Quinta-feira, Novembro 20
A Esperança Vêm Em Sonho
José Roberto Marque
Um quarto de hospital. Três e meia da madrugada.
A garota dorme, à base de sedativos e durante o sono sonha...
Sonha com o rapaz de terno preto e sobretudo mais uma vez. Não sabe quem ele é, pois não lhe lembra em nenhum momento ninguém que ela conheça. No sonho ele fala com ela, mas das outras vezes ela, ao despertar não conseguia se recordar do que fora dito no sonho.
Lembrava-se de que era algo relacionado ao que ela tentara fazer naquela semana. Os comprimidos todos que tomou e o ato desesperado que levou-a a fazê-lo. Desde que fora deixada pelo namorado, duas semanas antes, havia mergulhado em um poço de depressão, tristeza e amargura, pensando no que fora e em quanto fora bom. Pensava na ocasião também, em como sua vida havia se tornado vazia no decorrer daquelas duas semanas. Foram duas semanas longas em total desespero e tristeza, quando achava que a situação não tinha mais volta.
Lembrava dos bons momentos passados ao lado do amado e, pensava no que tentara fazer. Não era capaz de achar uma explicação para seu ato. Ou melhor, era capaz de pensar em muitas, mas nenhuma era boa o suficiente naquele momento.
O Rapaz de terno preto está falando. Ele não é muito belo. Na verdade ela não consegue ver-lhe o rosto com precisão pois está escuro no sonho. Ela se sente confortável com o rapaz, em meio à penumbra. E ele fala...
Fala sobre seu ato e pergunta ¿porque tentou fazer isso ? Nosso destino está traçado, se tivesse conseguido o que queria, não poderíamos nos conhecer no futuro !¿
¿Mas, nós vamos nos conhecer ? Eu te conheço ? Quem é você ?¿
¿Calma, não posso dizer muito, mas ouça isso : Dentro de alguns meses vamos nos encontrar meio que por acaso. Provavelmente você não vai lembrar deste sonho, pois eu também não vou. O que posso dizer é isso: Trate de ficar viva ! Tu tens um destino muito bonito pela frente e estarei a teu lado se tudo correr bem. Teremos um ao outro em breve, mas não posso falar mais.¿
Ela acorda assustada ! quase que imediatamente esquece a maior parte do que foi dito, mas sente ¿ sem saber explicar porque ¿ a esperança renovada. Afinal, bem sabe que a vida foi feita para ser vivida um dia de cada vez.
Em outubro do ano passado, comecei a Ter uma série de sonhos com a mesma garota no hospital. Como não a conhecia pessoalmente nem sei maiores detalhes, tive a idéia para esta crônica. Quando sonhei, eu era o rapaz do terno preto e sobretudo.
Sobre o autor: O
Beto é analista de sistemas e dono do blog
Armenelos
Segunda-feira, Novembro 17
Shadows
Lucia Helena O. Cavichioli
Nas sombras da noite via-se nas encostas íngremes dos edifícios,
o sangue deixado pelos estupradores.
Nos becos escuros e profundos
ecoavam gritos desesperados.
Fragmentos de luzes abrigam os corações dos mendigos,
que deitados em seus colchões de papelão
admiram o bailado das mariposas frenéticas.
A viagem alucinante de um carro
sobre uma ponte, emoldurava
as avenidas frias e sombrias.
Sob a cidade...
os bueiros,
galerias fétidas
residência dos ratos...
escondia a procissão dos fetos
exilados de seus berços uterinos.
A morte ronda, espia
cada praça
cada esquina.
A noite continua seu passeio soturno
as horas andam de bicicleta
e os minutos pedem carona.
A ronda noturna das prostitutas
enchem o ar de pestes
Maridos sozinhos
talvez esquecidos
caem na tentação,
enquanto as esposas santificadas
dormem o sono da desconfiança.
E no alvorecer
a manhã grita,
sentindo as dores de mais um dia
que nasce forte e vigoroso
também inocente
dos pecados escritos
no livro da escuridão.
