Segunda-feira, Março 24
Doces Lunáticos
J. Carino
Ontem, uma lua rotunda e altaneira passeava sua altivez astronômica na noite do Rio. Estava linda essa jóia de prata no estojo de negrume do céu. Mas quem a via?
Não a via o executivo apressado, doido para jogar longe o paletó, afrouxar a gravata e afogar em uísque e alienação televisiva o restinho de um dia cansativo. Nem a gatinha malhadora, que preferia arriscar uma olhada provocativa ao seu vizinho de aparelho ergométrico, a olhar o céu pela janela escancarada à sua frente na academia.
A lua não era vista pelo motorista de ônibus, embrutecido pelo trabalho estafante ao lado de um motor barulhento e quentíssimo, com as canelas à mostra, palito na boca e uma flanela por dentro da gola da camisa aberta no peito.
Não via a lua a velhinha carinhosa com seu cão e insensível em face do mendigo deitado na calçada, pertinho de onde o lulu deposita o produto de necessidades fisiológicas que vão acabar passeando nas solas dos sapatos de transeuntes distraídos.
O menino que faz de sua bicicleta um bólido que serpenteia entre os pedestres na calçada e, milagrosamente, não atinge ninguém, também não vê a lua plena. Nem a menina de rabo de cavalo e narizinho empinado, que refaz o eterno caminho feminino entre a garota e a mulher.
No fundo negro da noite, lá ia a lua, imensa, generosamente prateando tudo. Quem a via?
Talvez a visse o gato vagabundo, fugido do falso aconchego de algum lar humano; ou o bêbado largadão, que poderia ver duas luas, compensando a ausência de atenção dos sóbrios que não viam nenhuma; ou aquele porteiro de prédio modesto, com o olhar vago em que havia, ainda, o brilho intenso de uma luz da lua vista na caatinga ressequida da terra natal, antes da viagem com jeito de para sempre num pau-de-arara.
O garçon do restaurante da esquina, equilibrando bandejas em meio à conversa fiada da gente de pilequinho e a fumaça de muitos cigarros na certa não a via; muito menos a PM, capaz de realizar o já grande milagre de ser e parecer feminina e graciosa dentro de sua farda sem graça.
O gari num horroroso uniforme cor-de-abóbora, que junta folhas, metodica e caprichosamente, como o banqueiro junta dinheiro, talvez visse a lua redonda e linda. Mas o pastor, que sobraçava a Bíblia enquanto andava apressado em direção à sua igreja - afoito para resgatar almas e garantir dízimos - com certeza não a via.
Ah, lua, lua, prateada amiga, eu a vejo criando essa senda de luz por sobre o mar - caminho quase irresistível na direção do horizonte. Vejo-a refletida em olhos marejados de amantes abandonados; na gota de orvalho que, miraculosamente, se equilibra na borda rendada da folha no jardim; na lágrima de peregrina beleza que rola por sulcos cavados pelo sofrimento numa face envelhecida.
Poder vê-la, lua de prata, é um privilégio; banhar-se em sua branca luz é uma necessidade dos que amam; sabê-la no céu, atravessando magestosa o imenso caminho no espaço sem fim, alheia à indiferença, é ter a certeza da onipresença da beleza, da perpetuação do sublime, da garantia de um milagre iluminador do mundo e, quem sabe, até das mais escuras profundezas da alma humana.
Lua, lua, nem todos podem vê-la assim, linda donzela na festa celeste do plenilúnio.
Os que a vemos continuaremos a seguir assim, loucos e banhados de luar, com os pés na terra e a alma na amplidão - doces e felizes lunáticos.
Sobre o autor: Jonaedson Carino tem 55 anos e é professor universitário no Rio de Janeiro. Em meio ao cotidiano de aulas, orientações de alunos e à faina das pesquisas, encontra tempo para sua verdadeira paixão: escrever - poesia, crônicas, contos - ainda inéditos. Querendo conhecer mais do trabalho dele entre aqui:
www.almacarioca.com.br.
Sexta-feira, Março 21
Clássicos
Elis Marchioni
Gilda é uma corintiana fanática, sócia da Gaviões da Fiel, ex-passista da Escola de Samba da agremiação, mas acima de tudo maluca por futebol. Os namorados e paqueras nunca conseguiam ficar com ela por ciúmes do time: a maluca largava tudo e todos para ir ao estádio e vibrar junto a torcida alvi-negra.
O que ninguém sabia era que a moça pensava em futebol até na hora dos "finalmentes". Começou quando conheceu Lidú, um palmeirense da Mancha Verde. Garoto bonito, mulato e de olhos verdes, que vivia uniformizado.
Atrevida, Gilda não escondia que mirava bem a bunda empinada do ragazzo, dentro daquela porca vestimenta.
