sobre o blog
Acredito que todos nós um dia na vida já
escrevemos um texto que gostaríamos de compartilhar com outras
pessoas, mas cadê espaço?
Foi pensando assim que criei o Vamos Cronicar
que tem uma meta muito simples: colocar na internet crônicas e
contos de escritores envergonhados, anônimos, de primeira viagem
e até mesmo daqueles que já sabem bem o ofício...
Para tanto gostaria de pedir a vocês que mandem suas crônicas,
contos, poesias que estão aí, guardadinhas na sua mente
ou esquecidas numa gaveta, para cá.
Participe e obrigada por visitar esse espaço!
Volte sempre!
Maria Carolina,criadora do blog
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Quinta-feira, Julho 22
Os dias de chuva que não acabam jamais
Gabi
Coisas estranhas acontecem quando a gente menos espera. Se me contasse eu não acreditaria. Ou acreditaria? Talvez agora, depois de morto, eu esteja mais receptivo a estas coisas fantásticas. Aliás, hoje eu acredito em qualquer coisa. Sei que não é muito original esta coisa de defunto autor, que Brás Cubas já fez isso, mas aqui na eternidade não tem muita coisa pra se fazer.
Por onde começo? Não vou entrar em detalhes sobre minha vida antes do incidente que me trouxe pra cá. Basta saber que eu fazia faculdade de medicina e que, modéstia à parte, a mulherada morria de amores por mim. Estava de férias, viajei pra Ilha Bonita e sei lá por que, tive a imbecil idéia de ir acampar com meus amigos, se isolar com um monte de homens é completamente non-sense. O problema não foi o acampamento em si, mas sim a cachaça. É, admito que mesmo os estudantes de medicina, que sabem de todo o potencial destrutivo do álcool, se deixam levar pelos apelos da malvada pinga. Sabe como é, homem bêbado e discussão andam sempre juntos e eu fui implicar com a trilha que eles queriam seguir e fiz o que todo bêbado faria, sai andando pro lado que eu achava ser o certo (justo eu que não tenho o mínimo senso de direção), sozinho mesmo.
Andei por muito tempo, não conhecia nada daquele lugar e já estava percebendo a besteira que eu tinha feito quando começou a chover. Agora sim eu comecei admitir a minha estupidez. Fazer o que? Pegar o celular e pedir pra alguém me tirar dali. Procuro nos bolsos da calça, dentro da sacola de bebida, dentro da mochila. Pode me dar os parabéns, eu esqueci o celular em casa. A chuva estava ficando cada vez mais forte e eu tinha que procurar abrigo. Achei uma casa, na verdade era um casarão, enorme, majestoso e com cara de abandonado. Como se sabe, lugares assim sempre reservam péssimas surpresas, mas estava chovendo e eu só queria me secar e depois arranjar um jeito de ir encontrar meus amigos.
Bati na porta, talvez tivesse alguém lá dentro. Como ninguém atendeu fui abrindo a porta e entrando na casa. Pra minha surpresa, mesmo com a porta destrancada, havia móveis em todos os aposentos. Pensei, quando os donos voltarem vou ter que me explicar. Mas já estarei sequinho, e se aqui tiver alguma comida, também estarei sem fome. Sei que é muito feio ir entrando na casa dos outros, mexer nas coisas, usar as toalhas, acender a lareira alheia. Na verdade não tinha lareira na casa, mas achei que seria muito bom se tivesse. Estava eu refestelado no sofá quando ouço a voz de uma menina. Linda, cabelos pela cintura, olhos verdes, parecia ter uns dezoito anos. Não se assustou comigo, na verdade foi perguntando meu nome, chegando perto. Na hora pensei, devo ter bebido demais. Perguntei seu nome.
- Isabela, e o seu?
Pensei em falar alguma gracinha, mas não consegui, me limitei a responder:
- André - e me apressei em explicar ¿ só entrei pra esperar a chuva passar.
Ela sorriu, e eu me apaixonei no ato. Se apaixonar por meninas que você nunca viu antes não seria um grande problema se não fosse naquela situação. Todo mundo sabe que quando tudo começa a ficar muito bom numa hora que era pra estar tudo errado é porque mais pra frente, a desgraça estará a sua espera. Mas eu não pensei em nada além de Isabela e tive que perguntar:
- Tem mais alguém na casa?
- Não, pode ficar tranqüilo, ninguém vai te mandar embora daqui.
Nem preciso dizer que adorei ouvir isso. A gata estava me acolhendo no aconchego de seu lar. Sempre fui um pouco canalha, mas naquela situação quem não seria?
Ela falou pra eu dormir um pouco e sumiu. Fiz o que ela pediu e nem sei por quanto tempo fiquei dormindo naquele sofá. Quando acordei encontrei uma mesa cheia de comida, vinho e requinte. Mamãe ia adorar que eu namorasse uma garota cheia de classe como a Isabela. Mas esta não apareceu. A chuva não passava e Isabela não aparecia. Pensei em esperar por ela para jantar, mas a mesa estava posta pra uma só pessoa e eu estava com muita fome. Comi e comi bem. Queria saber que horas eram, mas o relógio na parede estava parado. Fui andar pela casa. Parecia coisa de família quatrocentona, rica mesmo, mobília antiga, fotos em preto e branco, tinha até uma da Isabela com roupa de época. Tem gente que gosta deste tipo de coisa. Se eu fosse um pouco mais esperto tinha percebido que alguma coisa estava errada naquele lugar. Nenhum telefone, iluminação a vela, nada que fosse moderno, mas eu achava que aquilo tudo era apenas um tipo de decoração. Nada acontecia e eu dormi de novo.
