Quinta-feira, Agosto 28
O Amor de Tamisa
Graça Carpes
Pensava em seus amores: o último que teve, quando o teve...
Depois, deixou-se estar só.
Também, havia o céu que a cada dia trazia um novo tom, uma luz outra... Reflexos bordando nuvens.
Gostava de estar só.
Espaçosa que era sua alma exigia-lhe livres vôos.
Lembrou de Lauro, foi o último de seus... Foi? Já nem lembrava mais.
Depois... Depois...
Depois de Lauro, o mundo caiu.
Recolheu todas as possibilidades.
Trancou todas as saudades.
Ancorou o barco e permaneceu a ouvir o embalo noturno das ondas.
De Lauro, lembrava que havia uma janela em direção à colina. E entre a janela e o sol, o vai-e-vem de nuvens a refletir os dias.
Até que foi bom, enquanto havia intensidade.
Gostava do cheiro do quarto... Gostava de quando sentados na cama e quase sem nada a falarem, seus olhos vermelhos se encontravam e aí sim... Ardia! Pele aderia pele!
Cada pessoa é um porto, sabia. Quando atracamos, até que acalme a maré, toma conta uma certa magia em direção norte, em direção sul... E nada se acomoda.
Há sempre movimento, ebulição. Quando estanca é a hora da partida.
E aí... Ai, como dói cerrar a porta, assinar a tela, expirar!
Arrumou suas malas no prazo de uma semana.
Os livros.
Material de pintura.
Telas sem chassi.
Pincéis, máscaras, esculturas...
Três calcinhas: uma preta, uma rosa e uma branca.
Dois pares de sandálias.
Uma saia longa.
Três sutiãs.
Duas camisetas... Era tudo!
Também, quase não usava roupas quando moravam juntos. Pareciam adeptos ao naturismo. Ao naturalismo. Ao Dionísio...
Brindavam suas taças lua à dentro, sol a sol...
Em outras horas, cores emergiam das extremidades dos dedos de Tamisa.
E aí...
Era um deus nos acuda.
Horas, dias...
Acrílicas, terebintinas, azuis, laranjas, ocres, sienas...
E Lauro esbravejava, espumava, explodia.
Batia panelas, portas, quebrava armários.
Insaciado, explodia demônios. Desarrolhava o gênio do mal.
Um dia virou a mesa ¿(a de desenho): o impulsionado vôo dos nanquins! E o canson importado hemorragiu, expirou ante o olhar de Tamisa.
Dos olhos de Lauro saltavam labaredas, Odins ensandecidos.
Dos olhos caídos de Tamisa... Nada!
Recebeu seu ultimato:
- Rua do meu quarto! Seus olhos não são meus olhos. Quatro noites.
Quatro dias. Não come, não dorme, não me acaricia...
Chega... menina!
Menina chega!
Sabia da densidade dos dias.
Era maio.
Estava agora diante da jaula cercada de tela que cercava a arara colorida, que de asas cortadas e olhos caídos e silenciosa, pagava pelo crime de ser bela.
Fotografou a aprisionada.
Registrou em seu olhar o pedido de socorro da fêmea abatida.
Guardou as mãos nos bolsos. Fazia frio na tarde.
A cor de um céu outonal gemia o gozo do entardecer.
O corpo arrepiou.
Às vezes lhe fazia falta estar em estado de amor.
Sobre a autora: Graça Carpes é a idealizadora do blog
Pulsar Poetico.
Quarta-feira, Agosto 27
Fusão Nuclear
Marcio Brigo
(Para ler ouvindo: "Smack My Bitch Up" PRODIGY).
Meu nome é Samuel Jordão, sou técnico de desenvolvimento nuclear da estação espacial Auberg-18.
Estamos movendo a estação por meio de propulsão nuclear para o setor Gama-3, por isso toda a tripulação esta dormindo em animação suspensa, exceto por mim, que fui acordado há cinco minutos atrás pelo computador devido a anomalias no sistema. Quando sai da câmara de indução de sono, a visão que tive não foi das melhores.
Fui criado para ser um técnico do sistema nuclear da estação, que gera energia para toda a estação, desde as luzes dos corredores até o sistema de suporte de vida, mas fui treinado também para ser um soldado em um caso de emergência. Mas nem todo este treinamento me preparou para a cena que eu presenciei.
Todos as câmaras ao meu redor estavam quebradas, e as pessoas de dentro delas estavam sendo devoradas por seres alienígenas. O nojo toma conta do meu ser, presenciando este banquete macabro mau posso acreditar que seja verdade. A sangue por toda à parte posso sentir o seu cheiro, as criaturas são nojentas emitindo grunhidos alem da compreensão humana.
Meio atordoado saio correndo me desviando das criaturas que investem contra mim olho ao meu redor, procuro o quadro de armas, e nele encontro o rifle laser 12.000.
Atiro em todos os que posso. Mas eles são muitos, o que fazer? Minha vida não tem salvação, vou morrer de qualquer maneira. Mas quando a estação for encontrada estas criaturas podem causar mais mal. Só me resta tomar uma decisão vou destruir a estação.
Corro com toda força que tenho para o reator nuclear, matando todos os seres que encontro no caminho, alguns chegam a encostar em mim mas eu consigo me desvencilhar, seu sangue me lambuza da cabeça aos pés.
Chego até a sala do reator a única coisa que me separa do reator é uma barreira de vidro, calibro meu rifle para a energia mínima, quebro o vidro, recalibro para energia máxima, e me lanço na imensidão do reator nuclear disparando o rifle em seu centro com todo meu espirito, como um cavaleiro medieval lançando sua espada no coração de um dragão.
Meu rifle causa uma explosão jamais sentida por um homem, mas isto tudo é por uma causa nobre.
O Estado de São Paulo
Louco homicida morre depois de matar quase vinte pessoas.
da redação
Morreu na noite passada,
o maníaco homicida Samuel Jordão 35, em um albergue para a população carente no centro, depois de ter matado quase vinte pessoas.
Ele acordou no meio da noite, e segundo testemunhas, caminhou até sua bolsa pegou um rifle calibre 12 e começou a disparar em todas as pessoas que estavam a seu redor, depois correu para o corredor atirando em todos que encontrava pelo caminho, chegou ate a janela do albergue - que fica no decimo oitavo andar - atirou no vidro, e depois se jogou janela abaixo atirando em todas as direções se espatifando na calçada. O que ninguém entende é o que faz um ser humano chegar a esse ponto de insanidade. Testemunhas afirmam que ele olhava para suas vitimas com verdadeiro nojo .
Um dos sobreviventes disse que ele lhe olhava com o nojo de quem estivesse olhando para um "et".
Nas fronteiras da insanidade uma voz regozija-se:
"O dragão esta morto salvei o dia, mesmo estando morto. Louvado seja meu senhor".
Sobre o autor: Márcio Brigo ( com um "g" só! ;-) da última vez eu errei!) é o idealizador do blog
Marcio Brigo. Passe lá!
Segunda-feira, Agosto 25
Gente, cadê vocês? Sem vocês o blog não existe, não esqueçam, tá? Mandem seus textos! Abraços.
Carol a dona do blog.
Quarta-feira, Agosto 20
Estou de blog novo, de novo! Desta vez conto e procuro histórias interessantes do nosso dia a dia. O novo canto contador de causos é o
Flagrante da vida real. Passem por lá e deixem sua colaboração,mas lembrem-se: só valem fatos que aconteceram
de verdade,hem? Abraço!
Terça-feira, Agosto 19
Alejandro e Agnim
Graça Carpes
Alejandro era belo.
Trazia no olhar um brilho de estrelas que quando passava, iluminava as noites deste lugar.
Alejandro era belo como ¿su país ¿, como ¿su corazón¿.
Alejandro era música e saltitava acordes e percussionava vidas.
Alejandro era pequeno como quase todos ¿los hombres de su país¿. Mas carregava em si uma paixão imensa que lhe agigantava a alma e lhe tirava a calma e lhe deixava nu aos olhos dos curiosos transeuntes.
Alejandro amava Agnim.
Não amava a mim.
Agnim era bela como as manhãs de primavera e carregava um sol dourado em seus cabelos curtos, que lhe deixava à mostra o dorso, o rosto, o par de orelhas... Dos olhos de Agnim lembro tão pouco, pois sempre que os via, Agnim sorria aquele riso louco e os olhos se escondiam atrás de um risco torto em seu rosto (porque o riso louco lhe juntava as pálpebras).
Agnim era bela, alta, magrela, branca como a flor de lótus.
Agnim era fêmea, era forte, era fatal!
Agnim cruzava bares e engolia olhares e mastigava luzes e saboreava amores.
Agnim salivava conhaque.
Alejandro e Agnim eram belos e sonhavam sonhos, e carregavam nos olhos a paixão das esquinas, e faziam amor sobre as mesas dos bares.
Alejandro e Agnim eram pólos cruzados. Soltavam faíscas pelo canto dos olhos. Sonhavam em ir à Belo Horizonte, talvez pelo nome que apresentava a cidade ou, para mostrar sua arte.
Alejandro era artista.
Suas mãos eram pequenas como as mãos de um artista.
E sua alma imensa, imensa, imensa...
Agnim lambia-lhe o queixo e um feixe de suor escorria-lhe pelo peito.
Alejandro e Agnim eram felizes, se amavam como raízes entrelaçadas sob a terra.
Não havia tempo para a guerra.
Não havia tempo para a morte.
Levavam a sorte de estarem fora do tempo dos homens.
O amor os tornava à parte.
Não sei qual horizonte tomaram, mas certamente era belo, como belo é Alejandro.
Alejandro amava Agnim.
Não amava a mim.
Sobre a autora: Graça Carpes é a idealizadora do blog
Pulsar Poetico
Domingo, Agosto 17
Fatídico dia...
Luciano Costa de Paula
Pedro bebeu mais um gole da garrafa de whisky ( uma marca bem vagabunda, por sinal) já pela metade. Na mesa onde ele estava sentado uma garrafa vazia, deixada por ele, estava caída. Ele estava em um pequeno bar, composto por três mesas rodeadas de cadeiras e um balcão. O barman, um rapaz chamado Tiago, já sabia que ia ter de levá-lo para casa. Mas isso já era uma rotina. Tiago estava acostumado com aquela cena todo sábado. Era algo lamentável, um homem como Pedro gastar todo seu salário, que já era pequeno, em bebida. Era uma hora da manhã, quando Tiago decidiu que já fora o suficiente. Aproximou-se da mesa de Pedro e lentamente começou a recolher as garrafas que ele já havia tomado . Duas e meia. Guardou tudo, voltou para a mesa, onde Pedro estava quase desmaiado. Colocou a mão no bolso do infeliz, pegou a carteira dele. Pegou o dinheiro para pagar tudo o que ele havia tomado, mais uma pequena gorjeta. Devolveu a carteira ao bolso dele. Com um tapa na cara, acordou-o .
Pedro acordou confuso, sentindo-se perdido. Não sabia onde estava... sua cabeça doía demais, e ele podia ver apenas vultos. Sua garganta estava queimando, e ele sentia ânsia de vômito. Sentindo tudo isso, soube o que estava acontecendo. Estava bêbado, completamente bêbado. Tentou levantar-se, mas as pernas estavam fracas e ele não conseguia move-las como queria. Caiu de costas sobre a cadeira. Tiago ajudou-o a se levantar.
Pedro saiu do bar sendo arrastado por Tiago e foi levado à sua casa. Era um barraco, feito de madeira roubada ou achada na rua. Um cubículo, escuro e fedido, um cômodo e um banheiro e era dividido por ele, sua mulher e seu filho. Sua esposa tinha quarenta e poucos anos, assim como ele, e já fora bonita um dia. Ela o odiava e o ódio era mútuo. Odiava-o porque ele gastava todo o salário em bebedeiras, deixando ela e o filho passando fome. Pedro odiava-a porque ela vivia a reclamar que ele bebia demais. Isso era da conta dele! O dinheiro era dele, e a bebida era a única coisa boa em sua vida, depois de uma semana inteira recebendo ordens de seu patrão, a quem também odiava. O vagabundo lhe pagava um salário que era uma miséria e mal dava para pagar as contas à Tiago.Vivia devendo ao rapaz... mas Tiago, esse sim era uma pessoa de quem ele gostava. Tiago ouvia seus desabafos, lhe dava a bebida, lhe deixava dever algum dinheiro e o levava para casa quase sempre, quando ele estava mal o suficiente para que isso fosse necessário. O filho tinha treze anos e odiava o pai. Pedro o odiava também. A mãe ficava enchendo a cabeça dele de baboseiras e agora o rapaz o odiava também. Não que ele ligasse para isso. Quando chegasse em casa, eles pagariam por seu ódio.
Abriu a porta da casa e caiu para dentro. No chão, enrolados em cobertas, seu filho e sua mulher já dormiam. Ele cambaleou, com muita dificuldade, até o banheiro. Ajoelhou-se no chão e vomitou no vaso sanitário, já sujo e fedendo. Sua mulher, aquela vadia, raramente lavava a casa. Depois de esvaziar o estômago ali, foi aos tropeções, até a sala. Chutou o filho, que dormia. ¿Safado! Acorda, vagabundo!!¿ gritou. O filho acordou com um gemido de dor.
Luís sentiu um chute nas costas e ouviu um grito de seu pai, sem entender o que ele falava. Estava bêbado, e muito. Previu, então, mais uma surra. Quando o pai o chutou pela segunda vez, ele se levantou. Era a última vez. Há tempos vinha pensando em fazer aquilo, sua mãe já lhe pedira várias vezes, mas ele não tivera coragem. Era a última vez. Entrou no banheiro e viu a sujeira que seu pai fizera lá. Seu ódio só aumentou.
