no céu semelhante
e nem tem lua que cresça
sem que antes apareça
um brilho assim, pra se inspirar
ah, essa primavera!
fui o primeiro a ver, eu sei
como fogo ao relento dancei
e aquela era sim
um bom motivo de espera
ou quem sabe algo pelo que lutar
mas aquela flor veio assim
não-devagar
me veio florescer o peito
e não divagamos a respeito
dessas estações que não descemos
porque é de cima que vemos
que se o mundo gira pra lá
pra depois voltar pra cá
fazermos nós o nosso tempo é o que devemos
e temos
e vamos
e juntos
Sobre o autor:
Rômulo Arbo é o idealizador do blog
oventura. Visitem!
Janela para o céu
Roboão
Teófilo, aquele que ama a Deus. Era este o significado de seu nome. Já idoso e doente, a própria família acreditava que não duraria muito, foi achado morto. Passara a vida se vangloriando que nunca fora ao médico. Esta rebeldia havia lhe abreviado a vida pois o câncer de próstata só seria descoberto tardiamente. Porém não foi o câncer que o matou e sim uma janela.
Como uma janela poderia matar alguém ? Por mais velho e fraco que se esteja, era caso para se duvidar. Acontece que o velho Téo, como era conhecido, foi achado no fim de uma manhã, pela empregada que foi lhe chamar para o almoço, morto preso em uma das janelas do segundo andar da velha casa que moravam.
A pesada janela de guilhotina, nome propício para a mesma, soltara-se da dobradiça que a prendia e bateu no pescoço do ancião, causando-lhe morte instantânea. A polícia veio, fotografou o local, recolheu o corpo para necropsia e deu o caso por encerrado. Porém o velho havia feito anos antes um seguro de vida, como todo seguro feito para pessoas de idade avançada, não pagava nada por morte natural ou de doença, só tinha direito a morte por acidente, já que segurador não é bobo nem nada.
A morte fora relatada como acidental, um inspetor da companhia foi a casa analisar o local do acidente, procurar provas para evitar o pagamento do seguro. Olhou a janela, agora aberta, presa em cima por duas antigas e grossas dobradiças de metal. A parte que subia e descia como uma guilhotina, era feita de pesada madeira de lei . "Coisa como não se vê mais hoje em dia", disse-lhe a empregada antes de virar as costas e ir cuidar dos seus afazeres.
No parapeito algo que intrigou ao técnico: uma mancha de gordura com aparência que estava lá há mais de um mês. Fez um exame rápido do local, tirou fotos da mancha e das dobradiças e foi embora. Anselmo, o inspetor já trabalhava há muitos anos na seguradora e agora que esta havia sido comprada por uma multinacional estava para se aposentar, antes que fosse mandado embora. Parou no bar como de costume, antes de ir para casa e pediu uma cerveja gelada, a costumeira, antes do jantar. Não costumava comentar nada sobre seu trabalho, mas desta vez não se conteve:
- velho esperto, se matou, eu sei, mas não posso provar. O dono do bar, amigo de longa data, incrédulo, perguntou: - Como?! - Ta na cara! Ia morrer uma morte triste de câncer, decidiu abreviar as coisas e ainda deixou a faculdade dos netos paga. O outro retrucou, sem entender nada: - dá para trocar em miúdos e explicar melhor? - É um velho que morreu e eu fui fazer a investigação para a seguradora. Foi achado morto por uma pesada janela e a polícia deu por acidente. - E não foi ? - Não. O esperto se matou. Tá vendo esta foto aqui tirada pela polícia ?
O corpo preso na janela, o regador caído do lado direito do corpo e a bengala do lado esquerdo. O vaso de flores que estava no parapeito foi achado no chão, do lado de fora da casa. - E daí, o que isto que dizer? Perguntou o botequeiro. -Veja esta mancha de gordura aqui no parapeito da janela. Eu procurei saber os hábitos do velho e descobri o seguinte: no mês passado ele comprou no açougue do bairro um pescoço de carneiro... - Um pescoço de carneiro? - Sim. Disse ao açougueiro que era para os cachorros. - E não era? - Era e não era. Acabou dando o dito pescoço aos cães, mas primeiro fez uma coisa com ele... - O que uma pessoa pode fazer com um pescoço de carneiro?
- Levou até a janela e soltou-a sobre o pescoço para ver o resultado. Para ter certeza que seria uma morte rápida e indolor. Veja aqui onde está a mancha de gordura na madeira. A janela deve ter triturado o pescoço. Como o pescoço de carneiro tem mais ou menos as mesmas dimensões do nosso ele pode avaliar o que ocorreria. Após a experiência, tranqüilamente deu os ossos aos cachorros e aguardou o melhor dia para executar o seu plano. Numa manhã ensolarada, subiu com o regador para molhar as plantas que cultivava nos parapeitos das janelas. Investiguei e descobri que nunca gostou de jardinagens, só começou o cultivo depois da doença. E a bengala, nunca usou.
Há dois meses por se queixar de um joelho tirou-a do armário onde ficavam guardadas as coisas da esposa, já falecida. Soltou uma das dobradiças, jogou o vaso sobre o gramado, para não atrapalhar a queda da janela, derrubou o regador ao seu lado para compor a cena de forma mais dramática... - E daí? Disse o dono do boteco impaciente. - Ai deixou a janela apoiada na ponta da outra dobradiça, colocou o pescoço no parapeito e deu um leve toque com a ponta da bengala na dobradiça que soltou a janela. A gravidade fez o serviço. A pesada janela quebrou-lhe o pescoço, matando-o instantaneamente.
- E você não vai fazer nada? - O que posso fazer ? É só conjectura da minha parte. Não há nada para levar aos tribunais. - No mais, achei que foi uma boa idéia..