No dia seguinte acordei com o choro da Isabela. Fiquei apavorado, homem sempre fica apavorado quando vê uma mulher chorando, ainda mais se ela é tão angelical quanto a minha Isabela. Quando ela me viu começou a pedir desculpa por estar chorando. Vi a minha chance de conquistar de vez aquela princesa, meus amigos iam morrer de inveja quando vissem que eu estava muito melhor sem eles, numa casa bacana, com comida boa e Isabela. Pensei em várias coisas para dizer pra ela, mas só consegui esticar os braços e dar o ombro pra ela chorar. Como ela era cheirosa, não entendia nada de perfumes, mas ela exalava um odor de flores absolutamente mágico. Seria melhor se eu fosse mulher não me deixasse levar por estes artifícios. Enquanto eu pensava em conquistá-la ela já tinha de pegado de jeito. Não resisti e tentei beijá-la. Como era de se esperar ela se desvencilhou de mim, disse que isso não podia acontecer e saiu correndo. Sumiu de novo.
As horas foram se sucedendo e nada de Isabela aparecer. Pensei em ir embora, mas ainda estava chovendo e eu não sabia o caminho de volta. Na verdade as nuvens de chuva podiam ir e voltar que eu não iria me dar conta. Eu não queria, não podia sair dali. Este negócio de se apaixonar por pessoas estranhas sempre acaba em dor para uma das partes, mas minha capacidade de raciocínio era zero. Pensei em procurar o acampamento dos meus amigos, mas eu tinha que esperar por ela. A chuva estava forte outra vez, então dormi de novo. Agora percebo o quanto eu dormi naquele lugar.
As coisas iriam ficar assim eternamente, mas o dia amanheceu ensolarado e Isabela estava de volta. O que eu tinha que fazer era me declarar pra ela, achar meus amigos, voltar pra casa e apresentá-la pros meus pais. Sabia que era loucura, que eu nem sabia quem era ela, que eu não sabia se ela também estava apaixonada, mas eu não conseguia ver outro caminho pra minha vida, como eu fui ridículo. Não sei por quanto tempo fiquei pensando no que ia fazer, mas foi ela quem começou a falar:
- Você tem que ir embora. Esquece que eu existo, não fala de mim pra ninguém. Vai ser melhor pra você.
Meu mundo caiu, comecei a chorar, parecia uma criança que estava em um pesadelo.
- Vai embora! - Ela continuou me mandando embora, e eu só consegui pensar que não poderia viver sem ela.
Então fiz a maior besteira de minha vida, beijar Isabela. Não me lembro como foi que tudo aconteceu, quando recuperei a consciência já estava morto. Não sofri muito por ter morrido, e depois de morto perdi o encanto por Isabela. Ela não precisou me explicar nada, é incrível a lucidez que a gente adquire quando morre. Às vezes a gente se encontra pra conversar um pouco, fazer alguma coisa.
Quanto aos meus amigos, dias após eu ter sumido eles me encontraram, já morto, abraçado a um túmulo, onde via a foto da jovem Isabela, datado de 1916.
Desde então venho procurando o que fazer da minha eternidade, e mesmo sem nenhum talento resolvi escrever estas linhas. Talvez agora eu mude de entretenimento, e comece a procurar por pessoas que possam me fazer companhia nos dias de chuva.
Sobre a autora: A Gabi não mandou o sobrenome,mas mandou o endereço de seu blog: www.gabitsa.blogger.com.br. Visitem e conheçam melhor essa moça!
Quarta-feira, Julho 21
A Camada de Gelo
Nana Kovacs
Estava em uma viagem de negócios quando tudo aconteceu.Não achei que a consciência fosse continuar,como a maioria acredita,mas se posso lhes contar esse acontecido, é porque totalmente errada a maioria das pessoas não está.
Me encontrava no navio Avon,indo da Europa aos Estados Unidos devido a assuntos de trabalho.Bem,talvez deva explicar um pouco de minha vida para assim,como sempre fazem as pessoas,me julgarem com maior consideração.
Nasci em família burguesa,na Europa.Meu pai,comerciante, como todo bom burguês.Prezava por minha vida como se fosse sua própria,talvez por ser o único filho,principalmente porque se importasse mais com a perpetuação do sobrenome.Utilizava-se de minha vida para satisfazer seus desejos de juventude,e não percebia que assim foi calando minha personalidade desde os primórdios de minha infância.
Me formei advogado,embora minhas tendências exigissem a medicina.O sucesso logo me atingiu.Provavelmente mais por fama que por talento,já que não me importava com as preocupações de meu pai: havia dinheiro suficiente na família para me tornar um boêmio de primeira classe.
Entrei para uma firma conhecida na época,e me surgiram oportunidades de trabalho no exterior,bem como propostas de trabalho em muitas outras profissões que não me atraiam,e também que nem sequer sabia que existia.Mas por meu pai (mais por causa dele que por ele),continuei na advocacia.
Porém,para todos o tempo passa,inclusive meu prezado pai.Suicidou-se em meados de
fevereiro,e com ele se foi também a alma de minha mãe.Casara-se por combinações entre os pais,mas aprendera a ter afeto pelo dinheiro de meu pai,e assim a ter afeto por sua pessoa.
Foi com a morte de meu pai que tudo começou,que minha morte começou.Descobri que tinha mais dividas que dinheiro,por fim,a demência se apoderou da razão presente na mente de meu pai,e este gastou toda a fortuna em propriedades velhas e aos pedaços e na jogatina,e num momento de sanidade,livrou-se de seu fardo.
Com isso,a importante fama do nome se foi,e aparentemente a sociedade se cansou de me carregar nas costas.Fui demitido,fiquei meses sem arranjar emprego sequer,quando por fim arranjei emprego de garçom em um boteco de terceira num bairro ainda pior.
Foi por meados de novembro,quando o inverno penetrou em cada fresta das vidas rachadas das pessoas,que minha mãe veio a falecer,me deixando assim,apenas com o memorável nome da família a me fazer companhia.Passei a morar nos fundos do boteco,e a viver de gorjetas.
