Descobrindo novos cronistas...
sobre o blog
Acredito que todos nós um dia na vida já escrevemos um texto que gostaríamos de compartilhar com outras pessoas, mas cadê espaço?

Foi pensando assim que criei o Vamos Cronicar que tem uma meta muito simples: colocar na internet crônicas e contos de escritores envergonhados, anônimos, de primeira viagem e até mesmo daqueles que já sabem bem o ofício...

Para tanto gostaria de pedir a vocês que mandem suas crônicas, contos, poesias que estão aí, guardadinhas na sua mente ou esquecidas numa gaveta, para cá.

Participe e obrigada por visitar esse espaço!
Volte sempre!

Maria Carolina,criadora do blog
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Sexta-feira, Maio 2
Alexandres da minha vida
Maria Carolina Marzagão Jimenez

Acabo de perceber que, num milagre da multiplicação das tretas, eu tenho nada mais nada menos que 10 Alexandres na minha lista de contatos do MSN. 10! Haja Alexandre. Ainda bem.
Com todos eles eu tenho uma história diferente, seja porque é meu amigo desde o primário, ou porque conheci via net e se tornou confidente, seja porque era amigo do amigo do amigo ou um conhecido que se tornou algo mais ou não. Não importa.
Tenho Alexandres orientais,ocidentais,administradores de empresa,engenheiros, jornalistas, escritores.
Tenho Alexandres altos, baixos, magrinhos, gordinhos, morenos e loiros.
Tenho Alexandres falantes e calados.
Tenho Alexandres amigos, amantes, irmãos.
Tenho Alexandres meigos, ácidos, pacificadores e arrumadores de encrenca.
Tenho Alexandres que são Alê, Conê, Alex, Ina e só Lê.
Tenho Alexandres que já tive nos braços, outros que já tive no colo, outros que me cederam o ombro, os ouvidos, a cabeça.
Tenho Alexandres com quem falo todos os dias, Alexandres que estão longe e Alexandres que estão perto.
Tenho Alexandres de 33, de 37, de 40 e de 20 anos.
Tenho Alexandres de horas boas e de horas ruins.
Tenho Alexandres que tenho medo de procurar porque não sei o que dizer e Alexandres que eu não preciso dizer nada.
Tenho Alexandres sedutores, simpáticos, normais e malucos.
Tenho Alexandres que gostam de rock, de MPB, de música clássica e de jazz.
Tenho Alexandres baladeiros e caseiros.
Tenho Alexandres que amam carros, motos, livros e circo.
Tenho Alexandres que me amam como sou, Alexandres que querem me mudar, Alexandres que me intrigam, Alexandres que me fazem rir, Alexandres que me fazem refletir.
Tenho Alexandres nos quais eu não consigo parar de pensar e outros que eu faço um esforço pra esquecer.
Tenho Alexandres que sabem tudo de mim e Alexandres que pensam que sabem.
Mas uma coisa é certa: TODOS os meus Alexandres deixaram marcas indeléveis no meu corpo, na minha alma e na minha vida. Por isso são todos muito amados e lembrados sempre com carinho.
Um beijo a todos os meus Alês.

Quinta-feira, Janeiro 3
Padre Chico
Cristiano da Silva

A vida é um caminho que ao percorrermos encontramos sonhos e desilusões, paixões e amores, amor e ódio. Mesmo com tantas atrações no caminho, a caminhada pela vida seria vã se nela não houvessem pessoas.

Dentre tantas situações que passei, nas mais belas e nas mais tristes sempre haviam outras pessoas envolvidas.

Lembro-me que quando eu era um garoto, que buscava me espelhar nas pessoas adultas para seguir seus exemplos, construí na mente vários heróis. Heróis não como aqueles da TV, mas heróis de verdade.

Ao crescer, percebi que os heróis que eu havia imaginado são, assim como eu, limitados. Porém suas limitações os tornam ainda mais heróis.

Senti necessidade de escrever as linhas anteriores para poder citar um homem que, quando olho minha vida, não há como deixar de perceber a importância dele para minha formação.

Seu nome?
Francisco Cavazzuti, ou como prefiro chamá-lo, Padre Chico.

Lembro-me a festa que meus irmãos e eu fazíamos sempre ao encontrá-lo.

Sempre sorridente e com uma paciência cativante, ele nos envolvia e dava-nos o sentimento de liberdade e responsabilidade que nós ainda crianças não entendíamos.

Sempre nos agradando com doces, presentes, ou com o que ele tinha de melhor a oferecer, as palavras carinhosas, que mesmo quando eram um "puxão de orelha", como ele gostava de dizer, eram agradáveis.

Não há como esquecer o dia em que minha irmã mais nova nasceu e o Padre Chico, dentro do hospital, olhou pra mim com um sorriso belo e me perguntou com seu sotaque italiano:

- Como ela vai se chamar?

Mesmo que o mundo fosse contra, eu senti que o direito de escolher o nome de minha irmã tinha sido dado a mim e eu não o deixaria escapar, e após alguns segundos de reflexão falei com ar de razão:

- Carolina!

Mesmo sendo um homem que às crianças transmitia no sorriso a doçura do mel, Padre Francisco destilava o fel contra os que praticavam a injustiça. Discursava a favor dos pobres, dos oprimidos e isso fez com que homens poderosos o vissem como inimigo.