Pedro viu que o filho fugia. Ele o pegava depois. Pegou um pequeno rádio de pilhas ao lado do colchão do filho e atirou-o com toda a força na cabeça da mulher. O impacto foi grande e fez um estalo. O rádio quebrou-se em dois e caiu ao chão, manchado pelo sangue dela. Pedro chutou-a no estômago. Ela perdeu o ar e tentou se levantar, mas ele não deixou. Jogou-a novamente no chão.
Luís olhou-se no espelho. Seu olho estava arroxeado e em sua face, várias cicatrizes de pancadas. Não podia mais agüentar aquilo. Pensando nisso, abriu uma caixa debaixo da pia. Pegou o que havia dentro dela. Olhou-se novamente no espelho. Seus olhos irradiavam ódio. Ele mal acreditava no que ia fazer, mas era necessário.
Pedro jogou a mulher novamente no chão. Ela gritou, xingando-o, e ele deu um soco na cara dela. Era o suficiente, por enquanto. Foi para o banheiro, procurar o filho. Encontrou-o, parado à porta. Luís estava parado ali, olhando fixamente para o pai. Pedro viu o garoto, viu o ódio queimando dentro dele; e teve medo. Recuou, assustado. Nunca vira nada como aquilo...
Luís apontou a arma para o pai. Era um velho .38, comprado de uns jovens traficantes, com dinheiro dado por sua mãe. Engatilhou a arma. Pedro ouviu o clique e olhou na direção do som. Viu a arma na mão do filho e compreendeu tudo, soube o que ia acontecer. Apesar disso, não teve tempo de reagir. Dois tiros, um no peito outro no pescoço, o derrubaram. Ele caiu, sem sentir a dor, pois estava entorpecido pela bebida. A bebida; única coisa que ele amava no mundo e que agora lhe prestava mais um favor: não deixa-lo sentir dor...
Luís apontou a arma para o pai, no chão, e atirou novamente. Voltou para o banheiro e guardou-a . Foi para a sala, onde encontrou a mãe caída no chão e chorando desesperadamente. Ela sangrava muito, com um corte na cabeça. Ele também estava cheio de sangue, sangue do pai. Luís abraçou-a e saíram da casa. Eles iam arranjar uma nova casa, a mãe ia tentar arranjar um emprego... Iam começar uma nova vida.
Sobre o autor: O
Luciano De Paula acaba de entrar para a lista dos escritores mascotes aqui do Vamos Cronicar: ele tem 15 anos e é o idealizador do blog
Sandman. Bem vindo e volte sempre!
Trapos
Ana Maria Vasconcelos
Não vê minha alma em trapos?
Não vê meu orgulho em pedaços?
Não.
Vê minha carcaça em risos rasgados...
Não nota olheiras no meu rosto?
Não nota meu ar de desgosto?
Não.
Notas doces camuflaram meu mofo...
Amor, não nota que acabou o barulho?
Aquele, sempre que estávamos juntos
Não.
Virou as costas
Bateu a porta
E se fez de surdo...
Sobre a autora:
Ana Maria Vasconcelos é escritora e dona do blog
Ecos do Oco.
Sexta -Feira
Daniel
Antonio estava em casa numa tarde de sexta-feira quando sua mulher desesperada entra na sala do pequeno apartamento do casal e lhe diz:
- Antonio estamos com muitos problemas: o pessoal do banco já ligou mais de três vezes para falar com você, falaram que iam ligar mais tarde, eu perguntei sobre o que era, e eles disseram que é sobre o empréstimo que você fez para pagar os estudos do Marcelo.
Atônito com a expressão de desespero da mulher Antonio só balança a cabeça e vai para o quarto onde ficou a tarde toda esperando, talvez, a ligação do banco.
Sua mulher cosia um suéter para seu filho, para esquecer o problema, afinal tricotar era lhe uma terapia. Distraída com sua terapia ela nem se dá conta da hora que, sem pedir licença, passa com tamanha violência. Seu filho voltaria da Alemanha naquele fim de semana, e ela esperava esse momento com muita ansiedade. Enfim poderia abraçar seu filho e olhar em seus olhos e ver um homem formado (e formado fora do país). Quem sabe ele poderia ajudá-los naquele difícil momento.
Já era começo de noite quando Antonio finalmente saiu do quarto e com um olhar desesperançado dá um beijo na testa da mulher que havia adormecido na cadeira de balanço. Sobre a mesa da sala ele deixou um bilhete, e sem mais estardalhaço saiu.
Passadas algumas horas, sua mulher acordada e meio com sono ainda olha para o relógio- 20:30- ela vai até o quarto perguntar a Antonio se ele iria jantar.
Ao entra no quarto e não ver o marido, ela fica nervosa e, de supetão sai do quarto e pega o telefone para ligar para a polícia, afinal Antonio estava muito abalado e ela temia o pior.
Enquanto espera ser atendida ela enfim vê o bilhete que Antonio havia deixado sobre a mesa. Sem se importar com o telefone ela desliga e lê o bilhete:
" Querida Marina, sai para comprar pão e já volto"
Instantaneamente ela sentiu um alívio enorme e, calma vai para a cozinha preparar os frios para o lanche que presumira que o marido iria querer.
Sentada,ela novamente pensa em seu filho e na ajuda que poderia dar.
Passaram-se alguns minutos e Antonio não tinha voltado.
Ela então começa a se preocupar, e para se distrair um pouco liga a televisão ( se é que hoje em dia podemos nos distrair assistindo a tv), já nervosa ela começa a trocar de canal rapidamente e quando para de trocar, um programa chamado "Alerta Cidade" estava no ar (mais um daqueles canais que só sabem passar desgraças usando-as para ter audiência da pior maneira, com sensacionalismo). Ela com muita atenção fica ali assistindo uma reportagem ao vivo, quando ela houve o repórter (se é que este cidadão pode ser chamado assim) dizer:
"E agora com exclusividade vamos mostrar um incrível assassinato, que aconteceu próximo a região da zona Norte de São Paulo, onde um senhor com idade entre 30 e 40 anos foi morto à facadas por um grupo de 3 homens em uma casa velha que esta para alugar. Não temos muitas informações ainda mas sabe-se que a policia achou os documentos do velho."
Ela, naquele momento, sentiu um enorme aperto no coração e desesperada saiu correndo para o local onde estava a equipe de reportagem. A casa ficava a duas quadras do apartamento deles.
Ao chegar no local ela procura os policiais para se informar e saber o nome do homem.
- Senhora nós não podemos responder agora......- sem deixar o policial continuar, ela invadiu o local e viu o morto.
Marina simplesmente sentou-se no chão e com a cabeça entre os joelhos chorou, chorou e chorou.
Os policiais, ao indagá-la sobre o seu parentesco com o cadáver, ouvem nada menos que uma voz de muito desespero: - É meu marido!!!!!!!!.
Carregada pelos policiais que a levaram para seu apartamento, Marina, deitada na cama "deles", chorava amargurada e desesperançada. Ao colocar a mão embaixo do travesseiro ela sente um papel e, rapidamente o puxa:
"Minha doce e amada Marina,
minha vida sem você é o ar
que não poderei inspirar
é o dia que não verei raiar
a noite que não mais existirá
e com ela todo meu prazer se extinguira
se sem você eu ficar.
Minha querida Marina, quero que guardes deste bilhete só este poema, que fiz para não se esquecer de mim e saber que nunca me esquecerei de você.
Pode parecer loucura mas foi a única alternativa que encontrei, fui falar com Zé Preto pedir lhe mais um tempo para pagar nossa dívida, mas ele não deixou e como já sabes minha vida ceifou, amor não se desespere, queime este bilhete e deixe a policia concluir que fui morto e receba o dinheiro do seguro de vida e faça o que sempre quiseste fazer invista, pois nosso filho quando voltar, (aliás, quero pedir que me perdoe por esconder de você esse tempo todo) mas nosso filho não se formou e está voltando porque não consegui arranjar emprego lá e gastou todo o dinheiro que mandamos, então ele não poderá te ajudar.
Te amo.
Antonio"
Marina reescreveu o poema em outra folha, queimou o bilhete e a noite inteira chorou.
Sobre o autor: Daniel é estudante da ETE Jorge Street em São Caetano do Sul. Escreve contos, poesias, cronicas e é autor do blog
Athoz. Conheçam!
Como Sempre.
Márcio Brigo
(Para ler ouvindo: "Natália" do Legião Urbana).
Lucio acorda com fome, como sempre.
Coça-se, como sempre.
Olha o relógio são 06:30, como sempre.
Vai até o banheiro, como sempre.
Arruma o curativo que há em seu antebraço esquerdo, como sempre.
Escova os dentes, como sempre.
Prepara o café da manhã, como sempre.
Sozinho, como sempre.
Lucio é uma ótima pessoa, tem muitos amigos que poderiam dizer isso, com a mesma convicção que afirmariam que o céu é azul, tem um ótimo trabalho onde ganha bem e é reconhecido pelo que faz, seus amigos o vêem como uma pessoa muito competente. Distante, porém competente.
Não usa drogas, porque não tem como prever o que vai acontecer com ele sobre seus efeitos.
Nas mulheres Lucio vê um carinho e um conforto necessário, mais um relacionamento para ele é muita intromissão, em uma vida já muita agitada com trabalho, palestras e cursos.
Lucio é como qualquer um.
Na cozinha mesmo pega a comida e coloca para seu gato.
Procura uma camisa em seu guarda roupa " Esse que só tem camisas de manga comprida " como sempre.
No banheiro retira o curativo do seu braço, como sempre.
Usa uma gilete para fazer um pequeno corte, como sempre.
Ver o sangue escorrer faz Lucio ficar calmo e feliz, já que é um pouco mais de vida que se vai.
Um pouco a menos para ele viver.
Como o vermelho é bonito.
Vida tediosa.
Ele vê o sangue escorrendo por uns 30 segundos, como sempre.
Lava seu ferimento, como sempre.
Refaz o curativo, como sempre.
Toma seu banho, como sempre.
Veste sua roupa, como sempre.
Sai para o trabalho, como sempre.
Lucio é um homem de 29 anos saudável e normal desde sempre.
E como sempre Lucio pensa:
"- Enganarei a todos mais uma vez."
O que ele não sabe é que o enganado é ele.
Sobre o autor: Márcio Brigo é estudante de comunicação e dono do blog
Marcio Briggo. Apareçam por lá!
Sexta-feira, Agosto 15
A Imagem
Bianca, "mãe da Beatriz",
Fixo o olhar e não consigo definir o que seja...
Vejo sombras, algumas manchas turvas...
Uma máscara cobre a face, deixando à mostra os olhos enigmáticos, que pedem algo mais para alimentar o espírito...
Toco-o e sinto em meus dedos o frio cortante,
a ausência de calor humano.
O que aconteceu? Para onde foi o pulsar daquela vida?
Por que estão tão fracas as batidas do coração?
A pele é tão alva, tão alva...
Faz da imagem apenas branco...
Apenas luz, ainda que turva...
Claras, cálidas, quentes até,
são apenas as lágrimas que caem
por sobre a máscara...
Essa é a imagem que consigo ver
Eu, diante do espelho...
Sobre a autora:
Bianca, "a mãe da Beatriz", tem 26 anos, mora em Campo Grande-MS, é blogólatra assumida e dona dos blogs:
Reminiscências,
Palavras Vivas e
Roteiro Adaptado. Escolham e divirtam-se!
Gente: peço desculpas pelo hiato nessa semana.Os estudos e uma gripe chata me pegaram sem avisar... Mas, mesmo assim, recebi textos muito bons que coloquei de uma vez só... Estou tentando me redimir da ausência: esbaldem-se e continuem mandando suas criações.
Volto a pedir: junto com seu trabalho mande também seu nome ou pseudônimo, idade, o que faz da vida e endereço de blog (se você for dono de um) pra que eu possa incluir o item "sobre o autor" ao final do texto. Como vocês devem ter percebido algumas obras não tem esse item importante que faz com que as pessoas saibam sobre
quem está por trás do texto.
Caso você não tenha sido devidamente apresentado é só me mandar o resuminho que eu coloco no ar com o maior prazer,ok?
Abraço enorme!
Maria Carolina, a dona do blog.
A lição de Hassan (Paulo Coelho que se cuide...)
Thimóteo Rosas
Numa terra distante, um jovem fazendeiro, chamado Hassan, vivia feliz com sua família e suas terras. Bom rapaz, trabalhador e cumpridor dos seus deveres, não lhe atingiam a maldade, nem o sofrimento. Agradecia todos os dias ao seu Deus, pela graça em que vivia. A cada ano, o fruto do trabalho familiar se traduzia em maiores colheitas, maior fartura e progresso material. A fazenda era um pequeno paraíso e o trabalho do belo jovem, elogiado por todos.
O tempo foi passando e o pai, um dia, o chamou e lhe disse:
- Filho, você já está na idade de seguir seu próprio caminho. Dentre as moças do nosso povoado, uma haverá que lhe conquiste o coração e, com esta, você poderá honrar sua existência, constituindo uma família. Hassan, que sempre ouvia seu velho pai, não tardou em encontrar aquela que logo viria a ser sua esposa. Moça adorável, ela conquistou por inteiro o coração do jovem. O casamento, meses depois, foi de uma beleza celestial, comentado por toda a aldeia, por muito tempo. E não tardou, vieram os filhos; um casal de lindos gêmeos. A nova família vivia em grande alegria.
