Descobrindo novos cronistas...
sobre o blog
Acredito que todos nós um dia na vida já escrevemos um texto que gostaríamos de compartilhar com outras pessoas, mas cadê espaço?

Foi pensando assim que criei o Vamos Cronicar que tem uma meta muito simples: colocar na internet crônicas e contos de escritores envergonhados, anônimos, de primeira viagem e até mesmo daqueles que já sabem bem o ofício...

Para tanto gostaria de pedir a vocês que mandem suas crônicas, contos, poesias que estão aí, guardadinhas na sua mente ou esquecidas numa gaveta, para cá.

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Maria Carolina,criadora do blog
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Terça-feira, Fevereiro 25
A Quadrilha
Carol, a dona do blog


Carolina e Alexandre conheceram-se no colégio, na quarta série. Ela, a gordinha que todos adoravam arreliar e que não tinha um minuto de sossego. Ele, o menino com deficiência física e andar manco que, por onde passava, causava a chamada virada de cabeça coletiva: todo mundo olhava, fato que o deixava desconfortável e aborrecido. Se sentindo um ET mesmo...
Iam convivendo na sala de aula com a indiferença própria da idade.Cumprimentavam-se, trocavam alguns ois no decorrer do dia,mas não se aproximavam demais.Vai saber se um minuto a mais de papo não daria mais munição para as já freqüentes gozações. Só faltava agora serem considerados muito amiguinhos ou ( deus nos livre!) namorados. Melhor evitar enroscos...
Porém, um dia, a professora de música (em sua eterna sabedoria) decidiu que ainda não havia problemas suficientes pra os dois e fez o impensável: anunciou perante toda a classe que eles seriam parceiros de quadrilha na festa junina da escola.
Dor, pânico, medo de ambos os lados: ¿Como vou dançar com ele? Ele não consegue pegar na minha mão direito!!!¿ ¿Ela é tão gorda e desajeitada! vai acabar pisando no meu pé...¿ Não adiantou choro nem vela: obrigados a realizar a tarefa, ensaiavam na quadra principal, toda semana,
rezando intimamente para que o tempo passasse rápido, e tudo aquilo acabasse logo.
Depois de dois meses de calvário mútuo, finalmente o dia chegou: devidamente paramentado vestindo uma calça jeans remendada, gravata, rosto pintado com lápis da mãe pra parecer que tinha barba e de chapéu de palha pra completar, Alexandre chegou cedo e esperou pela chegada da parceira. É, esperou em vão: ela se atrasou, errou a hora do início e lá ficou ele, plantado, lágrimas de ódio e tristeza rolando pelo rosto. A professora ainda conseguiu que ele dançasse com uma outra menina, mas o mal já estava feito: ele se tornara o alvo de pena do colégio e Carolina a mais nova persona non grata do pedaço. Durante algum tempo o clima pesou para ambos e as tentativas de reaproximação não foram muito felizes. Somente quatro anos mais tarde surgiu uma oportunidade para Carol tentar consertar o ¿fora¿ que dera: uma colega de ambos chamada Isadora fez sua festa de 15 anos e, como fora convidada pela aniversariante pra dançar a valsa, Carol correu até o antigo quase parceiro com a proposta de encararem essa juntos. Pouco provável que ele fosse aceitar, mas, contrariando as possibilidades, a resposta foi afirmativa.
Mais uma vez fizeram os preparativos, cada um de seu lado: compra de vestido, de smoking, ensaio geral de valsa com os respectivos pais... claro que, agora, havia uma diferença: além da escolha do par ter sido de livre vontade, ambos estavam confiantes de que nada aconteceria para estragar a festa.
Só que no dia combinado, não é que ela atrasou?
- Eu sabia, eu sabia que ela ia me deixar na mão... pô, de novo! Não acredit...
- Oi, Alê!
- ãã, oi Carol!
- Desculpa ter chegado tarde... a minha visita ao cabeleireiro durou mais do que eu pensava... então, que horas é a valsa?
- Vai ser daqui quinze minutos, vamos?
- Vamos!
Ambos entraram pisando literalmente em ovos no salão: ela, desacostumada com os saltos altos; ele ,de braço dado com ela, morrendo de medo de cair nos degraus que os separavam do centro da arena. A valsa
correu bem, fora uns ocasionais pisões no pé e uns passos tortos.Entre mortos e feridos ambos tinham se salvado. A festa chegara ao fim.
No dia seguinte, encontraram-se sem querer na fatídica quadra de tantos anos atrás. Cumprimentaram-se e começaram a conversar: no início sobre amenidades... falaram sobre a festa, os erros na hora da dança, as roupas e pessoas que viram, o que comeram. Conforme os minutos passavam o papo foi se tornando mais interessante e se viram mergulhados num desabafo mútuo, compartilhando as dificuldades de ser aceito pelas pessoas, a ocorrência de notas baixas, de inúmeros foras levados... Profundamente envolvidos não perceberam que o recreio há muito que acabara e ficaram ali de pé, sozinhos. Finalmente foram despertados pelos gritos da diretora e convocados a voltar a aula. Trocaram um último sorriso e se despediram.
Naquele ano de 1990, Carol e Alê NÃO se tornaram namorados, nem confidentes; não tiveram outra conversa como aquela, nem mesmo saíram pra tomar um sorvete ou coisa parecida. A única coisa que fizeram foi ouvir um ao outro com calma. E isso, naquele dia, fez toda a diferença. Para ambos...