Tentaram tirar-lhe a vida, mas não conseguiram, só que roubaram-lhe a visão.

Eu ainda era um garoto, com apenas quatro ou cinco anos, porém lembro-me bem do dia em que ele voltou à casa paroquial de Sanclerlândia após o atentado. Era uma multidão que estava ali para recebê-lo, mostrando assim que ele era amado.

Sempre me sentia orgulhoso de estar perto do Padre Chico, de conduzi-lo até minha casa para que ele pudesse comer das pamonhas que minha mãe fazia.

Fui crescendo, aprendendo mais sobre a vida, porém lá estava o Padre Chico me aconselhando, me confortando em horas difíceis.

Sempre que eu ou minha família precisávamos de um conselho ou até mesmo de ajuda financeira, Padre Chico estava disposto a nos ajudar.

Muitos anos se passaram e hoje já não sou mais criança, porém pude contemplar seu sorriso ao brincar com meus primos pequenos, e posso dizer sem medo de errar que a doçura e a ternura de seu rosto ao sorrir permanecem.

Ainda tenho orgulho de dizer que sou amigo do Padre Chico, ainda sinto-me feliz ao ouvir sua voz com o belo sotaque italiano.

Logo após minha formatura, ao ler para ele minha oratória da colação de grau, me senti muito feliz quando ele me parabenizou dizendo que tinha ficado muito boa.

E de tantos aprendizados que obtive com este homem, posso dizer que meu caráter hoje é parte do que dele recebi.

Com o Padre Chico conheci a Deus, conheci as palavras de Jesus.

Ainda que hoje minha fé seja um pouco diferente da que ele me ensinou, não posso negar que a semente desta fé foi plantada e regada pelas mãos deste semeador.

Em meus vários momentos de reflexão, começo a perder a esperança nos homens, mas Deus em sua infinita misericórdia remete meus pensamentos à pessoa, ao sacerdote, ao homem Francisco Cavazzutti e assim meu coração se enche novamente desta esperança, pois vejo um exemplo de honra, dignidade, amor, fé, vitória...

Pra encerrar estas palavras, que espero, transmitam minha admiração e gratidão, citarei alguns versículos bíblicos:

Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão saciados. Mt. 5,6.

Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará; Direi do Senhor: Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza e nele eu confio. Sl. 91,1-2.

E para finalizar, peço licença ao Pai e repito ao Padre Chico as bênçãos Apostólicas:

O Senhor te abençoe e te guarde; o Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti e te conceda graça; o Senhor volte para ti o seu rosto e te dê paz. (Números 6.24-26)
Quarta-feira, Outubro 31
Metamorfose
Maria Carolina Gesuele
Foi numa daquelas épocas de férias, que a gente passa o mês inteiro na casa da avó e faz uma porção de descobertas...Foi naquele mês que descobri, em meio a cheiro de bolo no forno e fruta colhida no pé, que eu finalmente estava virando “mocinha”.
Descobri que minha avó já não dormia mais na mesma cama com o meu avô.Descobri que aquele cheiro amargo que eu sentia quando sentava no colo dele, era de um talco de enxofre que ele passava após o banho.Descobri que minha avó nunca suportou aquele cheiro, mas mesmo assim, ele continuava usando.
Descobri um casulo grudado na maior árvore do quintal e todas as tardes, quando o sol estava se pondo, eu deitava no chão e perdia a noção do tempo observando aquela metamorfose.
Descobri porque aquela minha tia solteirona, que nunca fez questão de sair da casa dos meus avós, não saia da casa da vizinha, também solteirona.
Descobri que era do coentro aquele gosto estranho que eu sentia quando comia o peixe que vovó fazia.Mas mesmo assim eu continuava comendo, para não deixa-la triste.
Descobri que, todas as noites, quando minha avó pegava o terço e ia deitar, na verdade não passava a noite inteira rezando como eu imaginava.Na primeira “Ave Maria” ela caia no sono.E na manhã seguinte ainda dizia: “Não dormi nada essa noite!”.
Descobri que meu avô, proibido de comer sal por causa da pressão alta, tinha um queijo escondido em seu guarda roupa e ainda tomava uma pinguinha na mercearia do seu João Almeida.
Descobri que minha mãe foi apaixonada pelo careca do supermercado, mas a Rosângela, sua melhor amiga, acabou se casando com ele.
Descobri que era uma delícia tomar uns bons goles de vinho tinto e sentir aquele calor gostoso pelo corpo.
Descobri que, com todos os defeitos e qualidades, eu amava meus avós mais do que nunca.
E naquela tarde, quando finalmente a borboleta saiu do casulo, descobri que minha calcinha estava suja de sangue.
Sexta-feira, Agosto 31
ÁGUAS SUBTERRÂNEAS.
Mary Farias


E se eu te dissesse que esqueci desse mar aberto de dentro de mim? Que só olho pra fora, pras coisas? Que desaprendi irreversivelmente a gostar da solidão? Que eu não me basto? Que nadei pra terra, não quis mais me afogar? Que eu me viciei no auto-boicote, que eu não sei parar, nunca? Que eu só preciso de uma, veja bem, só uma grande idéia? E que talvez ela nem precise ser grande, mas que seja dessas que ninguém ainda teve, sabe? Eu quero uma idéia que ainda não é idéia, ainda não é nada.

