Sob a chuva
Marcelo Paschoalin
Trovões ao longe. Nuvens negras. Era mais uma tempestade se formando ao norte de Ulm. Mas o rugido dos trovões ainda estava longe de ser a principal preocupação daquele cavaleiro, que em disparada seguia por entre uma velha trilha nas matas da Grande Floresta Germânica.
Mas a natureza não se apiedava daqueles que a ignoravam, e principiou a verter suas lágrimas incessantes, trazendo uma vez mais vida às matas. O cavaleiro cobriu-se com o capuz de sua capa, praguejou no idioma dos homens letrados, e não se deixou abalar, esporeando o cavalo como se brilhasse o sol de mil primaveras.
A chuva já o cobria por completo, e por uma ou duas vezes ele se questionou se devia deixar a cabeça descoberta, poupando-lhe o trabalho de tirar o capuz dos olhos quando uma lufada imprecisa de vento por ele passasse. Mas o cavaleiro não podia se perder em pensamentos, não no momento em que carregava uma nota importante para o Medice de Viena, que aguardava ansiosamente pelas notícias do outro lado do Reno.
Mas a mata tornava-se cada vez mais fechada, e por vezes o ritmo da cavalgada teve de ser reduzido, quase sendo mais produtivo seguir a pé. No entanto, entre um trovão e outro, um grito cortou os ares, mais célere que um relâmpago. Era um grito de socorro, vindo do lado direito da trilha pela qual ele seguia. Num átimo ele puxou as rédeas do cavalo, como se o sentimento urgente de ajudar quem estava em perigo se fizesse sentir. Saltando do cavalo, o cavaleiro desembainhou sua lâmina e, sem receio, caminhou na direção do grito. E novamente o pedido de socorro em desespero se fez ouvir, mais alto que um trovão.
Quando a mata deu lugar a uma clareira, a visão que se fez era da mais pura torpeza e vilania, como se as forças divinas houvessem deixado aquele lugar com receio de a luz ferir as trevas. Eram seis os que se reuniam, trajando longos mantos cor de terra, brandindo adagas retorcidas. Cantavam ou entoavam em um idioma estranho, talvez ensinado pelo próprio Guardião das Trevas, mas ainda assim não era isso que estarrecia o cavaleiro. Ao centro, em algum tipo de altar de pedra, estava uma jovem.
O cavaleiro tentou desviar seus olhos, pois a jovem estava nua, mas não foi capaz. Seu corpo delineava a nobre origem, pois não apresentava as marcas do cansaço dos trabalhos de um camponês, e sua forma em volúpia era como um convite à paixão carnal. Entretanto, ciente de seu dever, o cavaleiro chacoalhou a cabeça com os olhos cerrados e novamente volveu a atenção aos que haviam aprisionado a jovem. Antes que qualquer um dos malditos sequer notasse sua presença, o cavaleiro se postou diante deles, espada em sua mão direita, escudo com o brasão de sua família na mão esquerda, e se fez anunciar, como se nada temesse daqueles seres de trevas e malificência.
Um dos algozes se virou para o cavaleiro, talvez movido pela fúria de ver seu cântico satânico interrompido, e, deixando seu rosto à mostra, ordenou que se afastasse. Mas não foi sua voz imponente que fez o cavaleiro titubear, e sim sua face: era uma mulher que coordenava aquele culto. Segurando sua espada como se fosse uma cruz, o cavaleiro exigiu que a bruxa cessasse seus encantamentos maléficos e deixasse aquele local para toda a eternidade. Contudo, isso serviu apenas para impelir os outros cinco membros adiante, adagas em punho, prontos a somar uma vítima a mais ao sacrifício.
Não lhe sendo dada outra alternativa, o cavaleiro respondeu com aço. Estavam em maior número, mas em nenhum momento se mostraram mais hábeis que um infante com seu brinquedo novo. Não houve desgaste em bloquear os golpes com o escudo e contra-atacar com a espada, e logo os cinco estavam no chão, suas faces junto à lama, suas roupas rasgadas com golpes precisos. Eram homens os cinco bruxos, corrompidos pelos encantamentos e poções da bruxa que ainda se punha em pé, vociferando, tentando fazer com que o cavaleiro desistisse do combate, ludibriando-o com palavras esquivas e dizendo-lhe que era necessário que se afastasse, e que não havia salvação alguma para nenhuma alma naquele lugar.
