Terça-feira, Setembro 30
Cio
Maurício Hansen
Umidade de língua na pele
é tudo o que seu olhar sugere
é tudo o que mata a sede
é tudo o que a pele pede
calor de boca na virilha
avançam os dentes, a matilha
cercando o desejo em agonia
o corpo escapa do estio
Saem da orbita as meninas
forma-se parábula na espinha
os montes perto da retina
as carnes trêmulas e febris
cravam unhas no cetim
fogem pêlos em arrepio
desce o gozo, desce em rio
Sobre o autor: O
Maurício Hansen é designer gráfico, músico e dono do
Blog do Careca
Segunda-feira, Setembro 29
Ode a Matilde (Oh Desgraçada!)
Marta Mendes
Não te dizia nada. Nada era dito a ti. Quem iria dizer? Será que não poderia mais escrever? Estes momentos eram necessários para obriga-lo a pensar na sua arte? Não, não queria refletir sobre ela. Seus pensamentos eram sempre mórbidos, a conclusão não poderia ser outra. Havia secado. Tinha sido chupado. Saíra pelo ouvido. Materializou-se em uma gosma nojenta e saiu de si, abandonando-o às letras no teclado, aos acentos sem palavras. Aonde foram parar as palavras? Ele não poderia ter esgotado todas. O dicionário. Do dicionário podem sair palavras. Não é para dizer então? Mas o que fazer com elas? Hein? Começar a prestar atenção nas escoriações? Iria logo para o banho se afundar em água morna, provavelmente ficaria por lá, pois há horas estava no mesmo lugar, em frente ao computador, sentado, olhando para o teclado, esperando que algo mágico acontecesse. Ficaria por lá se purificando, pois se não saíra pelo ouvido, ainda estava lá e ele tinha que encontrar. Tornado-se mais limpo, mais liso, o banho sempre o deixara mais lisinho, mais consciente do seu corpo, da sua pele branca arrepiada. Meu Deus, que horror! Que horror se abate sobre mim quando vejo que não sou capaz de me levantar! Gosmas escorrem da geladeira, os tacos estão ensebados, as janelas são pura gordura. Quanta sujeira se acumulou ao meu redor e tão pouca é minha disposição para me desfazer dela! Poderia contratar uma diarista, uma mulher corpulenta, mas limpa, para se agachar e esfregar, quem sabe até mesmo as minhas costas que eu não lava há... há..., Meu Deus, a quanto tempo não lavo minhas costas! E quanta inércia sinto neste momento, já caindo da cadeira, escorregando em direção aos tacos sebentos. Uma mulher que se chamasse Matilde, alta, forte, com ancas bem largas, e força nos braços para esfregas e aspirar. Sinto-me já asfixiado com o pó que me entra nas narinas, o feixe de luz que entra pela janela dá vida ao pó, ele está ali em suspensão como é que se diz, e vai entrando, vai entrando, por isso me sinto sufocado. Quando foi que cheguei a ter os sentidos tão aguçados? Sentidos aguçados são então sinal da mais pura degradação? Quando se sente o nariz, os ouvidos, a boca, a língua áspera é sinal de que se está nas últimas.