E se eu te perguntasse por que meu mar fica cada vez maior toda vez que vejo essa gente? E por que quase todo mundo não passa de lago pequeno e cheio de lodo por dentro? Às vezes até por fora, olhando bem, consigo ver um pouco de lama em seus olhos. Eu vejo tanta lama no mundo.

E o que preenche um mar, sabe me dizer? O que vence a pressão e chega bem lá no fundo? Quem tem fôlego pra mergulhar assim? Pra onde é que foram os submarinos? Cadê as coisas à prova d’água? E as pessoas? Cadê a água? Só vejo o lodo saindo dos olhos e das garras.

E se eu te contasse que nada sei de rios, mares e lagos? Que o lodo é exterior, mas é o que mais compreendo? Que de compreender tanto tenho medo que se torne algo de mim? Que eu não sei o que fazer, vezenquando, com tanta água? Que às vezes quase mato afogado quem não pediu uma gota sequer? Que essa água me escapa, em muitas e muitas horas, e escorrega pelos olhos sem parar? Já transbordei tanto...

E se te confessasse que tenho este mar em mim desde sempre e ainda não aprendi a navegar?
Terça-feira, Agosto 21
Narciso e As Chamas
Mary Farias

Veja só que belo fim: ele matou todas as letras que havia dentro e fora de si. Não era um poeta maldito, um beat ou um advogado. Era bibliotecário. O ritmo das letras e de quem as escrevia era seu trabalho, e, com o passar do tempo –e o desespero que este lhe trouxe – tornou-se sua vida, alma ou coisa que o valha. No desenrolar dos anos foi esquecendo pedacinhos de si mesmo pelas estantes, livros e revistas do velho sebo em que trabalhava. O lugar? Mais um desses que permeia no imaginário coletivo – antiguíssimo, num nível de poeira considerável, todo de madeira. Só que um pouco mais frio, e sem o cheirinho de casa-da-avó.
Não era pontual, não usava óculos e educação demonstrava apenas com os clientes – sua fonte de renda. Este era Narciso, que de amor-próprio só tinha o nome. Certa vez, em uma de suas cartas a si mesmo – teimava em não chamá-las de diário -, confessou que se um gênio da lâmpada, Deus ou qualquer entidade lhe concedesse um único desejo, pediria: “quero que seja extinta a raça humana”. Um niilista de marca maior. Mas tinha sonhos, esse Narciso. O tempo todo. E neles perambulavam personagens e seres cinematográficos. Era melhor amigo de Mrs Dalloway, duende de Jareth, seguidor de Zaratustra. Não queria gente comum, conversas sobre o tempo, diálogos mornos. Queria a efervescência das revoltas na Capital francesa, a paixão Shakesperiana e as mulheres de Balzac. Queria fazer e desfazer seu caminho com lápis e borracha, apenas. Queria a facilidade e o dom de poder apagar as coisas. Viver em linhas.
Leu todas as obras das quais teve conhecimento, infatigavelmente, procurando por um sentido ou ordem de qualquer coisa que lhe fizesse respirar. A rotina era um afronto à realidade em que ia penetrando mais e mais, a cada dia, a cada frase degustada. E a falta do não-saber trouxe consigo o fantasmagórico clichê do vazio, que se antes era motivo de fuga, agora lhe era essência, prazer. Há muito tinha transpassado a ponte de oscilação entre a felicidade da ignorância e o mórbido prazer do conhecimento. O poço esqueceu-se de seu fundo. Narciso estava em queda contínua.
Então, no dia em que até o carteiro esqueceu de seu endereço, Narciso cansou-se de procurar e cair. Só seria síntese se fosse um mártir... ou um burro. Mas havia tantas palavras dentro dele que nem os deuses o fariam “emburrecer”. E foi aí que teve de matá-las. Ou dar a nova vida que só o fogo traz. Um ou dois galões eram o suficiente para queimar o vazio.
Foi até o único lugar do mundo que era realmente seu – mais seu que suas próprias entranhas - e fez um círculo mágico, bem como nos filmes. Mas não era um círculo de bruxas e não colocou nenhuma pomba ou galinha morta. Ao invés disso, jogou ali seus santos e demônios, que o guiaram pela sua anônima existência: os livros. Mais perto dele estavam apenas os mais sagrados, que lhe causaram maior dor e prazer. O resto estava devidamente arrumado na estante, na atmosfera de ordem que nunca foi presente em sua vida – mas agora, no quase-fim, era. Espalhar a gasolina não foi exatamente um ritual, não trouxe medo nem angústia nem euforia. Era como escovar os dentes ou deitar na maca de cirurgia. Depois, com gestos mais formais, foi chegando ao centro do círculo, o centro do fim, onde tudo ia queimar com vida e sangue, onde todas as grandes palavras e os grandes gênios iriam fluir junto a ele. Milhares de vidas emergiriam em chamas.
Não houve corpos, houve idéias. E este era o fim: a essência.
Sexta-feira, Agosto 10
Luz dos holofotes.
Daiane Sales