O cavaleiro confrontou a bruxa de cabelos louros, que guardou a adaga em alguma bainha e pegou do chão um bastão entalhado com símbolos arcanos proibidos. Uma vez mais a bruxa ordenou que ele partisse, e como ele se recusava, pegou um frasco contendo um líquido escuro de algum lugar sob seu manto. O cavaleiro investiu, mas ao invés de se defender a bruxa arremessou a poção.
De imediato o cavaleiro estacou.
A bruxa ainda entoou algum cântico maligno enquanto se aproximava lentamente, olhando no fundo dos olhos de seu oponente, que estava imóvel. Era evidente que seus olhos denotavam a luta interior que o cavaleiro travava, desejando mover todos os seus músculos para o ataque, mas sendo incapaz de concretizar sua vontade. A bruxa então deixou à mostra a face do cavaleiro, removendo seu capuz. Foi quando ela pôde ver que seu oponente de olhos e cabelos escuros não era mais do que um jovem, e não um experiente espadachim ordenado por alguma Ordem monástica.
Contudo, mesmo a bruxa sabia que sua poção não duraria para sempre. Novamente tomando da adaga, aproximou-a do pescoço de seu inimigo, prestes a fazer-lhe o derradeiro corte. Um sorriso se fez na face da bruxa antes que o golpe fosse desferido. E foi esse o instante necessário para que o cavaleiro recuperasse suas forças e se pusesse novamente a combater. Com um encontrão com o escudo, ele arremessou a bruxa para trás, fazendo com que derrubasse a adaga maldita, mas ainda recorrendo ao bastão como arma. No entanto, os reflexos do cavaleiro ainda não estavam de todo recuperados, e ele não foi capaz de dar continuidade ao golpe, atacando com a espada. Ao contrário, foi a bruxa quem pôde desferir o contra-ataque, golpeando fortemente com seu bastão. Ele, porém, não estava pronto para aparar o golpe, e foi atingido no lado, sendo somente protegido pela armadura que cobria a região, feita de malha de aço. Desequilíbrio foi o resultado, e não dano. Isso permitiu que o cavaleiro atacasse com a ponta da espada, atingindo a bruxa no peito, fazendo-a tombar sem vida.
Ainda abalado, o cavaleiro tentou se apoiar, mas apenas encontrou suporte na pedra do altar. A jovem nua estava olhando para ele, com seus negros olhos profundos agradecendo-lhe por salvá-la. Mas desta vez o cavaleiro não desviou os olhos.
Correntes prendiam os braços e pernas da jovem, imobilizando-a. Não era com violência, porém, que a haviam aprisionado, pois sua pele parecia intocada pelo metal frio. O cavaleiro embainhou sua espada e pôs seu escudo junto aos seus pés, tateando em sua mochila alguma manta ou túnica que pudesse cobrir a nudez daquela jovem... mas mesmo tendo encontrado algo, os olhos daquela criatura angelical o tragavam de alguma forma. E foram aqueles olhos que fizeram com que o cavaleiro admirasse seu corpo, entalhado que parecia no mais puro mármore. Desde o mais escuro fio de cabelo, passando pelos seios bem torneados, descendo pelo abdômem cativante até a ponta dos pés, aquela jovem era a mais bela obra criada por mãos divinas. E novamente o cavaleiro se perdeu em seus olhos, que silenciosamente o convidavam para tomar parte na obra dos céus, complementando-a.
Seduzido, induzido, instigado. Sua cota-de-armas foi ao chão, assim como a armadura de malha de aço. A chuva não cessava um único instante, e foi vestindo o cavaleiro com suas águas enquanto as roupas adornavam a relva junto ao altar. Cavaleiro e jovem, embelezados somente pelas gotas de chuva que os cobriam, então permitiram que suas peles se tocassem.