Um dia aconteceu. Levada pelo impulso, Gilda pediu para transar com ele, mas só cederia se ele fizesse tudo sem tirar a camisa palmeirense.
No começo Lidú achou estranho mas, em sua casa, a menina mostrou sua fantasia: sexo para ela era uma partida de futebol, com direito a intervalo e prorrogação, no caso de empate.
Naquele dia a prorrogação foi insuficiente e tiveram de decidir a partida nos pênaltis. Isto sim é que é clássico!
O romance acabou e Gilda começou a armar novas táticas de jogo e reformulou o uniforme de seu time. Foi ao shopping e comprou espartilhos nas cores preto, branco e vermelho - este último para partidas internacionais da Libertadores. Sim! Ela tinha um pretendente chileno. Léo.
Léo era tímido e torcia para o Colo Colo. Tiveram algumas partidas empolgantes, mas nada que se comparasse ao Derby com o Lidú.
Não deu muito certo. Ela queria clássicos! Pensou num Majestoso e conseguiu marcar um amistoso com um são-paulino típico: seu vizinho Júnior.
Ele, empolgado com a fantasia da vizinha alvi-negra, tratou logo de comprar uma camisa de seu time para conquistar o troféu. Mas Gilda teve uma decepção mesmo antes do apito inicial: Juninho não sabia o hino de seu clube. Imperdoável!!!! Bola fora.
Apareceu um santista, e as partidas foram ainda melhores do que as jogadas contra o Palestra. Marcio jogava com a 10 e era um Pelé em campo. Acelerava bem, cobrava ótimos laterais, era bom de linha de fundo, intermediária e grande área! Driblava, cabeceava, tocava de primeira, de trivela e só depois de muitos gols suplicava bola ao chão. Gilda dizia que nem se incomodava de ficar 23 anos na fila. Ela tinha o Pelé em campo!
Corinthianos quiseram se aventurar, mas Gilda negou. Não poderia jogar contra seu próprio time. Não. Melhor nem tentar.
Até reatou um romance com o Lidú, pois a maestria de seu santista fez com que ele fosse contratado para jogar no exterior. Hoje é garoto de programa e vive na Itália, em meio a polentas e macarrões.
Gilda ainda bate um bolão, mas agora está desconsolada. Sabe como é, trato é trato e este ano não tem mais clássico. O Palmeiras está na segunda divisão e só disputa novos jogos com o Corinthians no ano que vem. Por isso, vai deixar o palmeirense de lado e chamar um outro são-paulino para um novo torneio, alegando que é uma final. Tá marcada para o próximo sábado. Vamos ver que bicho vai dar.
Sobre a autora: Elis Marchioni é mais uma das minhas amigas de internet e redatora do blog Relicário. Anota o endereço aí:
www.relicario.blogspot.com
Quarta-feira, Março 19
Latinha Dourada
Kelly Gallan
Três horas da manhã do dia da mudança de sua vida. O relógio estava programado para despertá-lo às sete, meia hora antes do caminhão chegar. Ele acordara assustado com o barulho da latinha dourada batendo no piso de madeira; havia deixado-a cair no último cochilo... A mesma latinha que há horas "queimava" em suas mãos e não o deixava descansar em paz.
Olhou desconsolado para suas lembranças e segredos espalhados pelo chão do quarto vazio; todos os sentimentos que ele fizera questão de sufocar todos esses anos naquela latinha, estavam soltos agora, sufocando-o como numa estranha revolta planejada...
Pegou cada presentinho, cada lembrança, cada pedacinho de alguma coisa e guardou cuidadosamente... Leu intensamente cada linha dos milhares de recados, cartas e cartões e via a sua frente a pequena e delicada mão que os escrevera, com sua letrinha arredondada, seu jeito de segurar a caneta, o cheiro adocicado de seu perfume, o calor de seu toque... Tentou se levantar pra fugir das lembranças, mas sentia-se tonto, enebriado pelo sem número de sensações que até sua alma desconhecia... Resumiu-se a guardá-los de volta na latinha... Quando achou que finalmente conseguiria respirar de novo, notou um papel ligeiramente encoberto por seu lençol... Sentiu um arrepio ao se lembrar da última coisa que faltava pra lhe castigar naquela latinha: aquele velho e doce retrato...
Sentiu o ar sumindo, o coração disparando ao ver aquele rosto, de alguém que tanto amara, e lembrou-se que ainda a amava, talvez mais do que antes... Passou os dedos pelos longos cabelos encaracolados, a pele levemente bronzeada pelo verão festivo de fim de ano, os olhos pequenos e cheios de uma misteriosa arrogância que sempre o intrigara, os lábios adocicados que nunca havia beijado...
