Amar alguém
Cypher
Amar alguém é estranho, quase sobrenatural. Existem tantas razões para o
gosto e desgosto que em uma primeira análise é impossível definir um padrão
ou sequer uma previsão. Amar alguém é como tomar todos os caldos de cana de
cidade e escolher só um como o melhor. Dificilmente as pessoas concordam
qual é o melhor caldo de cana, existem no máximo linhas gerais, do tipo, eu
prefiro o meu caldo de cana sem lagartixa. Entretanto sempre existe a
exceção, quem vai querer o caldo de cana dele com a lagartixa porque é
exótico.
Bom, é óbvio que os vendedores de caldo de cana não anunciariam "Olha o
caldo de cana com lagartixa" isso causaria um espanto muito grande nos
consumidores mais tradicionais e mesmo que uma pequena fatia se interessasse
por essa variedade inusitada dificilmente eles assumiriam isso assim sem
problema algum na frente de todos, essa é outra faceta do amar, que não
basta ser infinitamente único, tem também que seguir as estranhas condições
da maioria.
Chegamos, portanto, em um dilema, que poderíamos chamar do "Dilema do caldo
de cana" em que o sujeito deve escolher entre todos os caldos de cana da
cidade o melhor por suas razões únicas e especiais, agradando a todos outros
e a si mesmo, simultaneamente. Considerando que o número de caldos de cana é
igual ao número de pretendentes, o dilema pode ter solução, a condição de
contorno seria a criatividade e o tempo do pretendente tendendo a infinito.
Mas não temos todo o tempo do mundo. E mesmo que tivéssemos, lembraríamos
como era o primeiro que tomamos depois de experimentar mais cem?E de mil?
Ainda assim, esse dilema é muito simples quando comparado a amar alguém.
Mesmo porque amar alguém envolve na maior parte das vezes reciprocidade, e
isso é realmente mais complexo do que minha matemática pode realizar.
Alguém poderia dizer que o amar é a coisa mais simples e as dificuldades são
criadas apenas por nossas limitações. Que o difícil é explicar, definir,
medir, justificar e o simples é sentir. Não saberia dizer se concordo, posso
dizer apenas que descobri um lugar muito bom na minha cidade que oferece um
caldo de cana viscoso e exótico. E enquanto tento não engasgar com o rabo da
lagartixa, penso: Amar alguém é estranho. Amar alguém é fundamental.
Sobre o autor: Cypher é o idealizador do blog
www.cypher1987.blogger.com.br.. Passe lá e conheça os textos dele: vale a pena!
Glória
Ana Flávia
Glória dorme inquieta. Sonha com pessoas gritando seu nome. Que é muito famosa. Todos a conhecem e é muito querida. Ela acorda e se dá conta que continua uma anônima a espera de um lugar ao sol.
Ela veste uma meia-calça, o scarpin, ajeita o vestido. Perfuma-se sendo possível ver as gotículas no ar. Durante todo o tempo não podemos ver o rosto dela.
Entretanto é claro que se prepara para uma festa.
Um agitado grupo dança em salão super bem decorado. Roupas descoladas. Corpos exalando feromônios.
Nada de rostos...A música é alta. Contudo na verdade todos se parecem. Quando muito se distingue os homens das mulheres.
Muito dificilmente é possível perceber Glória no meio da multidão dançante. Ela anda calmamente para a porta de saída do local. Ninguém se importa com o fato.
Os passos firmes denotam a contrariedade da moça em virtude de sua ¿invisibilidade¿.
Ela chega então a um show. Ambiente esfumaçado. O local está lotado, mas não se vê os rostos. A roupa do cantor é pra lá de chamativa. Um macacão prata com pedacinhos de espelhos colados. A fumaça no palco é de várias cores.
Glória que chegara com o show iniciado procura de todas as formas se destacar e se aproximar do palco. Entretanto não é bem sucedida.
A jovem, desiludida, é empurrada pela multidão que assiste ao show. E decide ir embora.
Neste momento um holofote chama atenção para sua presença. Ela se levanta e percebe que o cantor a chama para subir no palco.
Esse é o instante quando finalmente podemos ver seu rosto.
Esfuziante ela canta e curte o seu momento. Todos a observam encantados. Os rostos da platéia também se tornam visíveis. E é interessante a multiplicidade e diferenças que o público apresenta: Negros, brancos, amarelos, gordos, magros, altos, baixos, homens, mulheres...
Uma platéia linda, e gostando demais da apresentação de Glória.
O show termina e ela é abordada por inúmeros repórteres. São flashes e gravadores pressionados à face que agora vemos em close e com detalhes o belo sorriso.
Glória dorme. Desta vez um sono bem mais tranqüilo. Como alguém que venceu uma grande batalha.
Mas novamente deixamos de ver o rosto da jovem ao acordar e andar na rua. É difícil para ela conter o desapontamento de não ser reconhecida pelas pessoas.
Até que ao apressar o passo para subir ao ônibus, esbarra em um rapaz que salta de um táxi. Irritado porque a trombada o fizera derrubar o case da guitarra. Ele pragueja a moça que voltou seus olhos e percebe ser o mesmo cantor da noite anterior. Com uma aura bastante comum e nada glamourosa.
Cheio de si, o artista cobrava explicações e xingava Glória de ser desastrada e coisa e tal.
A jovem olha para si mesma de cima a baixo, e novamente podemos ver seu rosto. Ela segue seu caminho de cabeça erguida e passo firme deixando o resmungão pra lá.
Sobre a autora: A Aninha já faz parte da história do Vamos Cronicar. Conheça essa moça melhor aqui ó:
Verborragias