PS : (Nem preciso dizer que a Carol da história sou eu, e que o Alexandre é meu melhor amigo há quase 17 anos... ou preciso?)
Domingo, Fevereiro 23
Oi! Para você que acaba de entrar no página vou fazer as devidas apresentações. Meu nome é Carol e começo hoje a redigir esse blog que tem em mente uma meta muito simples: colocar na internet crônicas e contos de escritores envergonhados, anônimos, de primeira viagem e até mesmo daqueles que já sabem bem o ofício...
Acredito que todos nós, um dia na vida, já escrevemos um texto do qual sentimos orgulho ou que gostaríamos de compartilhar com outras pessoas, mas cadê coragem e cadê espaço?
Foi pensando assim que criei o Vamos Cronicar? um lugar que,espero, seja ponto de partida para conhecimento, diversão e, quem sabe, descoberta de novos talentos.
Para tanto, gostaria de pedir a vocês que mandassem suas crônicas, contos, poesias, que estão aí, guardadinhas na sua mente ou esquecidas numa gaveta, para cá.
Participem!
Obrigada por visitar esse espaço e volte sempre!
Para iniciar bem, começo com um conto do escritor Ataíde Tartari. O Ataíde já um dos escritores que conhecem bem o ofício e que me deu permissão para divulgar esse seu texto.
Inspirem-se!

Nossa Terra, Nosso Século
Ataíde Tartari


António Augusto Ferreira tinha três aninhos quando viveu sua primeira passagem de século. Ele não conseguiu perceber nada de especial na data, claro, mesmo porque vivia numa área rural. A agitada Coimbra estava próxima, mas sua família não era chegada a badalações urbanas, coisas modernas que não compreendia. A vida era como sempre fora, como sempre iria ser. O que poderia mudar com o novo século?

Ele já era um garoto quando as novidades do século 20 começaram a chegar. Pela boca dos viajantes, descobriu que longe do campos de arroz havia uma atividade quase mítica chamada comércio. Mais sedutor ainda era o comércio no Brasil. Disseram-lhe que era aqui que as coisas estavam acontecendo. Depois de tanto insistir, conseguiu autorização da mãe para viajar sozinho. Dois meses após o naufrágio do Titanic, o transatlântico Líger o trazia com segurança a Santos.

Da estação ferroviária da São Paulo Railway, no Brás, até a casa de madrinha Mariana, na Rua Santa Cruz da Figueira, foi uma caminhada de sete quadras. A São Paulo de 1912 lhe parecia maior que Coimbra, o que aos poucos confirmou pedalando a bicicleta da Casa Andrade Rabelo, firma da Rua Domingos Paiva onde trabalhou. De qualquer modo, sua nova vida não o afastava muito da região central. Depois do trabalho, seu happy hour era no teatro. Na platéia ou na claque, lá estava ele toda noite vendo as peças de revista no teatro Apolo da Praça da Sé, ou no Santana da Rua Boa Vista, ou ainda no teatro-cassino Antártica do Vale do Anhangabaú.

Em 1918 o que ele viu foi o pânico na cidade. A gripe espanhola partiu tão rápido quanto chegou, mas foi tão fulminante que carroças percorriam as ruas recolhendo corpos. Ele ouvia todo tipo de recomendação para escapar da epidemia; das que faziam algum sentido às mais estapafúrdias. Tomar bastante canja era a única recomendação que ele seguia, mas mesmo assim a doença o pegou. Talvez influenciado pela antiga crença médica na sangria, ele atribui sua cura a um sangramento intenso pelo nariz. O que quer que o tenha curado, serviu de vacina contra toda e qualquer gripe desde então.

Seu vínculo com a cidade continuou crescendo ao longo do século. Sempre que passava de bicicleta ou bonde pela Rua Maria Antonia admirava o movimento no Mackenzie. Anos depois, transferiu seu mackenzismo à família formando todos os filhos naquela escola. Já sua paixão pelo futebol começou no Paulistano, time do qual assistia a quase todos os treinos e jogos. Talvez por isso, sócio-fundador da Portuguesa, acabou torcendo para o São Paulo Futebol Clube. Uma questão de paulistanismo, segundo alega.

Para ele, dentre as novidades que nunca param de chegar a esta cidade, as mais interessantes sempre foram as dos meios de transporte. Para quem conheceu ruas forradas de estrume malcheiroso e bondes que não passavam de 10 km/h, o metrô foi a inovação do século. Ele o usou enquanto pôde.

Agora, aos 103 anos, meu avô está entrando em seu terceiro século ¿ um deles, ao menos, experimentado por inteiro. Uma pena que seja tarde para fazer dele um internauta. Pois iria adorar.