Mas foi quando certo cliente entrou no boteco,muito bem arrumado para o nível comum de pessoas que freqüentava o local,e fui atende-lo.Mostrou grande interesse em minha historia,e eu,ávido na procura da dita ¿melhoria de vida¿,lhe narrei minha historia.Demonstrou piedade,e disse me ajudar da maneira que pudesse.
Duas semanas se passaram sem que desse noticias.Mas então voltou ao boteco,dizendo ter arranjado para mim o trabalho perfeito.Era na essência uma tarefa simples,apenas teria de me desfazer de uma pequena parte de minhas economias para posteriormente ter a chance de dobra-la,caso cumprisse corretamente o trato.
Teria de tomar um navio aos EUA para entregar,num bar no cais do porto,uma maleta e seu conteúdo,sem atraso,a alguém que já me estaria esperando no local.Aceitei o trabalho,me pareceu bastante simples e garantido,e para ser sincero,tentador,pois a passagem não era tão cara para meus padrões de burguês que ainda permaneciam diluídos no sangue.Ao sair,o cavalheiro demonstrou grande afeto por minha pessoa,ao deixar-me uma gorda gorjeta sem nem mesmo ter sido atendido.
No inicio de dezembro,estava pronto para realizar minha missão.Alguns detalhes também foram acertados,e uma parte que não me fora dita anteriormente me fora revelada: ¿caso falhasse,coisas boas é que não aconteceriam¿.
A ameaça continuou penetrando minha mente,me ameaçando,me vigiando.Um garoto passou vendendo jornais,meu amigo (já sentira intimidade suficiente para com aquele homem cujo nome e cuja vida me eram completamente anônimos,me identificara com seu silêncio,apesar de ser um homem falador) o chamou e lhe deu uma moeda.Saiu andando pelo cais lotado sem nem ao menos me dizer adeus,o que me deixou ainda mais perturbado.Bobagem,não havia o que dar errado,deveria apenas entregar uma maleta,ele apenas me avisara como amigo que era.
Entrei no navio e fui a meu aposento.Havia comigo mais três homens.
Os três eram amigos de infância,diariamente jogavam pôquer e faziam ameaças entre eles,quem conseguiria mais mulheres,ou talvez até uma da segunda classe,que às vezes se deixavam levar pelos encantos dos músculos dos mais pobres.A ausência de distancia entre os três me irritava,não fui criado com costumes comuns aos deles,aquele tipo de relação não me era usual.Mas as circunstancias me obrigaram a conviver com eles e uma leve amizade se foi delineando entre nós conforme o tempo,fina e frágil como a camada de gelo que se forma na borda da água que começa a congelar.
Nos primeiros dias,estive tranqüilo,e,embora a ameaça de meu amigo,não,não fora uma ameaça,apenas um aviso,um coleguismo,no início não me atormentasse em demasiado,comecei a ficar levemente angustiado a cada minuto.Pensava no conteúdo da maleta,no que meu amigo me dissera,no sigilo que havia na situação e no propósito daquela viagem.Bobagem,o propósito era me arranjar um novo emprego.Mas que emprego seria aquele?Que haveria dentro da maleta para que meu amigo me dissesse aquilo?
Mais e mais me pegava pensando no assunto,mais e mais a maleta me intrigava,me chamava,me prendia,e fui afundando como se tivesse bigorna presa à perna.
A dúvida me atormentava constantemente,principalmente porque permanecia em meu quarto quase que o tempo todo,e meus amigos,boêmios e brincalhões (ou talvez saideiros e vagabundos) que eram,começaram a me arrastar para fora do quarto durante o dia.
Certo dia,andando pelo convés,o assunto perturbador me voltou à mente,e comecei a devanear tanto em meus pensamentos como pelo navio,e quando voltei a mim,estava indo para a cozinha da terceira classe.
Embora me esforçasse para pensar em qualquer coisa,já nem havia mais necessidade de serem coisas importantes,que envolviam cultura,como nunca gostara de pensar,no momento até o ranger das tábuas do assoalho me chamavam,me prendiam,me irritavam intensamente, e, absurdamente,me faziam lembrar da maleta,e da ameaça do homem.Quem ele pensava que era,nem me conhecia e me fazia ameaças,maldito o dia em que o vi.Mas ele era meu amigo,me alertara do perigo.
Comecei a pensar também no perigo que corria, risco de morte.E se, mesmo se entregasse a maleta, os receptores da entrega não quisessem testemunhas?Sim,certamente corria sérios riscos.E com certeza era coisa suja,sim,minha formação de advogado me dizia,sim,não nasci com vocação,mas os estudos me a trouxeram,sim.
Voltei a não por os pés para fora de meu antro.Meus amigos,cansados de me chamar,e assustados com meu estado, já não conversavam mais comigo,nem me mencionavam em conversa alguma,eu era agora como os ratos do navio:sabiam de minha existência,porém a ignoravam,e se porventura viessem a se lembrar,tratavam como se fosse a lembrança de um dos ratos do navio.
Não sentia fome ou sede,ou sono.Apenas me preocupava com meu destino:que me aconteceria?e à maleta?será q sairia vivo de toda essa droga de aventura,ou de emprego,fosse lá o que fosse...Não,absolutamente...tinha agora certeza,a maleta,com suas curvas,sua alça e seu couro me diziam,seu brilho,seu conteúdo,sua graça,seu segredo,todos me diziam,me confirmavam,a linha da minha vida estava ao fio da navalha.
Fiquei tempos incontáveis trancafiado em minha caverna,meus companheiros apenas iam lá para dormir,e as crianças brincavam de bater à porta durante o dia,apenas o que me irritava eu percebia.
Certa noite,num breve trecho de consciência,de realidade,me lembrei de minha vida ,que estava vivo,e senti muita sede.