A vida transcorria sempre dadivosa, até que, num belo dia, os ventos mudaram. Os pais de Hassan caíram doentes e um, logo após o outro, partiram dessa vida, para enorme dor de seu único filho. Mas, como não há dor que sempre dure, Hassan retomou sua vida, agora solitário no comando da fazenda. E, naquele ano, as chuvas não vieram e toda a colheita foi perdida. Em dificuldades, Hassan dispensou os empregados, não sem antes pagá-los, a todos, pelos bons serviços prestados a ele e à sua família. Para sobreviver, desfez-se dos rebanhos. Mais adiante foi a vez das terras, vendidas aos pedaços, até somente lhe restar uma pequena parte, onde havia uma das casas dos colonos, agora sua moradia. Mesmo com a vida tão difícil, Hassan não reclamava. Toda noite agradecia a Deus pela sua família e por ter saúde para continuar sua luta. Trabalhava do raiar do sol ao primeiro piscar das estrelas. Mas as dificuldades continuavam e até aumentaram. Faltava comida e todo o resto. Somente sua fé em Deus ainda resistia.
Certo dia, ao voltar ao lar depois de procurar trabalho na cidade, não encontrou ninguém em casa. Desesperado, correu os campos a procurá-los, até descobrir que sua mulher não resistira àquela vida de dificuldades e havia ido embora com um rico mercador, que, ao que parece, havia tempos que a cortejava. Foi um duro golpe. A companheira amada o abandonara, lhe tirando os filhos, sua maior alegria. Quase enlouquecido, gritava aos céus, indagando o porquê de tanta infelicidade em sua vida, ele, que sempre viveu com dignidade, praticando o respeito e o amor ao seu semelhante. Não entendia seu Deus o abandonando à própria sorte. Será que para os pobres e miseráveis seria Deus um luxo impensável? E assim, sem ter mais nada a que se dedicar, se perdeu pelo mundo, maldizendo sua vida, agora miserável. Roubou para viver, fugiu como um rato acuado, blasfemou mundo afora. Sujo por fora, sombrio por dentro, era apenas um trapo humano, vagando e esmolando pelo caminho, trôpego pelo vício e descolorido pela desesperança.
Sem rumo, um dia se viu frente a uma cabana, pedindo um prato de comida a um velho solitário que ali vivia.
- Senhor, poderias me ceder um prato de comida, pois nada tenho, a não ser tristeza e fome? - indagou.
- Não! - respondeu o velho, decidido, mas de forma gentil. Mas posso vendê-lo, por um preço tão pequeno, que até você me poderá pagar - completou.
Surpreso com resposta do velho, Hassan retrucou com revolta:
- Ora, como pode o senhor negociar a fome de um homem? Que alma se nega a dar de comer a quem não pode com o próprio sustento e que se humilha diante de outrem, como agora faço?
Calmamente, o velho ouviu o reclamo, e respondeu:
- Bem se vê que não és doente. Também está claro, pela tua roupa em trapos e pelo teu linguajar, que tiveste uma vida diferente desta que agora experimentas. Se tudo isso é verdade, porque razão deveria eu te incentivar a continuidade desta vida nula, que nada de bom produz em ti ou nos outros? Se tens uma razão que me convença do contrário, me mostra agora. Ou então, aceitas o preço da comida; ou ainda, se não, vás embora com tua fome e amargura.
Hassan pensou por um instante e disse:
- Conto minha estória; se ao ouvir minha desgraça o senhor achar que não mereço a caridade de um prato de comida, irei embora.
E Hassan começou a contar seu drama ao velho homem, que o ouvia pacientemente. Após a narrativa concluiu:
- E assim, meu velho, caí em desgraça, sendo esquecido por todos, até pelo meu Deus, cujo nome sempre honrei e em nome de Quem pautei meus atos. E o que ganhei foi tristeza, dor e traição. Por que ter tudo, para depois perder até mais que aquilo que se tinha?
E Hassan, após o relato, pôs-se a chorar, com pena de si mesmo.
O velho assistia a tudo, impassível. Suspirou fundo e disse:
- Meu caro, você é um homem privilegiado e não sabe. É detentor de uma dádiva a qual poucos puderam obter.
- Ora, não caçoe de mim; não mereço isso...
O homem olhou para o céu, deu um leve sorriso e falou:
- Filho, o bom Deus te deu um berço de ouro, e pais dedicados. Mas, para outro no mundo, a quem jamais conheceste, reservou a pobreza e a solidão dos órfãos. Esse mesmo Deus te deu saúde, terras, riqueza e homens que trabalharam para ti; a um outro, privou de uma perna, impedindo-o de trabalhar para seu sustento. Tiveste ainda a alegria de uma família, uma mulher para amar e filhos, a quem ensinar a vida; àquele outro, sobraram as prostitutas decrépitas; e uma trupe de zumbis, foi o mais próximo que ele esteve de uma família. Quando te tirou mulher e filhos, lhes dando um lar pródigo, ainda assim o fez por ti; ao teu irmão desconhecido, fez conviver com a tristeza de ver os filhos sendo sugados pela fome. Por último estás aqui, tendo a oportunidade de ouvir estas verdades. Sem dúvida, és um privilegiado. Agora sabes a diferença entre a dor da perda e o êxtase da posse; o vazio da solidão e a tranqüilidade da presença; a segurança do poder e a impotência da pobreza. Agora que te foi concedida a condição de poder comparar, saberás o peso das diferenças. Talvez tenhas que aprender a descer a montanha, antes de continuares a subida; e perder a vaidade de se achar justo só porque não conheces a injustiça. Come e depois vai embora, de volta à tua casa. O preço da comida era o de me ouvires. Portanto, mais nada me deves. Se entenderes o que te disse, acharás a trilha da qual estás tão distante. Se não, não conseguirás descobrir sequer onde nasce o sol.
Dito isso, o velho serviu comida a Hassan e sumiu dentro da casa. Ele comeu em silêncio e sem perceber, começou a chorar. Descobriu-se triste, por ter perdido o rumo, e envergonhado perante o seu Deus e perante si mesmo, por tantas tolices cometidas em seu momento de infortúnio. Não resistiu, nem como homem, cuja principal virtude é a de lutar pela própria sobrevivência, nem pela fé que tanto demonstrava aos outros. Agora, acanhado, entendia que não há derrota na perda, mas sim, e muita, na desistência.
Dali em diante, Hassan retomou sua vida. Devagar, foi reconstruindo seu mundo. Em algum tempo, já recuperara boa parte do que houvera perdido e já guardava uma boa economia para os dias incertos do inverno.
Numa noite, lhe bateu à porta um homem bem afeiçoado e de finas vestes.
- Sei que você é Hassan - disse; trago notícias de sua mulher e filhos.
Hassan, surpreso e desconfortado, argumentou que só desejava que todos estivessem bem e com saúde. Poucas alegrias poderiam lhe trazer, notícias da mulher que o havia abandonado. Ao que o homem retrucou:
- Suponho que sua tristeza não seja pequena; mas saiba que ela jamais o abandonou. Apenas aceitou ajuda de alguém, para que seus filhos e ela própria, não padecessem de fome e doença, pela situação que vocês estavam vivendo. Se fugiu, foi por saber que você jamais aceitaria tal idéia.
Hassan, ainda desconfiado, ouvia sem piscar os olhos, aquele homem a lhe falar. E ele continuou:
- Ela nunca deixou de amá-lo, meu jovem; e jamais se entregou a outro homem por conta desse amor. Acredite, você tem uma grande companheira. E se não se opuser, ela voltará para esta casa, para o seu lado.
- Mas, quem é você e como sabe tanto sobre nossas vidas?
- Sou o homem a quem o destino permitiu a honra de conviver e proteger os seus nesse tempo. Você não sabe, mas, quando jovem, passei por uma grande dificuldade na vida, assim como essa que v. enfrentou. Seu pai, meu querido amigo, me ajudou na minha pior hora. Agora, finalmente posso retribuir o favor, socorrendo ao seu filho. Por isso, sei o que digo. Receba sua família de volta e me dará a enorme alegria por saber que minha pequena contribuição terá sido de valia para todos.
Hassan entendeu tudo e agradeceu ao homem de quem, depois, viria a se tornar grande amigo.
E assim Hassan passou pela sua prova na vida. Tal e qual o velho da cabana, ele, pelo resto de seus dias, acolheu todos aqueles que num momento de desilusão pensaram em desistir. E os ensinou, com amor, aquilo que havia aprendido com sofrimento.
Lembranças Dispersas
Polonaise
"Uma árvore no meio do caminho...
A vela iluminando a sala...
Brincos para o baile...
Morangos...
Uma rede na varanda...
A lua e as estrelas como testemunhas...
Balas de côco de Minas...
Um furacãozinho dormindo embaixo da cama...
Doces de goiaba e figo...
Garrafas estilhaçando em cima do muro...
Passeios pelo bairro...
Teus olhos despertando no frescor da manhã...
O aroma de café invadindo a casa...
A lenha queimando no fogão...
Os almoços de domingo...
Um abraço apertado na passarela...
Moedas tilintando no caça-níqueis...
Nissin "miojo" no sofá...
Acampamento montado à 1 da manhã...
A lama da estrada...
Leite quente depois do banho de chuva...
A água cristalina de uma cachoeira...
Pequenas lembranças que me fizeram feliz...
Saudade... "
Sobre a autora: A
Polonaise ( não por acaso tem o nome de uma música tão linda...) é dona do blog
Caminho de Brumas. Apareçam e confiram!
Quinta-feira, Agosto 14
Na morada
Maurício Hansen
Naquela cidade nasci
naquela outra cresci
e numa perto do mar
me criei...
Agora estou cá, louco,
perdido e ansioso
por voltar, só com o mar.
Só com você, sem perguntar
as razões, os porquês...
Sem questionar.
Feito cego que segue seu cão
tateando estrelas no chão
Agora, sempre e depois
vivendo o amor que me tens
Só eu, você, nós dois
Um brinde...
Lélis Caldeira
Depois de assistir à uma peça do Plínio Marcos que me deixou com a alma e o coração apertados, fui ao bar da esquina tomar uma cerveja. O ritual se repetia, com o mesmo ar etílico de outros dias, as mesmas pessoas, as mesmas palavras... Em busca de uma mesa, percorri com os meus olhos cansados e míopes, um lugar para sentar. Não demorou muito. Encontrei um velho amigo (de outras palavras) dos tempos da faculdade junto com o pessoal da peça que assisti.
- Poxa, Zeca! Que saudade! Como você está? Silêncio. Ele estava gordo. É bem verdade que depois de vinte anos de formatura, os fios de cabelo e o corpo em forma, torna-se uma vaga lembrança. Mas, o Zeca estava pesando mais de 100 quilos. Tudo certo... ele sempre gostou das musas do Botero e do Boticelli...
Interessante. Ao encontrar o Zeca fiz uma auto-avaliação e descobri que as minhas medidas abdominais e capilares eram parecidas com as dele.
- Como o tempo passa, Zeca! Já faz quanto tempo? Vinte anos, ele respondeu. Vinte anos! Fiquei pensativo... Afinal, a vida passara com uma velocidade incrível...
Depois das saudações e apresentações aos recém amigos atores, veio o primeiro copo. Neste instante, olhei para o líquido amarelo e borbulhante e aconteceu... Em questão de segundos, lembrei dos tempos da Universidade. As dificuldades eram muitas e diferentes. Naquele tempo, não havia dinheiro, nem tampouco interesse em ganha-lo. Também, não freqüentava restaurantes nem as festas de hoje. Vinho? Chapinha, claro!! Com três reais, divididos pela quantidade de amigos que iriam beber (a equação resultava em cerca de 30 centavos pra cada um) conseguíamos varar a noite papeando. Discussões filosóficas... Foram muitas... Um achismo sem fim. Mas com um endereço certo: a busca da própria identidade... Na sala de aula, havia pessoas de todos os tipos. Desde a neo-riponga-comunista que engravidou um rapaz do movimento secundarista, abandonando a faculdade até o mais zézinho de todos... Zézinho... Era uma gíria usada para os ¿Zé manes¿. Foi criada pelo Mané Garrincha, ponta-esquerda que gostaria de ter visto jogar...Olhei para o Zeca, ri pra ele da cara dele.
Para realizar qualquer tipo de pesquisa, era difícil. Vivíamos um momento de vários movimentos sociais como os dos ¿Sem terra¿... Por andam os ¿Sem terra?¿ Ora bolas!! O Lula ganhou a eleição e todos estão com terras... Bem, montamos o movimento da exclusão digital.. Sim, pagávamos R$ 600,00 por mês e não havia computadores para a maioria dos alunos. A Universidade deixava a desejar... Seja pela falta de formação de alguns professores ou pela desinformação dos colegas... Afinal, éramos filhos da ditadura... Ninguém criava nada... a cultura era sofrível. O País vivia uma reedição dos cantores, literatos e poetas de outrora... O interessante, é que o meu filho continua cantando o último sucesso dos Mutantes... Mas, nem tudo foi ruim... Fiz alguns amigos pra vida... É um orgulho ver à Rita apresentado um telejornal... E o Paulinho? Virou escritor renomado... É... já tive a audácia de ¿canetar¿ um texto do Paulo... Quanta pretensão! E aquela menina ruiva? Casou-se e foi pra Cuba... E as edições dos jornais? Rimos muito com aquilo... As aulas eram divertidas... É bem verdade que hora ou outra dava um sono danado... Mas, valeu a pena! Não fomos espectadores da vida... Não nascemos para emoldurar calçadas... Bem ou mal, fomos os atores principais da nossa história.
Com os olhos lacrimejando, antes que o copo atingisse o ápice com a palavra brinde e retornasse a mesa, em silêncio, ofereci um a minha turma: a 801, a Puc-Campinas!
Sobre o autor:
Lélis Caldeira é jornalista e mora em Campinas. Muito obrigada pela colaboração!
Riso dos Loucos
Ana Maria Vasconcelos
...E uma voz doce me dizia: "Oh, meu amor, você está aí de novo? Por que? Por que você continua fazendo isso com você mesma, meu bem?". Era meio mágico, ela parecia cantar... De qualquer forma, eu não escutava! Continuava naquele submundo imaginário, me tremendo e tendo crises de tosse. Punha a mão nos ouvidos e cantava alto, batendo os pés e olhando pra cima, numa expressão de demência, como uma louca. Mas não era. Antes fosse - teria justificativa para alguns atos... De qualquer modo, era claro que eu não estava no meu estado psíquico mais sadio.