Sobre a autora: A
Lúcia Helena é amante dos versos livres e do modernismo. Obrigada Lúcia e volte sempre!
Sábado, Novembro 15
A Pantera e o Lobo
Carol, a dona do blog
Pantera e Lobo. Sozinhos pela primeira vez. Tanto a descobrir... Bocas se encontraram tímidas no início, exigentes depois de alguns momentos. Ambos estavam nervosos, esperaram tanto por aquele momento.
Com vagar ele a despe: com as mãos trêmulas revelando pouco a pouco o corpo que desejara com desespero naquele ultimo mês interminável. Toma os seios dela nas mãos, os acaricia com ternura, finalmente os prova, sua língua descrevendo um rastro quente pelo colo seguindo até os mamilos já intumescidos. Ela geme ofega pede. Desliza as mãos pelas costas dele por debaixo da camiseta detalhando cada reentrância com as pontas dos dedos
Caminham juntos para a cama: ela se deita e espera. A Fêmea aguardando seu Dono. Quando finalmente seus corpos nus se encontram há um mútuo dolorido suspiro de prazer.
Bocas unidas ele a toca: a sente quente debaixo dele. Devagar abandona os lábios dela e vai depositando beijos por todos seu corpo arrancando gemidos cada vez mais altos. Ela desabrocha a cada toque dele: afasta as pernas inconscientemente e numa doce agonia espera que ele chegue ao final de sua jornada.
Ele a saboreia. Gosto de pimenta e mel... tenta saciar sua sede no néctar que escorre dela
Em delicioso desespero ela o chama para perto. Felina que é,rola por cima dele e retribui cada toque recebido. Beija-lhe a boca desce pelo pescoço, sente seu rosto ser afagado pelos pêlos do peito de seu Lobo. A respiração dele acelera-se enquanto se contorce sem nada dizer. Não é preciso. Ela sabe o que ele quer: o envolve entre seus lábios provando o gosto acre da pele de seu Lobo. O sente reagir a seu toque, a boca tomada de assalto pela rigidez dele.
Não mais podendo se conter ele a traz para perto e devagar a penetra. Sua Pantera está tão quente, tão receptiva... Ele é envolvido pelo corpo dela, enquanto avança devagar para dentro do delicioso refúgio.
Ela o estreita em seus braços. Agora está completa, com seu Dono todo dentro de si. Começam um balé permeado por gemidos, palavras de afeto, enquanto seus suores se misturam. Olhos nos olhos, eles se amam deslumbrados por acharem-se um no outro. O gozo chega sem se anunciar: ela grita, ele chama o nome dela enquanto se entrega as sensações que varam todo seu ser.
Ofegantes se abraçam corações disparados. Abandonam-se a doce lassidão que se apodera deles. Paz.
A Pantera e o Lobo sabem que seu melhor diálogo não precisa de palavras...
Sexta-feira, Novembro 14
Amor obsessivo
José Roberto Marque
Eu simplesmente não agüentava mais. A situação era, no mínimo insólita. Um grande amigo dizia-se apaixonado por uma garota que já namorava com outro rapaz. Agüentar o sofrimento de meu amigo era difícil, principalmente por ele Ter o péssimo hábito de dramatizar a situação ao extremo.
- Eu a amo, queria que ela estivesse comigo !
- Mas ela não está. Tem outro na parada. Ela gosta dele ! É tão difícil assim de entender ?
- Mas se ela não estivesse...
- Isso não ia mudar nada. Já pensou que o fato de ela estar ou não namorando não significa nada quanto a ela querer estar contigo ?
- Mas se não tivesse esse cara... ela ficaria comigo !
- Porque você tem tanta certeza disso ?
- Bom, é que...
- É que, o caramba ! Já parou para pensar que são duas coisas distintas ? Que mesmo ela estando sozinha ela poderia ainda assim, não querer saber de você ?