Criei coragem e sai do quarto,certamente àquele horário ninguém me seguiria,minha vida não correria riscos,estavam todos a dormir,o mínimo ruído seria ouvido,ou eu ou os outros passageiros escutariam,e a reação seria possível,uma fuga,qualquer coisa.
Quando estava quase à porta que dava ao convés,ouvi o som de vozes no andar de cima,de passos assassinos,a minha procura,claro,sabiam de mim,sabiam do que havia em meu quarto,sabiam,sabiam de tudo.Corri de volta e me enfiei em minha cama,abraçado à maleta,abençoada maleta,meu amor,meu ódio,meu sustento,minha sanidade.
Pela primeira vez em vários dias,cochilei por alguns minutos,talvez apenas uma ou duas horas.
Acordei e antes que meus pensamentos se voltassem para a brevidade de minha vida,de meu fim claro e próximo,me lembrei de minha sede que agora me secava completamente a boca e a respiração.
Saí ao céu aberto depois de pegar um copo d¿água na cozinha.Era noite bonita,com bastante estrelas,mas muito frio.Icebergs podiam ser vistos bem longe do navio,quase na linha do horizonte,que se fundia com a linha da superfície do mar,dando uma impressão de indivisão do mundo...Pena que não voltaria a ver aquela paisagem,certamente,a morte me aguardava assim que descesse no cais do porto e fizesse o que tinha ido fazer...Me separar da maleta não me seria fácil.ELA era a causa daquilo tudo,a culpada e ao mesmo tempo a inocente.
Continuava vagando em meus pensamentos obcecados quando passei pela ponta traseira do navio.Me apoiei no guarda-corpos,e comecei a olhar a água borbulhante que ia se dissipando na imensidão conforme o navio passava...As bolhas eram como minha vida,tinham morte certa...Para que existiam as bolhas?Para nada,absolutamente obsoletas na confusão que era o mundo,se não existissem mais,nenhuma falta fariam...
Assim foram meus últimos pensamentos antes que percebesse que pensava em mim e não nas bolhas,e antes de me jogar ao mar.
A água congelante dilacerava o calor do meu corpo,e a hélice um pouco mais profunda me sugava.Em segundos milhares de pensamentos me vieram à mente,e,de costas para o fundo do oceano,a hélice continuava a me sugar...Entrei em pânico, sorvi uma enorme quantidade de água,comecei a tentar voltar à superfície mal tinha tocado a água,e assim que senti a hélice poderosa lacerar minha pele,carne e pensamento,senti medo,mas uma tranqüilidade que jamais sentira.Morreria,sim,dentro de segundos,mas que importância isso tinha?O mundo é feito de nascimentos e mortes,se não fosse agora,seria numa velhice deprimente,mais ainda que minha vida atual.Senti uma dor enorme e mortal do lado direito,mas antes que entendesse,antes que dissesse adeus ao mundo que sempre fora meu lar,já me tinha ido.Pelo menos não pensava na maleta.
Sobre a autora:a Nana mora em Holambra e é sua primeira aparição aqui no Vamos Cronicar.
Segunda-feira, Julho 19
Idolatria, Idiolatria?
Alexandre Barbosa
Porque existem ídolos? Simples, para mostrar a mim, a você, a nós, reles mortais que eles são diferentes e são melhores do que a gente. Somos frágeis, eles são imbatíveis. Somos tímidos, eles são extrovertidos. Os ídolos são o que nós não somos, mas desejamos um dia ser e nunca seremos, porque estaremos ocupados admirando-os e, aos poucos, colocando-os em um pedestal, lá no alto, aonde nunca chegaremos. O ser humano precisa admirar o outro e essa sina já vem de muitos anos, desde que cultuávamos reis e rainhas, deuses e deusas. O nosso primeiro ídolo é constituído na figura do pai (ou aquele que na família tem o papel de patriarca e chefe, explico, pode ser a mãe, um padastro, um tio, ou outra figura paternal qualquer). Aquela figura que sai pela manhã para trabalhar e chega à noite para brincar e conversar com a gente. Ídolos são exemplos, são um espelho do que os reles mortais devem ser. Isso não significa que os nossos ídolos tenham de ser politicamente corretos. Afinal, existem os bons e os maus exemplos, cabe a cada qual seguir e se espelhar. Opa, espera aí eu sou obrigado a me espelhar em alguém? Não posso ser original? Pode sim, claro! Num mundo onde a originalidade anda tão em baixa, quem conseguir vira Rei, ou melhor, ídolo. Então tente, se conseguir você será o mais novo ídolo, só para começar, o meu ídolo, mais à frente o ídolo dessa sociedade carente onde os ídolos estão na TV. Mas espera um pouco, um ídolo não se encontra em qualquer lugar. Certo, mas se fabrica em uma novela fácil, fácil. Os ídolos mantêm a hierarquia, nos coloca em nossos lugares, subalternos. Mas e daí? Quem não tiver o seu ídolo que atire a primeira pedra, eu tenho.
Sobre o autor: Alexandre Barbosa é estudante de jornalismo, tem 20 anos e faz estágio em um jornal de Recife.
Sexta-feira, Julho 16
Sentimentos Capitais
Bruno Nunes
Eu tento ser, sempre que possível, um sujeito modesto, mas se eu não estiver sendo ao declarar que tenho a noção de que sou bem apessoado me perdoem, mas isto é uma verdade. Sim, pois algumas mulheres que tiveram a oportunidade me disseram isto pessoalmente. Notem que não estou dizendo que sou um galã, antes fosse, não é exatamente uma questão de beleza pura e simplesmente, é uma questão de exotismo. Mas sinceramente não quero entrar neste mérito, não quero de modo algum ser massante, acreditem.
E apesar disso não poderia dizer que houve muitas garotas em minha vida amorosa, e não se espantem se eu disser que foram, na realidade, muito poucas, não por falta de candidatas, mas por falta de interesse de minha parte. E não se esqueçam de que estou falando de vida amorosa, não de relacionamentos casuais, os quais, aliás, tive muitos. Mas não quero que guardem na memória uma reputação minha prepotente, fantasiosa e canastrona, o que com certeza estão pensando. Quero apenas que lembrem que muitas mulheres já me amaram mas só correspondi ao amor de três delas.