Esta mulher, Matilde, poderia quem sabe me ajudar a me levantar, me apoiar nas suas ancas e me arrastar ao banheiro, tirar minha roupa, cortar meu cabelo, tirar a minha barba que já sinto coçar. Quem sabe escovaria também meus dentes já pesados ou me acariciaria o pescoço que mal consigo mexer. Matilde, não irei atrás de ti, venha ao meu encontro, quantas delícias poderia me proporcionar! Seria eu outro homem, um homem de verdade, com cheiro de verdade, dos meus ouvidos não sairiam gosmas, as minhas mãos parariam de tremer, eu talvez até conseguisse dormir. Mulher, onde estás ti, desgraçada que não ouve minhas súplicas. Tens também gosmas nos ouvidos infeliz? Quantas vezes quereis que te chame? Irás desperdiçar a chance de fazer feliz alguém, um gênio como eu, um homem acabado sim, mas um gênio insuperável. Que tipo de mulher és tu? Que se nega a ajudar um pobre pedinte de favores tão sutis? Que se achas tão mulher, tão corpulenta e penetrante que diz não, que zomba de mim, que atravessa a rua dando gargalhadas, se rindo da minha barba mal feita, dos meus óculos embaçados. Vai-te mulher, pras profundezas, vai-te para o lugar de onde te vi sair, engole tuas risadas com aguardente, vá gritar suas crueldades para seres delicados que irão se encantar por ti. Aqui já estou há horas e continuarei. Não mais pensarei em ti, sua depravada! Serás a última vez que irás ouvir meu nome, ouviste junto a súplicas e nada foi suficiente para comover-te. Em minutos tornarei ao antigo estado, braços caídos, esperando gatos se enrolarem em minhas pernas, engolindo a luz, cheirando poeira. Escuto ainda seus passos e posso imaginar-te jogando os quadris maliciosamente para os lados, requebrando em cima de seus sapatos marrons. Cada batida de teus calcanhares equivale a uma pulsação minha, bate mais forte, mexa mais as ancas e morrerei abandonado, como um verme, não um parasita, mas um verme em autoconsumação, os olhos já arregalados, as mãos suadas quase a pingar. Não ouço mais suas gargalhadas, os calcanhares não batem mais em cima de sapatos marrons, mas teu perfume ainda compete com a poeira pelas minhas narinas. É um veneno, quanto mais inspiro mais poeira engulo junto com o aroma vulgar de seu corpo, até os gatos inspiram mais forte, um deles se lançou à janela semiaberta, isso eu pude ver com o canto dos olhos. Ele mia pra você, suplica por mim, pois não posso mais suplicar por ti. Apenas um banho e uma faxina! Quanta súplica! Queria eu apenas ver-te a bater calcanhares na sala junto a mim, quebrando as ancas para limpar os vidros, entortando-se toda para catar as guimbas de cigarro do chão. Nenhum cigarro lhe pedi, pois a inércia me impediu de fumar, os cigarros provavelmente escorreriam das mãos encharcadas de suor. Nenhum trago lhe implorei, pois também não bebo mais, visto que até disso desisti. Falta desistir dessa súplica, tu não irás voltar, pois nem aos gatos tem amor, nem por eles se dobra. Por favor não peço mais, quero que morras, atropelada na primeira esquina que virares, quero ver teus sapatos voarem a metros de seu corpo, o sangue colorir a sua face, confundir-se com seu batom, sair pelos ouvidos, escorrer pelas suas ancas. Quero ouvir-te gritar por mim, implorar para que eu vá lhe consumir também.
Sobre a autora: Marta Mendes tem 23 anos e mora em Belo Horizonte. É historiadora e idealizadora do blog
Strangelove no qual fala sobre cinema e outros assuntos.
Quarta-feira, Setembro 17
Respiração
Mauricio Hansen
Respiro e você me oxigena
inspiro, expiro
transpiro e você tem o que deseja
inspiro, expiro
inspiro, expiro
Tornar-se ar, mais bela expressão
inspiro, expiro
Libertar todo o tesão
inspiro, transpiro
expiro, sentido
inspiro, libido
expiro, inspiro
inspiro de novo
mais uma vez, inspiro
expiro de vez
expiro e gozo.
Sobre o autor: O Maurício é designer gráfico, músico e dono do
Blog do Careca
Terça-feira, Setembro 16
Só um caso...
Rodrigo Brasil
Vez ou outra quando degusto uma cachaça, me lembro daquele trágico 14 de fevereiro. Tomávamos todas, eu e um amigo. Eu com 13 anos, virgem, inocente puro e besta.
"Vamo lá no inferninho", me avisou Caixão, o chegado que estava comigo. Mais velho e mais experiente, tinha descontos na casa, dizia. "Inferninho" era um puteiro local.
As "donzelas" da casa eram as três filhas da dona do estabelecimento. Rosa, Ronicléia e Hulk eram o nome das noviças. Rosa, era a mais bonitinha,... aliás, a menos feia. Ronicléia parecia um ET (literalmente) e por último, medalha de bronze, Hulk, que fazia jus ao apelido. Não era aquilo que imaginava pra mim. Sempre amante de uma boa literatura, tinha uma idéia romântica, até bestial de como seria uma noite de amor. A primeira noite de amor. Meu coração gelava. Sentia caláfrios. Suava. O medo do fracasso, da gozação (por partes dos amigos) era a última coisa que um jovem de 13 anos, interiorano, queria pra vida. E fui. O lugar fedia horrores! Urina e uns cheiros indecifráveis e indefiníveis.
Senta, paixão...., disse Hulk, apontando a cama de alvenaria.