O céu alaranjado demonstrava que mais um dia estava indo embora. Hora de ir pra casa. Há quem pense dessa forma quando o cenário é a praia do Porto da Barra? Impossível. O vento gelado parecia não fazer diferença para o casal que se beijava abraçados naquelas águas cristalinas.
Na areia, o sangue dos atletas parecia borbulhar. O vôlei da noite movimentava cortadas empolgantes. Eram homens de todas as idades. Os gritos de vitória a cada bola no chão adversário faziam olhares curiosos permanecerem alheios ao que acontecia ao redor.
O casal das águas também não perdia alguns lances. Apenas alguns. Por que nem os gritos foram capazes de atrapalhar aquele encanto, aquele feitiço que os unia. Num deslize dele, ela escapa; como se o quisesse manipular. Nesta brincadeira de “pega-pega” das nadadeiras, os braços são mais ágeis. Ele a agarra, já na areia. Em meio a sorrisos ofegantes.
As ondas só os alcançam da cintura para baixo, como se quisessem fazer parte daquele momento único. Olhares se cruzam, agora sérios, e o beijo mais ardente de todos surge, à luz dos holofotes.
Sexta-feira, Julho 20
Priscila foi, sem dúvida, minha melhor amiga. Mulher exuberante,inteligente, dona de um sorriso lindo e de uma personalidade fascinante, colega no curso de Direito na Universidade Mackenzie, desde sempre ela brilhou: tudo o que conquistou foi por esforço próprio, o primeiro estágio, as vitórias no emprego, as viagens para o exterior, o corpo magro que ela fazia o diabo pra manter. Nada na vida da Pri veio de graça. Nada.
Nos últimos tempos ela cogitava entrar numa nova fase de vida: ser mãe. Não imagino mulher melhor pra ter um filho, pra assumir a responsabilidade de trazer ao mundo uma vida nova que seria tão batalhadora quanto ela.
Priscila faleceu aos 31 anos vítima do acidente com o avião da TAM. Perdi minha querida "sheila amiga" como gostava de a chamar. Nesse momento todas as lembranças afloram a mente a noite de nossa formatura, os intermináveis telefonemas, os aniversários que não pudemos mutuamente comparecer porque não tínhamos tempo pra nada, seguidos dos recados no celular: " você não me ama mais!" dizia às gargalhadas e, na seqüência, no momento em que lhe dizia o mesmo, a resposta automática: " I still loving you baby!"
Pri, eu vou sentir muito sua falta. Já estou sentindo.
Segunda-feira, Junho 25
Linha 141
Murilo Alves

Imersos em um cenário tipicamente urbano, lá estão, no ônibus 141 a funcionária pública Camila Shezab, 35 anos e o estudante universitário Alexandre Santiago, 18 anos.

- Posso segurar a sua mochila?

- Obrigado, senhora.

- Senhora nada, rapaz! Senhora está no céu (risos).

- Me desculpe. É só por uma questão de respeito. Você é bem nova, até...

- ¿Bem nova¿ já soa como gentileza. Digamos que eu tenha idade para ser sua... Vamos ver... Ah, sim, irmã mais velha! Idade para ser sua irmã mais velha, concorda? Qual é o seu nome?

- Alexandre. E o da senhora?

- Você é muito engraçadinho seu Alexandre. Mais uma dessas e eu te devolvo a mochila e te deixo no sufoco aí em pé, nesse ônibus lotado.

- Foi mal. Apenas para descontrair o ambiente. Não faça essa covardia comigo. Não fosse a sua boa educação e eu estaria sendo atropelado aqui pelas pessoas até agora. Odeio ônibus lotado. Todo dia é isso! Ele vem assim, parecendo uma lata de sardinha porque antes de passar na faculdade onde estudo há ainda o ponto de ônibus da Universidade Federal, onde dezenas de estudantes tão fudidos quanto eu dependem deste transporte, pois não tem carro. Desculpe, mais uma vez. Esqueci de perguntar o teu nome...

- Camila. Muito prazer. Se é que pode haver prazer numa viagem de ônibus oceânica como essa. Você estuda o quê, Alexandre?

- Rádio e TV.

- Ah, sim, jornalismo. Belo curso.

- Não, não, Camila. Não é jornalismo não. É Rádio e TV mesmo. Há uma graduação específica para essa área, assim como para o jornalismo também. Ambos têm aspectos semelhantes, mas são cursos diferentes. Entende? E você, estuda?

- Infelizmente não. A maior besteira de minha vida é justamente o fato de eu ter parado com os estudos. Eu apenas trabalho. Quer dizer, graças a Deus que trabalho... Tanta gente que nem isso tem, não é mesmo?

- É verdade. Caramba! Já estamos no bairro Bela Vista. Passa rápido quando se tem alguém para conversar. Mas me diga: por que parou com os estudos?

- Eu me casei. Sabe como é né?

- Sei não. Eu nunca casei (risos)! Também não entendo o que o casamento tem a ver com os estudos.

- Nada. Nada quando você não tem um marido ou uma esposa ciumenta... Ele se morde de ciúmes, diz que não passa de pretexto para conhecer outros homens, que não tenho mais idade, enfim.

- Mas esse é um pensamento arcaico, do século passado. Você casou com o Matusalém?