Levo uma vida modesta num apê alugado num lugar razoável da cidade, tenho um carro que não é do ano mas é bem visto por qualquer um. À noite sempre saio em busca de diversão, ou apenas para não morrer de tédio trancado entre paredes mudas. Sempre há uma casa noturna decente para me abrigar e pessoas descartáveis para me saciar.
Uma certa noite, decidi ir para o meu bar preferido, e ficar só bebendo e fumando no balcão, torcendo para que nenhum conhecido aparecesse, não estava para conversa, não pretendia ficar com ninguém naquela noite, mesmo porque eu estava afim de dormir em casa. Havia dias em que eu ficava assim, sem ânimo, como se eu tivesse um vírus latente que me atacava de vez em quando. Mas depois de pouco mais de meia hora sentado junto do balcão percebi que havia uma garota sentada à minha esquerda tomando vinho tinto, estávamos separados por apenas um banco, não sabia a quanto tempo ela estava sentada ali, talvez já estivesse lá quando eu chegara, não sei. Notei que me olhava disfarçadamente de quando em quando e soltava aquele sorriso sutil e cúmplice. Ela me agradava, tinha cabelos ondulados até a altura do pescoço, sombracelhas grossas e bem feitas por cima de olhos castanhos envolvidos por fileiras de cilhos espessos, sua boca, de lábios finos e cor de sangue combinava bem com sua pele caramelada. Ela me animava a mudar meus planos para aquela noite, mas resolvi continuar no meu canto e esperar, se alguma coisa acontecesse eu não iria desencaminhá-lo. Ela ainda me fitava a intervalos curtos. Enquanto apagava o cigarro vi pelo canto dos olhos que de repente ela pegou sua bolsa e tirou algo de dentro, depois parecia estar escrevendo alguma coisa sobre o balcão. Tomei um outro gole do meu martine seco. Tão logo baixei o copo a vi estender o braço em minha direção e me passar um pedaço de papel. Era uma nota de cem reais com alguma coisa escrita com tinta vermelha. Olhei firme para ela tentando não mostrar surpresa ¿ era algo que tinha aprendido, nunca permitir ser pego desprevenido por uma mulher ¿ olhei de novo para a nota e li o que estava escrito:
"Quanto vale seu amor?"
Levantei meus olhos para ela para começar a falar alguma coisa, mas ela me interrompeu me oferecendo a caneta. Gostei do jogo dela e resolvi participar também.
"O que se dá de graça às vezes não se pode comprar", escrevi na nota e a devolvi junto com a caneta. Ela recebeu com um sorriso e escreveu novamente na nota:
"E quanto se paga para consegui-lo de graça?"
Li a frase encabulado e retornei a nota com a seguinte resposta:
"Provavelmente mais do que você pode dar"
"Eu tenho muito dinheiro, faça seu lance"
"Eu teria que fazer um balanço do valor antes", desviei. Ela escreveu mais alguma coisa na nota e, como se num único movimento, me passou a nota com a mão esquerda e com a direita colocou a alça da bolsa no ombro enquanto se levantava, depois saiu com um olhar sério e desafiador. Tentei balbuciar alguma coisa mas não sabia o que dizer.
"Quando terminar o balanço me escreva menino esperto, monicafc@aol.com", li depois de vê-la passar pela porta do bar, e fiquei sentado rindo comigo daquela situação, mais um minuto e me dei conta que tinha ficado com uma nota de cem reais nas mãos.
Fui para casa intrigado, não é todo mundo que vai embora e te deixa uma nota de cem reais, certamente ela tinha muito dinheiro; não reparei em suas roupas, se eram caras ou não, talvez porque não fossem, ou teria notado. Sei, sem dúvida, que fiquei fascinado, e curioso. Aquilo tudo era algo muito hilariante, pretendia escrever para ela, saber o que poderia acontecer depois disso. Cheguei em casa e não fui dormir, fiquei mais ou menos uma hora sentado no sofá examinando cada centímetro da nota, cada letra escrita, lembrando da garota. O desejo de vê-la novamente aumentava, já tinha quase se tornado uma necessidade, só então parava para pensar no quanto ela era linda. Ainda tomei mais algum vinho e acabei dormindo no sofá mesmo.
No dia seguinte, acordei bem atrasado para ir para o trabalho, mas não seria tão mau chegar um pouco tarde, já que eu era muito pontual, qualquer desculpa seria bem aceita. Disse que tive de deixar uma prima na rodoviária antes de ir ao trabalho e calculei mal o tempo, por isso tinha chegado atrasado. O dia foi longo, praticamente não trabalhei, apenas matei o tempo fingido estar escrevendo alguma coisa no computador; isso é bem eficaz, já que num jornal quase ninguém tem tempo para parar e perguntar o que você está fazendo. Eu era jornalista, escrevia uma coluna diária sobre finanças e comércio, no dia seguinte seria então publicado um de meus textos reservas, nada muito convincente mas bem enganador. A tal Mônica F.C. não saía de minha mente. Muitas vezes fui ao banheiro para ficar analisando aquele pedaço de papel que valia mais do que a roupa que eu estava usando. Pensava que as coisas são o que são porque queremos que elas sejam aquilo, tudo tem que ser reconhecido por todos para existir. Na verdade eu estava me questionando se aquilo tinha acontecido de fato, eu podia ter bebido demais e imaginado tudo, mas a nota era uma prova de que eu não exagerei naquela noite, e cada palavra ainda estava escrito na nota em belas letras vermelhas, e seu email não parecia ser fantasioso. Foi então que na última vez que fui ao banheiro saí decidido a escrever para ela e marcar um encontro.