E eu, imóvel. Hulk era o rascunho do mapa do inferno, e tenho certeza que nem com um caminhão de viagra, ela seria capaz de levar um homem a ereção.
Do quarto que estávamos era possível ouvir as urradas que meu colega e sua amante soltavam. Não para menos, o teto da birosca não era forrado, de forma que apenas as paredes separavam os comôdos.
Comecei a suar frio. Hulk se aproximou de mim enquanto eu achava que ia ter uma taquicardia. Nada mal prum moleque de 13 anos.
De repente a porta se abre...e pra minha sorte, entra um cara de uns 45 anos.
Olhou pra mim, olhou para aquele aberração da natureza (Hulk).
Voltou a me encarar e disse:
3 cervejas de duas pingas, tá bem pago?
Sem pestanejar fiz o negócio. Agora eram quatro urradas em vez de duas. Posso dizer que já fui cafetão nessa vida. Fiquei escorado no balcão do bar com a velha, mãe das moças. Enquanto eu tomava a cerveja e dava umas bicadas na pinga (achava que sabia beber), a velha perguntou:
Por acaso vc é sobrinho do Fabricío?
Não perguntei como ela sabia do nosso parentesco, apenas confirmei.
Aquele filho-da-puta tá me devendo uma grana. Tá morando aqui, o desgraçado?
Respondi que não e ela se calou. Fui embora dali. Pela primeira e última vez entrava no famoso "Inferninho".
E da forma que entrei, saí; inocente, puro e besta.
Decididamente aquela não foi a minha primeira vez.
Ainda esperaria mais um tempinho pra rolar. Sem pressa. E quando rolou, também não foi das melhores, não era uma menina da "vida", ainda assim, bateu minha carteira. Saí da minha primeira vez da mesma forma que antes; inocente, puro, besta e financeiramente lesado.
Sobre o autor: Rodrigo Brasil tem 22 anos, é publicitário e idealizador do blog
Casos por Acaso. Visitem!
Segunda-feira, Setembro 15
Cibernético
Graça Carpes
E se eu... Saltar de teu pc como um gnomo a atravessar a floresta, em tom quase verde esperança e olhos cor de mel?
Vaga-lume brilhante com asas de libélula desvendando caminhos e arrastando-te pelo rastro da lua.
Cães uivando...
Grilos cantarolando...
Somos tão leves que podemos seguir ao som de Strauss, floresta adentro.
Verde noite me acompanha os passos.
Instalo-me ao teu lado, robotizado ser.
Que templo é esse onde vivemos...
Sem deuses
Liquidamente metálico
Gélido quase?
Diluído o tempo
Aquático o espaço...
Saltemos
Então!
Sobre a autora: A
Graça além de ser a idealizadora do blog
Pulsar Poético, faz parte da diretoria aqui do Vamos Cronicar!
Quinta-feira, Setembro 11
Queda Livre
Maurício Hansen
Ficaram em silêncio por um tempo, tinham medo de encarar a verdade. Por
que a vida teimava e insistia em persegui-los? Não eram honestos o suficiente?
Não se amavam profundamente? Não eram amigos para os piores momentos? Porquê
então nada funcionava? Eram tantas perguntas rondando suas mentes que optaram
pelo silêncio, seus olhos trocavam informações e emoções e era o bastante
para o momento. Fato é que ela estava desempregada e as contas que não eram
pagas se multiplicariam. Ele tentava ser forte mas aquele seria um golpe
duro. Tentariam sobreviver a mais esse obstáculo da vida a todo o custo,
afinal é para isso que serve o amor. Horas antes ela havia dito que prepararia
comida para que ele vendesse na empresa, talvez isso minimizasse o problema.
Pela cabeça dela cenas de um filme onde ele, o cavaleiro, mataria o dragão
e poria fim aos dias de suplício. Na dele cálculos inimagináveis, cortes
improváveis e medo. Tanta dedicação, tanto amor ao trabalho e agora isso.
Pensou em mudar-se de cidade, recomeçar e quem sabe conseguir algo nessa
vida. Já havia feito de tudo nessa vida, lavou banheiro, balconista de boteco,
músico, arte-finalista, servente de pedreiro, etc. Não seria isso que o
derrubaria, quanto a ela, não sabia se resistiria a um recomeço.
