Humana Memória
Graça Carpes
Estava feliz. Afinal, problemas... São como purpurina, basta assopra-los...
Fragmentados, perdem a força do brilho.
Dívidas, contas, sustentações da vida... Em dia!
Agora, eu era mar...
Era céu...
Era sol...
Era luz!
Queria brincar.
Andar pelos campos ao som do vento.
Absorver a luz lilás dourado a derramar-se sobre a esfera.
Mas, na tela...
A Guerra!
Senti-me a criança de olhos arregalados...
Incompreensível sentimento!
E a purpurina tornou-se radioativa...
E o som dos ventos tornou-se estrondoso, assustador...
E a luz lilás que refletia o findar do dia, repentinamente, era um gigantesco cogumelo a aproximar-se... Velozmente.
E minha mãe... Agonizou outro idioma!
E meu pai... Cavou um buraco na areia!
E meus irmãos... Urraram em agonia!
E minha pele...
Gritava...
Queimava...
Ardia...
Caía...
E uma legião humana tombava à medida que eu corria...
E o medo me movia...
E eu corria para muito além da estupidez humana onde a purpurina era o brilho mágico de uma fada, que a voar ao meu lado dizia:
- Em tempos futuros, haverá outra menina. Carregara na alma, a luz que vês na purpurina. Buscará no céu o brilho lilás do dia... Vencera o tempo por compreender a relatividade e a dor. Acreditara na humanidade ainda que em agonia... Saberá existir sempre outra menina... Terá em suas células, pulsante, a sorrir-lhe, a vida... Inconsciente, levara em si o DNA de tua história... Cantara a paz e fará poesia...Em tua memória!
POR UM TRIZ DE TRÊS!
por Marcos Kim
E eis que volta ao Brasil um colega nosso que mora no Japão, fotógrafo, macmaníaco e barman nas horas não-vagas, Elvis
Hoshida. Elvis... Vê lá se isso é nome de japa! Já chega contando piadinha. Sabe por quê prostituta brasileira gosta de
japonês?
"Pequenas Empresas, Grandes Negócios".
Eu e outro amigo fotógrafo e macmaníaco, Alexandre Villegas, que poralgum estranho e desconhecido motivo chamamos apenas de Villegas,levamos o Elvis a um exótico bar de Sampa, Papagaio Vintém, no sábado. É uma cena felliniana:
anões uniformizados levando bilhetes de paquera (torpedos) entre as mesas.
Infelizmente, nesta noite o bar abusou da característica felliniana;as mulheres eram muito esquisitas, tanto na aparência quanto no uso da escrita.Pelo jeito, resolveram reinventar o vernáculo luso-brasileiro. A não ser que "você"agora seja grafado com cedilha e eu não esteja sabendo. Pelo menos não pintouum "vossê". Bom, não deixaria de ser uma contração criativa de vossa
mercê...
Os textos parecem ter virado sopa de vírgulas. Pega-se um punhado delas,lança-se sobre a página. Onde cair, fica. Num arroubo de empáfia, resolvoescrever bilhetes em francês. Não sei escrever p* nenhuma, mas elas também não entendem, então está tudo certo. Uma menina respondeu, achou tudomuito chique (penso: très chic, ne c'est pas? Eu deveria continuar
a estudar francês... Seria inútil, mas que soa bonito, soa).Creio que escrevi algo assim, nem sei o que significa ( se fizer sentido, alguém me traduza, por favor): "Cherchez la femme.Toujours, cherchez la femme". Onde diabos eu li este treco?E adicionei outras baboseiras: "mademoiselle, tu es très jolie". Etceterrá.
Mas nada como a Lei da Oferta e da Procura. Dada a enorme concentraçãode testosterona por metro quadrado, as fellinianas se sentiam realizadas ali.Pois nós três ficamos injuriados. Simbora prum lugar melhor.
No estacionamento, a justificativa do título desta crônica.Uma junção de burradas e azares. Me encostei num carro à frente
do carro do Elvis, ambos numa descida. Ele ia dar a ré,mas o maldito manobrista do estacionamento deixou engatada
a primeira marcha. Resultado: ao dar a partida no carro, ele veio diretona minha perna... Mal dá tempo de pensar em nada, é um centésimode segundo de desespero, antes do impacto. Atingiu em cheiomeu joelho direito. Senti que iria ser esmagado contra o outro carro.
Não sei o que é pior, a dor da porrada ou a completa, total e inequívocas sensação de impotência diante da situação. Aliás, lembrei de um gravíssimoacidente que sofri há três anos. Mas isto conto na crônica de amanhã.