A voz continuava: "Querida, vamos, eu te ajudo a sair daí. Venha, você precisa de um banho... se sentirá melhor depois dele!". Não adiantava. Até parecia ser persuadida pela voz, mas a inércia me falava mais alto. Eu fingia não escutar, balançava mais rápido os pés e o resto do corpo, sentada, abraçando os joelhos, num corredor escuro e cheirando a mofo. Minha expressão ficava cada vez mais estranha, distante, eu ria o riso dos loucos e um líquido viscoso agora escorria pelo meu queixo. Meus olhos se reviravam como se eu estivesse em pleno ataque de convulsão, e a essa altura meu corpo oscilava num ritmo cada vez mais frenético.
A voz desta vez foi mais enérgica, sem perder, porém, sua doçura e melodia: "Meu bem, isto não é brincadeira. Está mutilando o seu corpo e a sua alma. Olhe pra você... É assim que deseja estar? Destruída?! Vamos, querida, se levante... Quanto mais rápido, melhor. Vença esse monstro que te devora por dentro! Lute com todas as forças! Eu sei que você pode."
Mas eu não pude... Morri três dias depois. E ainda há quem ache que depressão não mata!
(..)
A propósito, a voz era o meu inconsciente tentando salvar o que restava de mim. Ou você achava mesmo que eu tinha alguém que realmente se importasse ao meu lado pra me ajudar??? Tsc, tsc...
Sobre a autora:
Ana Maria Vasconcelos, tem 15 anos e mora em Maceió-AL.Também tem um recanto de escritos chamado
Ecos do Oco. A moça promete! Visitem!
EU TENHO O DIREITO!
Marcos Kim
Quarta-feira, dia de rodízio. Dia de cinema mais barato.
De manhã, cumpri minha agradável obrigação, dar aula
particular de fotografia digital, numa empresa poderosa.
Na recepção, tem até chocolates com a logomarca da empresa. Comi um,
guardei outro pra minha namorada (ela adora).
No relógio, 16h30. Nenhum cliente, nenhum aluno aqui no laboratório.
Quer saber duma coisa? Tenho o direito de curtir! Toca pro cinema!
Deixei o carro em casa, fui pro Shopping Metrô Santa Cruz.
Nunca tinha entrado numa Sala do Cinemark. Mas hoje decidi
que faria o pacote cinéfilo consumista completo. Filme comercialzão,
copão de refri e muita pipoca. Normalmente, só vou no circuito
Unibanco e não como nem bebo nada, odeio os barulhinhos.
Mas pô, também tenho o direito de ser consumista!
Vi "Procurando Nemo". Muito divertido!
A perfeição da computação gráfica é soberba. Me faz achar
que meu Photoshopinho é arcaico... E o melhor personagem,
disparado, é a tartaruga surfista-anciã-emaconhada. Uma das coisas
que mais gosto em filmes infantis é ouvir as crianças literalmente
conversando com os personagens. "Oi Nemo!" "Oi Dori!"
Pra saber mais: http://www.disney.com.br/nocinema/nemo/
Shopping, Belas da Tarde circulando, vitrines, sapatos...
Taí, preciso dum sapato novo. Resolvi abusar.
Comprei logo três pares. Morreu quase quatrocentos reais.
Mas hoje eu tenho o dinheiro. Hoje tenho o direito de ser gastão.
O que mais gostei foi um de nome estranho, Democrata Air.
Sapatênis de design diferente. Bicolor marron-claro,
sola bordô. O couro é misturado com lycra.
Ok, ok, tá parecendo coisa de viado.
Mas só vou dizer uma coisa: gente, é confortavelééérrimo!!!
Pra ver o dito cujo: http://fotos.terra.com.br/album.cgi/138452
Folheando revistas. Matéria na "Próxima Viagem", fotos do meu
amigo Ricardo Rollo. Ibiza e África do Sul... Belíssimos lugares.
Na próxima edição, fotos da Namíbia. Lá, o Rollo foi picado
por um escorpião preto, dentro do lodge. Ligou pro hospital, informaram
que não existe antídoto... Solução dele: gritar "não vou morrer!!!
Não vou morrer!!!" E chupar todo o veneno e sangue que pudesse.
Uma dor quase insuportável, ao ponto de mal poder segurar
a câmera fotográfica. Funcionou: o homem não morreu. Benzadeus.
Ricardo Rollo. O homem que viaja literalmente o mundo inteiro fotografando,
um dos caras mais invejados e mais imunes à inveja que eu conheço.
Esse é o cara! Ele tem o direito. Ele conquistou o direito.
Ele exerce o direito.
Acabo comprando minha revista de fotografia preferida,
"Outdoor Photographer". Caríssima. Mas hoje eu tenho o direito.
Veja em: http://www.outdoorphotographer.com/
E outra revista que também gosto muitíssimo, "Vida Simples".
http://super.abril.com.br/aberta/loja/vidasimples/index.shtml
Em casa: encomendo pizza. Como sempre, corto um pedaço
e dou pro porteiro, além de servir-lhe um copo de chá.
Não tenho o dever de ser gentil, mas tenho o prazer de ser gentil.
Mesmo porque o Corinthians dele tava perdendo pro Fluminense por dois a zero.
Um parênteses: foi um antigo amigo que teve essa idéia de dar um pedaço
de pizza pro porteiro. Mas o motivo dele: "assim ele fica
meu amigo, e não dedura quando eu trago outra mulher aqui no apê,
pra minha noiva não ficar sabendo". Bom, cada um com sua motivação...
Não importa, apenas pense que o porteiro merece. Dê um pedaço a ele,
na próxima vez que você encomendar a sua. Eu comprei guardanapos
e bandejinhas de isopor, pra colocar o pedaço de pizza e entregar.
Enfim, fiquei pensando se deveria publicar esta crônica,
o que tem a ver ficar dizendo que eu gastei os tubos. Mas o lance
nao é esse. O lance é dizer que você também tem o direito.
É claro que sua rotina não é igual à minha, mas existe algo
em comum a todos nós. Temos o direito de sermos felizes,
de fazer o melhor proveito possível de nossas vidas.
Convém exercer este direito, não ficar se rendendo
facilmente às obrigações. Ok, são elas que pagam as contas,
mas não é preciso se deixar escravizar. É muito fácil
ser um escravo voluntariamente, até pra fugir do cotidiano.
Não seria melhor tornar o cotidiano mais feliz?
Eu tenho alguns direitos. Eu conquistei esses direitos.
Eu me dou o pleno direito de exercer esses direitos.
Principalmente o direito de ser feliz.
Você tem direitos. Você conquistou direitos.
Você tem se dado o direito de exercer o direito de ser feliz?
Sobre o autor: O
Marcos Kim é sócio do Vamos Cronicar e fotógrafo.
Beijo
Dilson Rodrigues
Mil beijos. Se o beijo não for bom, nada mais acontece.
Até é possível se apaixonar sem beijo, mas somente o primeiro beijo pode construir ou fazer minguar um grande amor.
É beijo no rosto, beijo na boca, beijo técnico e beijo de língua. Aquele beijo que esquenta nos dias bem frios, e que esquenta nos dias bem quentes. Beijo de cantinho de boca, quando ainda não se namora. Um beijo no lóbulo da orelha, para quebrar o gelo. Beijos na nuca e percorrendo a espinha. Beijos no cóccix e nas nádegas de quem não sente cócegas. Língua na língua, língua na boca, língua entre os dentes e entre os lábios. Língua assanhada beijando lugares nunca explorados. Beijo nos dedos dos pés, no tornozelo, na canela delicadamente, por trás da canela com direito a mordidas. Beijos nas coxas, onde o calor aumenta a intensidade do beijo. Coxas no rosto apertando os beijos. O beijo até permite algumas alterações no roteiro, e das coxas pode-se subitamente subir para os ombros, beijos na saboneteira, beijos no local reservado ao pomo de Adão que não floresce. Beijos por entre os seios, um seio de cada vez, e depois demoradamente cada um deles. Beijos que percorrem os braços, mordiscam os bíceps sem malhação, provam cada pedacinho do antebraço até a chegada nas mãos. Beijos na palma da mão, língua na palma, mordida na palma, um dedo na boca, a boca e a mão. O beijo e o balé confuso de lingua e dedos. O beijo que se deixa conduzir pela mão úmida. A mão que leva o beijo ao ventre. O beijo que roça de leve na barriga, a língua que toca o umbigo e que se habitua a presença de objetos metálicos. O beijo que encontra o púbis, o monte de Vênus, a virilha e a panturrilha, o beijo que foge para além dos limites da boca. O beijo que invade a privacidade, que toca o sagrado e idolatra o profano. Um beijo no seu. Um beijo na sua. O beijo bem vindo e o beijo roubado, o debochado e o saliente. A saliva trocada, o gosto do beijo na boca tua, o teu gosto na boca do beijo. O beijo lambido, o beijo molhado, o beijo escondido e o comentado. O beijo com carinho, o beijo com vontade, o beijo rasgado e o beijo safado. O beijo que se espera durante muito tempo...
O beijo que leva a loucura !
Me beija na boca, sempre...
Segunda-feira, Agosto 11
BICHO-SAUDADE
Ana Vitoria Piaggio
Coisa mais estranha é esse tal de bicho-saudade. Nem bem comecei aarrumar as malas, ele pulou lá dentro e gritou:
'vou com você'. E não era só um, a cada hora pulava mais um bichinho-saudade dentro damala. Primeiro veio o saudade-de-casa, depois saudade-de-um-amigo,saudade-de-outro-amigo... De repente virou saudade-de-todo-mundo, e
ficou tão pesado que eu quase nem conseguia carregar. Olhava pra
mala, e aquele monte de saudade pulando lá dentro...
Cheguei, desfiz as malas e falei: 'agora vocês vão ficar quietinhos,
vou guardar a mala bem guardada, e nem vou lembrar de vocês'... Aí
todos gritaram em coro: 'não vamos ficar aqui dentro não!!'. E foi um
tal de saudade pra um lado, saudade pro outro, cada um procurando um
cantinho pra ficar... E não é que acharam todos de ficar justo no meu
coração? No início foi uma confusão só, todos agitados ao mesmo
tempo... Meu coração parecia que não ia agüentar... Aos poucos foram
se aquietando, se ajeitando...
Vez em quando um bichinho-saudade inventa de fazer barulho. E faz
tanta bagunça que meu coração vai ficando agitado... Mania esquisita
essa que bicho-saudade tem, de ficar apertando o coração da gente,
tão apertado que parece que vai quebrar... E o bichinho vai
crescendo, ocupando espaço... Até que eu choro, e ele parece que vai
embora com as lágrimas...
Só que bicho-saudade nunca vai embora de vez: sempre volta, quando a
gente menos espera. Às vezes aparecem uns que eu nem lembrava que
podiam aparecer: são os saudade-de-gente-distante. E não é só
saudade-de-gente que aparece não! Vem um saudade-de-acarajé,
saudade-de-festa... Que vira saudade-da-Bahia, e me deixa com vontade
de ir correndo pra casa... Surgem também outros bicho-saudade novos,
que não existiam... São os saudade-de-amigo-de-poa, que às vezes até
me surpreendem... São novinhos, mas não passam despercebidos não! E
tem um tal de saudade-de-quem-a-gente-gosta que quando aparece faz um
estrago danado!! Esse eu mandei embora, pedi pra só voltar quando
virar saudade-de-quem-gosta-da-gente...
Hoje o saudade-de-casa veio me visitar.. Cheguei em casa e tinha
carta de mãe e de irmã... O saudade-de-casa pulou tanto, fez tanto
barulho... Depois ficou quietinho, porque disse que não queria me ver
chorar... Eles são assim, tem dias que cismam em ficar até eu chorar
tudinho que tenho pra chorar, até não ter mais lágrima... Outros dias
vêm mansinhos, não incomodam, até me fazem companhia... Tento não
brigar com eles, sei que vão e voltam... Aos poucos, vou aprendendo a
lidar com todos os meus bicho-saudade...
Sobre a autora: Ana Vitoria Piaggio tem 25 anos, mora em Porto Alegre é Analista de Sistemas e Mestranda em Informática. Querendo conhecer mais sobre essa moça visite
Dois Lados que é o Blog dela.
Patética Imagem
Graça Carpes
Escreva algo rapidamente, tão rápido que vença o pensamento, o passado, os
sonhos, as ilusões...
O passado borbulha no caldeirão do Bruxo Tempo. E foi o Bruxo Tempo quem
cristalizou as imagens de um dia em que os raios do sol bateram em minha
face, acordando este ser tão patético diante do mundo.
.12:28
A rede balança no canto branco da sala e por sobre, um azul imensamente
brilhante, cria a idéia de que o mundo é uma caixa. E eu dentro, derretendo
como um bombom, escorro por este chão vazio.
Tudo corria bem ou, parecia.
Árvores corriam. Avistei suas pernas grossas cobertas pelo musgo verde a
deixarem rastros na avenida.
As horas corriam, corriam, corriam pelas catedrais, pelos mercados, pelos
pulsos das pessoas, atropelando-se em sua procissão de minutos.
Tudo corria bem.
As casas, aquele colorido imenso de portas, janelas e paredes.
Edifícios louquíssimos também corriam, deixando mobílias e cortinas,
geladeiras e mesas para trás, a dançarem a valsa ultrapassada de um
cotidiano vencido.
Ah, como os edifícios corriam bem! Eram imensos monumentos, pomposos como os
homens. Mas corriam. E como corriam! Era preciso ver suas largas pernas de
concreto pisoteando ruas, praças...
