Descobrindo novos cronistas...
sobre o blog
Acredito que todos nós um dia na vida já escrevemos um texto que gostaríamos de compartilhar com outras pessoas, mas cadê espaço?

Foi pensando assim que criei o Vamos Cronicar que tem uma meta muito simples: colocar na internet crônicas e contos de escritores envergonhados, anônimos, de primeira viagem e até mesmo daqueles que já sabem bem o ofício...

Para tanto gostaria de pedir a vocês que mandem suas crônicas, contos, poesias que estão aí, guardadinhas na sua mente ou esquecidas numa gaveta, para cá.

Participe e obrigada por visitar esse espaço!
Volte sempre!

Maria Carolina,criadora do blog
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Segunda-feira, Março 29
O Cachimbo da Paz
Dilson Rodrigues

A fumaça subindo e infestando o ambiente. O cheiro impregnando a roupa e o cabelo na balada. O gostinho de nicotina que pode vir no começo, no meio ou no final do beijo.
Definitivamente, eu não gosto de cigarros. Opção e ponto de vista totalmente pessoal, longe de mim tentar fazer uma crítica ao estilo de vida de cada um. Obviamente não deixo de conviver com amigos que fumam, mesmo porque seria impossível, mas já deixei de beijar ao notar de longe uma bagana entre o dedo indicador e o médio de uma linda mão feminina. Mas isso é uma outra história.
O que me chama a atenção e até causa uma certa inveja, é a paz e a aparente sensação de prazer solitário que os fumantes demonstram enquanto tragam os turbinados. Na verdade, quem fuma busca o cigarro por diversos motivos.Uns inventam que se parar engordam, então fumam para se manter em forma (!), outros quando ficam extremamente agitados, ansiosos ou passam por situações de stress, então fumam para buscar o equilíbrio, a calma, o alívio.Mas, e quando se está calmo, curtindo férias, divertindo-se com os filhos ou com a pessoa amada, porquê o fumante precisa dar umas tragadas? Ora, uma pergunta dessas somente o Dr. Drauzio pode responder, então não vou arriscar nenhum palpite. O que me mata de inveja é que como não fumante, se fico estressado fatalmente reverterei a situação para o meu próprio estômago, se pretendo não engordar preciso ficar de olho nas calorias, se estou sozinho, curtindo um minutinho de solidão daqueles que todo ser humano precisa, não posso acender um cigarro só para relaxar, nem sei fumar de verdade. Engasgaria e ficaria ridículo. Então fico com cara de bobo, contemplando o nada, pensamentos imperfeitos insistindo em martelar na minha cabeça, sem contar que sempre aparece alguém para verificar se está tudo bem, porque eu estou com aquela cara, etc. Você já viu alguém incomodar um fumante que está no seu canto, só para perguntar se está tudo bem ou porque ele está fumando?
Não estou fazendo apologia ao cigarro, continuo acreditando nos médicos que fumam e alertam que o cigarro mata, não tenho a menor habilidade para dar as famosas tragadas e nem pretendo aderir a uma imagem que o cinema e a mídia convencionaram chamar de raro prazer, sucesso e outros tantos slogans. Eu só quis fazer um desabafo, se fumasse talvez pudesse poupar o leitor dessas baboseiras apenas acedendo um nicotinado, mas na ausência dele...
Acho que às vezes tento buscar essa paz que os fumantes costumam transmitir.Talvez ela seja ilusória, talvez os pulmões nicotinados atrapalhem os neurônios. Só sei que cada um de nós precisa encontrar a sua própria válvula de escape, a sua paz, o seu próprio cigarro.

Sobre o autor: O Dilson não mandou um perfil,mas já digo que, pra recomeçar, foi um assunto muito bem vindo! Obrigada Dilson!
Sexta-feira, Março 26
Estamos de volta!

Depois de umas férias forçadas, estamos aqui de volta esperando as crônicas de vocês.
Pra homenagear essa volta triunfal e pra dizer o quanto é bom ver vocês novamente, começamos com essa que é uma música que reflete bem o que sinto.
Um grande beijo a todos!
Maria Carolina, a dona do blog.

Tô Voltando
Maurício Tapajós e Paulo Cesar Pinheiro

Pode ir armando o corêto
E preparando aquele feijão preto
Eu tô voltando
Põe meia dúzia de brahma pra gelar
Muda a roupa de cama
Eu tô voltando
Leva o chinelo pra sala de jantar
Que é lá mesmo que a mala eu vou largar
Quero te abraçar
Pode se perfurmar
Porque eu tô voltando
Dá uma geral, faz um bom defumador
Encha a casa de flor
Que eu tô voltando
Pega uma praia aproveita tá calor
Vai pegando uma cor
Que eu tô voltando
Faz um cabelo bonito pra eu notar
Que eu só quero mesmo é despentear
Quero te agarrar
Pode se preparar
Porque eu tô voltando
Põe pra tocar na vitrola aquele som
Estréia uma camisola
Eu tô voltando
Dá folga pra empregada
Manda a criançada pra casa da vó
Que eu tô voltando
Diz que eu só volto amanhã se alguém chamar
Telefone não deixa nem tocar
Quero la la iá
la la iá iá iá
Porque eu tô voltando
Sexta-feira, Março 5
Cara Só
Rodrigo Brasil