A situação era simplesmente complicada. Só quem estava de fora enxergava aquilo. Afinal, quando a gente está apaixonado fica mais difícil enxergar determinadas coisas. Evidente que quem está de fora enxerga as coisas com mais clareza. Num determinado momento, ele passou a tentar diminuir o namorado da tal garota.
- O cara não serve para ela !
- Como você sabe ? Como pode afirmar isso com tanta convicção ?
- Porque não tem o meu nível !
- E daí ? Acho que quem tem de julgar se o cara serve ou não, não é você e sim ela, não ?
- Bom...
- Bom o caramba ! O Cara até pode ser intelectualmente inferior a você, mas enfia, de uma vez por todas nessa sua cabeça dura : É dele que ela gosta ! Sinceramente, cara, essa sua fixação doentia está começando a me cansar ! Além do mais, o cara, pelo que você me contou a trata super bem, certo ?
O tempo passou e meu amigo aparentemente se esqueceu daquela história. Viajei a trabalho e ficamos algum tempo sem nos vermos. Um mês depois ele ainda estava na mesma ladainha.
- Pensei que eles tinham terminado, mas não...
- Cara, desiste disso ! Tá nessa ladainha tem três meses, já conheceu um monte de meninas legais e ainda não virou o disco ?
- É difícil...
- Eu sei que é, mas você tem que tentar ! Isso só tá te fazendo mal ! Pára com isso !
- Não consigo...
Mais dois meses dessa história. Um belo dia, a garota terminou o namoro.
- É agora ! Vamos ver se ela vai continuar me rejeitando...
Mas definitivamente, a menina não queria saber do meu amigo. Ele estava inconsolável.
- Pensei que o problema fosse ele...
O tempo passou, a garota voltou a namorar com o cara e acabou ficando grávida dele. Foi demais para meu amigo. Suicidou-se. Deixou um bilhete muito triste no qual lamentava seu ato e declarava seu amor pela garota. Lamento dizer isso, afinal era meu amigo. Infelizmente não foi capaz de tolerar tamanha rejeição. Deixou passar muitas oportunidades de ser feliz ao lado de outra pessoa que fosse, imagino eu. Mas apesar de ter sido em vão, admiro o amor que sentiu por essa garota.
Sobre o autor: O Beto é analista de sistemas e dono do blog
Armenelos
Terça-feira, Novembro 11
Além do Córrego de Sonhos Mortos
Graça Carpes
Marcele acordou com um gosto de sol sobre seu corpo.
O abraço dourado anunciava o dia.
Na cortina amanhecida de cor azul-noite, a libélula noturna adormeceu pousada e com suas asas geométricas, sonhava.
A geladeira pálida olhava para Marcele com olhos de fome.
O que poderia fazer?
Espreguiçou seus braços como quem afasta para muito longe todos os problemas.
Afinal, não seria ali no despertar sob o sol, que encontraria respostas para a vida.
Levantou-se e caminhou até o chuveiro.
Água ainda havia ¿ as contas de água e luz eram descontadas direto em sua conta bancária ¿ quando havia dinheiro, óbvio.
Riu-se enquanto massageava os longos cabelos.
Lembrou de seu amigo Anjinho e os olhos encheram-se de luz.
O quanto aquela amizade era importante para ambos!
Agradecia ao universo a exatidão dos momentos. Ainda que isso conglomerasse aquele tão desprovido momento econômico.
Nunca soubera mesmo lidar com dinheiro.
Às vezes, chegava a acreditar que esse era seu ¿Karma¿. Não que isso significasse a permanência de seus problemas, não.
Afinal, enquanto sua sabedoria taoísta permitia-lhe compreender e aceitar cada momento havia também em si uma certa força budista a mostrar-lhe que tudo sempre pode ser transformado, pois o mundo é todo movimento, portanto passível de transformação quando há ação.
O que não sabia era como transformar sua conta negativa em ultrapositiva.
Gargalhou de si mesma quando o jato de água desceu como um transparente véu a escorrer sobre seu delicado corpo.
Então, realmente acordou.
Uma cachoeira sonora subiu-lhe aos olhos, misturando-se às águas do banho.