Cheguei em casa às seis da tarde, larguei a pasta em cima do sofá onde tinha dormido aquela noite e me sentei na frente do computador, mas de repente hesitei em ligá-lo. E se eu estivesse desde o começo sendo usado, usado por uma mulher rica? Isso era tão óbvio de se imaginar, mas só então percebia o quanto eu estava cego. Mas de qualquer forma que problema há em ser usado por uma mulher, afinal eu já usara tanto as mulheres, chegara a hora de pagar as dívidas, e as pagaria sendo comprado por uma pessoa que tem todo o poder que o dinheiro proporciona.
Liguei o computador e lhe escrevi um e-mail, onde dizia que não queria fazer balanço do preço e sim vê-la me convencer a amá-la de graça. Pedi seu telefone, perguntei se poderíamos nos encontrar para falar sobre o assunto e lembrei que tinha acabado ficando com sua nota de cem reais.
Desliguei o computador e fui tomar um banho, pensei nela o resto da noite e liguei o computador novamente pouco mais da meia noite para ver se ela já tinha respondido meu e-mail. Nada, nem naquela noite nem no dia seguinte, nem no seguinte, nem até o fim da semana, só no domingo de manhã é que lia o seu e-mail. Não dizia seu telefone, dizia que tinha motivos justos para não dizê-lo, dizia também que nos encontraríamos algum dia, mas que não seria tão em breve, talvez demorasse muito, estava muito atarefada, quanto à nota, ela simplesmente fingiu que não lembrava, mas disse que se ela tivesse me dado tal nota que eu devia ficar com ela.
Mandei-lhe outras mensagens, sempre com a esperança de poder encontrá-la, mas não recebi nenhuma resposta. A cada e-mail que eu mandava me condenava por estar demonstrando muita fraqueza diante de uma mulher que poderia estar me fazendo de marionete desde o começo, mas depois eu dizia a mim mesmo que ela não seria capaz de uma coisa dessas: eu já estava perdendo a racionalidade. Depois de eu já ter enviado cerca de cinco mensagens enfim recebi uma resposta: "Não me esqueci de você", era o que dizia a mensagem seguida de uma foto dela. Fiquei então um pouco mais convencido do que ela sentia por mim.
Continuei a mandar mensagens mas não com tanta frequência, e numa das respostas ela perguntava meu telefone, dizendo que ligaria se pudesse. Enviei então o número do meu telefone e aproveitei para pedir seu telefone de novo, mas não consegui persuadi-la.
A partir desse dia sempre que o telefone tocava eu imaginava que fosse ela, mas sempre era algum amigo ou alguém que ficava calado até desligar, a princípio pensei que fosse ela, mas lembrei o quanto ela tinha sido audaciosa naquela noite no bar, deveria ser trote ou alguma ex-namorada que quisesse reatar o relacionamento.
Já fazia quase um mês que tudo isso estava acontecendo e só tinha a visto uma única vez, além de ter uma nota de cem reais com um recado escrito em vermelho, umas mensagens e uma foto no meu computador. Já estava me desiludindo dessa fantasia. Mas então, como se ela soubesse o que eu estava pensando, finalmente me convidou para bater um papo num chat da internet. Seria um encontro bastante debilitado mas já era uma evolução. Conversamos por duas ou três horas. Ela era uma pessoa muito interessante. Uma pedagoga divorciada, vinte e nove anos, morava no centro da cidade, não tinha filhos, o pai era empresário e a mãe tinha morrido há um ano atrás. Era esperta, culta e engraçada. Dizia coisas que nunca tinha ouvido falar, ela gostava de filosofia. Eu repondia como podia às suas perguntas. Fiquei bastante constrangido por eu não estar ao nível de uma pessoa como ela. O que de mais intelectualizado eu lia eram as tragédias e poemas de Shakespeare. Tentei até, em dado momento, puxar a conversa para este lado, mas não consegui. Ela falava, ou melhor, escrevia, mais do que eu. E eu tentava disfarçar de todas as maneiras a minha ignorância. Creio que consegui, ela não se incomodava com as respostas simplórias que eu apresentava às suas questões sobre o universo, de onde viemos, para onde vamos ou mesmo onde estamos. Para mim, eu estava na minha casa, diante de um computador, conversando através apenas de palavras escritas com uma pessoa que nunca tinha ouvido a voz, pela qual eu estava apaixonado. Encerramos o "encontro" com ela dizendo que entraria em contato em breve, por e-mail, e marcaria um encontro, que eu ficasse atento à minha caixa postal.
Foi o que fiz, nos dias seguintes, sempre que eu chegava do trabalho, via se tinha recebido alguma mensagem dela. Estava animado, parecia que finalmente eu estava me prendendo a alguém de uma forma que me surpreendia, nunca tinha sentido tal sensação, sentia que aquilo era bom, mas também estava com medo.
Quatro dias depois do bate-papo, recebi sua mensagem. Não era tão animada quanto outras que ela já tinha me enviado. Na verdade, me pedia desculpas, pois declarava que não nos encontraríamos desta vez, confessava que estava omitindo algo sobre ela, que achava aquilo injusto, deveria revelar a verdade mas tinha medo de minha reação ao que me contasse, talvez nos encontraríamos na semana que vem se ela encontrasse coragem. Ao terminar de ler fiquei inerte em pensamentos, remoendo meus sentimentos doloridos diante daquela revelação que não estava esperando. O que ela teria escondido de mim todo esse tempo? Seu nome? Sua profissão? O que poderia ser este maldito segredo que impedia de nos vermos novamente? De repente, num impulso, comecei a escrever para ela.
"Mônica, o que quer que você omite, não me fará mudar de idéia em relação a você. O mais importante agora é nos vermos, estou quase me esquecendo de como você é, e não quero que isto aconteça. Por favor, não imagine que eu te desrespeitaria por causa do que quer que seja esta coisa que você não quer me revelar. Me escreva."