- Quase isso... Mas vamos mudar de assunto. Você deve ser rodeado de gatinhas. Certamente. Jovem, bonitão, jeitinho de intelectual...

- Que nada. Quem me dera. Eu trabalho muito, quase não tenho tempo para sair, me divertir. Ademais, as meninas de minha faixa etária costumam pensar e agir muito diferente de mim. São de uma vulgaridade só. Muita bunda (não que eu não goste...) e pouco cérebro. Eu acredito que é preciso muito mais. Não quero me envolver apenas com uma bunda gigante como as do Big Brother. Quando acontecer, eu espero que seja com uma mulher de verdade.

- Hum... Vejo que você tem pensamentos bem maduros para alguém de sua idade, Alexandre.

- Obrigado. Mas essa questão de idade é muito relativa.

- Como assim?

- Repare. Uma pessoa pode ter 50 anos, mas pouca vivência. O cara pode ser um imbecil, um panacão, um verdadeiro idiota. Assim como alguém com 17 ou 20 anos, sei lá, já pode ter vivido situações que outra pessoa de mais idade não viverá em toda a vida. É nesse ponto que eu quero chegar.

- Sabe que você pode estar com a razão? Confesso que eu ainda não havia pensado nisso.

- Bem, Camila, a conversa tá boa, mas eu moro em Stela Maris e ainda temos 25 minutos de viagem. Estou morto de sono. Você se importa se eu tentar dormir um pouquinho.


- Claro que não. Pode se encostar aí, rapazinho maduro...

Muita conversa jogada fora e três pontos de ônibus depois, Alexandre consegue um lugar para sentar, ao lado de Camila. Ele aproveita para cochilar, conseqüência de mais um dia árduo da rotina de estágio/faculdade. Camila, por sua vez, reflete sobre alguns trechos da conversa que acabara de ter, além de observar o jovem em seu forçado ressonar, tudo muito discretamente, porque ela é casada, a aliança dourada ainda brilha no dedo e algumas pessoas do coletivo a conhecem. Ela mora no Jardim Intersul e o ponto de ônibus do seu destino já está à vista. Ela desce.

Ao chegar a casa, caindo de cansaço e com mais sono ainda do que antes do cochilo no coletivo, Alexandre vai trocar de roupa antes de jantar e tomar banho, a fim de se preparar para a luta do dia seguinte. Ao colocar a mão quase que involuntariamente no bolso da camisa pólo encontra um pequeno papel branco, amassado, desconhecido. Após de aberto, o rapaz é tomado de adrenalina e o coração bate acelerado após ler as surpreendentes inscrições:
¿Adorei te conhecer, me liga!¿
8842-3667
coracaosolitario@hotmail.com

Os véus caem.
Terça-feira, Junho 12
Contemplação
José Carlos Brandão

Estou em Ubatuba, na praia do Tenório, dentro d¿água, contemplando o céu, o mar e as montanhas. Não se vê o alto-mar, estou cercado de montanhas por todos os lados; por isso as águas são verdes: as montanhas cobertas de árvores verdes refletem-se nelas. Há uma tal paz, o céu muito azul, as nuvens esparsas muitos brancas, e o vai-e-vem das ondas me levando, me embalando; tudo é um apelo à paz.

Não vejo o mar se encontrando com o céu, mas sei que um e outro são infinitos. Lembro, involuntariamente, juro que foi involuntariamente, lembro Pascal e o silêncio eterno dos espaços infinitos que o aterrorizavam. Estou fascinado por essa grandeza imensurável que chamamos de infinito. Estou maravilhado por esse tempo fora do tempo, esse não-tempo, que chamamos de eterno.

Caio de joelhos, no fundo da água clara, límpida, diante da solidão cósmica ¿ que cai sobre mim. A ciência não encontrou notícia de vida em nenhum planeta, dentre todos os planetas que giram em torno das estrelas. Tenho todo o cosmo sobre os ombros. Não pesa mais que a mão de uma criança ou a mão de Deus, que não têm peso, mas eu sucumbo.

Onde o fim do universo? Seria infinito? Existe um tempo que não pode ser medido, a que chamamos eternidade? Esse seria o tempo de Deus. O tempo dos homens, nós o medimos. Arbitrariamente, mas o medimos. Somente Deus, que não se submete à matéria, está livre da escravidão do tempo. Nós, homens limitados, não podendo conhecer o eterno, pensamos no infinito: parece mais fácil de ser concebido.

Cheguei a falar, acima, do mar como infinito. É a sensação que temos. Faz parte do globo terrestre em que vivemos, é limitado como nós somos limitados. Mas o universo, onde os seus limites? Mais longe vai a imaginação, em busca da última estrela, infinitamente distante, mais perto chega da eternidade. A maior distância que podemos conceber, a ilimitados anos-luz de tudo que podemos medir, só pode se chamar eternidade.

A beleza do mar e do sol, da areia, das águas claras, verdes à distância, com as montanhas verdes dentro, sem que eu o perceba, traz-me à mente a idéia de Deus. A prova de que Deus existe. Se eu posso conceber uma noção de eternidade, tenho que conceber a noção de Deus, senhor dessa eternidade.