Não sabia o motivo daquele convite. Pensava que fosse invisível naquele
ambiente. Quisera ele se tornar invisível. Tímido que era, jamais imaginou
que teria algum laço afetivo com as pessoas que agora convivia. Há dois
meses havia chegado do interior. Da grande cidade, ainda não conhecia nada,
apenas aqueles cinco quarteirões que separavam sua quitinete à faculdade.
Quando se imaginava convivendo com aquelas pessoas, não se via desfrutando
da amizade ou companhia de nenhuma delas. Não entendia sequer o que elas
conversavam. Embora não tenha ousado perguntar o motivo do convite, não
entendeu realmente a causa do mesmo. No entanto, tomou nota do endereço,
enquanto o colega confirmava o horário de chegada. Supôs que, por detrás
daquela expressão carrancuda de seu colega de classe -a quem nunca havia
trocado uma só palavra - existiria mesmo uma real intenção de
confraternização, ou mesmo de amizade, ainda que essa possibilidade para ele
seria extremamente hipotética. Foi pra casa pensativo, e como todo
depressivo que se preze, cabisbaixo. Parou no bar, acendeu um cigarro e
pediu ao atendente:
-Um café, sem açúcar, por favor...obrigado.
Deu um pequeno gole na xícara e a largou em cima do balcão. Além de
requentado, o café estava frio. Enfiou a mão no bolso, contou suas moedas e
repouso-as em cima do caixa. Andou lentamente e avistou um orelhão. Resolveu
ligar pra casa. Há duas semanas que praticamente não trocava palavras com
ninguém, exceto com o professor de economia, que dividira as 45 pessoas da
classe em grupos de cinco, para o primeiro trabalho de "Macroeconomia".
Aproximou-se do mestre e timidamente pediu, numa voz baixa, quase indefesa:
- "Posso fazer sozinho?". O professor deu os ombros, como numa positivação,
e ele então se voltou para a cadeira, aliviado.
O telefone tocou três vezes, e antes que pudesse chegar ao quarto, ele
desistiu. Andou a ermo, durante uns 30 minutos. Começou a reparar as ruas do
próprio bairro, quando se deparou com um grupo de amigos, brindando em um
bar de calçada. E por um mísero instante, sentiu falta da amizade, e
amaldiçoou-se por se sentir sozinho. Andou mais e mais. Quando percebeu,
havia caminhado até o limite do bairro vizinho, que ele nunca tivera a
curiosidade de conhecer. Estava na verdade, tentando esquecer da hipótese de
aceitar aquele convite (previamente aceito), feito de manhã por um estranho,
que ele inexplicavelmente não teve audácia de recusar logo de cara.
Voltou para casa, apressou-se, por causa da garoa que caía. Corria por
debaixo das marquises. Chegou em casa. O tempo fechado dava um aspecto
sombrio para à tarde que terminava. Um pouco molhado, sentou-se à cama e
enfiou a mão no bolso da calça. Dele, retirou o pedaço de papel onde havia
anotado o endereço para logo mais. Ficou ali, por longos minutos, observando
o papel e pensando em nada. Olhou o calendário pendurado na parede, riscou a
data do dia que logo mais terminaria. Lembrou-se do aniversário, que
acontecera há dois dias atrás. Completara 21 anos, mas nunca dera
importância a essa data. Nunca havia comemorado ela, não via motivos para se
presentear alguém num dia como aquele. Nunca havia ganhado um presente de
aniversário. Aliás, em data alguma. Com os pais -humildes e conservadores-
mantivera uma relação integralmente disprovida de carinho, amor. Distante.
Uma relação cordial, educada, apenas. E só. Cansado, sentou-se ao sofá e
apoiou os pés sobre a mesinha de centro, depois, acendeu outro cigarro.
Ligou a televisão. Zapeou algumas vezes e desistiu, e por fim, falou
baixinho, para si mesmo: "Nem sei por que tenho essa merda aqui". Foi até a
janela. Dali avistava uma feia praça, que ele só conhecia assim, da sua
janela. Sentiu raiva daquela praça. Daquela cidade. Por fim, despencou-se
mais uma vez ao sofá. Adormeceu. Quando acordou, já se passava das 9 da
noite. Tomou um rápido banho e vestiu-se. Colocou o papel com o endereço no
bolso e desceu. Preferiu andar a tomar uma condução para o local combinado.
Quarenta minutos depois, perdido, desistiu de procurar e passou a
caminhar, com o olhar vago, apontado para o chão. Deu de cara com um bar.
Parou, e do outro lado da rua, analisou as pessoas que nele estavam. Casais
de namorado, alguns velhos em pé, próximos ao balcão, bêbados. Sentou-se
numa mesa de canto e pediu ao garçom um conhaque barato. Tomou a dose num só
gole enquanto encomendava outro. Riu. E naquele momento, sentiu-se bem. E
só.

Sobre o autor: Rodrigo Brasil tem 25 anos, é publicitário e autor do blog Casos por Acaso.