Células mortas e a veia dos sonhos perdidos desciam pelo ralo.
Mirou a trajetória e o contorno circular por onde seguia aquele córrego de abortados sonhos.
Pensou novamente em seu amigo Anjinho.
Fazia-lhe tanto bem!
Um anjo sem rosto e sem corpo...
Desde a primeira aparição percebeu-lhe a força interna...
A clareza do caminho...
Era como se asas invisíveis do invisível amigo amenizassem o peso do momento.
Depois, tinham os dois um jeito gostoso... De felicidade!
Sentiu a alegria de estar viva e brincou sobre as águas igual indiazinha feliz a bater os pés no chão, gesto tribal de chamar os amigos.
Esquecendo a própria dor, atirou-se dentro de um suave vestido azul.
Outono já se fazia.
Olhou-se ao espelho.
Os olhos quando emocionados esverdeavam e refletiam águas.
Mergulhou na bolsa as palavras de Machado de Assis no Anel de Polícrates...
A doce lembrança de seu amigo Anjo...
O gosto novo de sonhos...
Abriu a porta e saiu...
Precisava beber o sol!
Sobre a autora:A
Graça é escritora,dona do blog
Pulsar Poético e uma das mais assíduas frequentadoras aqui do Vamos Cronicar. Volte sempre!
Sábado, Novembro 8
Porta Giratória
Paulo César Nascimento
Nos meus passos tu tropeças
No meu compasso te centras
Ignoras as promessas
Como tu sais quando entras
Quando aflita me acusas
De artimanhas fatais
Mantendo falsas recusas
Como entras quando sais
Se nas palavras te ocultas
E no silêncio suplicas
Pra longe te catapultas
Como te vais quando ficas
Se no fundo te alimentas
De lembranças imortais
É por ti que te atormentas
Como ficas quando vais
De tanto cinema mudo
De tantas tragédias gregas
Eu contemplo, não me iludo
Como partes quando chegas
E tinges teu desespero
De muitas cores e artes
E finges teu exagero
Como chegas quando partes
De partidas e chegadas
Vai vivendo nossa história
De saídas e entradas
Numa porta giratória
Sobre o autor: o Paulinho é psicólogo e escritor dentre muitas outras coisas. Pra conhecer
Sutis Indecências que é o último livro que ele lançou, clique aqui:
Sutis Indecências
Sexta-feira, Novembro 7
A dieta
Patrícia Daltro
Querido Diário,
Hoje começo a fazer dieta. Preciso perder 8 kg. O médico aconselhou a fazer
um diário, onde devo colocar minha alimentação e falar sobre o meu estado de
espírito.
Sinto-me de volta a adolescência, mas estou muito empolgada com tudo. Por
mais que dieta seja dolorosa, quando conseguir entrar naquele vestidinho
preto maravilhoso, vai ser tudo de bom.
Primeiro dia de dieta.
Um queijo branco. Um copo de diet shake. Meu humor está maravilhoso. Me
sinto mais leve. Uma leve dor de cabeça talvez.
Segundo dia de dieta.
Uma saladinha básica. Algumas torradas e um copo de iogurte. Ainda me sinto
maravilhosa. A cabeça doi um pouquinho mais forte, mas nada que uma aspirina
não resolva.
Terceiro dia de dieta.
Acordei no meio da madrugada com um barulho esquisito. Achei que fosse
ladrão. Mas, depois de um tempo percebi que era o meu próprio estômago.
Roncando de dar medo. Tomei um litro de chá. Fiquei mijando o resto da
noite.
Anotação: Nunca mais tomo chá de camomila.
Quarto dia de dieta.
Estou começando a odiar salada. Me sinto uma vaca mascando capim. Estou meio
irritada. Mas acho que é o tempo. Minha cabeça parece um tambor. Janaina
comeu uma torta alemã hoje no almoço. Mas eu resisti. Anotação: Odeio
Janaina
Quinta dia de dieta.