Como suporto a solidão cósmica sobre os ombros? A mão de uma criança ou a mão de Deus. O silêncio eterno dos abismos do universo? O espírito de Deus paira sobre os espaços infinitos. A ciência me prova que a última estrela repousa na mão de Deus. Antes da explosão inicial, havia o sopro de Deus.

O meu corpo vai e vem sobre as águas calmas, tão perto da terra e tão perto do céu, leve como uma pluma, leve como o espírito que sopra sobre ele.

Segunda-feira, Junho 4
História de Pescador - Criatividade
Cristiano da Silva


Dois caras, felizes da vida um dia a trabalho fazem uma viagem. Na volta vêem um rio lindo e dizem que um dia pescarão naquele rio. A vontade era tanta que um breve tiveram que voltar na região daquelas águas chamativas (também a trabalho), e quando voltavam pararam lá no rio novamente com o objetivo de pegar nem que fosse o rabo de um peixe, porém da tralha de pescaria os dois "pescadores" só tinham dois anzóis.
Eles poderiam desanimar, desistir, mas nunca... decidiram encontrar soluções e pescarem.
João disse:
- Vamos procurar linha aqui na beira do rio.
Por incrível que pareça, haviam metros e metros de linhas jogadas às margens do rio... agora só faltavam iscas... mas desistir? Nunca!
Enquanto Cazé amarrava a linha no anzol, João pegou um pedaço de pau e vou "cavucar" na beirada do rio almejando encontrar algumas minhocas, mas em vão.
Desistir, nunca... viva pescaria...
Diante do problema exposto, João encontrou uma garrafa pet cortada ao meio, e vendo alguns peixinhos pequenos que ficavam mais às margens do rio, decidiu colocar a metade da garrafa na água, quando um peixinho entrasse, ele o tirava e o fazia de isca.
Isso é criatividade, que funcionou, João conseguiu pegar três peixinhos, mas com estes peixinhos não conseguiu pegar nenhum maior para cortar e fazer de isca.
Enquanto João pescava, ele ria de Cazé que até então não conseguira pegar nenhum pequenino peixe para se deliciar nos prazeres da pescaria.
Até que um milagre aconteceu, Cazé conseguiu pegar a isca tão almejada, mas este quase escapoliu, pulando na meia garrafa e caindo novamente dentro dela... era um sinal divino.
Cazé, com sua falta de habilidades com pescaria iscou o peixinho e jogou o anzol e esperou, até que um peixe de cerca um palmo de tamanho mordeu a isca e vualá, "pego o bichim atrivido".
Agora faltava algo pra cortar o peixe para fazer dele iscas, só que não haviam facas ou coisa parecida.
João procurou algo que pudesse cortar o peixe e nada, então Cazé viu uma garrafa de cerveja jogada às margens do Rio, Cazé então pegou esta garrafa e quebrou-a, fazendo assim dela um objeto cortante, passando a ao João que conseguiu cortar o peixe, porém algo curioso aconteceu antes desse fato. Da boca do peixe saiu um peixinho que também serviria de isca.
Enquanto João cortava o peixe, Cazé pegou o peixinho que estava anteriormente na barriga do "peixão", o iscou e vualá, um piau...
- Cagada... duas cagadas! Gritou João.
A farra ia por aí, mas peixes não eram mais pegos. Até que o anzol de Cazé engarranchou num pau e ele perdeu sua tralha de pesca.
Ao procurar algum anzol que poderia estar jogado em algum lugar, Cazé já desistia quando João disse:
- Tem um espetado naquele saco dentro do rio.
Realmente havia o bendito anzol lá, só que pra pegar sem se sujar era impossível, mas com muita insistência Cazé conseguiu pegar aquele saco com um pau, e dali tirou dois anzóis, uma chumbada e muita linha.
Novamente em atividade de pescaria, sem sucesso a polícia florestal chegou. Em época de piracema se não tiver licença pra pescar, é multa ou cadeia, eles não tinham.
Mas os policiais vendo que eles eram muito amadores até orientaram como pegar uns peixes "talvez para toma-los depois", mas sem sucesso.
Então João e Cazé decidiram ir embora, dar prosseguimento à viagem, já que com a presença da lei ficaria difícil uma pescaria em paz.
Foram rindo durante a viagem toda, afinal, haviam realizado o grande sonho de pescar naquele belo rio.
Quinta-feira, Fevereiro 22
O CORONEL E O CARNAVAL
Murilo Alves