"Não pise na grama". Tola placa ecológica!
Depois, foram os carros, numa velocidade estupenda, confusos e apressados.
Imensos caminhões e motos corriam. Corriam a perder de vista a própria
poeira das estradas, sem fim ou horizonte.
Não, não havia engarrafamento nessa hora. Os sinais haviam corrido à
velocidade da luz. Nenhuma barreira. Seus capôs brilhavam a luz do sol.
Só lembro que tudo corria bem, tão bem que as pessoas também resolveram
correr. Apressadas e enlouquecidas, correram. Arrastaram suas vidas, suas
bolsas, suas roupas, seus sapatos, suas órbitas enlouquecidas... As pessoas
correram e seus pensamentos correram mais ainda. Seus medos, seus corações
palpitantes... Vi mãos se misturando, pernas se entrelaçando, multidões de
aglomerados lutando por um espaço.
Correr...Correr!
Foi quando tudo parou.
Pessoas demais!
Silêncio.
Ninguém balbuciava mais palavra, som ou sopro...Todos estáticos.Apenas os
corações, seus corações, continuavam correndo. Eu poderia ouvi-los ainda
aqui. Batiam, corriam, batiam...
Pensamentos e medos, aquela mistura acinzentada e com cheiro de vida,
estancou em minhas narinas.
Tudo corria bem, tão bem que o mundo parou.
O tempo parou.
Por um milésimo de segundo, o tempo parou.
As nuvens pararam.
As folhas
O vento
A vida
A rua
Minha mão
Minha mã
Minha ma
Minha m
Minha
Minh
Mi
M
Sobre a autora:
Graça Carpes é, como ela se própria de define, "poeta escritora e clown". Além disso é acadêmica do site Nova Literatura - Revista Ponto de Vista e dona do Blog
Pulsar Poético. Visitem!
Sábado, Agosto 9
A Visitante e o Proprietário
StormyAngel
Eu passava em frente àquela casa todos os dias. E diria que, se uma casa tivesse olhos, ela me observava... Estranho pensar assim. Mas adoro casas. Eu as olho como um diário secreto onde as histórias das pessoas ficassem impregnadas em seus tijolos. Como se elas respirassem o ar daqueles que a habitaram e assimilasse suas personalidades, criando uma terceira.Enfim, ela me olhava com aquelas janelas fechadas, como se a porta me sussurasse segredos. Olhava-me triste, com seu ar abandonado, seu jardim descuidado a esconder sua beleza. Como se lançasse um apelo de sua solidão. Como se agonizasse sem histórias para contar, sem alguém que a habitasse para lhe dar vida.
E foi numa tarde nublada de inverno, quando eu lia um livro em minha poltrona favorita, que o tédio ou quem sabe algo mais, me levou até a janela. Dela, eu avistava o telhado daquela casa, em meio às árvores.
Pensei que, passando pelo nosso jardim e atravessando algumas cercas chegaria ao pequeno bosque que havia atrás da casa. Quem sabe encontraria uma janela aberta, e poderia ler o que havia naquelas paredes. Objetos esquecidos, móveis com gavetas,. Gavetas, quem sabe os mistérios que elas podiam guardar.
Nunca alma viva foi vista por lá já haviam alguns anos. Pensei que não haveria mal algum em matar minha curiosidade.
Vesti um grosso suéter, peguei uma lanterna. Confesso que senti-me um pouco ridícula ao pegar a lanterna: como uma criança brincando de detetive. Bom, eu não era mais uma criança, só queria matar a curiosidade. Ri de mim mesma, mas não desisti da empreitada.
Certifiquei-me mentalmente do caminho a seguir para que ninguém me visse. Ser pega, isto sim, seria ridículo!
Encontrei o caminho sem grandes dificuldades. Cheguei aos fundos da casa e não pude impedir meu coração de se afligir com a sensação de estar fazendo algo errado. Afinal, aquilo era uma invasão de domicílio. Mas isto só serviu para aumentar meu excitamento. Senti-me com 10 anos de idade!
Tentei a porta dos fundos, que devia levar à cozinha; trancada. Verifiquei uma janela; trancada. Comecei a achar minha idéia sem pé nem cabeça. Ridículo! O que eu estava fazendo? Tentando arrombar uma casa abandonada? Para quê? Para ver poeira acumulada e talvez até ratos?
Já me preparava a ir embora quando uma janela lateral me chamou. Era apenas um sussurro que só minha curiosidade quase infantil poderia ouvir. Ela me dizia que estava muito velha, a madeira comida e os ferrolhos enferrujados não resistiriam a mãos decididas. De fato, consegui abri-la sem muito esforço. Tudo tão fácil que dava até para desconfiar. Aquela casa tinha um plano e eu estava agora decidida a descobri-lo, ou mesmo fazer parte dele...
A janela me levou a um pequeno quarto vazio. Devia ser usado como despensa. Uma poeira branca cobria o piso de tábua corrida me dei conta de que meus passos já assinavam minha presença no solo esbranquiçado. Apenas prateleiras completamente vazias. Nem uma única embalagem esquecida. Tudo havia sido meticulosamente limpo antes que a poeira dos anos se instalasse. Não pude evitar uma certa decepção, mas não me dei por vencida.
Girei com cuidado a maçaneta da porta e ela se abriu com um gemido quase humano. Eu estava em suas entranhas agora.
O corredor estava na penumbra. Acendi a lanterna. O que eu mais temia não era que as paredes me engolissem, mas ratos! Não havia ruído algum, apenas o vento lá fora. Comecei a andar, meus pés fazendo a madeira cantar uma velha melodia desafinada. Como se a casa não soubesse mais como reagir, com uma saudade de tempos em que pés corriam por aquele corredor sem se darem conta da música que ressoava da madeira rangendo sob seu peso.
Ruídos familiares que agora ecoavam estranhos e fantasmagóricos.
Caminhei lentamente. Tudo estava meticulosamente vazio. Nem um pote na cozinha, nenhum móvel nas duas salas, nem mesmo velhas cortinas. Apenas minha pegadas no chão anunciavam uma forma de vida.
Olhei para a escada de madeira torneada que levava ao segundo andar. Lá em cima, pensei. Deve haver algo lá em cima. Algo que explique porque estou aqui. Eu não tinha nem idéia do que estava procurando. Acho que algo que me contasse uma história.
Subi. Sempre lentamente como se tivesse medo de acordar a casa adormecida.
Haviam 4 portas fechadas. As maçanetas de porcelana tinham pequenos bouquets de flores azuis pintadas. Nas paredes, molduras de poeira onde antes haviam quadros, ou fotos. Nem um papel amassado, uma caixa vazia ou um par de sapatos furados encontrei. Me bastaria um só pé de sapatos para tecer um perfil, criar um rosto que houvesse passado por ali. Vivido entre aquelas paredes. Mas a casa se fechava numa assepsia quase cirúrgica. Num decepcionante vazio. Só a luz do sol atravessando as persianas anunciava vida em outro lugar, distante dali.
Agora eu estava diante da última porta. Um rés de esperança. Um último suspiro, ante um possível nada. Já me convencendo de que a casa não tinha nada a dizer. Que os sussurros e chamados que eu ouvia eram somente o vento atiçando quartos escuros de minha mente, campos férteis da imaginação.
Passei os dedos sobre as flores azuis da maçaneta. O friso gasto por mãos que a seguraram sem lhes lançar um olhar. Prestei-lhes homenagem guardando-as em minha memória. Suaves flores silvestres azuis. Gostaria de nomeá-las, mas só conheço nomes de flores clássicas.
Talvez elas fossem tudo o que eu levaria daquela casa; tudo o que ela me revelaria.
Girei-a lentamente, saboreando o suspense. A porta se abriu para o maior quarto da casa. Grandes janelas filtravam a luz do sol com suas persianas fechadas. Fui até uma delas e abri deixando a fraca luz violar o ambiente. Havia uma lareira de mármore com flores esculpidas e... Sentindo o coração bater mais forte, distingui um objeto sobre ela. Me aproximei sentindo-me tolamente como um arqueólogo penetrando numa pirâmide e descobrindo a tumba mortuária do faraó!
Meus olhos predecederam prudentemente minhas mãos e vi uma pequena estátua: uma forma feminina dotada de asas, uma delicada borboleta pousada na palma da mão - um anjo. Lindo, de uma delicadeza e suavidade encantadores. Não ousei tocá-la, tão frágil parecia. Me chamou a atenção sua limpeza. A poeira que tudo cobria, inclusive o aparador da lareira, não parecia macular-lhe a matéria. Seus olhos pareciam voltados para algo. Segui-os e vi que apontavam para uma escrivaninha e uma cadeira. Completamente perdidos e órfãos naquela casa vazia.
Fui até elas. Sentei-me na cadeira esperando ter uma visão de quem ali se sentara um dia. Várias pequenas gavetas prometiam segredos. Abri uma a uma. Na penúltima, encontrei um lápis. Na última, folhas de papel em branco, já amareladas e tão vazias quanto a casa. Nada escrito. Nem um bilhete, uma palavra, nem mesmo uma fria "conta a pagar".
Fiquei sentada ali, imaginando porque somente aqueles três objetos teriam sido deixados para trás. Ou será que haviam sido colocados ali uma vez a casa vazia? Mas porque? Talvez um escritor viesse ali, escrever um romance, inspirado no silêncio da casa. Um escritor que precisasse da solidão de uma casa vazia.
E o anjo? Bem, o anjo representaria a mulher amada. Um amor impossível e perdido. Ali, ele escreveria a luz de velas... Bem, não vi vestígios de vela ou cera, mas minha imaginação não se deixaria limitar por fatos materiais.
Fiquei sentada ali, os olhos no anjo pousados sobre mim. O silêncio e o vazio invadindo tudo. A esterilidade da situação começava a me incomodar. Pensei que tinha mais o que fazer do que dar asas a meus devaneios. Já ia me levantar quando uma rufada de vento de vento fechou violentamente a persiana, as folhas de papel se espalhando pelo quarto. Esbocei um sorriso nervoso. Parecia uma clássica cena de filme de suspense. Um calafrio percorreu meu corpo e me apressei a reabrir a persiana. Olhei ao redor para me assegurar de que ainda estava sozinha. O anjo continuava a fitar a escrivaninha. Recolhi as folhas, olhei para o anjo. Ele me parecia familiar. Talvez fosse alguma reprodução de uma obra conhecida. Os sussurros vinham dele agora. Com as folhas na mão, sentei-me mais uma vez. Meu olhar ia do anjo para elas. Nunca resisti à folhas vazias. Escrevi em uma delas:
- Quem é você?
continua abaixo
A Visitante e o Proprietário - continuação
StormyAngel
Acomodei a folha dentro da gaveta, ao abrigo do vento. Fiquei imaginando a pessoa que um dia descobrisse essas palavras. Quem seria? Olhei para o anjo esperando uma resposta que seus lábios de pedra calaram. Ele continuava impassível. Mas eu guardava um sentimento de que ele e a casa eram cúmplices num plano e que me guiavam cegamente.
-Era isto que você queria? Perguntei.
Minha voz soou estranha, tanto quanto me senti ao falar com um bibelô.
Fechei bem as persianas, a porta, e fui-me embora. Ilesa e um tanto decepcionada.
Afastei aquela casa de meus pensamentos como uma criança que abandona um brinquedo, enfastiada de sua falta de surpresas.
Os dias seguiram sua rotina como uma canção monótona e hipnotizante. O tempo que passa sem se dar conta, sem nada que aconteça para deixar um marco de antes e depois. Apenas um fluxo contínuo e repetitivo.
A casa parecia muda quando eu passava em sua frente agora. Ela não me dizia nada depois que eu havia devassado suas entranhas, visto dentro de seus muros. Tornou-se apenas uma casa abandonada: invisível e previsível.
Até que um dia, eu voltava da padaria sentindo o perfume do pão, o calor deles contra meu peito, quando senti a respiração falhar.
A casa gritava. E seu urro histridente me gelou o sangue. A janela do quarto onde eu havia estado estava completamente escancarada.
Olhei com os olhos arregalados ao redor, me perguntando se alguém também não ouvia aquele grito.
Pensei que não devia ter fechado direito. Os ventos eram muito fortes nesta época do ano. E ela escancarada: a prova de minha invasão! Eu tinha que ir até lá e fechá-la. Ha quanto tempo ela estaria aberta, eu não saberia dizer. Talvez dias sem que eu não tivesse notado. Eu não a olhava mais, desde que havia saciado minha curiosidade.
Corri para casa com uma só idéia na cabeça: encontrar uma ocasião para voltar lá. Tão discretamente como da vez anterior.
O momento só se mostrou no dia seguinte, quando fiquei sozinha e me esquivei novamente pela trilha.
Agora não havia mistério e tudo ganhava um ar banal. Eu só ia fechar uma janela, numa casa que já conhecia.
Entrei com os passos seguros de quem é familiar. Subi as escadas como se fossem as de minha casa. Fui direto em direção ao quarto onde as flores azuis da maçaneta aguardavam um afago de minhas mãos.
Abri a porta e tudo parecia exatamente como eu havia deixado. Menos a janela, escandalosamente aberta como que provocando a obscuridade da casa.
Dei alguns passos em direção a ela, mas parei. Algo estava diferente. Era uma sensação, talvez um cheiro. Tudo estava no mesmo lugar: o anjo, a cadeira, a escrivaninha. Mas aquela sensação continuava e perturbando. Havia algo diferente que meus olhos não conseguiam perceber. Foi então que vi as pegadas no chão. Não eram as minhas, mas muito maiores. Alguém, uma outra pessoa, havia estado lá.
Senti uma aflição no peito, olhei para a porta e imaginei alguém entrando e eu ridiculamente parada ali, sem ter o que dizer, sem poder explicar minha invasora presença.