Juro por Deus que se ver mais um pedaço de queijo branco na minha frente, eu
vomito! No almoço, a salada parecia rir da minha cara. Gritei com o boy
hoje! E com a Janaina. Preciso me acalmar e voltar a me concentrar. Comprei
uma revista com a Gisele na capa. Minha meta. Não posso perder o foco.
Sexto dia de dieta.
Estou um caco. Não dormi nada essa noite. E o pouco que consegui sonhei com
um pudim de leite. Acho que mataria hoje por um pedaço de brigadeiro...
Sétimo dia de dieta.
Fui ao médico. Emagreci 250 gramas.
Tá de sacanagem! A semana toda comendo mato. Só faltando mugir e perdi 250
gramas! Ele explicou que isso é normal. Mulher demora mais emagrecer, ainda
mais na minha idade. O FDP me chamou de gorda e velha!
Anotação: Procurar outro médico.
Oitavo dia de dieta.
Fui acordada hoje por um frango assado. Juro!
Ele estava na beirada da cama, dançando can-can.
Anotação: O pessoal do escritório ficou me olhando esquisito hoje, Janaina
diz que é porque estou parecendo o Jack do Iluminado.
Nono dia de dieta.
Não fui trabalhar hoje. O frango assado voltou a me acordar, dançando
dança-do-ventre dessa vez. Passei o dia no sofá vendo tv. Acho que existe um
complô. Todos os canais passavam receita culinária. Ensinaram a fazer Torta
de morangos, salpicão e sanduiche de rocambole.
Anotação: Comprar outro controle remoto, num acesso de fúria, joguei o meu
pela janela.
Décimo dia de dieta.
Eu odeio Gisele B.
Décimo primeiro dia de dieta.
Chutei o cachorro da vizinha. Gritei com o porteiro. O boy não entra mais na
minha sala e as secretárias encostam na parede quando eu passo.
Décimo segundo dia de dieta.
Sopa.
Anotação:Nunca mais jogo poquer com o frango assado. Ele rouba.
Décimo terceiro dia de dieta.
A balança não se moveu. Ela não se moveu! Não perdi um mísero grama!
Comecei a gargalhar. Assustado o médico sugeriu um psicologo. Acho que
chegou a falar em psiquiatra. Será porque eu o ameacei com um bisturi?
Anotação: Não volto mais ao médico, o frango acha que ele é um charlatão.
Décimo quarto dia de dieta.
O frango me apresentou uns amigos. A picanha é super gente boa, e a torta,
embora meio enfezada, é um doce.
Décimo quinto dia de dieta.
Matei a Gisele B! Cortei ela em pedacinhos e todas as fotos de modelos
magérrimas que tinha em casa.
Anotação: O frango e seus amigos estão chateados comigo. Comi um pedaço do
Sr. Pão. Mas foi em legítima defesa. Ele me ameaçou com um pedaço de salame.
Décimo sexto dia.
Não estou mais de dieta. Aborrecida com o frango, comi ele junto com o pão.
E arrematei com a torta. Ela realmente era um doce.
Sobre a autora : A Patrícia Daltro é dona do blog A Criatura e A Moça. Agradeço a Beatriz por ter me dado esse toque tão importante sobre a verdadeira autora do texto. Beijo pras duas!
Quinta-feira, Novembro 6
Todo mundo todo dia faz a mesma coisa
Lúcia Helena Cavichioli
O que fazer hoje? O que fazer?
Todo dia é a mesma coisa!
Levantar da cama, andar até o banheiro, olhar no espelho, escovar os dentes, pentear os cabelos, trocar de roupa, bocejar, abrir bem os olhos, pensar no amor, lembrar da mãe doente, olhar as horas, tomar o café da manhã, pensar na condução, lembrar que está chovendo, querer voltar prá cama, pensar no amor, sair para a rua, abrir o guarda-chuva, reclamar, voltar para o portão, olhar para o céu, receber um pingo de chuva no nariz, pensar nas coisas que terá de fazer na agência, pegar o ônibus, ouvir buzinas, respirar fumaça, tossir, espirrar, xingar, lembrar do amor, pensar no reclame da tv., olhar um out-door, pagar o ônibus, sentar no banco, abrir a janela, lembrar da prestação do consórcio, comprar um maço de cigarros, chegar na agência, cumprimentar a moça de olhos azuis, piscar para ascensorista, abrir a porta da sala, sentar na cadeira, olhar a agenda, lembrar do amor, lembrar da mãe, lembrar do cãozinho que ficou olhando tristonho na hora da saída, fumar um cigarro, olhar as horas, contemplar um resto de sol através das nuvens depois da chuva.