Mas, sorte grande: como o freio de mão estava puxado, o carro do Elvis apenas (apenas?)socou minha perna e voltou. Na verdade, cheguei a sentir minha perna prensar de leve entre os dois carros. Acho q se o carro descesse mais três centímetros, seria trágico,
ficaria definitivamente preso e amassado. Outra sorte: o impacto no joelho foi na parte de baixo,não no centro. Coisa de três centímetros abaixo. Imagino que a dor seria muito maior se pegasse em cheio, e chegasse a inverter a dobra do joelho. Dizem que
é uma daspiores dores que um homem pode sentir, comparável à do parto.
Deitei no chão, avaliei o dano. Dois pontos ralados. Num deles, afundou uma parte da carne/osso.
Um centímetro de diâmetro, meio de profundidade. "É uma mossa", identificou o Villegas.Uma nova palavra pro meu vocabulário. Pensei num trocadilho infame: mossa nova...Bom sinal: a dor não anulou o humor, ainda que infame.
Bom, fazer o quê, nessa situação? Não adianta dar bronca no manobrista,o cara foi um completo imbecil em deixar um carro engatado em primeira numa descida,mas nem eu deveria ter ficado tão perto e em lugar tão inadequado, nem o Elvis deveria dar partida sem pisar na embreagem. Não adianta ficar procurando culpados,nesta hora é importante procurar soluções. Como sou lerdo e não renovei meu convêniomédico, toca prum hospital público.
No percurso, observo curiosamente como o corpo reage. A mossa virou calombo,e mais tarde voltou ao normal. A dor foi irradiando pra lugares diferentes, mas o maisincômodo foi nas laterais do joelho (mesmo, dois dias depois, incomoda um pouco, se encostar).
Mas pensei o seguinte: se Ricardo Rollo, meu brother, foi picado por um escorpião e saiu ileso,esta pancada vai ser moleza...
Hospital São Paulo. Incrível como tem gente às duas da madrugada. Lugar feio,pacientes com cara desconsolada, atendentes desatentos. Definitivamente, não é o lugarem que eu gostaria de estar num sábado à noite. O consolo foi ver uma bela médica,
certamente residente, longos cabelos loiros, narizinho perfeito, e levemente empinado,ar imponente em contraste com os traços suaves do rosto... O Elvis saca e me corta o devaneio."Porra, Coreba, você aí todo ferrado e pensando em mulher???"
Me botam na cadeira de rodas e me conduzem à ortopedia. Aliás, o Villegasse revelou um inepto condutor de cadeira de rodas e quase socou meu pé contra a parede do elevador. No trajeto, já sacando que o dano não parecia tão grave, começam as brincadeiras.
Eu: "Na próxima vez que sairmos pra fotografar, quero que vocês me levem
assim, numa cadeira de rodas."
Eles: (xingamentos impublicáveis, mesmo porque direcionados à senhora
minha mãe).
Elvis: "Caramba, Kim, mal te conheço e já armo uma presepada dessas..."
Villegas: "É verdade, deveria esperar pelo menos um ano, aí sim teria
intimidade pra atropelar".
Depois de meia hora de espera, sou atendido. O médico tava tirando um cochilo...Tinha uns vinte e poucos anos. Obviamente, mais um residente.Analisou, viu que não quebrei nada. No máximo,uma lesão no menisco, mas isso só saberia após quinze dias, se continuar a dor.
Receitou antiinflamatórios e bolsa de gelo.Neste período, me recomendou: "não faça esforço, não se apóie nesta perna.
Nada de correr, jogar bola, fazer amor..." Penso: agora, nada de sexo solidário,só sexo solitário. Mas não comento. Vai lá saber o humor dum médico, ao ser acordado...
Respeitando o conselho do médico de total repouso, no dia seguinte lá estávamos nós três,fotografando a rua Normandia. Fiquei comovido, francamente comovido, com o enorme apoioque o Villegas e o Elvis me deram. Tão logo viram cenas interessantes
pra fotografar,largaram meu equipamento todo comigo (uns vinte quilos) e se foram... Lamentável!!!
Principalmente porque eu faria a mesma coisa.Mas eu já praticamente não tava mais mancando, me virei bem sozinho.
Pra finalizar bem a noite, o insuperável X-Salada do Ypê, mais fofocas, e falamos malde uma porrada de gente, só pra não perder o hábito. Todo homem é uma tremenda comadre fofoqueira.
E o Elvis tirando uma onda com a minha cara, sem constrangimento.Quando alguém fica zoando descaradamente com você, pode ter a feliz certeza: você ganhou um amigo.
Bem-vindo ao grupo dos meus amigos, Elvis. Pode-se dizer que você chegou atropelando!Hoje, segundona, vim de busão. Fiquei um pouco irritado com a demora. Neste tempo,já teria chegado aqui no laboratório e ligado o computador, baixado emails... Mas penso:daqui a pouco já posso dirigir, tenho o que dirigir, não fiquei preso
numa cadeira de rodas.Vou reclamar do quê? Preciso é agradecer pelo que tenho.
