Ai , tatu
Joaquim Ferreira dos Santos
Dá-me um corneto, muito crocante, que eu quero a garganta bem cremosa
para perguntar aos senhores candidatos de domingo - e os jingles,
Excelências? Eu sei que não adianta estrilar e nem bater o pé, o que
resolve é ter logo à mão lâmpadas GE e lançar luz sobre mais essa
lacuna que se abriu na campanha eleitoral. Eu voto contra. Onde os
jingles, pílulas de vida feroz, que mexiam no fígado de todos nós?
As plataformas são as mesmas, cada um doutor mais gente boa e decente
que o outro, todos tentando passar ao mesmo tempo-e-agora o efeito
Kolynos de uma gostosa sensação do gosto da vitória. Não me enganam,
contudo. Soltem-se. Libertem-se. Abracem nesta vida o que ela tem de
melhor. Tomem um banho de Rexona. A política no Rio cheira mal.
Um bom jingle, pelo menos para a geração que decidia o voto escolhendo
qual era o melhor - se o "varre-varre vassourinha" do Jânio, o "dessa
vez vamos" com Adhemar ou se a "espada de ouro que tem é o general"
Lott - um bom jingle é perfeito para cantar o sabonete, as boas
intenções do prefeito e, como Astringosol, eliminar o mau hálito dos
discursos vazios.
Se já de início falta o jingle, em seguida virá a lengalenga da falta
de verbas, a brigalhada de sempre com a Rosinha e a marginália, já
está se vendo, vai continuar pegando geral. Primeiro expulsam o cara
do gás, depois a garota do teatro, depois o Escadinha e breve chegará
a nossa hora. Não adianta bater, senhores frios, que se depender de
mim eu não deixo ninguém entrar. Não cantem comigo. Só tem amor quem
tem amor pra dar. O resto é forçação de barra. Volto já pra Portugal,
e quero ir pela Varig.
Adoro jingle. São estrelas das américas do céu azul e desde muito me
iluminam o intelecto de norte a sul. Não navegam sozinhos na minha
lista de bichinhos feios da Parmalat. Gosto, por exemplo, da
bubble-gum music, um dos subgêneros mais desprezados do rock. O nome
já diz. Música-chiclete. Aquela que cola na orelha e depois nem com
duchas Corona, um banho de alegria num mundo de água quente, a coisa
desprega de lá. A bubble-gum music está para o pop como as marchinhas,
moreninhas, lourinhas, cor de laranja cem mil, todas as geniais do
Braguinha, estão para a MPB.
Gosto de toda essa subarte desprezada, meu coração bate mais forte
nesse Chevrolet, porque aposta na alegria de quem bom mesmo é Café
Capital - e, a propósito, considero essa musiquinha, na voz de Doris
Monteiro, uma das mais belas gravações da bossa nova. Quero, como
princípio estético, ver pipoca voar. De preferência pipoca com
guaraná. Mas não só.
Melhor goleiro de todos os tempos? Pompéia, do América, aquele que,
fosse qual fosse o perigo da bola, ele se jogava em pontes
espetaculares só para sair bem na foto e alegrar a galera. Poeta? A
poesia menor de Manuel Bandeira, aquele que, ao contrário do grande
Drummond, não piscou para o discurso social dos comunistas e foi em
frente, cantando sua primeira namorada, um porquinho-da-índia.
Fotógrafo? Henri Lartigue, nem aí para o momento decisivo de
Cartier-Bresson, e clicando apenas para ter alguém pulando ou morrendo
de rir em cena. Sambista? Ataulfo Alves, nem com a turma do Estácio
nem com os sambistas de morro, apenas uma laranja madura na beira da
estrada. Cineasta? Carlos Manga, que fazia Oscarito alisar a barriga
de pós-feijoada e bocejar bonachão: "Uhm, tô com uma
idiossincrasia..."
O jingle, como todos esses deuses da criação, maravilhosos mas nunca
no alto do pódio, é olhado com desconfiança, rocambole bole bole bole,
pelos seus pares. Estou com ele, me fecho com o Phimatosan, pois
melhor não tem. É o amigo que me convém. Antonio Maria fazia, Miguel
Gustavo, Nássara, Sá, Rodrix e Guarabira também. Era a hora do lanche,
a hora mais feliz da MPB. Só mensagem positiva, o mundo dançando o
cha-cha-cha das Casas da Banha, certo de que da vida era o que
interessava. A alegria vem de lá. Por mais que hoje exista toda essa
gente que quer nos modificar, o jingle deflagra melhor que qualquer
"arte preciosa" as memórias afetivas fundamentais, nossos cabelos
assanhados com jeito, de quem tem mais de 30 anos.
O jingle desapareceu das campanhas políticas, tropeçou, caiu,
machucou, e não tem Gelol que cure a dor dessa ausência. Uma pena. A
vaquinha Mococa está mugindo, a vaquinha Mococa está dizendo, e eu
aqui apenas repito o que ela me foi professora. Aprendi com os jeans
US Top que a gente leva a vida no riso, mas se for preciso também no
laço. Não li nenhum livro de auto-ajuda, mas, nos momentos em que
penso em jogar tudo para o alto, tem sempre algum anjo que aciona o
pickup - e o coro da Kolynos começa a cantar o "vai, vai, vai em
frente, vai buscar sua glória, você vai sentir o novo gosto da
vitória". Sou grato. O Paulinho, Joãozinho, Robertinho, todos os
garotos que eu conheço, aqueles dos biscoitos salgadinhos, também.
Obrigado Vasp, por me abrir as asas com ternura e eu poder ganhar
altura. Viajar. Voar. Sei lá.
Quero ver você, publicitário, não olhar para trás, não chorar e não se
arrepender do que fez. O Natal existe, o jingle não mais.
Nos comerciais de produtos da TV nenhuma empresa telefônica, por mais
que elas já tenham experimentado todos os tipos de mensagem, se
lembrou de arriscar um jingle. Eram divertidos, tinham humor, passavam
a idéia da coisa com clareza e rapidez. Mas, definitivamente, deixaram
de ser, como os comprimidos de Melhoral, batatal. Tudo agora
resolve-se no visual. As imagens piscam e é o que vende. Deve ter sido
aí que seu Cabral sentiu no peito, uma saudade sem jeito. Ao poeta
restaria tocar um tango argentino. Aos que choram o fim do jingle, ai,
tatu, tatuzinho, aconselho que abram a garrafa e me sirvam um
pouquinho.
Sobre o autor: recebi este texto via mail de um amigo. Infelizmente não havia referências maiores ao autor.