Tentou murmurar algo, mas foi interrompido pelas lágrimas que rolava no
rosto dela. Odiava a sensação de impotência que tomava conta do seu corpo,
decidiu levantar-se e acender um cigarro, pensava melhor quando fumava.
Ela foi até a cozinha tomar remédio para o estomago, aquela gastrite sempre
aparecia nas melhores horas, "vida bandida" pensava. Lembrou-se de sua herança
e de como torrou todo seu dinheiro. Como faria diferença agora.
Deitaram-se juntos e deram as mãos, isso sempre fazía-os calmos. "Boa noite"
disse ela. "Boa noite."
Terça-feira, Setembro 9
Contradição
Fabiola Salles
Hoje a lua não esta tão bela, nem o dia têm algo de incrível pra ser falado.
Mas tem saudade de você mesmo sem querer
Você não me liga mais
Não esta na sua casa
E eu não sei onde te encontrar
Não vou te procurar essa noite não!
Não quero me machucar com essa distancia toda
Não pra fingir que nada acontece quando me sinto perto de você
Fantasia, acho que você nem lembra mais.
Não lembra não
Nem de mim, talvez seja solidão.
Não machuca, nem corta, não sangra, nem tão pouco é vão...
Não tem gosto de nada, mas traz você na lembrança.
Traz você nas canções que escuto
No barulhinho bom, no som que acostumei a ouvir sempre que vinha você no pensamento.
Um tum, tum meio esquisito, não descompassado, saudoso, com gosto de outra vez.
Por favor, mais uma vez;
Vê sua alegria, direta e franca não importa,
Importa que hoje queria falar com você
Saber como é você
Como foi seu dia
Dar-te boa noite
Talvez um beijo doce e dormir.
Sobre a autora: Fabiola Salles tem 22 anos, é estudante e está preparando seu blog. Aguardem!
Segunda-feira, Setembro 8
Melindres Evasivos
Maurício Requião
Quase não tenho coragem de encarar o ceticismo com que encaro o mundo. Na verdade, posso tirar esse "quase"; eu não tenho coragem.
Na introspecção absurda que me encontro, sinto náuseas até mesmo em absorver o ar. Tudo que me lembre a realidade é algo que não merece minha simpatia e compaixão. Dou mais duas longas talagadas e esvazio o copo. Torno a enchê-lo até que quase entorne. Fico olhando a tensão superficial segurar o líquido acima dos limites do copo. Tão frágil o equilíbrio. Inevitavelmente, o líquido escorre, melando minha mão esquerda quando levo o copo à boca. Delicado demais.
A campanhia toca, o que me faz olhar para o luminoso relógio digital. 14:15. Estou esperando alguém? Não que eu me lembre. Levanto, caminho até a porta, destravo as trancas. É João.
"Eu havia marcado algo com você?" pergunto, num tom um tanto seco, do qual me arrependo imediatamente; não queria que houvesse soado desta forma.
"Desde quando eu preciso pedir permissão para te visitar?" respondeu João, da forma mais casual possível, como que ignorando o tom com que iniciei o diálogo.
Sequer lembro há quantos anos conheço João. Foi mais ou menos ali, naquela época, em que eu trabalhava com aquilo que não gostava e fazia eu querer me suicidar, que é exatamente com o que ele trabalha até hoje, sem sofrer qualquer dano psicológico por isso.
Há pessoas que são assim, conseguem viver fazendo qualquer coisa que os proporcione um salário no fim do mês. Minha sensibilidade não me permite tal opção frívola. Por isso, tão logo quando pude, apaguei todas as pessoas daquela minha antiga vida, eliminei um a um do meu convívio social. Odeio todas elas. Talvez seja pura inveja, mas elas são simplórias demais, eu não gostaria de ser assim; melhor sentir que as odeio do que as invejo. Menos ruim para a minha alma.
João foi o único que restou. Apesar dele ser igual a eles, não é. A sua simplicidade de existência não me fere porque, abaixo desse véu, ele parece saber que há algo mais. Ele tem uma individualidade.
"E então, você vai hoje à noite?" ele pergunta.
"Para onde?" eu sou muito mentiroso. Tem horas que consigo enganar a mim mesmo. Sei exatamente sobre o que ele está falando.
"Ora, deixe disso, você sabe muito bem do que estou falando: a festa de Yasmin."
"Ah... isso."
"Você sabe que é muito importante para ela que você vá."
"Imagino..."
