A Quadrilha
Carol, a dona do blog
Carolina e Alexandre conheceram-se no colégio, na quarta série. Ela, a gordinha que todos adoravam arreliar e que não tinha um minuto de sossego. Ele, o menino com deficiência física e andar manco que, por onde passava, causava a chamada virada de cabeça coletiva: todo mundo olhava, fato que o deixava desconfortável e aborrecido. Se sentindo um ET mesmo...
Iam convivendo na sala de aula com a indiferença própria da idade.Cumprimentavam-se, trocavam alguns ois no decorrer do dia,mas não se aproximavam demais.Vai saber se um minuto a mais de papo não daria mais munição para as já freqüentes gozações. Só faltava agora serem considerados muito amiguinhos ou ( deus nos livre!) namorados. Melhor evitar enroscos...
Porém, um dia, a professora de música (em sua eterna sabedoria) decidiu que ainda não havia problemas suficientes pra os dois e fez o impensável: anunciou perante toda a classe que eles seriam parceiros de quadrilha na festa junina da escola.
Dor, pânico, medo de ambos os lados: ¿Como vou dançar com ele? Ele não consegue pegar na minha mão direito!!!¿ ¿Ela é tão gorda e desajeitada! vai acabar pisando no meu pé...¿ Não adiantou choro nem vela: obrigados a realizar a tarefa, ensaiavam na quadra principal, toda semana,
rezando intimamente para que o tempo passasse rápido, e tudo aquilo acabasse logo.
Depois de dois meses de calvário mútuo, finalmente o dia chegou: devidamente paramentado vestindo uma calça jeans remendada, gravata, rosto pintado com lápis da mãe pra parecer que tinha barba e de chapéu de palha pra completar, Alexandre chegou cedo e esperou pela chegada da parceira. É, esperou em vão: ela se atrasou, errou a hora do início e lá ficou ele, plantado, lágrimas de ódio e tristeza rolando pelo rosto. A professora ainda conseguiu que ele dançasse com uma outra menina, mas o mal já estava feito: ele se tornara o alvo de pena do colégio e Carolina a mais nova persona non grata do pedaço. Durante algum tempo o clima pesou para ambos e as tentativas de reaproximação não foram muito felizes. Somente quatro anos mais tarde surgiu uma oportunidade para Carol tentar consertar o ¿fora¿ que dera: uma colega de ambos chamada Isadora fez sua festa de 15 anos e, como fora convidada pela aniversariante pra dançar a valsa, Carol correu até o antigo quase parceiro com a proposta de encararem essa juntos. Pouco provável que ele fosse aceitar, mas, contrariando as possibilidades, a resposta foi afirmativa.
Mais uma vez fizeram os preparativos, cada um de seu lado: compra de vestido, de smoking, ensaio geral de valsa com os respectivos pais... claro que, agora, havia uma diferença: além da escolha do par ter sido de livre vontade, ambos estavam confiantes de que nada aconteceria para estragar a festa.
Só que no dia combinado, não é que ela atrasou?
- Eu sabia, eu sabia que ela ia me deixar na mão... pô, de novo! Não acredit...
- Oi, Alê!
- ãã, oi Carol!
- Desculpa ter chegado tarde... a minha visita ao cabeleireiro durou mais do que eu pensava... então, que horas é a valsa?
- Vai ser daqui quinze minutos, vamos?
- Vamos!
Ambos entraram pisando literalmente em ovos no salão: ela, desacostumada com os saltos altos; ele ,de braço dado com ela, morrendo de medo de cair nos degraus que os separavam do centro da arena. A valsa
correu bem, fora uns ocasionais pisões no pé e uns passos tortos.Entre mortos e feridos ambos tinham se salvado. A festa chegara ao fim.
No dia seguinte, encontraram-se sem querer na fatídica quadra de tantos anos atrás. Cumprimentaram-se e começaram a conversar: no início sobre amenidades... falaram sobre a festa, os erros na hora da dança, as roupas e pessoas que viram, o que comeram. Conforme os minutos passavam o papo foi se tornando mais interessante e se viram mergulhados num desabafo mútuo, compartilhando as dificuldades de ser aceito pelas pessoas, a ocorrência de notas baixas, de inúmeros foras levados... Profundamente envolvidos não perceberam que o recreio há muito que acabara e ficaram ali de pé, sozinhos. Finalmente foram despertados pelos gritos da diretora e convocados a voltar a aula. Trocaram um último sorriso e se despediram.
Naquele ano de 1990, Carol e Alê NÃO se tornaram namorados, nem confidentes; não tiveram outra conversa como aquela, nem mesmo saíram pra tomar um sorvete ou coisa parecida. A única coisa que fizeram foi ouvir um ao outro com calma. E isso, naquele dia, fez toda a diferença. Para ambos...
PS : (Nem preciso dizer que a Carol da história sou eu, e que o Alexandre é meu melhor amigo há quase 17 anos... ou preciso?)