Podia vê-la ali, na grama verde e molhada do quintal, correndo atrás dos pássaros descalça, enquanto ele ria sentado no muro de pedras, minutos antes daquele retrato ter sido tirado...
Sentiu-se pesado, mais velho, feio, como se todo o peso do passar dos anos tivessem caído por sobre seus ombros naquele segundo. Sentia-se profundamente só...
Num ímpeto incontrolável, misto de esperança e coragem, pegou a foto, colocou-a no bolso da calça jeans desbotada e saiu correndo escadas abaixo em direção à sala de estar. Jogou-se ao chão, de joelhos, mãos ao rosto cheio de lágrimas ao deparar-se com o inevitável: o fim de sua inocência. Não poderia procurá-la mais, não na única hora que teria coragem para realmente contar a ela sobre seus sentimentos. Na sala vazia e amedrontadora os fios cortados lembraram-no de que o telefone já havia sido desligado, bem como seu computador...
Estava só, rodeado pelo amor que nunca viveu, mas sempre o perseguiu e que agora resumia-se a uma latinha dourada...
Sobre a autora: A Kelly é de Niterói, tem 26 anos, farmacêutica e está terminando seu doutorado. Querendo saber mais sobre o trabalho e vida dela visite:
www.ecos.blogger.com.br
Terça-feira, Março 11
Não Complica, Simplifica!
Marcos Kim
Logo de manhã, carona pra minha mãe.
É justo, afinal, ela comprou o carro que eu uso...
Em seguida, caminhada. Três quilômetros,
rumo ao Parque do Ibirapuera.
Andei sem pressa. Hoje, manhã fria, tava
mais disposto a observar muito e pensar pouco.
Passo pela rua Curitiba, já em frente ao Parque.
Admiro, sem invejar, os imponentes prédios. Percebo
esta evolução em mim, admirar sem invejar. Bom!
Na beira do lago, apreciando as fontes, uma garça solitária.
O vento criava grandes rajadas de gotas em direção a ela. Neste dia
brumoso, me pareceu uma bela cena. Me senti dentro
de um poema hai-kai. Lembrei do filmes "Sonhos", do Akira
Kurosawa, em que o personagem se vê literalmente dentro
das paisagens pintadas por Van Gogh, com direito à revoada
de corvos.
Tirei a camisa, pra compartilhar a sensação da garça.
Me aproximei à distância consentida de três metros.
Ficamos ambos ali, imóveis, apenas sentindo aquela
água no corpo. Sei que é suja, barrenta, fria,
que acabo me resfriando, mas não liguei. Curti.
Aprecio muito as garças. Tenho uma foto que curto muito,
fiz após ficar vários anos sem fotografar.
Na volta, paradinha na feira.
Aquele pastel, com aquele molho vinagrete,
aquele caldo de cana com a dose perfeita de limão...
Realmente, preciso de pouca coisa pra ser feliz.
Acho que a maioria das pessoas precisa de menos
do que pensa pra ser feliz.
É como eu sempre digo pros amigos, talvez pra que
eu mesmo nunca esqueça: "não complica, simplifica".
Olhares femininos enquanto caminho: a rápida olhada
da tímida adolescente, a medida de cima a baixo
da nada tímida balzaquiana em forma. Bom pro ego...
As mulheres percebem quando você está de bem com a vida.
Personagens de Sampa: um rastafári trazendo na coleira
um galgo inglês. Um taxista negro de quase duzentos quilos,
trajando uma gravata vermelha.
Hoje, simplesmente, estava de bem com a vida. Respirei
fundo. Você já respirou lenta e profundamente hoje? Experimente.
Comecei a listar as coisas que estavam erradas na minha vida.Parei. Hoje não. Hoje tá tudo legal, tá tudo certo.
Hoje tô curtindo o prazer de ficar comigo.
Todos nós vivemos adiando os prazeres, e somos pontuais
com as chateações do dia-a-dia. Mas hoje não.
Hoje estava decidido a pensar pouco. Muito bom!
Os budistas dizem que nossa mente é um cavalo selvagem.
Convém domá-la...
De volta à casa, encontro uma foto inusitada na mesa.
Minha mãe, que não sabe dirigir, jogando videogame.
Do alto dos seus sacudidos 67 anos, ela tava curtindo
um simulador de corridas...
Sobre o autor: Marcos Kim ( graaaaaaaande Honorável Kim...) além de escritor, é um ótimo fotógrafo e meu companheiro de papos intermináveis pelo telefone. Quer saber mais sobre a arte do moço? Entre aqui:
Sábado, Março 8
Aula De Violão
Beatriz Monfré
Eu morei alguns anos no bairro Itaim Bibi, na cidade de São Paulo
Na época o bairro ainda era residencial, mas já estava sendo invadido pelas confecções de roupas e pelos consultórios médicos. Na ocasião, recebi a visita da Artrite Reumatóide. Foi avassaladora. Inflamação e dores em praticamente todas as articulações móveis.