No trajeto, pensei no significado deste pequeno acidente, se é que tem algum significado: "Deus me protege, mas avisa".
Sobre o autor: O
Marcos é fotógrafo e um grande amigo dono de lindos olhos puxados... volte sempre!
Impregnada
Érica Briones Graciano
É impressionante que mesmo depois de tanto tempo sem você, a minha memória me pregue peças e me mostre como determinadas coisas simplesmente passam a fazer parte da gente.
Eu lembro do som da sua voz, da tonalidade exata que você usava para falar comigo. Eu lembro so som da sua respiração enquanto nós dormiamos juntos... nossas mãos dadas pela manhã quando nenhum dos dois realmente tinha acordado mas, meus olhos eventualmente se abriam. Essa lembrança é tão vívida, que chega a ser dolorosa...
Eu lembro de formatos, texturas, cheiros, gostos... é como se eu tivesse ficado impregnada de você... como se eu conhecesse cada pedacinho seu...
O seu abraço e o seu beijo são maravilhosos... sentir os seus lábios, sugar você, minha língua enroscada na sua e depois o pescoço, a orelha... como era bom te dar prazer e deixar que você fizesse o mesmo por mim.
Os nossos banhos juntos eram os melhores. Eu adorava cuidar de você embaixo do chuveiro e aproveitar para ir te provocando... suas histórias, qualquer uma delas, o jeito como você me contava as coisas, me proporcionava momentos únicos. Eu adorava ver o mundo pelo seus olhos... por alguns momentos me deixar levar para dentro do seu mundo e das coisas que você conhece e ama.
Cada segundo por mais banal que fosse, era especial porque estava contaminado com o nosso sentimento.
Seu jeito de olhar para mim, até mesmo seu jeito de me mandar embora... eu tenho fotos suas na minha mente que simplesmente parecem não querer ir embora... Seu jeito meio atrapalhado é adorável... seu carinho... sua mão pelo meu corpo... seus elogios... não existe nada que eu não quisesse preservar intacto.
Você olha através e dentro de mim. Era uma sensação indescrítivel acreditar, que alguém conseguia me ver assim, tão certo. Eu não tinha medo de errar, porque acreditava que você estaria lá para me ajudar a corrigir.
Eu amei abrir meu mundo e meu coração para você, eu te aceito como você é, principalmemnte porque eu também sinto que sou completamente aceita na forma que eu sou.
Às vezes, parece que mesmo que o universo inteiro se colocasse entre nós o meu amor não diminuiria nem sensívelmente. Ele continuaria se alimentando dessas lembranças que eu tento com tanta força apagar... elas às vezes me enganam e fazem com que eu sinta você, aqui do meu lado, já que de dentro de mim você jamais saiu.
Sobre a autora: A
Érica é uma amiga querida e idealizadora do blog
Oooooooops!
Aquele Jovem
Neto Cury
Aquele jovem ainda era uma criança entrando na fase adolescente, já se enturmava com "amiguinhos" que moravam próximos de sua residência. Chegaram na idade de sair à noite e tomar algumas bebidas. Com o passar do tempo às saídas foram ficando cansativas e aquele jovem não entendia certas atitudes dos seus "amigos". Até que um dia acordou para o fato que as estranhas atitudes eram nada mais nada menos do que os "amigos" sacaneando-lhe e passando-lhe para trás. Ele nunca entendeu o porque daquilo e a partir do dia dessa descoberta, aquele jovem perdeu sua inocência. Adquiriu então a famosa "cara-de-pau", tornando-se uma pessoa solitária e desconfiada. Mas dessa solidão surgiram novos horizontes, antes encobertos pela inocência. Descobriu na própria irmã uma aliada e, ainda melhor que isso, uma companheira.
Seguindo o ditado do "antes só do que mal acompanhado", aquele jovem começou a trilhar seu caminho, conhecendo novas pessoas, porém agora com sensibilidade antiofídica. Conhecendo novas drogas, pois álcool e cigarro são as drogas aceitas na hipócrita sociedade, conhecendo novos estilos, de vida e hábitos. O primeiro furo na orelha veio aos 16, logo vieram outros, a primeira tatuagem, veio aos 18, logo vieram outras. Juntamente com todas estas mudanças o pensamento de sempre: "só se arrependa do que não fez" e "estou cagando para o que os outros pensam". E assim é esse jovem até hoje
Graças aos meus "amigos", perdi a inocência, mas também graças a eles, hoje sou uma pessoa melhor, com amigos e valores reais.
OBRIGADO "AMIGOS"
Sobre o autor: "Aquele jovem" é
Neto Cury, 30 anos, casado e feliz. Esse texto surgiu de uma conversa (no MSN) com uma amiga que falava sobre "cara-de-pau". Visite o blog do nosso querido Mad Dog
Neto Cury