Desliguei o computador e, apesar de serem apenas oito e meia da noite, fui me deitar com a roupa que tinha ido trabalhar. Fiquei vagando entre elocubrações, tentando imaginar o que seria este segredo. Muitas coisas passaram por minha cabeça, a maioria delas coisas banais. Foi então que algo surgiu em minha mente de uma hora pra outra, algo que eu agora via que estava me esforçando para não pensar, o que eu mais temia que estivesse acontecendo. Ela estaria me usando desde o início, nunca gostara de mim, era tudo uma brincadeira, um jogo onde eu era o peão.
Certo dia achei uma carta dela entre as contas que estavam na minha caixa de correio. Só tinha seu primeiro nome como remetente, do outro lado meu endereço e meu primeiro nome como destinatário, naturalmente. Achei muito estranho aquilo, não costumava receber cartas a não ser de minha mãe. Entrei em casa larguei minha pasta no chão e li a carta:
"Caro Umberto,
Me desculpe estar fazendo você passar por tudo isto. Não devia ter permitido você se interessar por mim. Eu tenho um problema, que não quero revelar através de uma carta. Todos os homens se apaixonam por mim só até o momento em que descobrem a verdade. Com você eu queria que fosse diferente, por isso escondi isso por tanto tempo. Eu gosto de você, mas não sei se você é capaz de gostar o suficiente para ignorar isso. Eu não quero te enganar mais, vamos decidir logo esta situação. Se você quiser saber o meu problema, vá ao bar Quinze de Maio, onde nos encontramos pela primeira vez, na quinta-feira, nove da noite. Eu esperarei por meia hora, se você não aparecer eu vou entender, portanto não vá por obrigação.
Um grande abraço,
Mônica"
Fiquei paralisado em pé no meio da sala por algum tempo. Uma angústia tomou conta de mim. O que seria este problema? Provavelmente uma doença. Mas o quê? Câncer? AIDS?? Meu deus, se eu pensasse em todas as possibilidades eu ia ficar sem dormir até o dia do encontro. Na verdade eu estava apreensivo, será que era tão grave assim? Digo, tão grave como doença venéria? Pois até onde eu pude pensar a respeito, decidi que era a única coisa que eu não toleraria, pelo menos entre os problemas que eu tinha pensado. De qualquer modo, eu estava disposto a ir àquele encontro, mesmo que eu saísse do bar achando-a repugnante, eu não conseguiria simplesmente não ir e esquecê-la no outro dia. Não, eu experimentava algo até então desconhecido para mim, mas eu sabia que não podia fugir daquilo. Não sei se todas as pessoas passam por isso um dia, mas sei que aquilo estava me mudando totalmente. Era terça-feira e eu fiquei atormentado com aquela dúvida até a noite de quinta. Às sete horas, quando cheguei do trabalho, estava suando pelo corpo inteiro, fui tomar banho. Por volta de oito e meia eu estava com a mão no trinco da porta para sair. Hesitei por cerca de dois minutos. Eu a deixaria extremamente amargurada se fosse lá só para descobrir que não tenho coragem de suportar seja lá qual for este problema. Mas desviei-me deste pensamento, abri a porta e saí.
Cheguei um pouco depois do combinado, fiquei parado dentro do carro por mais alguns minutos, estava desejando que as coisas voltassem a ser como no começo, trocando e-mails e encontrando-se em salas de bate-papo. Estava com medo, muito medo, apavorado na verdade. Meu coração parecia que ia sair pela boca, eu estava gelado e pálido. Comecei a respirar fundo para acalmar os nervos, não queria que ela me visse assim, queria demonstrar que aquilo não era algo tão importante quanto ela queria que parecesse, além do mais, se fosse algo desprezível eu ia causar má impressão. Depois que estava mais tranqüilo abri a porta do carro, saí, tranquei-a, entrei no bar, dei uma olhada em volta para achá-la e fui sentar numa mesa bem no fundo do bar onde ela estava esperando.
Juro que fiz tudo isso sem ter noção do que acontecia, como se estivesse programado, como se eu estivesse sendo controlado por uma força desconhecida. Só fui dar conta de mim quando eu já olhava para ela, engoli a respiração e fequei paralizado, sentindo minhas pernas desfalecerem. Ela tirou os óculos escuros (?) que estava usando e olhou nos meus olhos com uma imensa tristeza estampada no rosto, começou a chorar. Eu queria dizer alguma coisa para confortá-la mas não conseguia pensar em nada, só consegui segurar sua mão. Ela então pôs a outra mão no rosto enquanto as lágrimas já corriam pelo seu rosto, depois livrou sua mão da minha para limpar o rosto. Eu olhava fixamente para ela quando algo escapou de minha garganta.
"Não chore, por favor. Me conte o que você tem a dizer."
Ela olhou para mim como se pedisse desculpa com os olhos. Eu estava prestes a chorar também, nem sei porquê. Percebi que havia um bloco de papel sobre a mesa quando a vi pegar uma caneta, a mesma daquele dia que ela usou para escrever na nota de cem reais, e agora escrevia com tinta vermelha sobre o bloco que logo me foi passado.
"Eu queria te pedir desculpa, mas apenas sei ouvir as pessoas, Deus não quis que eu fosse capaz de respondê-las. Não posso sequer falar qual é o meu problema, tenho que escrever tudo o que sinto, não posso nem gritar quando sinto ódio disso tudo. Sinto muito ter-te feito passar por isto, me desculpa."