Orientação médica, tratamento com remédios, fisioterapia adequada ao momento, psicoterapia, apoio da família me ajudaram fundamentalmente.
Não havia mínimas condições de trabalho e passei então a reclusão domiciliar. A vontade de me dedicar a alguma atividade era muito grande, mas qual seria praticável?
Em um domingo, ao ler o jornal do bairro, vi uma nota de uma professora de violão, cujo endereço era na mesma rua onde eu morava muito perto mesmo do meu prédio. Telefonei e em seguida, fui ao apartamento de Alice, a professora.
Tempos depois, ela contou que ao me ver pensou: ¿O que essa louca mulher quer fazer com um violão? Ela está com as articulações comprometidas não tem condição de fazer aula de instrumento algum"
Mas eu, louca mulher, sabia o que queria.
Estabelecemos a partir daquele momento, professora e aluna uma conivência por meio de encontros em que o bate-papo animado e a cantoria eram muito mais intensos do que o meu frágil e raro dedilhar das cordas do violão.
Então, passei a conhecer a trindade avó-mãe-filha.Moravam juntas, personalidades muito diferentes e muito interessantes. Convivi com essas pessoas durante alguns anos. A avó gostava de conversar sobre história dos povos: a mãe, a professora de violão, tinha a música acompanhando seu passado e o presente. A filha-neta, ativa, loquaz, interessava-se por política e atualidades. Portadora da doença de Parkinson ainda jovem, não perdeu o entusiasmo pela vida. Além de procurar diversos atendimentos médicos e cuidar-se muito bem, dedicava-se a militância no associativismo dos portadores do seu problema de saúde.
Ficamos amigas, a trindade e eu. Anos depois, mudei de apartamento e de bairro. Mas, até hoje, de vez em quando, nos comunicamos, com afeto, pelo telefone ou pelo correio.
E o violão? Bem, o violão...
Sobre a Autora: Beatriz Monfré (ou Tia Beatriz para os íntimos) é minha tia e uma pessoa muito querida.
Noites sem Luar
Ana Flávia
Há muito, muito tempo atrás... Quando o Brasil não era nem Brasil e os escravos eram a mão-de-obra responsável por gerar riqueza... Um dia, a longa travessia do Atlântico trouxe Tobias, um negro escuro como uma noite sem luar, chegou por essas terras para trabalhar na lavoura da cana.
O cativeiro na fazenda não conseguia apagar todo o brilho no olhar de Tobias. Principalmente à noite, quando ao conversar com sua amiga Lua, permitia-se relembrar a saudosa África de onde fora arrancado.
Muitas vezes as longas conversas o deixavam cansado e pouco produtivo. E tinha que suportar o açoite do feitor. Durante muito tempo a amiga Lua o ajudou a suportar o corpo machucado velando Tobias durante o sono. Contudo, angústia e a dor da privação da liberdade eram cada vez maiores e um dia resolveu que fugiria.
O plano foi tomando forma. A amiga Lua participava ativamente de todo o movimento de insurreição e sua ajuda foi indispensável ao indicar o caminho seguro a seguir. Algumas noites, ela apontava para direita outra para esquerda como uma seta.
E Tobias nunca duvidou do quanto sua fiel amiga era capaz de lhe ajudar. A fuga deu certo e apesar da diligente procura do capitão-do-mato e seus subordinados, o escravo fujão não era encontrado.
O que fazia a Lua sorrir ainda mais redonda e bela pela satisfação de estar ajudando seu amigo.
Todavia, a correria constante em busca de pouso seguro fez Tobias descuidar da saúde. E adoeceu. Não podia ficar parado em um só lugar esperando se restabelecer e correr o risco de ser encontrado.
Infelizmente, Tobias morreu. Contam que as estrelas são lágrimas da amiga Lua quando soube da morte do amigo negro como a noite. E para homenageá-lo, durante 7 dias, ela não aparece no céu para que este fique escuro como a pele de Tobias.
Vocês chamam isso de Lua Nova.
O ser humano sempre procurou explicar as coisas. Vale a pena acreditar que as verdades são relativas! Na próxima vez que se questionar a respeito de algo, é bom relaxar, ou simplesmente dar asas à imaginação. Nada é tão sério ou definitivo que não possa ser encarado de outra maneira.
Sobre a autora : Ana Flávia é a idealizadora do blog
www.verborragias.blogger.com.br,mora no Rio de Janeiro,escreveu este texto quando tinha 10 anos de idade e ainda por cima fez uma animação em flash com essa história. (Moça mutlifacetada essa...)