Agucei os ouvidos e o silêncio gritava. Só meu coração batia tão forte que tinha a impressão de que toda a casa tremia.
Os olhos do anjo olhavam a escrivaninha. Olhei para a gaveta e me lembrei do que havia escrito. Eu tinha que pegar aquela folha e sair dali. Desaparecer com a prova incontestável de meu delito. Aquelas pegadas eram reais e a brincadeira tinha acabado.
Abri a gaveta e peguei a folha de papel. Meu coração quase parou. Tudo ficou suspenso num universo desconhecido. Alguém havia respondido. A folha estava cheia de uma letra que não era a minha. De uma letra real, com palavras que não eram sussurros etéreos de uma casa, mas desenhadas por uma mão que estava certamente ligada a um corpo de carne e osso.
Olhei para o anjo e perguntei: Não foi você, não é? Olhei para as pegadas. Não, você não tem pés tão grandes assim.
Pensei que a melhor coisa seria levar a folha comigo e ir embora antes que alguém aparecesse. Mas a rua estava tão tranqüila que um carro ou um portão sendo aberto quebrariam o silêncio em alarme. E eu não ouvia som algum. Quem quer que fosse, não estava na casa agora e eu poderia ouvi-lo chegando.
Sentei na cadeira com o papel queimando em minhas mãos. E li:
Posso te dar um nome, se precisa de um. Sou alguém que encontrou uma folha de papel em sua velha escrivaninha. Uma folha onde alguém desconhecido faz uma pergunta. A mesma que faria a você. Quem é você?
Pés pequenos e delicados, a letra feminina, mas não infantil. Poderia até imaginar que foi o anjo da lareira que escreveu. Mas o conheço ha muitos anos e ele nunca esboçou mudança em seus plácidos traços. Seria você um anjo?
Quem é você que entrou em minha casa, vasculhou minhas gavetas...?
Não, não estou furioso pois minha curiosidade é maior. Quem é você que nada levou, mas deixou palavras a perguntarem de mim. Que certamente não conheces e nada sabes. Quem é você que não resistiu a uma folha branca, que procura algo no vazio?
A janela deixo aberta para que você volte. Se ela estiver fechada, saberei que voltou.
Ass. O Proprietário.
P.S. Espero que tenha a delicadeza de me responder.
Minhas mãos tremiam e o ar se recusava a entrar naturalmente em meus pulmões. Um misto de vergonha e exultação percorrendo o corpo. Eu tinha sido pega! Alguém, o "proprietário", sabia da minha petulante invasão. Reli o papel procurando reprovação em suas palavras, mas só encontrei outro coração curioso. Só encontrei o que meu coração podia ver: uma alma aberta, uma fresta. Eu ia responder:
Caro Senhor Proprietário,
Antes de mais nada, minhas sinceras desculpas por ter invadido tua casa e ainda a petulância de escrever em suas folhas.
Não poderia explicar o porque o fiz. Nem eu mesma conheço esta resposta. Sua casa me chamou como se a ela meu destino estivesse ligado. Ou talvez tenha sido somente uma curiosidade banal e descabida. Mesmo infantil, admito. Mas não o fiz por mal e nem pretendo repetir tal ato. Voltei hoje apenas para fechar a janela que julguei ter sido deixada assim por mim.
Sou apenas uma visitante e nada procuro encontrar, senão aquilo que quiser ser encontrado.
Renovo minhas desculpas.
A Visitante.
Coloquei cuidadosamente a folha na gaveta. O anjo parecia me lançar um olhar cúmplice. Fechei a janela e deixei a casa sem conseguir espantar um desejo. O desejo de que aquela janela estivesse novamente aberta. Que minha esdrúxula correspondência com o proprietário continuasse. Comecei a perigosamente fantasiar sobre ele. Sentia o perigo disso tudo, mas não queria parar para racionalizar. Já havia razão sem razões demais em minha vida. Só queria me deixar escorregar naquela sensação de mistério, de encontro.
Ele não sabia quem eu era. Eu estava protegida, pelo menos por enquanto.
Tentei continuar com a rotina, embora estivesse em plena ebulição por dentro. Inexplicavelmente, ninguém notava o brilho nos meus olhos. Talvez não soubessem realmente me ver. Eu me enganava fazendo de conta de que o pequeno pedaço do telhado que eu avistava de minha casa não havia se tornado algo especial. De minha janela eu também podia ver o portão que agora vigiava a cada lance de olhar, esperando vislumbrar a passagem do proprietário.
Alguns intermináveis dias se passaram. Eu sempre arrumando desculpas para passar em frente a casa. Até que, lá estava ela, desafiadoramente aberta. Reti o impulso de adentrar pelo portão da frente e prudentemente peguei minha familiar trilha. Ao chegar aos fundos da casa, meu instinto disse para tentar a porta. Ela estava destrancada. Ele me esperava. Tive medo de que ele ainda estivesse lá. Eu não estava pronta para encontrá-lo . Mas minha curiosidade sempre foi mais forte do que meus temores.
A porta do quarto. A maçaneta e suas flores azuis. A respiração suspensa. Abri.
O anjo continuava em sua eterna contemplação da escrivaninha. Tudo exatamente como da primeira vez, ou quase. Não havia ninguém. Respirei aliviada e me apressei para a gaveta. A folha amarelada nas mãos. Eu li:
Cara Visitante ,
Suas desculpas estão plenamente aceitas pelo prazer deste encontro. Posso perceber algo doce e sensível em suas linhas.
Esta casa é certamente cúmplice deste encontro, assim como o anjo que aqui nos observa, antes mesmo que conheçamos os traços mútuos.
O destino já me pregou muitas peças, mas dele não se foge senão para ir ao seu encontro.
Seja bem vinda. Mas cuidado com o que procuras, poderás encontrar.
Partilho com você estas já amareladas folhas - vividas como eu - no prazer desta correspondência inusitada.
O Proprietário.
O que se seguiu foi uma seqüência de cartas que fluíam como as marés. Sentia-me em alto mar, num barquinho a remos, sem salva vidas. Embarcando em uma viagem sem volta. O tempo só era contado no ritmo destes instantes roubados, marcados pela janela aberta. Suas palavras me tocavam cada vez mais numa intimidade que o corpo não seria capaz de criar, mas que podia sentir. Penetrei em suaves frestas de sua alma, e entreguei-lhe a minha. Sem pudor. Mesmo antes que os lábios se selassem um toque mais íntimo já havia acontecido.
Eu estava casada - isto ele compreendeu logo. Mas não falávamos de coisas triviais, combinamos deixar o passado fora. Só existíamos naquela casa e naquelas linhas. Linhas cada vez mais aflitas, o desejo se infiltrando no papel e queimando na carne.
Eu era "A Visitante", ele era o "Proprietário". Era quase tudo o que sabíamos um do outro. Mas conhecíamos o que ninguém podia ver - muito além de nomes e dados pessoais - havíamos aberto os quartos secretos e íntimos um ao outro.
Três meses se passaram e as palavras não se bastavam mais. Só o encontro de almas se fundindo aos corpos poderia saciar a ânsia que nos dominava. O barquinho se perdia na tempestade e adernava perigosamente. Não havia mais o que escrever. As palavras haviam esgotado o espaço onde podiam penetrar. Eu desejava olhar em seus olhos, tocar-lhe os lábios, sentir seu cheiro. Sublimar a entrega final, senti-lo, completamente.
Ele ainda hesitava. No fundo, achava-me frágil como o anjo da lareira. Mas disse-lhe que não poderia proteger-me de mim mesma. Eu estava pronta para dar o grande salto, sem me importar com a queda. Eu estava no barquinho, em alto mar, e não sabia ao certo se sabia nadar. Mas não estava nem aí. Eu queria mudar tudo em minha vida. Jogar para o alto um casamento morno e falido. A vida insossa que eu levava . Meus sonhos esquecidos saíam das gavetas e dançavam na minha mente. Eu me sentia viva e disposta a ser feliz.
Marcamos um encontro. Quando o momento se aproximava, senti pavor e desejo. Não sei dizer o que mais temia. As emoções rodavam como um carrossel sem que as definisse.
Eu iria encontrar O Proprietário, em carne e osso.
Na hora marcada, dirigi-me à casa. Sim, agora tinha a certeza de que fora ela que atraíra meus olhos e meus passos até ele. Entrei. Subi as escadas. Parei diante a porta. As flores azuis esperavam. Abrir aquela porta era como dizer adeus a tudo o que eu fora até então. Abri.
Ele estava em pé, de costas para mim, em frente a janela. Vestia um sobretudo preto. No instante em que se virou eu vi seus olhos. Num segundo compreendi que reconheceria aqueles olhos na multidão. Oceanos se encontravam. A porta do destino cedera. Eu o havia visto em meus sonhos, em meus delírios, e ele existia. Uma certeza que só um coração completa e tolamente apaixonado pode ter. Eu pertencia ao Proprietário. E me entreguei. Completamente, inteiramente. Fui mulher em seus braços. Uma mulher que eu apenas vislumbrara até então. Uma mulher que estava guardada em porões esquecida de si mesma. O quarto desapareceu, a casa se evaporou. Flutuávamos no espaço que havíamos criado. O universo só existia em nossos corpos. Nada, nem ninguém mais importava.
Ele disse que me queria com ele. Que me levaria para lugares distantes e lindos, cenários de nosso amor. Que nada poderia nos separar. E todas as juras de amor, que o só o amor
se permite .Eu pediria o divórcio assim que ele retornasse de uma viagem de negócios na Europa.
Em uma semana. Apenas uma semana. E estaríamos juntos para sempre. Para todo o sempre que nosso amor durasse.
Nos despedimos com a dificuldade dos amantes.
Ainda nem sei seu nome, pensei. Mas detalhes não importavam agora. Não éramos seres comuns e banais: esta vamos apaixonados!
Os dias passaram sofridos e calados. Uma semana se passou. Duas semanas se passaram. Meu coração começou a se afligir. A janela, ainda fechada, se negava a anunciar a volta do Proprietário. E o meu coração começou a se fechar como ela. Dois meses se passaram e meu coração era como aquela casa vazia que a poeira do tempo invadia. Minhas frágeis esperanças se extinguiram em três meses. Meu coração encheu-se de fel e tive vontade de trancafiá-lo por ser tão tolo.
Ele não ia voltar. Senti raiva e vergonha de minha ingenuidade. Como havia sido tola em acreditar numa ilusão. Éramos só personagens escritos na parede daquela casa. Uma ilusão que não existia fora de seus muros. Um amor inventado em palavras escritas em folhas que o fogo da desilusão queimava e transformava em cinzas.
Ainda com a escuridão no peito, segui o caminho que havia começado a traçar. Mas o segui sozinha. Me divorciei, vendemos a casa e nunca mais pus os pés naquele bairro.
Nunca mais ouvi os sussurros daquela casa. Nunca mais.
Dez anos se passaram. Construi uma carreira e fui feliz profissionalmente. Meu coração voltou a se apaixonar, mas as histórias acabavam no meio do caminho. Pensei esquecer o Proprietário, mas me pegava a procurar seus olhos sempre que via um sobretudo preto. Eu já o havia perdoado e lhe era mesmo grata. Graças a nosso encontro, eu havia me encontrado. Da maneira mais completa que alguém pode se encontrar. Eu era quase completamente feliz...
Mas se o tempo havia apagado as mágoas e mesmo seus traços, aqueles olhos ainda me seguiam como um espectro do passado.
Foi quando pensei em escrever nossa história. Escrevê-la para enterrá-la., uma espécie de catarse. Ou uma homenagem a um amor naufragado.
Comecei a escrever, mas as imagens que se erguiam da poeira do tempo e das lembranças me traziam de volta a angústia daquela janela fechada. Num impulso de quem ainda quer respirar, sai de meu apartamento como estava e peguei o carro. Eu queria revê-la. Eu precisava enterra-la.
Enquanto dirigia, imaginava a janela aberta, o Proprietário, tudo como havia sido dez anos antes. Esperava que a estrada fizesse uma viagem no tempo, me levando de volta àquele dia. Apesar do absurdo da coisa, era o que eu desejava.
Nada havia mudado no caminho, apesar dos anos. Uma hora depois estava na rua e estacionei o carro longe da casa. Queria fazer o resto do caminho a pé para que meus pés não saíssem do chão.
Cheguei em frente a ela e toquei o portão, completamente enferrujado agora. Meus olhos ainda não ousavam se erguer. Uma placa colocada nele anunciava uma demolição. Então era isso. O último vestígio de nossa história estava prestes a desaparecer para sempre. Pensei que minha ida até lá seria mais uma vez atendendo a um grito daquela casa. Dessa vez, um grito moribundo.
Abri o portão que quase se despedaçou, gemendo tristemente. Avancei e deixei que meus olhos se posassem sobre a casa. Tudo era desolação. Se antes ela tinha ares de abandono, o tempo a transformara em ruínas. Mas ainda estava em pé, dignamente esperando o pelotão de fuzilamento. E a janela... Escorreguei meu olhar até ela, me preparando para reviver a dor de outrora. A janela estava aberta. Certamente houve outros invasores, ou a equipe de demolição - pensei.
Os momentos seguintes ficaram tão embaçados que não saberia descrevê-los.
Em um instante eu estava de volta àquele quarto. Àquele quarto que cruelmente continuava o mesmo como se não fosse permitido ao tempo ali adentrar.
Lá estavam o anjo, a cadeira e a escrivaninha. Por um momento vi um vulto na janela e senti um arrepio. Nada mais que minha imaginação.
Olhei para as gavetas e minhas mãos tremiam ao abri-las. Meus olhos mal puderam distinguir o que viam: folhas, centenas delas, em todas as gavetas. As lágrimas turvavam as palavras que eu não conseguia ler. Eu soluçava com uma dor que nem havia consentido existir.