Sim, ela ainda se encontrava presa pelas correntes, mas isso não impedia que ela dissesse ao cavaleiro que o desejava com seu corpo. Ele a beijou ternamente, deixando que suas mãos tocassem as dela, segurando-as com a leveza da bruma. Seu beijo, porém, não se limitou aos carnudos lábios da jovem amante, enaltecendo também seu pescoço e ombros, e seios e quadris... e a cada toque, a cada suspiro de volúpia, ela se contorcia em êxtase, como se tivesse sido talhada para ser tocada e beijada.
E então, mais com audácia que ternura, ele beijou suas coxas. Ela, em resposta, tentou pressioná-lo com suas pernas, trazendo-o mais para perto de si, envolvendo-o com seu pecado. O cavaleiro então a segurou veementemente e deixou-se ser conduzido pelos desejos da jovem, abarretando-a em deleite e prazer. E ele se mostrava afoito em satisfazer a vontade daquela que havia salvo, como se cada segundo fosse o último, concorrendo com cada gota de chuva pela honra de tocar seu corpo primeiro.
Extasiada, e sem poder conter a respiração ofegante, ela clamava silenciosamente por mais, desejando-o por completo, como se não mais fosse possível ocultar a vontade de seu corpo. E ele a tomou em seus braços, e a teve por inteiro, vivenciando cada instante de estar em seu úmido corpo, com suas peles se tocando como se nunca tivessem estado longe, num movimento constante e envolvente, ritmado pela chuva que percorria seus corpos. Como a chuva escorria pela pele dela, percorrendo o doce caminho do pescoço ao ventre, ele também seguia a chuva com seus lábios, sem deixar de cobri-la com o vigor de seu corpo.
Mas ele não cessou. Ao contrário, guerreou com a chuva, cada vez aumentado mais e mais o ritmo, até que a chuva não mais pudesse tocá-los em seu frenesi. Ele a ouvia gemer, e pela primeira vez a ouviu gritar de prazer. Ela clamava por ele, tragando-o com seu corpo, incitando-o com sua voz. Ela desejava agarrá-lo, mas estava presa pelas correntes. Ela desejava tocá-lo, mas era impedida. Ela o queria, assim como ele, mas nem mesmo o cavaleiro sabia de onde partia tanto desejo.
E de súbito, como se rivalizasse com o mais gutural trovão, ele urrou. E seu urro fez com que ela também gritasse, entregue a todo o sentimento. Ambos deixaram-se entregues um ao outro, exaustos de emoção, entorpecidos de prazer. Em ambos um sorriso tão sincero quanto a bênção dos céus em parar a chuva e deixar que um raio de sol atravessasse as negras nuvens para tocá-los.
Novamente senhor de si, o cavaleiro ergueu-se. Ele olhou ao redor e, atônito, não soube dizer o que havia ocorrido consigo a ponto de ter tomado a jovem em seus braços... não que ele se arrependesse, longe disso... ele apenas julgava não ter sido o local adequado, pois ainda jaziam os corpos dos seis hereges que ele havia derrotado. Mas aproveitando-se do fato da jovem se encontrar quase que inconsciente, ele novamente se vestiu enquanto a cobria com uma túnica. Por fim, tomando de sua espada, ele fez o que deveria ter sido feito há muito, e com precisos golpes rompeu os elos das correntes que a prendiam.
Porém, não contava ele com as maléficas forças que regiam aquele altar, pois assim como as correntes se desfizeram com um simples golpe, assim também a jovem começou a se desfazer, seu corpo se transformando em pedra, a pedra se transformando em areia, a areia se transformando em pó, o pó tornando-se nada.
Receoso, e com medo, o cavaleiro se pôs a rezar, recitando em voz alta uma prece para São Dimas. Mais que depressa ele deixou a clareira e, uma vez mais montado em seu cavalo, partiu em disparada. Em seu íntimo, ele sentia deixar para trás todo o desejo sentido, toda a volúpia envolvente. Mas, de alguma forma, ele também se sentia livre do mal, livre das bruxarias daquele local.
Sobre o autor: O Marcelo é escritor de livros de RPG, estudante de direito, e um moço muito talentoso em tudo o que faz. Bem vindo a nossa família!