Tomar um cafézinho, sorrir para a secretária do chefe, falar com Fred sobre suas infindas mulheres, perguntar sobre sua mulher e seus 5 filhos, pensar no amor, fazer o anúncio, lembrar do produto, pensar no produto, engolir o produto, vender o produto, ver o tempo passar, escutar uma batida, olhar através da vidraça, pensar que é um amigo, pensar na viagem que planejou no fim de semana, olhar o relógio, hora do almoço, pegar o elevador correr através das portas, chegar na rua, ver rostos, ver expressões ilusórias, chegar em casa, comer bife, comer arroz, comer feijão, comer batatas fritas, tomar suco de frutas, sorrir pro pai, sorrir prá mãe, perguntar se ela melhorou, sorrir prá irmã e perguntar:
__ e o vestibular?
Brincar com o cãozinho, pensar no amor, lembrar do amor, ir descansar um pouco, sonhar com o anúncio, ver a noiva através das verdes paisagens, que noiva? Do anúncio.
Pular da cama, abotoar a camisa, calçar os sapatos, fazer xixi, dizer tchau prá mãe e gritar:
__ Te cuida velha!
Sorrir prá irmã, dar tchau pro pai, beijar a irmã, afagar o cãozinho, pensar no amor, voltar ao trabalho, reagir, ouvir buzinas, gritarias, olhar para um out-door, querer comprar um out-door, olhar um sorriso, apreciar umas pernas, fumar outro cigarro, lembrar de apanhar os sapatos no sapateiro, tentar fazer o anúncio, olhar pro chefe, simular um sorriso pro chefe, sentir uma pontada no lado esquerdo. Será enfarte? Ou serão apenas gases? Ter medo do enfarte, pensar no amor, assinar uns papéis, fazer o anúncio, ler o anúncio, rasgar o anúncio, olhar o céu, sorrir para as nuvens, lembrar do amor, esquecer as dívidas, mascar um chiclets, lembrar do amor, ligar para o amor, lembrar do amigo que está com pé engessado, dormir um pouco, acordar logo, piscar para a secretária, sorrir para a faxineira, ir ao banheiro, fazer o anúncio, gostar do anúncio, mostrar para o chefe, sorrir com o chefe, ser abraçado pelo chefe, esperar a aprovação do anúncio, , tomar um café, coçar a orelha, pentear o cabelo, lembrar do amor, ouvir do chefe um aumento de ordenado, chorar de alegria, pular de contentamento, poder casar, comprar um carro, Ter uma agência de propagandas, lembrar do amor, correr para casa, contar pro amor do aumento, ficar feliz, beijar o amor, sorrir pro amor, sofrer com o amor, contar prá mãe, contar pro pai, contar prá irmã, até pro cãozinho, tomar um sorvete, dirigir o carro de um amigo, furar o pneu, ficar nervoso, trocar o pneu, voltar prá casa, devolver o carro, dormir, dormir, sonhar com um novo dia onde encontrará tudo, ou muito mais que tudo nos caminhos desta vida longa, estreita, sem um dia se quer prá dizer:
__ Este foi um dia onde parei para respirar, parei para pensar, nessa ¿selva escura e desvairada¿, onde habitam monstros deglutidores de felicidade!
Sobre a autora A
Lúcia Helena é amante dos versos livres e do modernismo. Querendo saber mais sobre essa moça visite:
Nas asas do vento e
Verso e Flor. Obrigada Lúcia e volte sempre!