Tentei ler:
Um acidente... Quatro meses no leito de um hospital na Europa... Te espero... Te procurei... Volto aqui todos os meses... Todo ano volto na esperança de te encontrar...
As frases que meus olhos conseguiam ler, pulando as folhas, entre as copiosas lágrimas, me contavam uma história absurda, cruel. Ele não havia me abandonado. Todos estes anos...
Procurei a data mais recente. Um mês atrás.
Dez anos não me fizeram te esquecer. Mas não posso mais suportar vir a esta casa vazia. Ela será demolida. Acho que tenho que te dizer adeus. Você, que habitou meu pensamento, meu corpo. Que o destino me tomou da mesma forma que a trouxe. Sem deixar um nome, uma foto... O Proprietário não possuirá mais nada que você possa invadir. Adeus meu amor. Adeus minha querida Visitante.
Não, adeus não, gritei dentro de mim. Um grito sufocado, desesperado. Procurei as primeiras cartas onde ele havia deixado seu nome e telefone. Acariciei o papel onde estava seu nome... Era a primeira vez que iria pronuncia-lo... Peguei o celular. Minhas mãos tremiam. Disquei o número. Ele atendeu. Sua voz desafiava os anos. Tão perto...
- Alô?
- É o Proprietário? Perguntei.
Depois do que me pareceu um intervalo de dez anos, ele respondeu:
- Onde você está?
- Em casa. A visitante voltou para casa. Você deixou a janela aberta...
Sobre a autora:
StormyAngel é criadora do blog
StormyAngel. A Visitante e o Proprietário é seu conto inaugural. Volte sempre!
(in)Segurança
Lucas Barros
Seguro, totalmente seguro pela primeira vez em sua não-tão curta vida Durvalzinho sentia-se, enquanto andava pelas faladíssimas ruas de São Paulo. A verdade era que não havia nada de concreto que justificasse suas passadas preocupações, tampouco agora elas tinham sido abrandadas, apenas suprimidas por diferentes condições: afinal, que espécie de ladrão furtaria, roubaria, seqüestraria, estupraria (Durvalzinho não era muito atraente, mas vai saber quais tipos de maníacos sexuais há no mundo) ou faria qualquer coisa do gênero com outro bandido?
Isto mesmo, leste certo: bandido. Pois em um bandido que Durvalzinho tornou-se, ou melhor dizendo, tentava tornar-se. Essa sua incursão através da cidade era sua primeira tentativa de fazer alguma vítima, ah!, como sentia-se livre e confortável com sua nova situação.
Não era uma pessoa má, muito pelo contrário, sempre fora um cidadão exemplar, se me permitem usar este horrível lugar comum, e um tanto quanto paranóico em relação a algumas leis que a massa nem sabe que existem. Sempre limpava os excrementos do seu cãozinho quando passeavam juntos, nunca sonegou qualquer tipo de imposto e, por mais incrível que possa parecer, nem tomou sequer uma multa de trânsito, isto ainda quando possuía um carro.
Aliás, não tinha apenas uma carro, mas vários. Sendo mais específico cinco e nenhum deles havia custado menos que R$100 mil, contando com a blindagem, naturalmente. Mas não era só carros que possuía: uma bela casa nos jardins, algumas chácaras, um helicóptero e vários outros bens, que não enumerarei aqui por ser uma tarefa deveras maçante e por já ter passado a idéia que gostaria, acho.
Também não posso esquecer de sua mulher, Clara. Era certo que Durvalzinho a amava até seu último fio de cabelo, cabelos, aliás, que não tinha. Amava seus deliciosos peitos, seus esculturais glúteos e, entre outros atributos com exceção do intelecto (sim, admito que é um esteriótipo ridículo, mas neste caso é totalmente válido), ambos até que conviviam razoavelmente bem, excepcionalmente bem. Como duelen sus caricias cuando ya se ha ido, diz uma música de uma banda mexicana e, para a desgraça de nosso caro protagonista, realmente é verdade.
Só que, como todo bom e ambicioso magnata da indústria de embutidos, Durvalzinho, vez por outra, costumava correr alguns riscos e, por alguma ¿inexplicável, incomum e inesperada¿ (só para citar alguma de suas palavras) reviravolta no mercado de salsichas, acabara por perder todo seu patrimônio, inclusive sua bela ruiva esposa e seu cão. Seu cão.
Onde estávamos mesmo? Ah, sim. Durvalzinho na rua! Durvalzinho na rua observava com atenção todos os rostos que por ele passavam e, após alguns poucos e intermináveis minutos, finalmente escolhera a vítima do seu primeiro furto: uma raquítica velha de cabelos brancos e passos vagarosos aparentando, por baixo, uns noventa e poucos anos de idade.
Não foi por ter perdido tudo que Durvalzinho estava prestes a cometer uma grave (grave?) crime em plena luz do dia (que diabos, como se isto fizesse alguma diferença), não, não era por causa disto, mas para poder usufruir de toda liberdade e segurança que apenas e somente os meliantes têm.
Fixou seus olhos na bolsa da idosa, agora faltava pouco, muito pouco, vamos lá, coragem Durvalzinho! Esticou seus flácidos dedos e, quando estava prestes a agarrar a bolsa e sair correndo ele, Durvalzinho, que nunca havia sofrido nada em sua antiga vida de angustiado milionário, sentiu uma coisa fria encostada em suas costas (uma pistola, talvez? Não arriscou) e ouviu uma voz pedindo para que passasse sua carteira, obedeceu.
Voltou desolado para sua nova e agora modesta casa e de lá não saiu mais por alguns bons meses. Tudo que perdera, a coisa (coisa?) da qual mais sentia falta era do seu cão, fiel cãozinho, insubstituível cãozinho que fora roubado por sua cruel ex-esposa.
Tá bom, tá bom! É mentira, ele estava pouco se fodendo (foi necessário, garanto) com o dócil canino, era apenas mais uma mentira, como todo o resto de sua vida.
Sobre o autor: Lucas Barros é o idealizador do blog
Extudo. Dá uma passadinha lá pra conhecer...
O desconforto anda solto no mundo
Valdomiro Ferreira Neto
O mau-humor empesteia o mundo neste início de milênio. Está todo mundo de saco cheio e exalando amargura pelas ruas das grandes cidades. Na idade média, mulheres de espartilho e homens com seus elmos certamente tinham seus momentos de mau-humor. Na transilvãnia Drácula dava dentadas de mau-humor (pitada de ficção não faz mal a ninguém). Cleópatra deve ter resmungado bastante com seus "companheiros" após as infindas transas imperiais. Mao Tsé Tung era tão mau-humorado que nem tomava banho. Enfim, mau-humor é inerente à humanidade. Mas nada se compara ao que vemos nas ruas nos dias de hoje. A sensação é de que viver se tornou um fardo para muitos. A sobrevivência virou um escândalo, trazendo em seu rastro uma espécie de desalento por existir. Para comprovar a ranzinzice dos tempos modernos, basta perceber a escassa utilização das expressões de fineza básica, como "obrigado", "com licença", desculpe-me", e por aí vai. Um bom teste é nos guichês do metrô paulistano. São raros os bilheteiros que ao menos sussurram "de nada" a um vigoroso "obrigado". A maioria não olha na cara de quem está comprando. Timidez? Em alguns casos, pode ser. Mas não vivemos um surto de introversão para chegar a esse ponto. Parece haver um ódio entalado na garganta humana pelas dificuldades da vida moderna. E o mais engraçado é que quando encontramos gente simpática elas até exageram. Elas quebram a ordem da rabugice. E, em grande parte, é uma simpatia forçada, aguçada por necessidade comercial. Poucos tem o prazer da simpatia espontânea. Está virando sinônimo de fraqueza ser simpático? Isso talvez explique as discussões freqüentes no trânsito e aqueles buzinaço irracional quando há engavetamento. Porque transito irrita, mas as reações de alguns mau-humorados são piores ainda. Por isso, o negócio é fechar o vidro (até por medida de segurança) e colocar uma musiquinha. Senão, o mau-humor contamina. A densidade populacional das megalópoles contribui para a devastação do humor, sem sombra de dúvidas. Mas viver assim é um inferno. Como diz uma belíssima música da Rita Lee, o desconforto anda solto no mundo, e você sempre atento ao que menos importa. Criar um mundo paralelo vem se tornando cada vez mais necessário. Os mau-humorados que dilaceram o cotidiano dos homens deveriam começar a acreditar em gnomos, fingir que estão no mundo do mágico de oz, ou no país das maravilhas. Precisam se iludir um pouco. As contas a pagar, os gritos ocasionais, ou até sistemáticos, do chefe e o choro dos bebês vão continuar. É necessário conviver com isso, caso contrário o hospício não vai comportar mais gente. O negócio é caminhar sem lenço, sem documento. E uma boa dica é se emocionar um pouco, assistir a uns filminhos ao Giusseppe Tornatore, ver um bom jogo de futebol, valorizar as pessoas ao seu redor. Enfim, receitas singelas, mas que podem ser ótimos mau-humoricidas. Os mau-humorados que me perdoem, mas bom-humor é fundamental.
Sobre o autor: Valdomiro Ferreira Neto tem 25 anos, é jornalista e chefe de reportagem do diário esportivo Lance!.
Maria
Paulo César Nascimento
Maria, minha Maria
Quisera chamar-te minha
Não convinha, mas queria
Um querer que ia e vinha
Bem mais do que gostaria
Querendo cruzar a linha
Não cruzando - e deveria
Dever que só me continha
Contendo a pura alegria
Que no meu peito se aninha
Evocando a poesia
De um querer que se avizinha
De um tempo em que te amaria
Maria, Maria minha.
Sobre o autor: O Paulinho é professor, escritor, psicólogo e um dos meus amigos mais queridos. Querendo conhecer mais sobre ele clique aqui:
Sutis Indecências
Sexta-feira, Agosto 8
Queda livre
José Roberto Marque
Domingo, seis da manhã. Pego a estrada, saindo de São Paulo com destino à Piracicaba. A meteorologia promete tempo bom para todo estado. Às sete horas, já na rodovia dos bandeirantes o sol desponta em todo seu esplendor.
Oito horas. Chego a meu destino. Uma escola de Pára-quedismo localizada no aeroporto de Piracicaba. Após a inscrição e a instrução do dia, estou pronto para embarcar. Uma aeronave Cessna, modelo caravan, vai nos lançar de uma altura de 12.000 pés (cerca de 3.600 metros).
Nove e meia, devidamente equipado e vestido para a ocasião com um macacão de Nylon especialmente desenhado para tal atividade, que mantém a temperatura do corpo em grandes altitudes, onde o ar é mais rarefeito (e frio), levando um capacete, um par de óculos para proteger os olhos da velocidade do vento. A velocidade terminal até a abertura do pára-quedas é de 200 Km/h, daí os óculos. O capacete também possui um rádio-receptor, que será usado por um instrutor em terra, para guiar minha navegação, depois de abrir o pára-quedas.
O equipamento constitui-se de uma mochila, tradicionalmente chamada de container, onde estão alojados os dois pára-quedas, o principal e o reserva e possui um DAA (Dispositivo de abertura automática). Esse item é essencial, pois se eu chegar a determinada altura em queda livre, ele automaticamente abrirá o pára-quedas reserva. Providencial, se por qualquer motivo eu ficar desacordado em queda livre.
Nove e quarenta. Todos estão a bordo. O avião, lentamente taxia até a cabeceira da pista e aguarda liberação da torre de controle para prosseguir. Concedida a permissão ele acelera, devorando a pista e decola...
O coração acelera, milhões de pensamentos passam pela minha cabeça, mas acima de tudo estou imerso em um estado de profunda paz e êxtase. A bordo, todos conversam, brincam e fazem todo tipo de piada... o altímetro marca 3.000 pés, o troar do motor é alto e nos obriga a falar mais alto e próximo aos ouvidos uns dos outros. O cheiro que querosene queimado permeia o ar.
4.500 pés ! Um dos meus instrutores (são 2 além do câmera, que vai filmar toda a queda livre) repassa comigo toda a instrução que tive em terra, e me diz para repassar cada passo enquanto o avião ganha altura...
7.000 Pés, o sol brilha as poucas nuvens que vemos ao longe, pelas janelas parecem algodão. A paisagem é maravilhosa. Já não se consegue distinguir muitos detalhes do solo.
12.000 pés. Chegou a hora. O avião manobra e entra na reta de lançamento. Vai começar... A porta do avião é aberta e com isso o barulho do motor aumenta... Os pára-quedistas se cumprimentam, desejando ¿bom salto¿ uns aos outros. O primeiro grupo se alinha na porta e em seguida desaparece. O coração acelera. Um dos instrutores pergunta se estou pronto, ao que balanço a cabeça afirmativamente.
O penúltimo grupo saiu. Sobramos nós quatro, além dos pilotos. Com um instrutor preso a cada lado, me dirijo à porta. Checo o primeiro instrutor. Ele está praticamente do lado de fora do avião. Ele me dá o Ok. Verifico com o segundo que está do lado de dentro, mas devidamente preso a mim. É agora ...
O Barulho do avião some. Resta apenas o rugido ensurdecedor do vento. Confiro o altímetro, pego uma referência visual no solo e olho o primeiro instrutor por baixo de meu braço esquerdo. Ele me manda prosseguir. Olho para o segundo ele me mostra dois dedos esticados, mandando eu esticar mais as pernas. Obedeço e ele me mostra três dedos ¿ Três simulações de comando. Após a terceira, checo o altímetro ... 9.000 pés e como diminui rápido ! Olho novamente para o primeiro instrutor que chacoalha a mão, mandando-me relaxar. Em seguida o sinal de ¿prossiga¿ olho o segundo, mas ele me manda prosseguir... checo o altímetro... 6.000, 5.700, 5.500, 5.300... à nossa frente o câmera está parado (na verdade ele cai junto conosco) a visão é fantástica... o momento é perfeito... seria uma boa morte ! Mas não hoje ! 5.000... Sinalizo com as duas mãos e levo a direita ao comando e a esquerda à frente da minha cabeça... olho para o comando e puxo o mesmo. O mundo pára. Os instrutores e o câmera desaparecem, eles vão comandar mais abaixo. O silêncio reina por alguns segundos ... em seguida é só o barulho do vento, e a paz total. O coração ainda sente os efeitos da descarga de adrenalina que recebeu, mas no geral a sensação é de paz ...