"Sua ironia pode ser boa em muitas ocasiões, mas esta não é uma delas. Você precisa ir hoje. E não é só porque é importante para ela, mas porque também é importante para você."
Eu sabia de todas aquelas coisas, não precisava que ninguém ficasse repetindo para mim. Era difícil até mesmo esquecê-las, por isso eu estava bebendo. O escroto sincero do João sabia disso. Assim como sabia que iria terminar conseguindo me convencer a deixar de ser, por um momento, a criatura desgastada, suja e reclusa em que venho me tornando, para me tornar a pessoa que eu gostaria de ser normalmente.
"Olha, João, ela vai se mudar, não vai? Então pronto, ela fez a escolha dela. Vai morar na porra da Europa. Eu não posso ir, ela sabe disso, mas mesmo assim vai. Gostaria muito que ela não fosse, que ficasse aqui comigo, mas não é assim que as coisas são."
"E quando foi que você disse isso a ela?"
"Isso o que?"
"Que gostaria que ela ficasse aqui com você."
"Assim, exatamente como disse aqui, nunca. Mas ela sabe disso. Você sabe que sim."
"É? Depois de tudo que você disse a ela da última vez que discutiram? Você acha que ela ainda tem tanta certeza assim de que você gosta dela?"
"Não me venha com sermão. Ela mereceu."
"Eu não vou entrar nesse mérito agora. O que eu sei é que ela vai para a Europa na semana que vem, principalmente para fugir do que ela sente por você - e que você também sente por ela, mas é cabeça-dura demais para confessar."
"Então você acha que eu simplesmente deveria ir para a tal festa?"
"Acho."
"E pedir desculpas, pedir pra ela não viajar, essas baboseiras todas?"
"Todas elas."
"E que roupa eu visto?"
Sobre o autor: Maurício Requião é escritor e idealizador do blog
Textos Quase Proibidos. Visitem e esbaldem-se!
Sexta-feira, Setembro 5
Canal Zero
Mauricio
Ligou a televisão, precisava distrair a cabeça e esquecer essa história.
Mexeu o gêlo do copo preguiçosamente e deixou seus pensamentos fluirem.
Agora sim... Não precisaria lembrar-se do ocorrido. Porquê diabos fui pensar
nisso, pensou. Um cigarro! É disso que preciso. Levantou-se sem pressa e
caminhou até a cozinha onde guardava os cigarros, sua esposa não gostava
que ele fumasse na sala. Fazer o quê? Abriu um maço, acendeu o cigarro e
tragou profundamente. Voltou para a sala e escancarou a janela para que
o cheiro não viciasse o ambiente. Seu dedão bailava por sobre o controle
remoto... Nenhum programa que preste nessa merda! Preciso comprar um DVD,
ou assinar TV à cabo. Opa! Que delícia! Esses comerciais de cerveja são
um "espetáculo". De repente algo estalou e ele entendeu o que estava acontecendo
ao seu redor. Que vida era aquela? Mecânica e tão diferente da infância
rica em sonhos e alegrias baratas.
Pensou em tudo que deixou de fazer nesses anos de "maturidade", nas festas
que não curtiu, viagens que não fez, amigos que não reencontrou, família,
projetos...
Ops! Que filme é esse? Será que ainda está na primeira parte?
Sobre o autor: O
Maurício é designer gráfico, músico e dono do
Blog do Careca. Passem lá, porque vale a pena!
O Amor e a Miopia
Alexandre Inagaki
Quando eu tinha oito anos de idade, fui a um oftalmologista, que diagnosticou um "comecinho" de miopia em meus olhos. "Muita televisão", disse ele em tom de sermão. Meu grande receio, passando a usar óculos, era o das gozações dos amigos; temia ser apelidado de "quatro olhos" (como crianças são imbecis). Mas enfim, se era preciso, era preciso.
Bem, de fato passei a enxergar melhor: o mundo ficou muito mais claro e nítido. Diante das vantagens óbvias, deixei de ligar para as gozações maldosas. Minha adaptação foi rápida e indolor, e fiquei tão acostumado com os óculos que só faltava tomar banho com eles.
Mas o caso é que, desde então, a cada nova consulta que fazia com o oftalmologista, eram-me receitadas lentes cada vez mais fortes. Se antes eu conseguia enxergar as coisas razoavelmente bem sem óculos, em poucos anos tornei-me extremamente dependente deles. Aos 23 anos, estava com sete graus de miopia.