Por um segundo não entendi o que aquilo queria dizer, mas quando percebi o que significavam aquelas palavras imediatamente senti uma punhalada fria nas costas. Empalideci e fiquei a beira de um desmaio. Como todo esse tempo não pude perceber que ela era muda? Nunca tinha ouvido sua voz mesmo depois de mais de um mês de contato virtual. Se eu já não tinha muito o que falar agora então o mudo era eu. Não consegui olhá-la de imediato e fixava o bloco sem esboçar qualquer reação, a não ser uma cara de espanto. Quando finalmente olhei para ela seu rosto estava escondido atrás de suas mãos. Eu comecei a raciocinar e imaginar como seria conviver com isso, obviamente primeiro me veio à mente o pré-conceito (em seu sentido literal) da situação, e isto acabou me deixando estático diante dela, mas sem saber se me agradava ou não viver com uma mulher muda, e instintivamente decidia que tal idéia não me agradava. Estes pensamentos me tomaram por alguns momentos. Ela me olhou interrogativa pela última vez, eu compreendi sua indagação, mas fui incapaz de murmurar qualquer coisa. De repente ela se levantou rapidamente e foi embora aos prantos. Eu ainda me estiquei na tentativa de pará-la, mas meus braços não se esforçaram tanto para fazê-lo, conquanto fosse ainda possível alcançá-la; não sei porque agi dessa forma. Fiquei parado na cadeira me perguntando o que eu tinha feito, acabava de demonstrar ser um sujeito extremamente ignorante, e aquilo me doeu por dentro, eu ainda a amava, muito pra ser sincero. Me levantei de repente para ir atrás dela. Tarde demais, ela já tinha desaparecido. Fiquei parado, remoendo meus sentimentos de culpa, queria me jogar de uma ponte, me sentia digno de todos os adjetivos depreciativos, tinha a sensação de que todos no bar me olhavam com olhar acusativo, como se me chamassem de monstro. Saí do bar tentando esconder meu rosto de algum jeito e rapidamente entrei no carro. Lá fiquei um tempo, com a testa no volante e de repente um soluço brusco subiu por minha garganta, era o princípio de um choro. Para alguém que nunca tinha chorado enquanto adulto aquilo era algo difícil de se permitir, então, logo sufoquei o choro forçadamente, eu não acreditava no que estava acontecendo, decidi ir para casa.
Cheguei em casa e fiquei prostado no sofá, observando não sei o que em cima da mesa de centro. Depois de meia hora assim eu me levantei e fui buscar uma cerveja. Levei mais meia hora para tomá-la. Acreditava que assim estaria afogando minhas mágoas, mas ao contrário disso eu as estava alimentando. Gostaria de poder contar o que senti nesta noite tão longa, a qual me permitiu dormir cerca de uma ou duas horas até que amanhecesse para logo ter quer ir trabalhar.
Sentimentos Capitais - Segunda Parte
Bruno Nunes
Depois desse dia enviei diversos e-mails para ela ao longo de dois meses mas não recebi nenhuma resposta. Resolvi investigar sua vida, e descobri, através do nome da família, Fontes Carriera, que seu pai era um empresário bem sucedido, sócio de uma rede de hóteis espalhados por todo o país. Ligando para a família fingindo ser um amigo antigo confirmei que ela era realmente uma pedagoga ¿ duvidava que ela tivesse dito a verdade sobre seu ofício após saber de seu problema, estava sendo mais uma vez preconceituoso. Entretanto ela criava métodos de ensino para escolas especiais para deficientes auditivos e mudos. Eu soube também pela família que ela tinha viajado para a Europa para fazer um curso de aperfeiçoamento e não sabiam quando ia voltar para o Brasil.
Passei então a tentar me esquecer de tudo aquilo. Aproveitei que minhas férias vieram dali a mais dois meses e fui visitar minha mãe, que morava numa cidade a noventa quilômetros de minha casa e pra lá levei a nota de cem reais que tinha dado início a tudo, não queria me separar daquela lembrança ainda, mas acabei tendo que deixá-la por lá para ajudar minha mãe a pagar a hipoteca da sua casa, a coitada estava passando por dificuldades e, mesmo após tanto tempo, ainda me senti como um traidor ao me livrar da cédula. Apesar disso essas férias me fizeram bem, voltei pra casa mais leve como se estivesse renascido, o acontecido tinha se transformado numa ferida que doía eventualmente, como uma dor de dente.
Passaram-se um pouco mais de quatro meses que eu tinha voltado das férias. Tinha Mônica agora apenas como uma lembrança de um fracasso de minha índole preconceituosa. O seu rosto aparecia na minha mente como um flash sempre que eu me permitia divagar entre devaneios. Então num dia que parecia ser como qualquer outro me surpreendi com uma carta anônima, só com o meu nome e meu endereço num envelope pardo. Quando a abri meu coração disparou em palpitações frenéticas: a nota de cem reais com as letras de Mônica estava novamente em minhas mãos. Todo meu corpo tremeu. Eu virei o envelope de um lado e de outro na esperança de achar o remetente, mas só via meu nome e meu endereço, nada mais.
A carta me deixou inquieto quanto ao remetente, eu passava noite após noite tentando imaginar como ela veio parar em minhas mãos. Com certeza foi a Mônica que me mandou, mas como ela conseguiu recuperar a cédula? Talvez o dinheiro da hipoteca tem ido parar nas empresas do pai dela, talvez alguém tenha lhe enviado um e-mail e ela tenha "comprado" a nota por um pouco mais, ou... Não sei, apesar de não haver muitas maneiras d¿ela pegar a nota, nunca pensaria na situação que aconteceu realmente. E foi assim que as coisas ficaram. Eu nunca soube como a nota voltou para mim, muito menos tive notícias de Mônica. No entanto, desde então, decidi guardar a nota para sempre, este símbolo de sentimentos idílicos e perniciosos que se esconderam por eras dentro de mim, que foram revelados justamente por alguém tão aprazível quanto Mônica. A nota acabou criando um valor inestimável para mim, bem mais que apenas cem reais como o declarava os algarismos estampados em sua superfécie.
Sobre o autor Bruno Nunes, tem 23 anos técnico em edificações. Faz Letras na UnB e adora escrever principalmente poesias e contos.
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