O outrora grande senhor de engenho da região acordara, na manhã daquele sábado de carnaval, um tanto conformado:
- Todo o mês de fevereiro é a mesma zorra! Ocupar o camarote destinado às autoridades do governo, receber bajulações "gratuitas" da mídia local, abraçar e beijar baianas de acarajé, ser homenageado pelos Filhos de Ghandy e ter o saco puxado por Caetano Veloso, enfim, "não muda nada na terra de todos os santos e absurdos", o Senhor do Bonfim me ajude!
Assim, o coronel urbano que veste paletó e gravata em vez de chapéu e botas (sim, pois os tempos são modernos) se prepara para mais um evento fundamental para os intentos de seu objetivo maior: angarinhar apoios diversos do campo artístico a fim de ter os interesses do grupo partidário que representa atendido, no período eleitoral, afinal, a sabedoria popular já nos diz que "é dando que se recebe" e no Brasil, o famoso "toma lá da cá" é questão de prudência e não de vergonha.
O motorista do coronel é acionado pontualmente, assim como ocorre em todos os anos nesse período com o intuito de estar a postos no momento certo de levá-lo ao lugar onde ocupa, com os correligionários, durante décadas. Mas há algo de muito diferente acontecendo no ar. O carro saiu da cobertura luxuosa do bairro da Graça em direção do Campo Grande se alarde algum. Os demais automóveis não abriram espaços vazios na pista quando o perceberam, em sinal de respeito.
Sim, senhores, pois os problemas do coração do coronel parecem ter afetado outra região fundamental para a boa saúde de qualquer ser humano, após anos de truculência e autoritarismo político cá por estas bandas: a memória. Imaginem que ele acaba de chegar defronte ao tal camarote reservado para as autoridades que representam o poder do Estado onde comandou por tanto tempo. O motorista estranha, perplexo:
- Senador!
- É o quê, meu filho?
- Não há nenhum afilhado do senhor naquela cadeira!
- Ôxe! Você está brincando com a minha cara? Esqueceu quem eu sou e com quem está falando, seu motorista de merda?
- Desculpe, painho, não quis ofendê-lo de forma alguma. Mas é que aquele carioca que era sindicalista, aquele amigo do sapo barbudo que o senhor apelidou de "pouco voto", está no local que o senhor ocupava, lá em cima, no camarote das autoridades.
O senador-coronel rebate, (in) conformado:
- Faça meia-volta e retorne a minha casa imediatamente! Nunca gostei da chatice do carnaval mesmo...
Sexta-feira, Dezembro 22
Aeroporto Dois de Julho - Murilo Alves

"Cada aeroporto/é um nome num papel/um novo rosto/atrás de um mesmo véu..." O início da letra de "Solidão, Que Nada", do eterno Cazuza, está inteiramente ligada a questão do Aeroporto Internacional de Salvador, que atualmente leva o nome do deputado Luís Eduardo Magalhães, já falecido, mas que já se chamou Dois de Julho, data símbolo da Independência da Bahia, historicamente negligenciada pelos livros didáticos de História do Brasil que tivemos na escola.

Antes é necessário que se faça uma pequena contextualização, levando-se em consideração os leitores deste espaço na internet que não tiveram a felicidade de nascer na Bahia. Pois bem, vamos a ela. Tudo andava relativamente bem na terra de todos os santos, quando o então senador Antonio Carlos Magalhães propôs a alteração do nome do aeroporto da capital.

Para os que ainda desconhecem Salvador é sempre válido lembrar que familiares de ACM também são homenageados em avenidas, viadutos, escolas e, é claro, no aeroporto também. Reflexos de um regime coronelista que vingou cá na mais inusitada das terras brasileiras durante quatro décadas. Hoje, com a vitória de Jaques Wágner para o governo do Estado, os tempos são outros, o que nos remete a essa velha discussão.

E agora? O aeroporto terá novamente o nome decente e justo de outrora? Escrevo este texto porque ouço constantemente este tipo de pergunta por onde quer que eu esteja, nos dias atuais. Já ouvi a respeito na faculdade, nos lábios do casalzinho apaixonado que conversava ontem nos bancos traseiros do Federação/Ribeira (lotado como sempre), na padaria, enfim.

Gente, em primeiro lugar, vejo uma falta de informação latente nas pessoas ao tratarem deste tema. Primeiramente, por incrível que pareça, ACM não ordenou, simplesmente ao governador baiano daquele contexto, César Borges-PFL que trocasse a denominação do aeroporto internacional da cidade.

Trata-se de um maldito projeto de lei aprovado tanto pela Câmara de deputados como pelo Senado brasileiro naquele período e sancionado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, uma espécie de namorada do velho coronel na época. Lembro que eles brigaram feio e tiveram uma crise conjugal tempos depois...

Mas é evidente a influência direta do "babalorixá" da política baiana em tal caso. Seja na proposta da lei, como nas exigências que deve ter feito aos seus correligionários e simpatizantes ideológicos para que as aceitassem. O que não vem ao caso. Porque o meu objetivo é deixar bem claro que o governador eleito, Jaques Wagner, não é mágico, e que uma nova troca de nome do aeroporto de Salvador não depende exclusivamente de boa vontade.

Dificilmente a data-símbolo do orgulho baiano será incrustrada no prédio onde hoje, está o nome do filho do Senador, que, provavelmente deve ser um admirador do imperador Alexandre, O Grande, vaidoso ao extremo ao ponto de nomear uma série de cidades conquistadas com o próprio nome... Pode ser que ele não tenha lido somente Maquiavel, Napoleão e a trilogia de O Poderoso Chefão, vejamos que temos uma evolução intelectual aí...

Penso que importante realmente, é o fato de que os baianos reconhecem o Dois de Julho como verdadeiro nome do aeroporto. É a data revolucionária marcada pelo sangue e o suor do povo heróico da Bahia que permeia o coração dos soteropolitanos. É o que vale. Ademais, relembremos Cazuza para jamais esquecermos que, de fato, "Cada aeroporto/é um nome no papel..."