Tenho uma amiga que possui hipermetropia, pero no mucho (meio grau no máximo), e que se recusa terminantemente a colocar óculos. Alega: "não quero deixar minha vista mal-acostumada". Ok, é um pouco vaidosa também. ;-) Mas o fato é que ela tem razão numa coisa: óculos causam dependência. A partir do momento em que você passa a usá-los, seus dias de visão razoável sem a muleta deles estão contados. Há uma razão para isso: muitos oftalmologistas exageram na hora de prescreverem as lentes. Em vez de óculos que te dêem 100% de visão, põem a margem de erro para cima, receitando-os um pouco mais fortes do que efetivamente necessitamos.
Como resultado, passamos a enxergar bem até demais: linhas, contornos e nuances ganham maior contraste. Cada folha de árvore, cada pedregulho na calçada é perceptível aos nossos olhos. Contudo, assim que retiramos os óculos, tudo se torna borrado, como um filme projetado fora de foco. Tornamo-nos dependentes deles; em sua ausência, tudo é desconforto.
O amor é como um par de óculos. Quando estamos apaixonados, passamos a enxergar detalhes do cotidiano que até então nos eram imperceptíveis. O tempo e o espaço tornam-se mais sensíveis ao coração, e nossa vida é irremediavelmente dividida entre antes e depois do amor.
Antes de nos apaixonarmos, a vida que vivíamos parecia boa e tudo estava claro. Mas, quando acaba uma relação, o chão sob nossos pés nos é retirado. Agora vejo com nitidez: sem amor, a vida perde o foco
Sobre o autor: Alexandre Inagaki é o (ir)responsável pelo blog
Pensar Enlouquece, Pense Nisto. Visitem!
Segunda-feira, Setembro 1
Ebenézer
Daniel
Era manhã de sábado e, ele estava sentado na varanda observando o nascer do sol e o começo de mais um dia.
Ele era um homem solitário, não por opção, mas por imposição. De quem? Bom, talvez do destino. Moreno de estatura média.
Vivia em uma pequena casa perto de uma lago que ele chamava de Ebenézer ( do hebraico: até aqui nos ajudou o Senhor ), não era religioso ao contrário, achava a religiosidade o maior mal, afinal por causa das religiões é que haviam tantos conflitos e ainda existem desentendimentos. Apenas sabia que se ele ainda estava ali era porque ¿Alguém¿ o ajudou a continuar vivo.
Naquela manhã ele não queria ficar em casa ou na horta, sem saber explicar para si mesmo, ele sentia uma enorme vontade de ir ao lago e ali ficar. Como não entendia o motivo resistia, mas sem muito esforço cedeu e foi até o lago para satisfazer-si.
Sentado na margem do lago e desfrutando da calmaria e da prazerosa sensação que sentia ele nem percebeu que havia uma moça do outro lado da margem, era uma moça bonita de cabelos negros compridos, olhos castanhos vivos, e uma olhar cativante.
Bem, ela era nova na pequena vila e estava passeando e ao vê-lo parte ao seu encontro na tentativa de estabelecer amizade. Ele ali sentado e ao vê-la caminhando em sua direção não dá importância, pois achava que não era com ele que ela falaria. Mas para sua surpresa ela sentou-se ao seu lado e o cumprimento...
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Passadas algumas horas de muita conversa os dois, ali sentado um de frente para o outro, ambos não sabiam explicar para si próprio, mas sentiam uma deliciosa sensação. Seria talvez o inexplicável sensação de bem estar que sentiam em estar juntos? - pensou ele, olhando fixamente para os olhos dela, que não se sentia incomodada, ao contrário retribuía com um olhar meigo e misterioso.
Durante alguns minutos eles ficaram apenas se olhando, tentando desvendar o que o outro estava sentindo, pensando naquele momento ... Muita coisa passava pela cabeça de ambos, ela ali conversando com um estranho, mas sentia como se já o conhecesse a muito tempo; e ele, nunca fora de conversar, e ainda mais com mulheres, não era um cara que se desse muito bem, mal sabia o que falar e, agora estava conversando com uma maravilhosa mulher como se fossem velhos conhecidos.
Já era tarde, e ele com toda sua inexperiência com mulheres a convida para dar uma volta no lago. Ela aceita o convite. Em alguns minutos ambos estão na pequena e, naquele momento perfeita canoa, passeando pelo lago, fazia um final de tarde lindo, o sol estava se pondo, a nuvens avermelhadas e uma brisa suave soprava sobre seus rostos.
