A Lágrima da Ninfa
Lu Cavichioli
Há muitos anos... longínquos anos... em um velho condado chamado Vila Azul, viveu um homem simples, com poderes extraordinários,fazia poções mágicas. Sua casa era repleta de ervas, extratos florais e pedras preciosas que achava em suas andanças pela floresta.
A população do condado era composta de colonos.e a aldeia vivia do plantio de grãos e cereais. Era época da colheita, e por estes dias, aconteceria uma festa, denominada a Colheita da Lua, por coincidir com o aparecimento da lua cheia.
Os colonos andavam em polvorosa por causa da comemoração, porém Odeon limitava-se à sua casa e suas poções.
Geralmente, ele saía todas as manhãs,bem cedo, evitando assim que alguém pudesse vê-lo. Andava sempre com um manto que possuía um capuz, e nunca ninguém tinha visto seu rosto. Vivia isolado, triste e amargurado. Seu rosto era deformado, em decorrência de uma explosão, acontecida há algum tempo quando tentava encontrar uma fórmula para obter a fonte da juventude. Seu rosto ficou em chamas, que logo abafou com a ajuda de cobertores, curando-se com unguentos que ele mesmo fazia. Entretanto seu aspecto era medonho, provocando asco. Nesse dia, arrumou seus pertences e viajou para longe, encontrando este vilarejo que adotou como lar.
As pessoas nem se incomodavam mais com ele porque já conheciam seu jeito eremita de ser.
Porém, guardava em seu coração uma infinita tristeza: amava em segredo. Ele a via todo fim de tarde à beira do lago, banhando-se em pétalas, exibindo suas melenas , seu corpo e seu rosto de anjo. Odeon escondia-se entre as folhagens para vê-la em todo seu esplendor. E pensava como seria feliz se ela o amasse. Abandonaria tudo se fosse preciso para estar com ela para sempre.
Acalentando seu sonhos, retornava e fazia de seu infortúnio um companheiro. Nas mãos, levava um feiche de ervas , com a intenção de converter em extrato perfumado para sua amada.
Finalmente a noite da tal festa chegou. Fogos de artifício rabiscavam o céu, desenhando luzes e cores.
Enquanto os homens animavam o ambiente com suas flautas e pífaros, as mulheres arrumavam as mesas com flores , pratos típicos e vinho. As crianças traziam nas mãos bandejas com frutas secas para acompanhar o jantar.
Odeon espiava atrás da cortina, sentindo-se a mais hedionda das criaturas. Sem importa-se com a tal festa em meio a tanta música e comilança, o druída saiu em direção ao lago. Em seus pensamentos achava-se a bela Melina, de cabelos ruivos, pele alva e olhos azuis. Na certa, descera do Olimpo esta deusa maviosa, trazendo para a Terra a doçura divinal.
Ao chegar, sentou-se e ficou a observar o firmamento e devanear como era de costume. Entretanto, levado pelo cansaço adormeceu na beira das águas, sendo despertado pelos primeiros raios de sol e pela voz lírica e canora de sua amada. Então sem demora levantou-se rapidamente cobrindo o rosto e correndo em direção à floresta, quando ouviu:
- Espere! O que fazia caído na beira do algo? Está doente?
Odeon corria tão desnorteado que não percebeu em seu caminho uma pedra, tropeçou caindo de rosto numa poça de lama. A moça, que vinha logo atrás, aproximou-se ajudando a levantá-lo. Como seu rosto estava enlameado, ela não pode ver a face grotesca.
- Venha comigo, tenho água fresca em meu jarro, lavarei seu rosto.
- NÃO! Disse ele em tom lacônico.
Melina assustou-se, mantendo distância.
Odeon escapou mais uma vez. A moça, furtiva, seguiu seus passos até a entrada do Condado, descobrindo sua casa .
Depois deste incidente, o druída confinou-se caindo em estado de profunda angustia. Abandonou a idéia de rever Melina em seus banhos matinais, esquecendo também do extrato floral o qual iria presenteá-la, pedindo a morte.
Uma noite, num acesso de loucura, jogou todos seus livros no chão, chutando-os e maldizendo a alquimia:
- Estou condenado à solidão.
Já meio desacreditado, olhou para a estante e viu um único livro sobre a prateleira, e pegou-o imediatamente. Era um livro pesado, maior que os demais. Tinha a capa da cor do carvalho, a árvore sagrada dos druídas. Para seu espanto, ao ler o título, suas esperanças renovaram-se. Estampado em letras douradas e sobressalentes lia-se: "A SERPENTE DA SABEDORIA".
Tratava-se de um livro místico, que continha poções perigosamente milagrosas. Isto parece um contrasenso mas na verdade era assim mesmo.
Tanto poderia curar como provocar efeitos colaterais irreversíveis. Deveria ser usado com parcimônia e sabedoria.