O poder deles é limitado. O nosso não.
Quarta-feira, Outubro 18
De luto
Oi gente!
Infelizmente perdi uma mulher que considerava minha mãe e no momento me encontro de luto.
Peço a paciência de vocês que logo voltaremos ao normal, ok?
Grata,
Carol
Inexistência de um ideal
Geraldo Canuto

Falta de objetivo definido, convivência inapropriada e ausência de um ideal provocam desinteresse pelos acontecimentos cotidianos.

Não havendo um objetivo real e definido, a pessoa deixa-se levar pelos amplos, fáceis e incertos caminhos, não se prepara para um crescimento maior. Vê-se num simples e pequeno mundo, naufragando inevitavelmente no intolerante imediatismo.

Em conseqüência disso, a falta de um ideal poda o crescimento sólido. Sem ele, o indivíduo torna-se um ser bruto, estático, inútil. É imprescindível um motivo maior para direcionar a vida em todos os seus aspectos, eliminando obstáculos, modificando rotas, criando esperança, dando sentido à própria existência.

Tudo acontece pela convivência insólita que propicia o desalento, a submissão e a inércia, levando o indivíduo a desacreditar em suas próprias possibilidades de sucesso pessoal, pois os demais se encontram também acéfalos, no mesmo marasmo. Houvesse alguns almejando patamares maiores, os outros tentariam, pelo menos, galgar alguns degraus, evitando assim o parasitismo ímpar de um povo fraco.

Por tudo isso, verifica-se que a tamanha apatia existente leva à mesmice, à mediocridade de um mundo improdutivo e mesquinho. Seria inteligente erguer-se em um novo salto, impulsionando-se para o ápice humano da construção e da realização: os sonhos.


Quinta-feira, Outubro 5
A JUVENTUDE BAIANA É UM MAKING IN OFF DE PORNÔ BRASILEIRO
Murilo Alves

Há um abismo que separa a qualidade dos filmes pornôs norte-americanos dos brasileiros. Assisto a hot pornografia cinematográfica ianque sem piscar os olhos, fascinado pelo dedicado gosto ao trabalho das atrizes do sexo na terra de Bush. Aqui no Brasil, as atrizes pornôs atuam em cena por um prato de comida, pois o desprestígio do nosso Ministério da Cultura em relação ao cinema nacional atinge, de fato, todos os gêneros abordados por essa arte.
Lembro-me dos meus tempos de guri lá no Rio grande do Sul, quando eu não deixava de assistir os programas matinais da Turma da Xuxa e suas paquitas, em especial, a Andréia Sorvetão, que daquelas loiras era a minha preferida. Ocorre que os anos passaram, eu cresci um pouquinho com eles e a Sorvetão também, pois imaginem que nesta última semana quisera o destino que eu tivesse a oportunidade de conferir a minha antiga paixão juvenil, agora ¿mais vivida¿, sendo a protagonista de um filme pornô brasileiro...
Eu confesso que boa parte das cenas era tão hilariante, ao ponto de me levar a fazer dezenas de anotações para futuros textos, que me surgiu em mente fazer uma associação dos making in offs dos filmes pornôs brasileiros com a juventude baiana, da qual hoje faço parte.
Somente aqueles que assistirem os bastidores de tais filmes poderão me entender. É algo de extraordinário a semelhança da desorganização das montagens com as atitudes brandas e submissas das organizações estudantis por aqui.
O coronel urbano ordenou ao ex-governador que trocasse o nome do aeroporto internacional de Salvador ¿ 2 de julho ¿ data símbolo da independência da Bahia, para Luís Eduardo Magalhães, homenagem ao filho que já morreu? Tudo bem, tudo zen, na moral... Resistência quase que nenhuma, protestos desorganizados, muita politicagem no meio, enfim.
Os coordenadores e professores, mestres e doutores em sua maioria, são demitidos das faculdades privadas sem nenhuma justificativa convincente da parte da diretoria das instituições, sendo que profissionais de nível semelhante só são admitidos semanas antes das visitas de reconhecimento dos cursos pelo MEC? Tudo bem, tudo zen, na moral...
Paralisam as aulas por dois dias, se reúnem em assembléias que mais parecem encontros de sindicalistas do ABC paulista, convidam representantes de partidos políticos nas vésperas das eleições, e, assim, os nossos problemas são esquecidos em um canto, como os pênis desconsoláveis do filme da Andréia.
Renato Russo já dissera que ¿até um tempo atrás nós podíamos mudar o mundo, quem roubou nossa coragem?¿, justamente porque acreditava, assim como eu, na força de nossas ações, nas mudanças e nas transformações de pensamentos e atitudes.
Por enquanto, nada mais somos do que um bando numa propaganda de abadas na época do carnaval, ou um making in off de filme pornô brasileiro, embora tenhamos sim, em cada um de nós, a capacidade de nos organizarmos com tesão e alegria, a exemplo dos atores e atrizes dos pornôs norte-americanos, no intuito de amenizarmos as calamidades que nos assolam.
Nada contra a Sorvetão, o Frota, a Cicarelli que seja, ou, ainda, ao jeito festeiro e contemplativo de ser da juventude baiana. Assim, tudo bem, tudo zen, na moral...