E a sensação de maravilha ocupava o pensamento e o coração de ambos
Sobre o autor: Daniel é acionista do Vamos Cronicar e idealizador do blog
Athoz.
Criaturinha abençoada
Alessandra Pires Bertazzo
Eu estava ali deitada no meu leito, os pés devidamente apoiados na cadeira, em que minutos antes encontrava-me sentada em frente ao computador com os miolos fervendo dentro da cabeça buscando idéias para desenvolver um trabalho que não me pertencia. Era um trabalho extremamente cansativo, do qual eu já estava ficando farta. Consistia numa série de comentários sobre O ponto de mutação, um livro de Fritjof Capra, um físico mundialmente conhecido, do qual apenas eu ainda não tinha conhecimento.
Duas coisas me incomodavam: a primeira é que tratava-se de um trabalho de engenharia mecânica (o que entendo eu de engenharia?), coisa que não tem absolutamente nada a ver comigo e que, como já mencionei não era meu; a segunda é que a leitura do livro era deveras fatigante e a tarefa parecia não render o esperado. Só em pensar que eu precisava digitar vinte páginas sobre ele me deixava entediada e profundamente irritada comigo mesma.
Então, num ato desesperado de autoxingamento, perguntava-me a todo momento: "o que te levou a fazer isso? tá vendo agora a encrenca que tu arrumou pra ti? tu podia estar muito bem de pernas pro ar curtindo tuas férias, lendo teus estimados livros de literatura e no entanto, tá aí desperdiçando neurônios com um trabalho que nem é teu. tu merecia uns tapas! agora tem que ficar aí perdendo madrugadas inteiras digitando essa porcaria. bem-feito!"
Não encontrando uma solução mais imediata para a minha confusão mental provocada por essa fonte de stress que tão espontaneamente arranjei para mim mesma, passei a caminhar de um lado para outro dentro do meu pequeno quarto, procurando as idéias de que tanto necessitava. Mas as malditas escondiam-se de mim. E para piorar, dentro do meu próprio cérebro! Eu já estava a fim de mandar tudo pelos ares: computador, trabalho, idéias, tudo!
Foi quando resolvi descansar no leito novamente, na tentativa de me distrair com o que passava na televisão naquele momento. Eu estava me sentindo agoniada e oca sem as minhas idéias. É impressionante como elas fogem quando mais se precisa delas! Um pouco mais relaxada fechei os olhos, tentando enxergar as malditas. Quando por fim, estava prestes a ter uma visão, senti alguma coisa estranha se movendo na minha barriga, uma presença inesperada. Era alguém ou alguma coisa que se movia sobre mim com a sutileza e a leveza típicas de uma bailarina. Cheguei mesmo a achar que era impressão minha. Mas não era. Seja lá o que fosse continuava passeando deliberadamente no meu ventre sem nem ligar para o fato de eu estar gostando ou não daquilo.
Pensei imediatamente na possibilidade de desferir um duro golpe com a minha mão direita sobre a criaturinha indesejável e atrevida, não importando o que fosse. Mas a curiosidade de ver o que era acabou prevalecendo em mim. Então, fui abrindo os olhos devagar a fim de reconhecer o inimigo. E, foi nesse instante que me deparei com ela, a inimiga pública número um dos curitibanos: a tal da aranha-marrom. Como ela estivesse distraída, talvez, pensando no emaranhado de teias que é sua vida, bastou um único e certeiro golpe para jogá-la pra fora do meu território. Ela voou diretamente para o chão e ao cair ainda meio zonza e atordoada pela violência do golpe, aproveitei para desferir o golpe de misericórdia.
E, então, tomada por um acesso de fúria incontida peguei o chinelo e assassinei-a com prazer. Foram várias pancadas, uma após a outra, freneticamente, até eu sentir que ela não mais respirava e estava mortinha da silva. E, assim para completar o inusitado ritual macabro que eu iniciara, juntei cuidadosamente o cadáver e saí lá fora no pátio para depositá-lo num formigueiro de saúvas. Não tive remorsos. Não tive dó. E não chorei. Era eu ou ela. Estranhamente isso me fez bem, pois ao voltar para meu quarto, as idéias subitamente começaram a borbulhar feito champagne no meu pensamento. E as coisas começaram a fluir.