Odeon lembrou-se de sua mãe, uma sacerdotisa druída de grande confiabilidade, que lhe dissera certa vez para utilizar-se dele somente em caso de vida ou morte. Entretanto, esta lembrança esvaiu-se como fumaça e ele começou a folhear as páginas como louco. Até que encontrou uma poção denominada "Fenix". Esta, destinava-se a combater toda a sorte de enfermidades que atingissem a pele, porém ele sem raciocinar pôs-se a verificar se possuía os ingredientes.
Ávido para iniciar a alquimia ia lendo os ítens e ao mesmo tempo separando-os sobre o balcão, até que leu o último ingrediente que pedia - Lágrimas de Ninfa.
Nesse momento sua expressão que era de contentamento, reverteu-se em desespero, exclamando:
- Por Merlin!! Estou mesmo sem sorte... se ao menos eu lembrasse onde tomar a barca para a Ilha Sagrada de Avalon...
Avalon era um lugar místico, cercado de brumas, onde vivia um povo misterioso e dotado de incríveis poderes extrasensoriais, envolvidos em muita magia. Onde as ninfas corriam livres pelas florestas.
Sua paixão por Melina talvez o levasse à loucura. Ansiava em ser formoso novamente, e assim conquistar-lhe o coração.
Então, sem perda de tempo, deu início à alquimia, mesmo estando ciente que faltava-lhe um ingrediente.
O aroma forte de mirra invadia toda a cabana escapando pelas frestas, inebriando a madrugada.
Odeon usava esta resina aromática com a finalidade de purificar o ambiente e prepará-lo para suas experiências místicas. Então sem demora, o druída concluía a mistura milagrosa, que supostamente faria seu rosto voltar ao normal.
Tão logo ficou pronta a poção, deveria ficar em decantação por um período mínimo de 2 horas. Então Odeon resolveu descansar.
Às primeiras luzes da aurora ele desperta, vigoroso e confiante. Aproximou-se do tacho sentindo o aroma floral. A fórmula rezava que o líquido deveria ser passado nas partes afetadas, então lavou o rosto delicadamente, esperando que secasse ao natural. Assim que seu rosto secou, Odeon levantou-se pegando um caco de espelho, tão grande era o pavor de olhar-se em um inteiriço. Foi quando viu pelas beiradas do caquinho algumas de suas profundas cicatrizes. Soltando um urro medonho terminou de quebrar o que estava do espelhinho. Saiu transtornado floresta a dentro, atirando-se em meio às folhagens, e então chorou como nunca havia chorado antes. Entretanto, sem suspeitar estava sendo observado por um vulto que espreitava logo atrás de uma pedra.
Após tanto desespero, o pobre homem levantou-se deixando-se levar pela própria sorte, caminhando em direção a cabana. De repente estancou os passos, olhando para trás...era estranho, mas tinha sensação de que alguém o seguia.
Enquanto caminhava ia traçando seus planos: iria embora daquele maldito lugar, embora soubesse que sua maldição o acompanharia e todos os lugares para ele, seriam malditos.
Entrando rapidamente na cabana, começou a ajuntar suas "tralhas": toda sorte de potes, frascos e livros...tudo ia sendo jogado dentro de um enorme saco de viagem. Frenéticamente, caminhou até o tacho, dizendo:
- Farsa! Esta fórmula é uma farsa!
Abaixou-se ali, sem forças, proferindo em tom baixo algumas palavras maldizendo a vida. Foi quando sentiu sobre seu ombro um toque leve...
mãos femininas...assustado, apavorado ou mesmo aparvalhado, Odeon levou um choque. De pé, bem a sua frente estava Melina, que aturdida fitava aquele rosto grotesco tomado pela desgraça.
- Vá embora!! O que faz aqui?
- Acalme-se, por favor. O que houve por aqui? Por que seu rosto ficou assim?
- Oras...será que lhe dou uma explicação? Por que deveria? Vá embora, eu já disse!!! Você é apenas uma estranha.
- Tem certeza do que diz? Sei quem é você, espiava-me em meus banhos... é o mesmo homem que fugiu de mim com o rosto enlameado.
Nesse momento, Odeon tira um punhal da cintura ameaçando matar-se.
Melina em desespero começa a chorar... então duas lágrimas de mãos dadas correm pela face caindo dentro da poção. Imediatamente o líquido entra em ebulição e uma névoa perfumada envolve a cabana. Num sobressalto, Odeon deixa cair o punhal e em apenas um passo alcança o tacho. Com as mãos em concha retira parte do líquido místico, lavando o rosto. Uma sensação de torpor toma-lhe conta, fazendo-o perder os sentidos.
Tudo estava terminado. O desejo do druída finalmente fora realizado. Seu rosto transformara-se, e novamente voltara a ser um belo homem. Entretanto, quando recobrou os sentidos Melina havia desaparecido.
Diz a lenda que as ninfas jamais poderiam apaixonar-se, essa era a lei. E se isso acontecesse, em brumas se transformariam, retornando ao lugar de origem.
De Odeon nada mais se soube. Contam os aldeões que ele virou constelação, e em noites de lua cheia seu rosto brilha no céu, refletindo seu lume no lago.
O lago da ninfa que abriga a constelação de Odeon.