Verifico visualmente a boa abertura do pára-quedas e manobro para a esquerda e depois para a direita, realizando uma checagem funcional. A primeira providência é localizar minha área de pouso. Dirijo-me a ela e em seguida tudo que tenho a fazer é curtir a paisagem, o silêncio, a paz e a natural tremedeira nas pernas, que só vou perceber quando já houver pousado.
A sensação é indescritível e o mais próximo que consigo chegar dela é este relato. Entretanto, ao chegar em terra, dá uma vontade de subir de novo...
Sobre o autor: O
Beto tem 34 anos, é analista de sistemas e dono do blog
Armenelos. Fora isso é paraquedista, luta aikidô e, claro, escreve!
Gente, gostaria de pedir a todos aqueles que estão mandando seus textos que os façam acompanhar do
nome completo e um resuminho sobre quem é, dizendo idade, onde mora e o que faz da vida. Se tiver blog, não esqueça de colocar o endereço,ok?
Obrigada!
Maria Carolina, a Dona do Blog
Perdoa-me....
Alice
Venho aqui com a cara mais lavada lhe pedi perdão...
Pelo meu descontrole...
Pela minha falta de exatidão...
Não se zangue pela minha mininice...
Imaturidade demorada que cisma de não ir embora...
Pela falta de senso de direção..
Pela minha falta de correção...
Mas enfim sou assim mesmo..
O pecado não está ao lado ... ou em frente.
Está aqui dentro...
E as vezes me canso sem ao menos ter começado...
Não quero prometer que não vou mais sumir...
Que diariamente estarei por aqui...
Lhe dar mil desculpas que me afastarm por muito e até me fazem fugir...
Me encanto, me embolo, me perco...
Nessa vastidão que teima em me afrontrar...
Se por um a caso você for paciente...
E não precisa ser conplacente..
Deixa eu chegar de novo de forma até um pouco carente...
Invadir devagar e mansamente seu coração...
E me tornar eternamente sua amiga de sempre...
Que volta e meia vai lhe perdir perdão...
Sobre a autora: a
Alice é a dona do blog
Doce Insensatez e tem uma série de textos bem legais lá. Este aqui, chamado Perdoa-me fui eu quem escolhi dentre tantos bons que encontrei. Apareça lá!
Concerto
Kelly Gallan
Todos as tardes, por volta das 3 horas, gato e passarinho se encontravam no terraço de um sobrado. O gato cinzento, de olhos meigos se espaldava no piso frio e vermelho enquanto o passarinho se empuleirava em uma das hastes de ferro da cobertura.
E começava o doce concerto que às vezes durava até uma hora: o bichano às vezes até dormia embalado pelas canções do doce passarinho. Ao terminar o concerto, ambos seguiam suas rotinas diárias, o gato voltava pro convívio de sua dona e o passarinho voava pra liberdade. Mas, todos os dias, naquele mesmo horário, se encontravam de novo.
Certo dia, o bichano adoeceu, mas mesmo muito fraco e cansado, juntava todas as suas poucas forças pra ouvir o passarinho cantar, até que seu frágil e delicado corpinho sucumbiu à doença.
Por várias semanas o passarinho continuou sua rotina, mas seu canto estava triste e distante... Um belo dia, a dona do bichano estava saudosa e lembrou-se desse pequeno espetáculo, subindo ao terraço no horário esperado. O passarinho estava lá, olhando triste pro piso vermelho e frio... Pra não assustá-lo, ela foi engatinhando calmamente até o ponto que o bichano costumava ficar e lá se deitou de barriga pra baixo. O passarinho, então, começou seu concerto, certo de que aquela era a sua despedida.
E ela dormiu, sonhando com seu bichano, embalada pelo amigo com asas e voz doce, que nunca mais voltou...
Sobre a autora: a Kelly é a idealizadora do
Ecos de um Psicovilarejo e colaboradora antiga do Vamos Cronicar.
Quinta-feira, Agosto 7
O Haiti não é aqui...
Camila Castro
Pense pelo nordeste, reze pelo nordeste. O Haiti é aqui...O Haiti não é
aqui!
Um dia em São Paulo, na área de lazer de um prédio qualquer. O relógio
marcava mais de dez horas. Lá vinha um pobre homem pobre com passos rápidos
e fortes. "Ei, vocês não podem ficar aqui depois das dez horas, é o
regulamento. Saiam! Ou vou ter que chamar o síndico". Não sei se as palavras
foram essas, mas a rispidez foi a mesma. E tão ríspida, foi sem querer, uma
colega ao meu lado. "É grosso porque é nordestino!".
No nordeste todo mundo é preto. Pro Brasil todos nós somos pretos. Negros.
Escravos. E brutos.
Brutos sim. Mas porque fomos criados numa terra bruta. Bruta de tão seca.
Bruta de tão pobre. Bruta de tão preta.
Eu sou branca. Mas me sinto mais preta que branca, quando me perguntam se o
meu "tu" é do sul, e eu respondo que eu sou nordestina, piauiense, e a
segunda pessoa dá um sorrisinho amarelo, "legal". Mais negro que amarelo. O
Haiti é aqui...
Eu também sou preta, mas ninguém me vê como preta, quando meu pai consegue
me sustentar e pagar uma faculdade cara. Nessas horas, deixam de me ver como
nordestina, sou branca. O Haiti não é aqui...
Aos 11 anos, fui visitar a pessoa que trabalhava em minha casa, ela acabara
de dar à luz. Quando me deparei com minha foto três por quatro colada na
parede por sua filha mais velha, da mesma forma que eu colava os pôsteres da
"rainha dos baixinhos". A menina não tinha tevê, não sabia ler, andava
descalça, preta, nem era negra, mas era preta. Fiquei assustada! Não
conseguia entender. Nem entendia também, porque a menininha ganhava de natal
bolachas recheadas, as mesmas que eu levava todos os dias para lanchar na
escola. E ela ficava feliz! E eu não me sentia tão feliz, tinha pouco,
achava que tinha muito pouco. Nos comerciais da tevê uma garotinha linda,
sempre brincava com bonecas que eu não possuía.
Há um ano, exatamente no período onde a seca é mais forte, mais bruta e
violenta, mais negra. Um amigo meu foi fazer um trabalho voluntário. O Haiti
não é aqui...
E encontrou no meio do sertão negro, preto e bruto, uma casinha, de barro. O
meu amigo e sua turma resolveram parar e quem sabe ajudar. Lá eles só
encontraram uma senhora, já bem idosa, bem preta, com marcas e sulcos
profundos causados pelo sol. Ela estava só. Já havia enterrado sozinha seus
dois filhos e seu próprio marido. A cova era rasa. Mas não tem problema. Não
cai chuva lá. Não faz vento lá. Não tem água lá. Tudo é seco e bruto. Tudo é
preto. O Haiti é aqui...
Sinceramente, não consigo entender como essa gente preta, negra e bruta,
consegue sobreviver. Bruta sim. É essa brutalidade, a ignorância que os
ajudam a resistir. Nunca ouvi nenhum caso de um retirante ou um morador do
sertão ter se suicidado. Nem Severino conseguiu se matar. Mas já ouvi
inúmeros, de gente que tinha tudo, casa, dinheiro, água, comida. Mas quem
sabe, esses aí é que não tinham nada. O Haiti não é aqui...
E é por isso, que tenho orgulho de dizer que convivi com pessoas brutas e
pretas, que passaram fome, que passaram sede, mas nunca perderam a fé. A
única coisa que essas pessoas desejam é sobreviver, ter o que comer no dia
seguinte. E a brutalidade é uma forma de resistência, de resistirem. O Haiti
é aqui...
A minha foto três por quatro ainda está lá, eu, já tenho outros ídolos.
Nunca mais colaria pôsteres de estrelas (?) nacionais ou internacionais, mas
sim o dessa gente preta, o dessa gente negra, que me dá forças para lutar
contra o meu próprio egoísmo, para lutar contra essa sociedade hipócrita.
Que fala do Nordeste de boca cheia, que diz que as praias são lindas, mas
que possui um preconceito enorme pelos pretos de lá. Um dia desses ouvi uma
amiga falando que não queria ir para tal lugar porque só tinha baiano,
(Tradução: Pessoas mais simples, menos ricas). Pense por essas pessoas
preconceituosas. Reze por essas pessoas preconceituosas. Se orgulhe de morar
num país, onde existe gente preta e bruta que sobrevive em condições muito
precárias.
Eu poderia escrever dez páginas, narrando vários fatos da minha gente preta.
Mas só quem conviveu, mesmo comendo bolacha recheada e brioche todos os
dias, poderá entender mais ou menos, o porquê de se orgulhar dessa gente
preta, negra e bruta. "White is my skin, black is my tribe".
Sobre a autora:
Camila Castro tem 19 anos, é piauiense, mas mora atualmente em São Paulo onde cursa a faculdade de publicidade. Pra saber mais da nossa "mascote" ( a mais nova candidata a escritora aqui do blog!) clique:
Blogquete.
Saudade
Louis Cypher
Quando eles chegaram em casa já era muito tarde e não viram a porta dos fundos aberta nem o vidro quebrado. Não sentiram o tapete molhado e nem notaram o peixe dourado que já havia desistido de se debater. Beijavam-se de uma maneira sôfrega e violenta, que só aqueles que amam profundamente conhecem.
Tudo havia sido preparado com o maior cuidado para aquela noite. Ela tinha passado a tarde no salão, serviço completo, pés, mãos, cabelo. Depilou seus pêlos pubianos de uma forma ousada, como quem sabe exatamente o que está fazendo.
Porém ela não sabia. Já não se viam há muito tempo era um reencontro que a deixava tensa e excitada. Fumou um cigarro à tarde, mesmo tendo parado há tanto tempo. E depois desse, um após o outro e só parou quando pensou que ele poderia sentir o cheiro remanescente da nicotina e perceber sua ansiedade. Não queria mostrar suas fraquezas, ela já não era mais aquela menina de antes, se sentia madura, uma mulher. Mulher que assustava os homens que se aproximavam dela com sua determinação e praticidade.
E todos esses pensamentos passavam em sua cabeça como um filme, enquanto se entregava ao massagista, de mãos fortes e ao mesmo tempo delicadas, que sempre a fazia relaxar profundamente. Porém nessa tarde de nada adiantou, ela estava ansiosa como uma colegial e não conseguia parar de pensar nele.
Quando ele chegou ao Brasil depois de tanto tempo e olhou para tudo com os olhos de quem já viu muito, se sentiu cansado. Uma sensação de insatisfação não conseguia deixá-lo feliz por ter voltado. Seus amigos estavam casados e nenhum parecia ter aquele brilho nos olhos de quem gosta do que está fazendo. Teve a impressão que todos levavam a vida pra frente simplesmente por levar, e pensou seriamente em ir embora novamente. Entre os solteiros era pior ainda, muitos ainda fumavam maconha todo dia. Dez anos na mesma rotina.
Olhou no espelho e tentou se imaginar velho. Reparou que cada dia havia menos cabelo em sua cabeça e mais em suas costas. Por um segundo teve medo de ficar como seus amigos, deitou-se na cama e divagou horas sobre ser casado ou solteiro. Pensou nas coisas que fez sozinho, nas noites malucas no leste europeu, nas orgias e em todas mulheres que amou. Lembrou do seu tempo de escola, e dela. Realmente ele havia gostado muito dela, e com certeza se as coisas tivessem sido diferentes eles estariam casados hoje. Mas as coisas não saíram como eles planejaram.
Ela estava dormindo quando o telefone tocou. Reconheceu a voz dele e tremeu. Com voz de sono fingiu não estar interessada e não conhecer o restaurante sugerido. Mas deixou bem claro que iria ao jantar, afinal já fazia tanto tempo que não se viam.
Poder revê-la era um pensamento reconfortante para ele. Marcara o jantar em um restaurante italiano novo, onde conversaram longamente sobre o que fizeram enquanto estavam longe, evitando os assuntos mais dolorosos. Ela possuía o brilho no olhar que há muito tempo ele não via em alguém.
Já na rua, entreolharam-se longamente. Naquele instante puderam se perdoar por terem se separado, algumas pessoas são assim, se expressam de uma forma verdadeira e profunda com um simples olhar.
No táxi a caminho da casa dela o silêncio era total. Ele apertou a mão dela de uma forma pesada num gesto sutil e desesperado e ela se fez frágil de uma forma que já havia esquecido que era capaz. Entraram em casa e ainda em silêncio se beijavam longamente encostados em uma parede.
A bala entrou primeiro no peito dele e depois no dela. Seu sangue misturado pintou na parede o retrato daquele amor. Mas só eu entendia isso.
Os dois corpos desfaleceram ao mesmo tempo e nos últimos instantes eles se abraçaram e ouvi um murmúrio. Estava com muita saudade. Que bom que você voltou. Estou feliz. Depois disso não ouvi nada além do silêncio da noite, pensei que talvez nunca mais encontrasse um casal como esse. Admirei durante algumas horas minha realização, dificilmente seria superada. É que alguns amores são tão grandes que só o sangue consegue retratar a sua verdadeira beleza.
Sobre o autor:
Cypher é o idealizador do blog
Cypher1987. Passe lá e conheça os textos dele: vale a pena!