Sobre a autora: Alessandra Pires Bertazzo é escritora e autora do blog
Psicocatarseterapia.
Pequeno Tratado Sobre a Mortalidade do Amor
Alexandre Inagaki
Todos os dias morre um amor. Quase nunca percebemos, mas todos os dias morre um amor. Às vezes de forma lenta e gradativa, quase indolor, após anos e anos de rotina. Às vezes melodramaticamente, como nas piores novelas mexicanas, com direito a bate-bocas vexaminosos, capazes de acordar o mais surdo dos vizinhos. Morre em uma cama de motel ou em frente à televisão de domingo. Morre sem beijo antes de dormir, sem mãos dadas, sem olhares compreensivos, com um gosto dolorido de lágrima nos lábios. Morre depois de telefonemas cada vez mais espaçados, cartas cada vez mais concisas, beijos que esfriam aos poucos. Morre da mais completa e letal inanição.
Todos os dias morre um amor. Às vezes com uma explosão, quase sempre com um suspiro. Todos os dias morre um amor, embora nós, românticos mais na teoria do que na prática, relutemos em admitir. Porque nada é mais dolorido do que a constatação de um fracasso. De saber que, mais uma vez, um amor morreu. Porque, por mais que não queiramos aprender, a vida sempre nos ensina alguma coisa. E a lição é de que o amor morre.
Todos os dias um amor é assassinado. Com a adaga do tédio, a cicuta da indiferença, a forca do escárnio, a metralhadora da traição. A sacola de presentes devolvidos, os ponteiros tiquetaqueando no relógio, o silêncio insuportável depois de cada discussão: todo crime deixa evidências.
Todos nós fomos assassinos um dia. Há aqueles que, como o Lee Oswald, se refugiam em salas de cinema vazias. Ou preferem se esconder debaixo da cama, ao lado do bicho papão. Outros confessam sua culpa em altos brados, e fazem de pinico os ouvidos de infelizes garçons. Há aqueles que negam, veementemente, participação no crime, e buscam por novas vítimas em salas de chat ou pistas de danceteria, sem o menor sinal de remorso. Os mais periculosos aproveitam sua experiência de criminosos para escrever livros de auto-ajuda, com nomes paradoxais como "O Amor Inteligente", ou romances açucarados de banca de jornal, do tipo "A Paixão Tem Olhos Azuis", difundindo ao mundo ilusões fatais aos corações sem cicatrizes.
Existem os amores que clamam por um tiro de misericórdia: corcéis feridos.Existem os amores-zumbis, aqueles que se recusam a admitir que morreram. São capazes de perdurar anos, mortos-vivos sobre a Terra teimando em resistir à base de camas separadas, beijos burocráticos, sexo sem tesão. Estes não querem ser sacrificados, e, à semelhança dos zumbis hollywoodianos, também se alimentam de cérebros humanos, definhando até tornarem-se laranjas chupadas.
Existem os amores-vegetais, aqueles que vivem em permanente estado de letargia, comuns principalmente entre os amantes platônicos que recordarão até o fim de seus dias o sorriso daquela ruivinha da 4a. série, ou nas fãs que até hoje suspiram em frente a um pôster do Elvis Presley (e, pior, da fase havaiana). Mas titubeio em dizer que isso possa ser classificado como amor. (Bah, isso não é amor. Amor vivido só do pescoço pra cima não é amor.)
Existem, por fim, os amores-fênix. Aqueles que, apesar da luta diária pela sobrevivência, das contas a pagar, da paixão que escasseia com o decorrer dos anos, da mesa-redonda no final de domingo, das calcinhas penduradas no chuveiro e das brigas que não levam a nada, ressuscitam das cinzas a cada final de dia, e perduram, teimosos, e belos, e cegos, e intensos. Mas estes são raríssimos, e há quem duvide de sua existência. Alguns os chamam de amores-unicórnio, porque são de uma beleza tão pura e rara que jamais poderiam ter existido, a não ser como lendas. Mas não quero acreditar nisso.
Um dia vou colocar um anúncio, bem espalhafatoso, no jornal.
PROCURA-SE: AMOR-FÊNIX
(ofereço generosa recompensa)
Sobre o autor: Alexandre Inagaki é o (ir)responsável pelo blog
Pensar Enlouquece, Pense Nisto e editor do e-zine literário Spam Zine
Spanzine. Conheçam esse moço, ele é o máximo!